O libi

Sandra Brown I


SBADO


PRLOGO

Um grito rasgou o silncio refrigerado do corredor do hotel. Tendo acabado de entrar na sute segundos antes, a camareira saiu trpega do quarto pedindo
socorro, aos prantos, e batendo nas portas dos outros apartamentos ao acaso. Mais tarde o supervisor ia repreendla por aquela reao, mas naquele momento ela realmente
estava tomada pela mais completa histeria. Infelizmente para ela, poucos hspedes estavam em seus apartamentos naquela tarde. A maioria tinha sado para curtir o
charme exclusivo do bairro histrico de Charleston. Mas, finalmente, ela conseguiu chamar a ateno de um hspede, um homem de Michigan que, sofrendo com o calor
ao qual no estava habituado, tinha retornado ao quarto do hotel para tirar um cochilo. Apesar de meio grogue por ter despertado assim de repente, ele imediatamente
concluiu que apenas uma catstrofe gigantesca poderia provocar aquele nvel de pnico que dominava a camareira. Antes mesmo de entender o que ela dizia entre soluos,
ele ligou para a recepo e alertou o pessoal do hotel que havia uma emergncia no ltimo andar. Dois policiais de Charleston, cuja ronda inclua o recm-inaugurado
Charles Towne Plaza, atenderam imediatamente ao chamado. Um guarda da segurana do hotel, todo alvoroado, levou-os  sute do ltimo andar, onde a camareira tinha
entrado para arrumar a cama e descobriu que no seria mais necessrio. O ocupante estava cado no cho da sala da sute, morto. O policial abaixou-se ao lado do
corpo.
        Nossa... est parecendo...
         ele mesmo - disse o companheiro dele, tambm espantado. Isso vai ser o maior escndalo.
Ela chamou sua ateno no minuto em que entrou no pavilho. Mesmo no meio de uma multido de mulheres, quase todas usando mnimas roupas de vero, ela definitivamente
se sobressaa. E, surpreendentemente, estava sozinha. Parou para se familiarizar com o ambiente, seus olhos examinaram por um breve tempo o tablado onde a banda
se apresentava, depois a pista de dana, ento olhou para a disposio casual de cadeiras e mesas em volta. Avistou uma mesa vazia, foi at ela e sentou-se. O pavilho
era redondo, com cerca de trinta metros de dimetro. Apesar de ser uma estrutura aberta, com um telhado cnico de onde pendiam lmpadas brancas de Natal, o teto
inclinado no permitia que o som se espalhasse e a cacofonia era incrvel. O que faltava de talento musical na banda era compensado pelo volume, obviamente convencidos
de que os decibis a mais tornariam as notas erradas menos perceptveis. Mas eles tocavam com um entusiasmo exuberante e tinham presena de palco. Nos teclados e
na guitarra, os msicos pareciam estar arrancando as notas  fora dos seus instrumentos. A barba tranada do que tocava gaita balanava a cada movimento abrupto
que ele fazia com a cabea. Enquanto serrava as cordas com o arco, o violinista danava com uma ginga enrgica, exibindo suas botas amarelas de vaqueiro. O baterista
parecia conhecer apenas um ritmo, mas se concentrava nele com verve. A multido parecia no se importar com o som desarmonioso. E por sinal, Hammond Cross tambm
no. Ironicamente, a barulheira da feira era at confortante. Ele absorvia o barulho - os gritos que vinham da rua principal, assobios dos rapazes adolescentes desordeiros
no alto da roda-gigante, o choro dos bebs cansados, os sinos, apitos e cornetas, a gritaria e as risadas. Ira uma feira municipal no constava da agenda dele naquele
dia. Deviam ter feito alguma publicidade antecipada sobre o evento no jornal local e na televiso, mas ele no tinha tomado conhecimento. Ele chegara  feira a cerca
de meia hora do Centro de Charleston, por acidente. Nunca saberia o que o fez parar ali. No era um grande entusiasta de eventos assim. Seus pais certamente nunca
o levaram a um. Eles evitavam atraes pblicas como aquela a qualquer custo. No era exatamente a tribo deles. No eram pessoas do tipo deles. Normalmente Hammond
teria evitado aquele programa tambm. No por ser esnobe, mas porque trabalhava demais, era egosta com seu tempo de lazer e muito seletivo na maneira de aproveit-lo.
Uma partida de golfe, umas duas horas pescando, um bom filme, um jantar tranquilo num bom restaurante. Mas uma feira municipal? Isso no estaria em evidncia na
lista das suas atividades prazerosas. Mas naquela tarde especificamente, a multido e o barulho o atraram. Se tivesse ficado sozinho no seu canto, ele s pensaria
nos seus problemas. Acabaria ficando abatido, e quem ia querer isso em um dos ltimos fins de semana do vero? Por isso, quando teve de reduzir a velocidade e quase
parar, preso no trfego que se arrastava para o estacionamento provisrio - na verdade um pasto que um fazendeiro empreendedor transformara em estacionamento -,
ele permaneceu na fila com os outros carros, vans e veculos semi-utilitrios. Ele pagou dois dlares para o jovem mascando tabaco que cobrava pelo fazendeiro, e
teve a sorte de encontrar uma vaga para o carro  sombra de uma rvore. Antes de descer, ele tirou o palet e a gravata e arregaou as mangas da camisa. Foi desviando
dos montes de esterco pelo caminho, desejando estar de jeans e botas em vez da cala social e mocassins, mas j sentindo a animao crescer. Ningum ali o conhecia.
No tinha de conversar com ningum, se no quisesse. No tinha de cumprir obrigao nenhuma, no precisava comparecer a reunies, nem responder a telefonemas. Naquele
lugar ele no era um profissional, nem colega de ningum. Nem filho. A tenso, a raiva e o peso da responsabilidade comearam a se desfazer. A sensao de liberdade
era inebriante. O terreno da feira era demarcado por uma corda de plstico cheia de galhardetes multicoloridos que pendiam imveis no calor da tarde. O ar denso
pesava com os aromas torturantes da comida - a menos saudvel possvel. De longe a msica no parecia ruim. Hammond ficou contente de ter parado. Ele precisava daquele
isolamento. Porque, apesar de todas aquelas pessoas que passavam pela roleta, ele se sentia, num sentido bem concreto, isolado. Ser absorvido por uma grande multido
barulhenta subitamente pareceu prefervel a passar uma noite solitria em sua casa de campo, que era seu plano original quando saiu de Charleston. A banda tinha 
tocado duas canes desde que a mulher ruiva sentara do outro lado do pavilho onde ele estava. Hammond continuou olhando para ela e especulando. Provavelmente estava 
 espera de algum, talvez o marido e vrios filhos. Aparentava ter menos idade do que ele, talvez trinta e poucos. Mais ou menos da idade das mes que faziam revezamento 
de transporte dos filhos. Mes de lobinhos. Representantes da associao de pais e mestres. Donas de casa preocupadas com vacinas trplices, ortodontia e com a brancura 
das roupas brancas e com o brilho das coloridas. O que ele sabia sobre essas mulheres tinha aprendido nos comerciais da televiso, mas ela parecia pertencer a esse 
grupo demogrfico generalizado. S que ela parecia estar... nervosa demais. No parecia me de crianas pequenas curtindo alguns minutos de trgua enquanto papai 
levava os filhos para dar uma volta no carrossel. Ela no tinha aquele ar competente e tranquilo das mulheres dos conhecidos dele que eram membros da liga infantil 
e de outros clubes cvicos, que compareciam a almoos s de salada e organizavam festas de aniversrio para os filhos e jantares para os scios do marido e que jogavam 
golfe ou tnis em seus respectivos clubes de campo uma ou duas vezes por semana, entre as aulas de aerbica e os crculos de estudo da Bblia. Ela tambm no tinha 
o corpo macio e acomodado de uma mulher que gerara dois ou trs filhos. Suas formas eram firmes e atlticas. As pernas eram bem-feitas - no, maravilhosas -, musculosas, 
elegantes e bronzeadas, expostas sob uma saia curta e sandlias de salto baixo. A blusa sem mangas tinha um decote cavado, como uma camiseta regata, e um cardig 
combinando estava amarrado ao pescoo com uma volta solta, at que ela o retirasse. A roupa era moderna e chique, um ponto acima da maioria dos shorts e tnis que 
a multido usava. A bolsa, que ela pusera sobre a mesa, s comportava um chaveiro, lenos de papel e possivelmente um batom, mas no chegava nem perto do tamanho 
de uma bolsa de jovem me, cheia de garrafas de gua mineral, lenos umedecidos, guloseimas naturais e equipamento suficiente para sobreviver dias no deserto caso 
surgisse uma situao de emergncia. Hammond tinha mente analtica. Raciocnio dedutivo era seu forte. Por isso ele concluiu, com o que achava ser um grau razovel 
de preciso, que aquela mulher no devia ser me. O que no queria dizer que no fosse casada, ou comprometida de alguma forma,  espera do cara-metade, quem quer 
que fosse e qualquer que fosse a natureza do relacionamento deles. Ela podia ser uma mulher dedicada a uma carreira profissional. Um membro requisitado e influente 
na comunidade empresarial. Uma vendedora bem-sucedida. Uma empresria de bom senso. Uma operadora da Bolsa. Uma analista financeira. Bebericando sua cerveja, que 
j estava morna naquele calor, Hammond continuou a examinar a mulher, muito interessado. Ento, subitamente, ele percebeu que seu olhar era correspondido. Quando 
os olhares dos dois se encontraram, o corao dele deu um pulo, talvez de constrangimento por ter sido flagrado olhando. Mas ele no desviou o olhar. Apesar dos 
danarinos que passavam entre os dois, interrompendo intermitentemente a linha de viso, ambos mantiveram o contato visual por alguns segundos. Ento, ela desistiu 
de repente, como se tambm se sentisse embaraada de t-lo escolhido no meio da multido. Contrariado de ter uma reao to juvenil com algo to insignificante quanto 
o contato visual com algum, Hammond cedeu sua mesa para dois casais que esperavam alguma mesa vagar. Ele abriu caminho no meio das pessoas para chegar ao bar provisrio. 
Tinha sido montado durante a feira para atender aos danarinos sedentos. Era um ponto muito procurado. O pessoal das diversas bases militares das redondezas formava 
trs linhas em p diante do bar. Mesmo sem uniforme, era fcil identific-los pelas cabeas raspadas. Eles bebiam, admiravam as moas, avaliavam suas chances de 
conseguir alguma coisa, apostavam em quem ia ou no se dar bem, cada um querendo ser mais esperto do que o outro. Os atendentes do bar serviam cerveja o mais rpido 
que podiam, mas no acompanhavam a demanda. Hammond tentou diversas vezes chamar a ateno de um deles, mas finalmente desistiu e resolveu esperar a massa de gente 
rarear para pedir outra bebida. Ele se sentia um pouco menos pattico do que quando estava sentado sozinho  mesa, e olhou para a mesa dela do outro lado da pista 
de dana. Foi uma ducha de gua fria. Trs homens ocupavam as cadeiras extras da mesa em que ela estava. Na verdade, os ombros largos de um deles escondiam a mulher 
da vista de Hammond. O trio no usava uniforme, mas a julgar pela severidade dos cortes de cabelo e pela pose arrogante, ele adivinhou que eram fuzileiros navais. 
Bom, ele no ficou surpreso. Desapontado, mas no surpreso. Ela era atraente demais para ficar sozinha num sbado  noite. Estava apenas matando o tempo at o namorado 
aparecer. Mesmo tendo ido para a feira sozinha, no ficaria sem par por muito tempo. No num mercado de carne como aquele. Um soldado solteiro com um passe de fim 
de semana tinha o instinto e o propsito nico de um tubaro. Tinha apenas uma ideia na cabea, que era arranjar uma companheira para a noite. E mesmo sem fazer 
qualquer esforo, aquela chamaria ateno.
No que ele tivesse pensado em paquer-la, Hammond concluiu. Estava velho demais para isso. No ia voltar para aquela mentalidade de rato de fraternidade por nada 
neste mundo. Alm do mais, no seria correto, seria? Ele no era exatamente comprometido, mas tambm no era exatamente "comprometido. De repente ela se levantou, 
pegou o cardig, pendurou a ala da pequena bolsa no ombro e virou-se para sair. Na mesma hora os trs homens sentados com ela ficaram em p e a cercaram. Um deles, 
que parecia feito a martelo, passou o brao nos ombros dela e encostou o rosto no dela. Hammond conseguiu ver os lbios dele se mexendo. O que ele disse para ela 
fez seus companheiros carem na gargalhada. Ela no achou graa. Desviou o rosto, e Hammond teve a impresso de que ela tentava escapar daquela situao constrangedora 
sem provocar um escndalo. Segurou o brao do soldado e tirou de cima dos ombros e, com um sorriso, disse algo para ele antes de tentar dar meia-volta de novo para 
ir embora. Sem se dar por vencido, e instigado pelos dois amigos, o rejeitado foi atrs dela. Quando ele segurou o seu brao e a puxou para trs, Hammond entrou 
em ao. Mais tarde ele no se lembraria de ter atravessado a pista de dana, apesar de ter praticamente atropelado os casais que naquela hora se embalavam com uma 
msica lenta, porque em segundos j passava entre dois fuzileiros navais musculosos com abdmens de pedra e empurrava o persistente, dizendo ao mesmo tempo:
        Desculpe, meu bem. Encontrei o Norm Blanchard e voc sabe que aquele filho-da-me fala pelos cotovelos. Felizmente para mim, eles esto tocando a nossa 
msica.
Hammond passou o brao na cintura dela e a levou para a pista de dana.
        Entendeu as minhas instrues?
        Sim, senhor detetive. Ningum mais entra, ningum sai. Bloqueamos todas as sadas.
        Isso inclui todo mundo. Sem excees.
        Sim, senhor.
Depois de enfatizar suas ordens, o detetive Rory Smilow cumprimentou o policial uniformizado com um aceno de cabea e entrou no Charles Towne Plaza pela porta principal 
do hotel. A escada tinha sido apresentada por diversas revistas especializadas como um triunfo arquitetnico. J era a principal assinatura do novo complexo. Eptome 
da hospitalidade sulista, duas alas de degraus bem largos partiam do saguo. Pareciam abraar o incrvel candelabro de cristal antes de se unir doze metros acima 
da recepo, formando a galeria do segundo andar. Nos dois nveis do saguo, policiais se misturavam aos hspedes e aos empregados do hotel e, quela altura, todos 
j tinham ouvido dizer que acontecera o que parecia ser um assassinato no quinto andar. Nada criava aquele tipo de atmosfera ansiosa como um assassinato, pensou 
Smilow observando a cena. Queimados de sol, transpirando, turistas com suas cmeras fotogrficas andavam de um lado para outro fazendo perguntas a qualquer pessoa 
com autoridade, conversando entre eles, especulando a identidade da vtima e o que havia provocado o crime. Com seu terno feito sob medida e camisa de punhos dobrados 
com abotoaduras, Smilow estava conspicuamente bem-vestido. Apesar do calor abafado l fora, sua roupa estava fresca e seca, nem um pouco mida. Um subordinado irritado 
certa vez tinha perguntado com os dentes cerrados se Smilow no suava nunca.
        Que diabos, claro que no - respondeu um outro policial. Todo mundo sabe que aliengenas no tm glndulas sudorparas.
Smilow caminhou com determinao para o conjunto de elevadores. O policial com quem tinha conversado  entrada do hotel devia ter comunicado a chegada dele, porque 
j havia um outro no elevador, segurando a porta para ele. Sem agradecer a cortesia, Smilow entrou na cabine.
        Continua brilhando, sr. Smilow? Smilow virou para o homem:
        Ah, continua, Smitty. Obrigado.
O homem que todos s conheciam pelo primeiro nome operava trs cadeiras de engraxate numa alcova num canto do saguo do hotel. Durante dcadas tinha sido um acessrio 
permanente de outro hotel no Centro da cidade. Recentemente fora atrado pelo Charles Towne Plaza, e sua clientela mudou-se com ele. Recebia excelentes gorjetas 
at de pessoas que no eram da cidade, porque Smitty sabia melhor do que o porteiro do hotel o que fazer, aonde ir e onde encontrar qualquer coisa em Charleston. 
Rory Smilow era um dos clientes assduos de Smitty. Normalmente ele teria parado para trocar amabilidades, mas estava com pressa e, na verdade, um pouco irritado 
de ter de parar.
        Falo com voc mais tarde, Smitty - disse ele laconicamente, e as portas do elevador se fecharam.
Ele e o policial de uniforme subiram at o ltimo andar em silncio. Smilow nunca fazia camaradagem com os companheiros, nem mesmo com os da mesma patente, mas certamente 
no com os subalternos. Nunca iniciava uma conversa, a no ser que se relacionasse com algum caso em que estivesse trabalhando. Os homens do departamento, temerrios 
a ponto de tentar bater papo com ele, logo descobriam que tais tentativas eram inteis. A pose dele desencorajava camaradagem. At a sua aparncia alinhada era eficiente 
como corda de sanfona no que dizia respeito  facilidade de abordagem. Quando as portas do elevador se abriram no quinto andar, Smilow teve a sensao que j conhecia. 
Tinha visitado inmeras cenas de crime, algumas bem-comportadas e nada espetaculares, outras extraordinariamente medonhas. Algumas eram esquecveis e rotineiras. 
Outras ele lembraria para sempre, graas  imaginao criativa do matador, ao ambiente estranho em que o corpo tinha sido encontrado, ao bizarro mtodo de execuo, 
 exclusividade da arma ou  idade e situao da vtima. Mas a primeira visita a uma cena de crime invariavelmente provocava uma descarga de adrenalina, da qual 
ele jamais se envergonhara. Tinha nascido para fazer aquilo. Gostava do seu trabalho. Quando ele saiu do elevador, a conversa dos policiais  paisana no corredor 
silenciou. Por respeito, ou medo, eles se afastaram para dar passagem para ele at a porta aberta da sute do hotel onde um homem tinha morrido naquele dia. Ele 
gravou o nmero do quarto e ento deu uma espiada l dentro. Ficou satisfeito de ver que os sete policiais que formavam a Unidade da Cena do Crime j estavam l, 
cumprindo suas diversas funes. Verificou que eles estavam fazendo um trabalho minucioso e virou-se para os trs detetives que tinham sido enviados pela Diviso 
de Investigao Criminal. Um deles, que fumava um cigarro, apagouo rapidamente num cinzeiro prximo. Smilow lanou-lhe um olhar frio, sem piscar.
        Espero que essa areia no contenha alguma prova crucial, Collins.
O detetive enfiou as mos nos bolsos como um menino repreendido por no ter lavado as mos depois de ir ao banheiro.
        Ouam - disse Smilow, dirigindo-se ao grupo em geral. Ele nunca levantava a voz. No precisava. - No vou tolerar um nico erro. Se houver alguma contaminao 
dessa cena de crime, se houver qualquer quebra, por menor que seja, do procedimento correto, se o gro mais insignificante de prova for ignorado ou se ficar comprometido 
pelo descuido de algum, o rabo do responsvel ser fatiado! Por mim. Pessoalmente!
Ele olhou nos olhos de cada homem. E ento disse: 
        Muito bem, vamos l. .
Entraram em fila no quarto, calando luvas de borracha. Cada homem tinha uma tarefa especfica. Cada um tratou de cumpri-la, pisando com cuidado, sem tocar em nada 
que no dissesse respeito  sua funo. Smilow se aproximou dos dois policiais que tinham chegado primeiro. Sem prembulo, ele perguntou:
        Vocs tocaram nele?
        No, senhor.
        Encostaram em alguma coisa?
        No, senhor.
        Na maaneta?
        A porta estava aberta quando chegamos. A camareira que o encontrou tinha deixado aberta. O guarda da segurana do hotel pode ter tocado nela. Ns perguntamos, 
ele disse que no, mas... - ele levantou os ombros manifestando dvida.
        Telefone? - perguntou Smilow.
        No, senhor. Usei o meu celular. Mas, mais uma vez, o guarda da segurana pode t-lo usado antes de chegarmos aqui.
        com quem voc j falou at agora?
        S com ele. Foi ele que ligou para ns.
        E o que ele disse?
        Que uma camareira encontrou o corpo - ele indicou o corpo. -Assim mesmo. De cara para baixo, dois ferimentos de bala nas costas embaixo da omoplata esquerda.
        Vocs interrogaram a camareira?
        Tentamos. Ela est to histrica que no conseguimos arrancar muita coisa dela. Alm do mais, ela  estrangeira. No sei de onde - o policial respondeu 
 sobrancelha levantada de Smilow. - No pude reconhecer o sotaque. Ela s fica repetindo sem parar "Homem morto" e chorando com um leno no rosto. Ficou apavorada.
        Vocs sentiram o pulso dele?
O policial olhou para o parceiro, que falou pela primeira vez:
        Eu o senti. S para me certificar de que estava morto.
        Ento voc tocou nele.
        Bem, toquei. Mas s para isso.
        Suponho que no sentiu nada.
        Pulsao? - o policial balanou a cabea. - No. Ele estava morto. Sem dvida nenhuma.
At aquele ponto Smilow tinha ignorado o corpo. Ento foi at ele.
        Algum sabe do mdico-legista?
        Est a caminho.
Smilow registrou a resposta, mas olhava intensamente para o homem morto. At ver com os prprios olhos, no acreditava que a suposta vtima de assassinato no fosse 
outro seno Lute Pettijohn. Um tipo de celebridade local, homem de grande reputao, Pettijohn era, entre outras coisas, presidente-executivo da construtora que 
havia convertido o armazm de algodo em runas no espetacular e novo Charles Towne Plaza.
E tambm era cunhado de Rory Smilow.
        Obrigada - disse ela.
        No tem de qu - respondeu Hammond.
        A situao estava ficando complicada.
        Ainda bem que a minha encenao funcionou. Se no tivesse funcionado, eu teria trs dos seletos e altivos em cima de mim.
        Elogio a sua bravura.
        Ou burrice. Eles podiam me arrebentar.
Ela sorriu, e ento Hammond ficou duplamente satisfeito de ter obedecido ao seu impulso cavalheiresco e idiota de salv-la. Tinha se sentido atrado por ela no momento 
em que a viu, mas v-la do outro lado da pista de dana no era nada se comparado com aquela viso to prxima e sem restries. Ela desviou os olhos do olhar intenso 
de Hammond e ficou olhando para um ponto qualquer acima do ombro dele. Ela mantinha a calma sob presso. Sem dvida, ela era tranquila.
        E o seu amigo? - perguntou ela.
        Meu amigo?
        O sr. Blanchard. Norm, no era?
        Oh - disse ele, rindo baixinho. - Nunca ouvi falar dele.
        Voc o inventou?
        Inventei, e no tenho a mnima ideia de onde tirei esse nome. Simplesmente surgiu na minha cabea.
        Muito criativo.
        Eu tinha de dizer alguma coisa plausvel. Para parecer que estvamos juntos. Que nos conhecamos bem. Algo que, no mnimo, pudesse traz-la para a pista 
de dana comigo.
        Voc podia ter apenas me tirado para danar.
        , mas isso seria chato. E tambm daria a chance de voc recusar.
        bom, obrigada de novo.
        De nada de novo - ele deu a volta em outro casal com ela. - Voc  daqui mesmo?
        Originalmente, no.
        Tem sotaque sulista.
        Fui criada no Tennessee - disse ela. - Perto de Nashville.
        Regio simptica. -.
        Bela paisagem.
        Hummm.
        Boa msica tambm.
Conversa brilhante, Cross, pensou ele. Cintilante.
Ela nem se dignou a responder  ltima afirmao inane, e ele no a culpou por isso. Se continuasse assim, ela ia dar o fora antes de a msica acabar. Ele a conduziu 
rodopiando em volta de outro casal que executava passos intrincados, e ento, com voz bem neutra, ele fez a pergunta mais clich de todas as paqueras:
        Voc vem sempre aqui?
Ela entendeu a piada e sorriu, aquele sorriso que podia reduzi-lo ao mais completo idiota se no tomasse cuidado.
        Na verdade, no venho a uma feira como essa desde que era adolescente.
        Eu tambm. Lembro de ter ido a uma com alguns amigos. Devamos ter uns quinze anos, e a nossa misso era comprar cerveja.
        Tiveram sucesso?
        Nada.
        Foi a sua ltima feira?
        No. Fui a uma outra com uma namorada. Levei-a  Casa dos Horrores com o propsito especfico de conquist-la.
        E como se saiu?
        Mais ou menos como na misso da cerveja. Deus sabe que tentei. Mas parecia que eu sempre saa com a nica menina que... - ele no completou a frase quando 
sentiu que ela ficou tensa.
        Eles no desistem fcil, no ?
E dito e feito, o trio de fuzileiros estava bem na linha divisria da pista de dana, tomando cerveja e olhando para eles furiosos.
        bom, se eles se rendessem logo, a nossa segurana nacional estaria ameaada.
Hammond deu um sorriso convencido para os homens, firmou o brao em volta da cintura dela e passou rodando por eles.
        Voc no precisa me proteger - disse ela. - Eu poderia ter resolvido a situao sozinha.
        Tenho certeza de que poderia. Defender-se da ateno indesejada dos homens  uma tcnica que toda mulher atraente deve aprender. Mas voc tambm  uma dama 
que relutava em provocar um escndalo.
Ela olhou para ele.
        Muito observador.
        E ento, j que estamos acertados, podemos muito bem aproveitar essa dana, no ?
        Acho que sim.
Mas o fato de ter concordado em continuar danando no reduziu a tenso dela. No estava exatamente virando rpido para olhar para trs, mas Hammond sentiu que era 
isso que ela queria fazer. O que o fez imaginar o que ela faria quando a dana acabasse. Ele esperava um fora. Um fora gentil, mas mesmo assim um fora. Felizmente 
a banda tocava uma balada triste e melada. A voz do cantor no era refinada, era metlica, mas ele conhecia a letra de todos os versos. No que dizia respeito a Hammond, 
quanto mais demorasse aquela dana, melhor. A parceira encaixava bem nele. O topo da cabea dela ficava na altura do queixo dele. Hammond no tinha ultrapassado 
a barreira imaginria que ela estabeleceu entre eles no momento em que ele a puxou para os seus braos, mas a simples ideia de segur-la contra seu corpo era muito 
excitante. Por enquanto ele se contentava com isso, com a parte interna do seu brao encostando na parte inferior das costas dela, com a mo dela
        sem aliana - no ombro dele, os ps para l e para c, no ritmo da msica lenta.
De vez em quando as coxas dos dois encostavam de raspo e ele sentia um latejar de desejo, mas era controlvel. Ele tinha a viso de cima do decote da blusa dela, 
mas era bastante cavalheiro para no espiar. S que a sua imaginao corria solta, adejando aqui e ali, ricocheteando nas paredes da mente dele como uma varejeira 
enlouquecida com o calor.
- Eles foram embora.
A voz dela tirou Hammond daquele devaneio. Quando entendeu o que ela queria dizer, ele olhou em volta e viu que os fuzileiros no estavam mais l. Na verdade, a 
msica tinha terminado, os msicos estavam deixando os instrumentos no cho e o lder da banda pedia a todos "fiquem onde esto", prometendo que voltariam para tocar 
mais depois de um breve intervalo. Outros casais voltavam para suas mesas ou iam para o bar.
Ela abaixou os braos. Hammond percebeu que ainda a segurava pela cintura e no teve alternativa seno solt-la. Quando ele fez isso, ela deu um passo para trs, 
afastando-se dele.
        Bem... ningum pode dizer que o cavalheirismo acabou. Ele deu um sorriso largo.
        Mas se matar drages voltar  moda, pode esquecer. Sorrindo, ela estendeu a mo.
        Agradeo o que voc fez.
        O prazer foi meu. Obrigado por danar comigo - ele apertou a mo dela. Ela deu meia-volta para ir embora. - Uh... - Hammond entrou no meio da multido atrs 
dela.
Quando chegaram ao permetro do tablado do pavilho, ele desceu e segurou a mo dela para ajud-la a descer, um gesto corts e desnecessrio, j que a altura no 
passava de uns quarenta centmetros. Ele foi andando ao lado dela.
        Posso oferecer uma cerveja?
        No, obrigada.
        O milho cozido est com um cheiro timo.
Ela sorriu, mas balanou a cabea, indicando que no.
        Uma volta na roda-gigante?
Ela no desacelerou, mas olhou para ele com uma expresso de mgoa.
        No na Casa dos Horrores?
        No quero abusar da minha sorte - disse ele, sorrindo porque sentia que o gelo comeava a derreter. Mas o otimismo dele no durou muito tempo.
        Obrigada, mas tenho mesmo de ir agora.
        Voc acabou de chegar.
Ela parou de repente e virou de frente para ele. Inclinou a cabea e olhou diretamente para Hammond. O sol poente criava linhas de luz atravs das ris verdes. Ela 
semicerrou os olhos e os protegeu com clios bem mais escuros que o cabelo. Olhos maravilhosos, ele pensou. Diretos e cndidos, mas sensuais. E naquele momento, 
curiosos e penetrantes, perguntando como ele sabia a que hora ela havia chegado.
        Notei voc assim que entrou no pavilho - confessou ele. Ela encarou o olhar dele alguns segundos e depois, constrangida,
abaixou a cabea. A multido parecia um redemoinho. Um grupo de jovens passou correndo e por pouco no esbarrou nos dois, levantando uma nuvem de poeira sufocante 
que ficou rodopiando em torno deles. Uma criana comeou a berrar quando seu balo cheio de hlio escapou da mozinha minscula e flutuou em direo  copa das rvores. 
Uma dupla de adolescentes tatuadas transformava em espetculo todo produzido os cigarros que acendiam, e passaram falando alto com linguagem aviltante.
No reagiram a nada disso. A cacofonia da feira parecia no penetrar no silncio particular dos dois.
        Pensei que voc havia me visto tambm. Milagrosamente, ela no teve dificuldade nenhuma para ouvir as
palavras suaves de Hammond com todo aquele barulho da festa. Ela no olhou para ele, mas ele viu seu sorriso, ouviu a leve risada de constrangimento.
        Ento foi mesmo? Voc me viu?
Ela levantou um ombro num gesto discreto de concesso.
        bom, que timo - disse ele, soltando o ar pela boca ruidosamente, exagerando a sensao de alvio. - Nesse caso, no vejo por que limitar toda a nossa experincia 
na feira municipal a uma nica dana. No que no tenha sido tima. Foi. Faz sculos que no curto tanto uma dana assim.
Ela levantou a cabea e deu um olhar de quem bate em retirada.
        Hummm... Estou bancando o idiota, no estou?
        Totalmente.
Ele abriu um enorme sorriso, porque ela era tremendamente atraente e no se importava de ele estar flertando com ela como no flertava havia vinte anos.
        Ento que tal isso? Estou livre esta noite e no me sinto to desprogramado assim h...
        Essa palavra existe?
        Basta.
         uma palavra de cinquenta centavos.
        Tudo isso para dizer que se voc no tiver nenhum plano para jantar...? Ela indicou que no tinha, balanando a cabea.
        Por que no aproveitamos juntos o resto da feira? Rory Smilow, olhando fixamente para os olhos mortios de Lute Pettijohn, perguntou:
        Qual foi a causa da morte?
O mdico-legista, um homem franzino e atencioso, com ar sensvel e muito educado, tinha conquistado uma coisa rarssima: o respeito de Smilow. O dr. John Madison 
era um negro do Sul que fizera por merecer sua autoridade e posio numa cidade consumadamente sulista. Smilow admirava qualquer pessoa que atingia esse tipo de 
realizao pessoal diante da adversidade. Madison havia estudado meticulosamente o corpo do modo que tinha sido encontrado, de barriga para baixo. O morto foi delineado 
e depois fotografado de diversos ngulos. Examinou as mos e os dedos da vtima, especialmente embaixo das unhas. Testou a rigidez movendo os pulsos. Usou uma pina 
para tirar uma partcula no identificvel da manga do palet de Pettijohn, depois guardou-a com todo o cuidado num saco especial para provas. S depois de completar 
o exame inicial e de pedir ajuda para virar a vtima foi que tiveram a primeira surpresa - um ferimento bem feio na tmpora de Pettijohn, na linha do cabelo.
        Voc acha que a pessoa que fez isso bateu nele? - perguntou Smilow, e abaixou-se para ver melhor o ferimento. - Ou atirou nele primeiro, e isso aconteceu 
na queda?
Madison ajeitou os culos e disse, apreensivo:
        Se for difcil para voc falar sobre isso, podemos conversar sobre os detalhes mais tarde.
        Voc est se referindo ao fato de ele ter sido meu cunhado? - O mdico-legista assentiu com a cabea, e Smilow disse: - Nunca deixo minha vida privada se 
misturar com a minha vida profissional, e viceversa. Diga o que voc acha, John, e no me poupe de nenhum detalhe escabroso.
         claro que terei de examinar melhor o ferimento - disse Madison, sem nenhum outro comentrio sobre a relao entre a vtima e o detetive. - Mas,  primeira 
vista, eu diria que ele sofreu a pancada na cabea antes de morrer, no depois. Apesar de certamente ser um ferimento srio. Poderia ter provocado traumatismo craniano 
de diversos tipos, e qualquer um deles poderia ser fatal.
        Mas voc no acha que foi isso.
        Para dizer a verdade, Rory, no acho. No parece to traumtico assim. A inchao  externa, o que normalmente indica que deve haver pouca ou nenhuma por 
dentro. Mas s vezes sou pego de surpresa.
Smilow sabia apreciar a relutncia do mdico-legista de se comprometer com uma teoria ou outra antes da autpsia.
        A essa altura  seguro dizer que ele morreu por causa dos tiros? Madison concordou com a cabea.
        Mas essa  s a primeira impresso. Parece-me que ele caiu, ou foi empurrado, ou atacado antes de morrer.
        Quanto tempo antes?
        O tempo  mais difcil de determinar.
        Hummm.
Smilow deu uma rpida olhada em volta. Tapete. Sof. Poltronas. Superfcies macias, a no ser pelo tampo de vidro da mesa de centro. Ele caminhou de ccoras at 
a mesa e abaixou a cabea at ficar com os olhos na altura do tampo. Tinham encontrado um copo e uma garrafa do minibar sobre a mesa. J haviam sido recolhidos e 
ensacados pela Unidade da Cena do Crime. Sob aquela perspectiva, Smilow pde ver algumas rodelas de lquido, j secas, onde Pettijohn tinha posto seu copo sem um 
portacopos por baixo. Moveu os olhos lentamente pela superfcie de vidro, examinando um centmetro de cada vez. O tcnico em datiloscopia tinha descoberto o que 
parecia ser a marca de uma mo na beirada da mesa.
Smilow ficou em p e procurou reconstruir mentalmente o que podia ter acontecido. Recuou para o lado mais distante da mesa e andou na direo dela.
-Vamos supor que Lute ia pegar seu drinque - disse ele, pensando em voz alta - e caiu para a frente.
        Acidentalmente? - perguntou um dos detetives.
Smilow era temido, em geral no gostavam dele, mas ningum da Diviso de Investigao Criminal discutia seu talento para recriar um crime. Todos no quarto pararam 
para ouvi-lo atentamente.
        No necessariamente - respondeu Smilow, pensativo. - Algum poderia t-lo empurrado por trs, feito com que se desequilibrasse. Ele caiu.
Smilow encenou a queda, com cuidado para no encostar em nada, especialmente no corpo.
        Ele tentou aparar a queda segurando a beirada da mesa, mas pode ter batido a cabea no cho com tanta fora que perdeu os sentidos - ele olhou para Madison 
e franziu as sobrancelhas como se pedisse a opinio dele.
        Pode ser - respondeu o mdico-legista.
         vlido dizer que ele ficou pelo menos atordoado, certo? Ele teria cado bem aqui - ele abriu as mos, indicando o desenho no cho que marcava a posio 
em que o corpo tinha sido encontrado.
        Ento a pessoa que o empurrou meteu duas balas nas costas dele - disse um dos detetives.
        Ele foi definitivamente alvejado nas costas enquanto estava deitado de barriga para baixo - disse Smilow, e olhou para Madison pedindo confirmao.
        Parece que sim - disse o mdico-legista. O detetive Mike Collins assobiou baixinho.
        Muita frieza, cara. Atirar no homem pelas costas quando ele j est cado. Algum estava possesso!
        A fama de Lute era devida a isso: deixar as pessoas possessas disse Smilow. - Tudo que temos de fazer  reduzir a uma s.
        Foi algum que ele conhecia.
Smilow olhou para o detetive que disse isso e fez sinal para ele continuar.
        Nenhum sinal de arrombamento - disse o detetive. - Nada indica que a fechadura foi forada. Por isso, o criminoso tinha uma chave, ou ento Pettijohn abriu 
a porta para ele.
        A chave do quarto de Pettijohn estava no bolso dele - informou um dos outros. - O motivo no foi roubo, a no ser que tenha sido mascarado. A carteira dele 
foi encontrada no bolso da frente, embaixo do corpo, e parece intacta. No falta nada.
        Muito bem, ento temos uma coisa com que trabalhar aqui disse Smilow-, mas ainda temos um longo caminho pela frente. O que no temos  a arma e um suspeito. 
Esse complexo est cheio de gente, empregados e hspedes. Algum viu alguma coisa. Vamos comear com os interrogatrios. Reunam as pessoas.
Quando ele ia para a porta, um dos detetives resmungou:
        Est quase na hora do jantar. Eles no vo gostar.
        No me importo - retrucou Smilow, e todos que trabalhavam com ele no tiveram dvida nenhuma disso. - E as cmeras de segurana? - perguntou ele. Diziam 
que tudo no Charles Towne Plaza era de ltima gerao. - Onde est o vdeo?
        Parece que h uma certa confuso em relao a isso. Smilow virou para o detetive que tinha recebido ordem mais cedo
para verificar o sistema de segurana do hotel.
        Que tipo de confuso?
-Ah, confuso. Uma trapalhada geral. A fita est temporariamente desaparecida.
        Sumiu?
        Eles no disseram exatamente isso. Smilow resmungou uma praga.
        O encarregado promete que vai apresent-la logo. Mas sabe como ... - o detetive ergueu os ombros como se dissesse, com desprezo, civis.
        Mantenha-me informado. Quero ver essa fita o mais rpido possvel. - Smilow dirigiu-se ao grupo. - Esse ser um assassinato sensacionalista. Ningum fala 
com a mdia, s eu. Fiquem de boca fechada, entenderam? O rastro do criminoso est esfriando a cada minuto, por isso tratem de comear j.
Os detetives saram em fila para comear a questionar os hspedes e os empregados do hotel. Em geral as pessoas no gostavam de passar por esse interrogatrio porque 
implicava culpa, por isso aquela ia ser uma tarefa desagradvel e cansativa. E Smilow, eles sabiam por experincia prpria, era um chefe inclemente e implacvel 
quando cobrava o cumprimento dessas tarefas. Ele aproximou-se do dr. Madison outra vez.
        D para fazer isso bem depressa?
        Uns dois dias.
        Segunda-feira?
        O meu fim de semana vai para o espao.
        O meu tambm - disse Smilow sem se desculpar. - Quero toxicologia, tudo.
        Voc sempre quer - disse Madison com um sorriso amvel. Farei o melhor possvel.
        Voc sempre faz.
Depois que removeram o corpo, Smilow dirigiu-se a um dos tcnicos da Unidade da Cena do Crime.
        Em que p estamos?
         vantagem para ns o hotel ser novo. No tem excesso de digitais, por isso a maior parte delas deve ser de Pettijohn.
        Ou do assassino.
        Eu no contaria com isso - disse o tcnico, franzindo a testa. O lugar  o mais limpo que j vi.
Quando a sute ficou vazia, Smilow caminhou por ela sozinho. Verificou tudo pessoalmente, abriu cada gaveta, examinou o armrio e o cofre embutido, entre os colches, 
embaixo da cama, dentro do armrio do banheiro, no vaso sanitrio,  procura de qualquer coisa que Lute Pettijohn pudesse ter deixado que servisse de pista para 
a identidade do assassino. A soma total de descobertas de Smilow foi uma Bblia protestante e a lista telefnica de Charleston. No encontrou nada pessoal que pertencesse 
a Lute Pettijohn, nenhuma agenda, recibos, bilhetes, anotaes, embalagens de alimentos, nada. Smilow viu que faltavam duas garrafas de usque no minibar, mas que 
apenas um copo tinha sido usado, a menos que o assassino tivesse sido esperto e levado o dele quando saiu. Mas Smilow ficou sabendo, depois de se informar na copa, 
que o nmero normal de copos altos de uma sute era quatro, e restavam trs limpos. Em se tratando de cenas de crime, aquela era praticamente estril... a no ser 
pela mancha de sangue no carpete.
        Detetive?
Smilow, que estava pensativo, olhando para o sangue no carpete, levantou a cabea.
O policial em p na porta do quarto acenou com o polegar para o corredor.
        Ela insistiu em entrar. -Ela?
-Eu.
Uma mulher passou ao lado do patrulheiro como se ele no tivesse importncia nenhuma, tirou a fita da cena do crime da porta e entrou na sute. Quando ela viu a 
mancha escura de sangue, bufou desapontada e revoltada.
        Madison j levou o corpo? Droga!
Smilow levantou o brao para ver as horas no seu relgio de pulso.
        Parabns, Steffi. Voc quebrou seu prprio recorde de velocidade - disse ele.
        Achei que voc estava esperando seu marido e filhos.
        Quando?
        Quando voc entrou no pavilho. -Ah.
Ela no mordeu a isca que Hammond lanou, continuou lambendo seu picol. S falou quando o palito ficou completamente seco.
        Esse  seu jeito de perguntar se sou casada? Ele fez cara de magoado.
        E eu que pensei que estava sendo to sutil...
        Obrigada pelo picol de chocolate com amndoas.
        Esse  seu jeito de evitar a resposta?
Rindo, eles chegaram a uma escada com degraus irregulares de madeira que levava a um cais. A plataforma ficava aproximadamente a um metro da gua e tinha mais ou 
menos dez metros quadrados de rea. A gua batia suavemente nas estacas por baixo das tbuas gastas. Bancos de madeira formavam o permetro do per, e os encostos 
serviam de balaustrada. Hammond pegou o palito e o papel do sorvete dela e jogou-os na lata de lixo junto com os dele, depois apontou para um dos bancos. Em cada 
canto do per havia um poste de luz, mas as lmpadas eram fracas e no incomodavam. Luzes brancas de Natal como as que pendiam do teto do pavilho tinham sido postas 
entre os postes. Elas suavizavam a rusticidade, transformando o per comum e feioso num lugar romntico. A brisa era suave mas suficientemente forte para afastar 
os mosquitos. Sapos coaxavam nas folhagens densas que cresciam nas margens do rio. Cigarras cantavam nos galhos mais baixos e cheios de musgo ao abrigo generoso 
das copas dos carvalhos.
         gostoso aqui - observou Hammond.
        Humm. Fico surpresa de ningum mais ter descoberto esse lugar.
        Fiz a reserva para t-lo s para ns.
Ela deu uma risada. Os dois tinham rido bastante nas ltimas horas enquanto experimentavam as guloseimas altamente calricas das barraquinhas de comida e andavam 
a esmo de uma para outra. Tinham admirado conservas domsticas de pssego e de vagem, tiveram uma aula sobre o mais moderno equipamento de musculao e experimentaram 
os assentos estofados de tratores da mais alta tecnologia. Hammond ganhou um ursinho em miniatura para ela jogando uma bola de beisebol. Ela se recusou a experimentar 
uma peruca, apesar da vendedora ter sido muito persuasiva. Deram uma volta na roda-gigante. Quando o banco deles parou l em cima e balanou precariamente, Hammond 
se sentiu completamente eufrico. Foi um dos momentos mais despreocupados que ele conseguia se lembrar desde... No era capaz de se lembrar de nenhum momento mais 
alegre. As amarras que mantinham seus ps bem presos ao cho, s pessoas, ao trabalho, s obrigaes pareciam ter sido cortadas. Por alguns minutos ele ficou flutuando, 
livre. Sentiu-se livre para curtir a emoo de uma leveza de esprito que no lembrava mais. Livre para aproveitar a companhia de uma mulher que tinha conhecido 
havia menos de duas horas. Espontaneamente, ele virou para ela e perguntou:
        Voc  casada?
Ela deu uma risada e abaixou a cabea, balanando-a de um lado para outro ao mesmo tempo.
        Por falar em sutileza...
        A sutileza no estava funcionando para mim.
        No. No sou casada. E voc, ?
        No. - E depois: - Puxa! Estou contente de ter esclarecido isso. Ela levantou a cabea e olhou para ele, sorrindo.
        Eu tambm.
Ento eles pararam de rir e ficaram s olhando um para o outro. Esse olhar se estendeu alguns segundos, depois minutos, e por um tempo ainda mais longo, calmo por 
fora, mas estrepitoso no campo emocional. Para Hammond foi um daqueles momentos que s se tem uma vez na vida, quando se tem sorte. Do tipo que at os diretores 
e atores mais talentosos do cinema no conseguem captar num filme. O tipo de momento de unio que os poetas e compositores tentam descrever em suas obras, mas que 
no chegam a passar por completo. At aquele instante Hammond nutria a noo equivocada de que eles tinham feito um bom trabalho. Mas estava entendendo que eles 
tinham fracassado terrivelmente. Como  que uma pessoa, qualquer pessoa, podia descrever aquele momento em que tudo se encaixa? Como descrever aquela exploso de 
clareza quando sabemos que a nossa vida s comeou agora, que tudo que aconteceu antes no se compara a isso, e que nada ser a mesma coisa daqui para a frente? 
As respostas ilusrias para todas as perguntas deixaram de ter importncia, e ele compreendeu que a nica verdade que realmente precisava saber estava no aqui e 
no agora. Neste momento. Ele nunca se sentira assim em toda a sua vida. Ningum jamais sentiu isso. Ele ainda estava balanando no banco, l em cima na roda-gigante, 
e no queria descer nunca mais. Assim que ele disse "Dana comigo outra vez?", ela disse: "Eu preciso mesmo ir". "Ir?" "Danar?" Eles falaram ao mesmo tempo de novo, 
mas Hammond atropelou a voz dela:
        Dance comigo de novo. Eu no estava na minha melhor forma da ltima vez, com aqueles fuzileiros navais observando cada passo que eu dava.
Ela virou a cabea e olhou na direo do estacionamento, do outro lado da feira.
Ele no queria pression-la. Qualquer tentativa de coero provavelmente a faria fugir. Mas ele no podia deix-la ir. Ainda no.
        Por favor?
Ela olhou para ele com cara de dvida, e ento deu-lhe um pequeno sorriso.
        Est bem. Uma msica.
Eles se levantaram e ela se dirigiu para a escada, mas Hammond segurou a mo dela e a puxou de volta.
        O que h de errado com esse lugar?
Ela respirou fundo e soltou o ar bem devagar, meio trmula.
        Nada, acho.
Ele no tinha tocado nela desde a ltima dana, s encostou a mo de leve nas costas para gui-la por uma passagem estreita no meio da multido. Tinha oferecido 
a mo para ajud-la quando subiram e desceram da roda-gigante. Ficaram com os braos e os quadris encostados na gndola da roda-gigante enquanto rodavam. Mas exceto 
poucas ocasies, ele havia controlado todas as tentaes de tocla, sem querer afugent-la, passar por tarado ou ofend-la. Mas naquele momento ele a puxou gentilmente, 
porm com firmeza, at bem perto. Passou o brao na cintura dela e puxou-a mais. Mais perto do que antes. Contra seu corpo. Ela cedeu com um pouco de hesitao, 
mas no tentou se afastar. Ps o brao no ombro dele. Ele sentiu a presso da mo dela na nuca. A banda tinha parado de tocar. A msica estava a cargo de um DJ que 
tocava uma variedade que ia de Creedence Clearwater at Barbra Streisand. Estava ficando tarde, os danarinos estavam mais calmos, por isso ele tocava msicas mais 
lentas. Hammond reconheceu a cano mas no conseguia se lembrar do nome do cantor nem da msica que soava no pavilho. No tinha importncia. A balada era lenta, 
suave e romntica. No incio ele tentou fazer com que os ps executassem uma sequncia de passos que tinha aprendido quando jovem nos bailes que frequentava a contragosto, 
levado pela me. Mas quanto mais tempo ele ficava segurando seu par, mais difcil era concentrar-se em outra coisa que no fosse ela. Uma melodia era seguida por 
outra, e eles no perdiam o ritmo, apesar de ela ter dito que s queria danar uma msica. Na verdade, eles nem notavam quando a msica mudava. Seus olhos e mentes 
estavam presos um no outro. Ele encostou as mos dadas dos dois no peito dele, a dela espalmada e a dele por cima. Ela inclinou a cabea para a frente e para baixo 
at encostar a testa na clavcula dele. Ele roou o pescoo no cabelo dela. Hammond no ouvia, mas sentia o pequeno rudo do desejo que vibrava na garganta dela. 
E o dele fez eco. Os ps dos dois deslizavam cada vez mais devagar at que pararam por completo. Ficaram imveis, e a nica coisa que se movia era uma mecha do cabelo 
dela que a brisa fazia acariciar o rosto dele. O calor que emanava de cada ponto de contato parecia forj-los juntos. Hammond abaixou a cabea para o beijo que ele 
achava que seria inevitvel.
        Preciso ir - ela se desvencilhou do abrao dele e se virou abruptamente, indo para o banco onde tinha deixado a bolsa e o cardig.
Por alguns segundos, Hammond ficou atnito demais para reagir. Depois de pegar suas coisas, ela passou por ele e disse apressadamente:
        Obrigada por tudo. Foi timo. Mesmo.
        Espere um minuto.
Ela desviou da mo dele e subiu rapidamente os degraus, tropeando uma vez por causa da pressa.
        Preciso ir.
        Por que agora?
        Eu no posso... no posso fazer isso.
Ela jogou as palavras por cima do ombro enquanto corria na direo do estacionamento. Seguiu a fileira de flmulas, evitando a rua principal, evitando o pavilho 
e a atividade que j diminua nos estandes. Algumas atraes j estavam fechadas. Os expositores desmontavam suas barracas e empacotavam seus equipamentos. Famlias 
carregadas de lembranas e prmios caminhavam lentamente para suas vans. O barulho no era mais to alegre, nem to alto como antes. A msica no pavilho agora soava 
mais triste do que romntica. Hammond foi andando o tempo todo ao lado dela.
        No entendo.
        O que h para no entender? Eu disse que precisava ir embora.  s isso.
        No acredito nisso.
Desesperado para det-la, ele segurou seu brao. Ela parou, respirou fundo vrias vezes e virou-se de frente para ele, apesar de no olhar diretamente para Hammond.
        Eu me diverti muito - disse ela num tom de voz neutro, sem inflexo, como se tivesse decorado a frase. - Mas agora a noite acabou e preciso ir embora.
        Mas...
        No lhe devo explicao. No lhe devo nada - os olhos dela encontraram os dele por um breve instante antes de escapar de novo.
        Agora, por favor, no tente me impedir de novo.
Hammond soltou o brao dela e recuou, levantando as mos em sinal de rendio.
-At logo - foi tudo que ela disse antes de virar de costas para ele e seguir pela terra seca at o estacionamento.
Stefanie Mundell jogou as chaves do seu Acura para Smilow.
        Voc dirige enquanto troco de roupa.
Tinham sado do hotel pela entrada da rua East Bay e andavam apressados pela calada que estava congestionada, no s com a multido habitual de sbado  noite, 
mas com curiosos atrados para o novo complexo pelos veculos de emergncia estacionados ao longo da rua. Passaram pelos observadores curiosos sem chamar ateno 
porque nenhum aparentava ser "funcionrio pblico". O terno de Smilow continuava impecvel, os punhos da camisa limpos. Apesar da confuso em torno do assassinato 
de Pettijohn, ele no tinha se abalado. Ningum suspeitaria tambm que Steffi era assistente do promotor pblico. Ela estava de short de corrida e top de ginstica, 
ambos ainda molhados de suor, que nem o sistema de refrigerao de ar do hotel tinha sido capaz de secar. Os mamilos rijos, assim como as pernas magras e musculosas, 
atraram a ateno de vrios homens, mas ela nem se deu conta dos olhares de admirao enquanto levava Smilow para o seu carro, estacionado ilegalmente numa rua 
de mo dupla. Ele apertou o boto do controle remoto para destrancar as portas, mas no deu a volta para abrir a porta do lado dela. Ela teria feito pouco caso do 
gesto se ele o fizesse. Ela entrou no banco de trs. Smilow ps-se ao volante. Deu partida no motor e esperou os outros carros passarem para sair.
        Aquilo era verdade? - perguntou Steffi. - O que voc disse para os policiais quando samos do hotel?
        Que parte?
        Ah, ento alguma coisa era besteira?
        No a parte de no termos motivo aparente, arma ou suspeito no momento.
Smilow tinha dito para eles manterem a boca fechada quando os reprteres aparecessem fazendo perguntas. J convocara uma entrevista coletiva para as onze horas. 
Marcar essa hora significava ter as estaes locais ao vivo com a reportagem nos ltimos noticirios da noite, o que ampliava a sua exposio na televiso. Impaciente 
com a interminvel fila de carros se arrastando pela avenida, ele enfiou o carro de Steffi na pista estreita de sentido contrrio e recebeu uma buzinada escandalosa 
de um veculo de frente para ele. Demonstrando a mesma impacincia que Smilow exibia dirigindo, Steffi arrancou o top esportivo pela cabea.
        Tudo bem, Smilow, ningum pode ouvir voc agora. Vai falando. Sou eu que estou aqui.
        Estou vendo - observou ele, olhando para ela pelo espelho retrovisor.
Sem constrangimento algum, ela secou as axilas com uma toalha de mo que tirou da sua sacola de ginstica.
        Pai, me, nove filhos, um banheiro s. Na nossa casa, se voc fosse tmido ou pudico, ficaria sujo e com priso de ventre.
Para algum que renegava sua origem pobre, Steffi se referia a ela com frequncia, em geral para justificar seu comportamento grosseiro.
        Bem, apresse-se e vista-se. Estaremos l em poucos minutos. Apesar de voc nem precisar estar l. Posso fazer isso sozinho - disse Smilow.
        Eu quero estar l.
        Est bem, mas gostaria de no ser preso no caminho, por isso abaixe-se para que ningum a veja desse jeito.
        Ora, Rory, voc  um puritano - disse ela, fazendo charme.
        E voc tem sede de sangue. Como farejou to depressa esse animal recm-abatido?
        Eu estava correndo. Quando passei pelo hotel e vi todos aqueles carros da polcia, parei e perguntei para um policial o que estava acontecendo.
        E por falar em ordens para manter a boca fechada...
        Tenho meus dons de persuaso. Alm do mais, ele me reconheceu. Quando me contou, no acreditei no que ouvi.
        Eu tambm.
Steffi vestiu um suti normal, em seguida tirou o short e procurou uma calcinha na sacola.
        Pare de mudar de assunto. O que voc tem?
-A cena de crime mais limpa que j tive em muito tempo. Talvez a mais limpa que j vi.
        Est falando srio? - perguntou ela, aparentando estar desapontada.
        Quem o matou sabia o que estava fazendo.
        Alvejado pelas costas, deitado no cho de barriga para baixo.
         isso a.
        Humm.
Ele olhou para ela outra vez. Steffi abotoava um vestido sem mangas, mas no prestava ateno no que fazia. Olhava para o espao e ele quase conseguia ver as engrenagens 
do seu crebro inteligente rodando. Stefanie Mundell trabalhava na Promotoria Pblica havia pouco mais de dois anos, mas nesse tempo ela fez diferena - nem sempre 
no bom sentido. Alguns a consideravam uma verdadeira praga, e ela sabia ser uma. Tinha uma lngua ferina e no se opunha a us-la. Ela nunca, mas nunca mesmo, recuava 
numa argumentao, o que fazia dela uma excelente advogada de tribunal e uma tortura para os advogados de defesa, mas isso no contribua em nada para a sua reputao 
entre os colegas de trabalho. Mas pelo menos a metade dos homens, e talvez algumas mulheres, que trabalhavam no departamento de polcia e no prdio judicial do municpio, 
eram apaixonados por ela. Alianas fantasiosas com ela muitas vezes eram comentadas com os detalhes mais crus, regados pelos drinques depois do expediente. Sem que 
ela ouvisse, claro, porque ningum queria ser alvo de um processo de assdio sexual por parte de Stefanie Mundell. Se ela sabia de todo esse teso enrustido por 
ela, fingia no saber. No porque pudesse aborrec-la ou deix-la sem graa saber que os homens usavam os termos mais chulos em relao a ela. Simplesmente acharia 
que era um comportamento juvenil, idiota e trivial demais para gastar seu tempo e energia com isso. Rory observava Steffi secretamente pelo espelho retrovisor enquanto 
ela afivelava um cinto fino de couro na cintura e depois passava as mos no cabelo para pente-lo. Ele no sentia atrao fsica por ela. V-la operar no acendia 
nele nenhum desejo louco, carnal, apenas uma profunda admirao por sua inteligncia privilegiada e pela ambio que lhe servia de combustvel. Essas qualidades 
o faziam lembrar de como ele era.
        Esse seu "humm" foi muito significativo, Steffi. Em que voc est pensando?
        Na fria que o assassino devia estar sentindo.
        Um dos meus detetives comentou isso. Foi um crime a sangue-frio. O mdico-legista acha que ele podia estar inconsciente quando
recebeu os tiros. De qualquer forma, no representava ameaa nenhuma. O matador simplesmente queria v-lo morto.
        Se voc fizesse uma lista de todas as pessoas que queriam ver Lute Pettijohn morto...
        No temos tanto papel e tinta assim. ?" Ela olhou para os olhos dele no retrovisor e sorriu.
        Certo. Ento, algum palpite?
        Agora no.
        Ou s no quer me dizer?
        Steffi, voc sabe que no dou nada para o seu escritrio antes de estar preparado.
        S me prometa...
        Sem promessas.
        Prometa que ningum mais ter esse furo.
        Sem querer fazer trocadilho.
        Voc sabe o que quero dizer - disse ela, zangada.
        Mason vai designar o caso - disse ele, referindo-se a Monroe Mason, procurador pblico do municpio de Charleston. - Vocs  que tero de tratar de consegui-lo.
Mas olhando para ela pelo espelho e vendo fogo nos seus olhos, ele no tinha dvida de que para ela isso seria uma prioridade. Ele parou o carro perto do meio-fio.
        Chegamos.
Desceram na frente da manso de Lute Pettijohn. O exterior grandioso, condizente com o endereo de prestgio na South Battery, era uma mistura arquitetnica. O estilo 
georgiano original tinha dado lugar aos toques federativos que surgiram depois da Guerra Revolucionria. Em cima disso, adicionaram a revitalizao das colunas gregas 
quando eram smbolo da oposio  Guerra da Secesso. Mais tarde a estrutura imponente foi atualizada com salpicos de vulgaridade vitoriana. Essa colcha de retalhos 
de arquitetura era tpica do Bairro Histrico e, ironicamente, tornava Charleston ainda mais pitoresca. A casa de trs andares tinha varandas duplas e profundas, 
com colunas majestosas e arcos graciosos. Uma cpula coroava a cumeeira do telhado. Por dois sculos a casa tinha resistido a guerras, a crises econmicas debilitantes 
e a furaces antes de sofrer seu ltimo ataque - de Lute Pettijohn. A restaurao bem documentada que ele fez demorou anos. O primeiro arquiteto que supervisionou 
o projeto pediu demisso porque teve um esgotamento nervoso. O segundo sofreu um enfarte. O cardiologista dele obrigou-o a abandonar o projeto. O terceiro chegou 
ao fim da restaurao, mas custou-lhe seu casamento. Desde o porto da frente, com seu elaborado trabalho em ferro fundido e luminrias historicamente catalogadas, 
at as cpias das dobradias das portas dos fundos, Lute no tinha economizado nada para sua casa ser a mais comentada em toda Charleston. Isso ele tinha conseguido. 
No era necessariamente a restaurao mais admirada, mas certamente tinha sido a mais falada. Ele travou uma batalha contra a Sociedade de Preservao de Charleston, 
a Fundao Histrica de Charleston e a Associao de Arquitetos com sua proposta de converter o antigo armazm em runas no que agora era o Charles Towne Plaza. 
Essas organizaes, cujo propsito era preservar com todo zelo o que Charleston tinha de exclusivo, fiscalizar as construes e limitar a expanso comercial, inicialmente 
vetaram a proposta dele. Ele no recebeu as licenas at todos terem certeza de que a integridade do exterior de tijolos original do prdio no seria drasticamente 
alterada nem comprometida, que suas cicatrizes bem vividas no seriam camufladas e que jamais seria desfigurada com marquises ou outros letreiros contemporneos 
designando o que era. As sociedades de preservao tinham nutrido reservas semelhantes quanto  renovao da casa dele, mas ficaram satisfeitas porque a propriedade, 
que tinha cado num triste estado de decadncia, fora comprada por algum que tinha meios para reform-la do jeito que merecia. Pettijohn tinha obedecido s diretrizes 
rgidas porque no teve escolha. Mas o consenso geral era que a reforma que ele fez na casa, especialmente no interior, era um exemplo claro de at que ponto se 
pode ser vulgar quando se tem mais dinheiro do que bom gosto. Mas todos concordavam que os jardins no tinham igual em toda a cidade. Smilow notou que o jardim da 
frente era exuberante e que estava muito bem cuidado quando apertou o boto do interfone no porto principal. Steffi olhou para ele.
        O que voc vai dizer para ela?
Smilow estava esperando que algum dentro da casa atendesse  campainha e respondeu pensativo:
        Parabns. .
Mas nem mesmo Rory Smilow era to insensvel e cnico assim. Quando Davee Pettijohn olhou para o vestbulo l embaixo, ao p da escada, viu o detetive parado, com 
as mos para trs, olhando fixamente para seus sapatos muito lustrosos ou para o piso italiano em que eles pisavam. De qualquer modo, parecia totalmente concentrado 
na rea em volta dos seus ps. A ltima vez que Davee tinha visto o ex-cunhado do marido fora num evento em homenagem ao departamento de polcia. Smilow tinha recebido 
um prmio aquela noite. Depois da cerimnia, Lute o procurou para dar-lhe os parabns. Smilow apertou a mo de Lute, mas s porque Lute o forou a isso. Foi corts 
com eles, mas Davee percebeu que o detetive preferia rasgar a garganta de Lute com os dentes em vez de apertar-lhe a mo. Rory Smilow demonstrava o mesmo controle 
rgido daquela ltima ocasio. Sua postura e aparncia eram perfeitamente militares. O cabelo estava rareando no topo da cabea, mas s dava para notar porque Davee 
estava no alto da escada. No conhecia a mulher que estava com ele. Davee sempre teve o hbito de avaliar qualquer outra mulher que encontrava, por isso teria lembrado 
se j tivesse visto a companheira de Smilow. Smilow no olhou para cima, mas a mulher parecia avidamente curiosa. Sua cabea se movia constantemente, girando, observando 
tudo que havia na entrada da casa. No perdia nenhum item importado da Europa. Seus olhos eram ligeiros e predatrios. Davee sentiu averso por ela  primeira vista. 
Nada menos importante do que uma catstrofe teria levado Smilow  casa de Lute, mas Davee resolveu ignorar isso at onde fosse possvel. Bebeu de um gole tudo que 
tinha no seu copo alto e, com cuidado para no fazer barulho com as pedras de gelo, o deixou numa mesa de canto. S ento ela anunciou sua presena:
        Vocs esto me procurando?
Seguindo o som da voz dela, os dois viraram juntos e a viram l em cima, no topo da escada. Ela esperou os olhos se fixarem nela para iniciar a descida. Estava descala 
e um pouco despenteada, mas desceu a escada, com a mo no corrimo, como se estivesse de vestido de baile, a princesa da noite, com seus humildes sditos prestando 
homenagem em adorao. Era de uma famlia do epicentro da sociedade de Charleston. Por ambos os lados ela pertencia  noblesse oblige. Jamais esquecia disso, e tambm 
fazia questo de no deixar ningum esquecer.
        Ol, sra. Pettijohn.
        No temos de fazer cerimnia, no , Rory? - ela parou bem perto dele e, inclinando a cabea para o lado, sorriu para Smilow. Afinal de contas, somos praticamente 
parentes.
Davee estendeu a mo. A dele estava seca e quente. A dela levemente mida e muito fria, e ela ficou imaginando se ele adivinhara que tinha segurado um copo de vodca. 
Smilow soltou a mo dela e apontou para a mulher que estava com ele.
        Esta  Stefanie Mundell.
        Steffi - disse a mulher, estendendo a mo agressivamente para Davee.
Ela era mignone, cabelo escuro curtinho e olhos escuros. Olhos intensos. Olhos famintos. No estava de meias, apesar dos sapatos de salto alto. Para Davee isso era 
uma quebra de etiqueta mais ofensiva do que seus ps descalos.
        Como vai? - Davee apertou a mo de Steffi Mundell, mas soltou-a logo. - Vocs querem ingressos para o baile dos policiais ou o qu?
        H algum lugar onde possamos conversar?
        Claro - disse ela, ocultando o nervosismo com um largo sorriso, e ento levou-os para a sala de estar.
A empregada, que tinha aberto a porta para os dois antes de avisar Davee que tinha visita, andava pela sala acendendo as luzes.
        Obrigada, Sarah.
A mulher, que era gorda e negra como um armrio de mogno, aceitou com um movimento de cabea o agradecimento de Davee e saiu por uma porta lateral.
        Posso preparar um drinque para vocs?
        No, obrigado - respondeu Smilow. Steffi Mundell tambm recusou.
        Que linda sala - disse ela. - Uma cor maravilhosa.
        Voc acha? - Davee olhou em volta como se visse a sala pela primeira vez. - Na verdade, esse  o cmodo de que menos gosto em toda a casa, apesar de realmente 
ter uma vista adorvel da Battery, o que  timo. Meu marido insistiu em pintar as paredes dessa cor.  chamada de terracota, e supostamente  igual  das villas 
na Riviera italiana. S que, em vez disso, me lembra uniformes de futebol americano - olhando diretamente para Steffi e com um sorriso suave, acrescentou ela: - 
Minha me sempre dizia que laranj a era a cor da plebe sem educao.
O rosto de Steffi ficou vermelho de raiva.
        Onde a senhora estava esta tarde, sra. Pettijohn?
        No  da sua conta - retrucou Davee sem pestanejar.
        Senhoras - Smilow olhou srio para Steffi e, por trs desse olhar, havia uma ordem silenciosa para ela calar a boca.
        O que est acontecendo, Rory? - quis saber Davee. - O que vocs vieram fazer aqui? Ele falou bem devagar, com calma e respeito:
        Podemos nos sentar?
Davee ficou encarando Smilow alguns segundos, deu uma olhada rpida para Steffi e ento, com um gesto brusco, indicou o sof mais perto deles. Ela sentou-se numa 
poltrona ao lado. Ele comeou explicando que aquela no era uma visita casual.
        Temo que tenha de lhe dar uma m notcia. Ela olhou firme nos olhos dele, esperando.
        Lute foi encontrado morto hoje, no fim da tarde. Na sute da cobertura do Charles Towne Plaza. Parece que foi assassinato.
Davee manteve a expresso sob controle. No se podia demonstrar muita emoo em pblico. Simplesmente no se fazia isso. Esconder as emoes era uma habilidade que 
se adquiria naturalmente quando papai era um mulherengo e mame uma alcolatra, e todo mundo sabia por que ela bebia, mas todo mundo tambm fingia que no havia 
problema algum. No na famlia deles. Maxine e Clive Burton tinham sido um casal perfeito. Ambos descendiam de famlias da elite de Charleston. Ambos eram absolutamente 
lindos. Ambos frequentaram escolas exclusivas. O casamento deles era padro de comparao para todos os outros, at hoje em dia. Eram um par sublime. As trs filhas 
adorveis tinham recebido nomes de menino, porque Maxine estava bbada sempre que entrava em trabalho de parto, ou porque estava to entorpecida que se confundia 
com o sexo das recm-nascidas, ou ento por despeito pelo volvel Clive, que desejava filhos homens e a culpava por produzir apenas filhas. No levava em conta a 
ausncia de cromossomos Y. Ento as pequenas Clancy, Jerri e Davee foram criadas num lar em que problemas domsticos srios eram varridos para debaixo dos valiosssimos 
tapetes persas. As meninas aprenderam logo cedo a controlar suas reaes diante de qualquer situao, por mais perturbadora que fosse. Era mais seguro assim. Era 
impossvel confiar e difcil de avaliar a atmosfera em casa quando pai e me eram volteis e dados a crises de mau-humor, que resultavam em brigas que estilhaavam 
qualquer aparncia de paz e tranquilidade. Consequentemente, as irms ficaram com cicatrizes emocionais. Clancy tinha curado as suas morrendo com trinta e poucos 
anos de cncer cervical, que os boatos mais venenosos afirmavam ter sido consequncia de inmeras doenas venreas. Jerri tinha seguido na direo oposta, convertendo-se 
a um grupo fundamentalista cristo no primeiro ano da faculdade. Dedicava-se a uma vida de sacrifcios e abstinncia de tudo que significasse prazer, especialmente 
lcool e sexo. Plantava legumes e pregava o Evangelho numa reserva indgena de Dakota do Sul. Davee, a mais nova, foi a nica que continuou morando em Charleston, 
desafiando a vergonha e a maledicncia, mesmo depois de Clive morrer de parada cardaca na cama da amante do momento, entre a reunio da diretoria pela manh e a 
partida de golfe  tarde, logo depois de Maxine ter sido internada numa clnica com o "mal de Alzheimer" embora todos soubessem que a verdade era que seu crebro 
estava conservado no lcool da vodca. Davee, que parecia suave e malevel como caramelo quente, na verdade era dura como pedra. Teve resistncia suficiente para 
passar por cima de tudo. Ela sobrevivia a qualquer coisa. Tinha provado isso.
        Bem - disse ela, ficando em p -, vocs no querem um drinque, mas acho que vou tomar um.
No carrinho de bebidas, ela ps alguns cubos de gelo num copo de cristal e jogou vodca em cima deles. Bebeu quase a metade em um gole s, depois encheu o copo de 
novo e voltou para junto dos dois.
        Quem era ela?
        Perdo?
        Ora, vamos, Rory. No me venha com rodeios. Se Lute levou um tiro na sua luxuosa sute do hotel, devia estar com alguma amiga. Imagino que tenha sido ela 
ou o marido ciumento que o matou.
        Quem disse que ele levou um tiro? - perguntou Steffi Mundell.
        O qu?
        Smilow no disse que seu marido foi baleado. Ele disse que foi assassinado.
Davee bebeu mais um pouco.
        Conclu que foi com um tiro. No  um palpite seguro?
        Foi um palpite?
Davee abriu os braos e derramou um pouco da bebida no tapete.
        E quem  voc, afinal? Steffi ficou em p.
        Represento a promotoria pblica. Ou, como  conhecido na Carolina do Sul, o procurador municipal.
        Sei como se chama na Carolina do Sul - rebateu Davee fazendo graa.
        vou ser a promotora do caso do assassinato do seu marido. Foi por isso que insisti em vir junto com Smilow.
        Ah, entendi. Para avaliar a minha reao  notcia.
        Exatamente. E devo dizer que a senhora no pareceu muito surpresa com ela. Ento voltemos  minha pergunta original: onde estava esta tarde? E no diga 
que no  da minha conta porque, como pode ver, sra. Pettijohn,  da minha conta, sim.
Davee dominou a raiva, ergueu calmamente o copo para tomar mais um trago e levou algum tempo para responder.
        Voc quer saber se posso apresentar um libi, no ?
        No viemos aqui para interrog-la, Davee - disse Smilow.
        Tudo bem, Rory. No tenho nada para esconder. S acho que ela foi muito insensvel - olhou para Steffi de cima a baixo com desprezo - de entrar na minha 
casa e comear a disparar perguntas ofensivas e insinuando coisas segundos depois de eu receber a notcia de que o meu marido foi assassinado.
         o meu trabalho, sra. Pettijohn, quer a senhora goste ou no.
        Bem, eu no gosto - depois, ignorando Stefi como se fosse algum insignificante, ela se virou para Smilow: - Terei prazer de responder s suas perguntas. 
O que voc quer saber?
        Onde estava esta tarde, entre cinco e seis horas?
        Aqui.
        Sozinha?
        Sim.
        Algum pode confirmar isso?
Ela foi at uma mesa de canto e apertou um nico boto num telefone de mesa. A voz da empregada soou no alto-falante:
        Pois no, sra. Davee?
        Sarah, d um pulo aqui, por favor. Obrigada.
Os trs aguardaram em silncio. Lanando um olhar frio, de desprezo, para a promotora, Davee ficou brincando com o colar - de um nico fio de prolas exatamente 
do mesmo tamanho - que usava. Tinha sido um presente do pai, que ela amava e odiava ao mesmo tempo. A terapeuta tinha dito que as prolas eram um smbolo da desconfiana 
dela, porque o pai tinha trado a me e as filhas. Davee no sabia se isso era verdade ou se simplesmente gostava do colar. Mas fosse o que fosse, ela usava as prolas 
com tudo, inclusive com o short bem curto e a camiseta branca de algodo tamanho grande que vestia aquela noite. Davee tinha herdado a empregada da me. Sarah trabalhava 
para a famlia desde antes de Clancy nascer e vivenciara todas as tribulaes deles. Quando ela entrou na sala, olhou com hostilidade para Smilow e Steffi Mundell. 
Davee apresentou Sarah formalmente: :" ,
        Sra. Sarah Birch, estes so o detetive Smilow e uma pessoa do escritrio do promotor pblico. Vieram me dizer que o sr. Pettijohn foi encontrado assassinado 
esta tarde.
A reao de Sarah no foi mais visvel do que a de Davee tinha sido. Davee continuou:
        Eu disse que estava aqui em casa entre cinco e seis horas e que voc poderia confirmar isso. No  verdade?
Steffi Mundell quase xingou.
        A senhora no pode...
        Steffi.
        Mas ela acabou de comprometer o interrogatrio - berrou ela para Smilow.
Davee olhou para ele com ar inocente.
        Pensei que voc tinha dito que eu no estava sendo interrogada, Rory.
Os olhos dele pareciam de gelo, mas ele se virou para a empregada e disse educadamente:
        Sra. Birch, a senhora pode me dizer se a sra. Pettijohn estava em casa nessa hora?
        Sim, senhor. Ela ficou descansando no quarto o dia todo.
        Ai, caramba! - resmungou Steffi baixinho.
Smilow ignorou Steffi e agradeceu  empregada. Sarah Birch se aproximou de Davee e segurou a mo dela.
        Sinto muito.
        Obrigada, Sarah.
        Est tudo bem, menina?
        Eu estou bem.
        Quer alguma coisa?
        Agora no.
        Se precisar de alguma coisa,  s me chamar.
Davee sorriu para ela e Sarah passou a mo afetuosamente no cabelo louro despenteado de Davee, depois deu meia-volta e saiu da sala. Davee terminou seu drinque, 
olhando disfaradamente para Steffi por cima da borda do copo.
        Satisfeita? - perguntou ela quando abaixou o copo.
Steffi estava soltando fumaa de raiva e nem se deu o trabalho de responder. Indo de novo at o carrinho de bebidas, Davee perguntou:
        Onde est o... para onde ele foi levado?
        O mdico-legista vai fazer uma autpsia.
        Ento os preparativos do enterro tero de esperar...
-At o corpo ser liberado - disse Smilow, terminando a frase para ela.
Ela serviu-se de mais uma dose de vodca e depois voltou para perto dos dois.
        Como foi que ele morreu? - perguntou ela.
        Foi alvejado nas costas. Dois tiros. Achamos que ele morreu instantaneamente, e que poderia at estar inconsciente quando dispararam os tiros.
        Ele estava na cama?
 claro que Smilow conhecia as circunstncias da morte do pai dela. Todos em Charleston sabiam muito bem dos detalhes escandalosos. Ela gostou de Smilow parecer 
meio constrangido e penalizado quando ele respondeu  sua pergunta.
        Lute foi encontrado no cho da sala de estar, completamente vestido. A cama no tinha sido usada. No havia sinal de nenhum encontro romntico.
        bom, pelo menos esse foi diferente - ela esvaziou o copo.
        Quando foi a ltima vez que voc viu Lute?
        A noite passada? Esta manh? No me lembro. Esta manh, acho. - Davee ignorou o grunhido de incredulidade de Steffi e continuou olhando para Smilow. - s 
vezes passvamos dias sem nos ver.
        Vocs no dormiam juntos? - perguntou Steffi. Davee olhou para ela.
        De que cidade do Norte voc ?
        Por qu?
        Porque voc  obviamente mal-educada e muito grosseira. Smilow interveio de novo:
        S vamos invadir a vida privada dos Pettijohn se for necessrio, Steffi. Neste momento no  necessrio. - Ele se virou para Davee. Voc no tinha ideia 
da agenda de Lute para hoje?
        Nem hoje, nem dia nenhum.
        Ele no deu a entender que ia encontrar algum?
        No.
Ela ps o copo na mesa de centro e, quando recuou, endireitou as costas.
        Sou suspeita?
        Neste momento todos em Charleston so suspeitos. Davee olhou bem nos olhos dele.
        Muita gente tinha motivo para matar Lute. Incomodado com o olhar penetrante dela, Smilow desviou o dele. Steffi Mundell deu um passo  frente como se quisesse 
lembrar a
Davee que ainda estava ali e que era algum importante, algum que devia ser levado em considerao.
        Desculpe-me se exagerei um pouco, sra. Pettijohn.
Ela fez uma pausa, mas Davee no ia perdoar suas muitas infraes das regras tcitas do decoro. Davee se manteve impassvel.
        Seu marido era uma figura proeminente - continuou Steffi. Seus negcios geravam uma vultosa receita para a cidade, para o municpio e para o estado. Sua 
participao em projetos cvicos...
        Isso vai levar a alguma coisa?
Steffi no gostou da interrupo de Davee, mas persistiu assim mesmo.
        Esse assassinato provocar um impacto em toda a comunidade e alm dela. A promotoria vai consider-lo prioridade mxima at o culpado ser capturado, julgado 
e condenado. A senhora tem a minha palavra de que a justia ser rpida e certa.
Davee deu o seu sorriso mais bonito e mais falso.
        Sra. Mundell, a sua palavra no vale nada para mim. E tenho uma m notcia para a senhora. A senhora no vai ser promotora do assassinato do meu marido. 
Nunca me contento com produtos de liquidao de quintal - ela fez uma cara de nojo para o vestido de Steffi.
E ento, de frente para Smilow, a ex-debutante ordenou como seriam as coisas:
        Quero os maiorais. Cuide disso, Rory. Seno eu, a viva de Lute Pettijohn, vou cuidar.
        Bem das grandes, bem aqui.
O homem deu um tapa no feltro verde manchado e um sorriso antiptico de quem bebeu cerveja demais que fez Bobby Trimble estremecer de nojo. Bobby pegou sua carteira 
no bolso de trs da cala, tirou duas notas de cinquenta e deu-as para o cretino do filho-da-me, um p rapado.
        bom jogo - ele disse laconicamente.
O homem embolsou as notas e, ento, esfregou as mos ansioso.
        Est pronto para outra?
        Agora no.
        Ficou zangado? Ora, vamos, no se aborrea - disse ele com voz cativante.
        No estou zangado - disse Bobby, parecendo zangado. - Talvez mais tarde.
        O dobro ou nada?
        Mais tarde.
Bobby piscou o olho, deu um tiro com o dedo na enorme barriga do outro cara e se afastou saltitando, levando sua bebida. Na verdade, ele adoraria tentar de novo 
e recuperar o que tinha perdido, mas infelizmente estava sem um tosto. A ltima srie de jogos, que perdeu todos, o deixou algumas centenas de dlares mais pobre. 
At resolver seu problema de caixa no podia apostar nada. Tampouco podia usufruir das melhores coisas da vida. Aqueles ltimos cem dlares teriam contribudo muito 
para resolver sua fissura. Nada de mais, apenas algumas fileiras. Ou uns dois comprimidos... Ainda bem que tinha o carto de crdito falsificado. Podia cobrir suas 
despesas dirias com ele, mas para qualquer extra precisava de dinheiro em espcie. Que era mais difcil de arranjar. No impossvel. S exigia mais trabalho. E 
a vocao de Bobby era menos trabalho e mais boa vida.
        Agora no vai demorar - disse para ele mesmo, sorrindo e olhando para seu copo alto.
Quando seu investimento gerasse dividendos, teria anos de recreao pela frente. Mas o sorriso dele no durou muito. Uma nuvem de incertezas cobriu a fantasia do 
seu futuro ensolarado. Infelizmente, o sucesso do seu esquema de ganhar dinheiro dependia da sua parceira e ele estava comeando a duvidar da lealdade dela. Para 
dizer a verdade, a dvida queimava suas entranhas com a mesma fora do usque barato que estava bebendo a noite toda. No frigir dos ovos, no confiava mesmo nela, 
nem um pouco. Ele se sentou num banquinho no fundo do bar e pediu outro drinque. O assento de vinil avermelhado um dia j tivera um relevo imitando couro, mas estava 
praticamente liso, tendo suportado dcadas de beberres contumazes. Se no tivesse de viver com discrio, no teria escolhido uma taverna de classe baixa como aquela. 
Tinha vivido muito desde o tempo em que frequentava lugares daquele calibre. Tinha progredido de onde comeara. L para o alto. Emergente ascendente, esse era Bobby 
Trimble. Bobby tinha cultivado uma nova imagem para ele e no ia desistir dela. No podia modificar o bero em que tinha nascido, mas se no gostava dele, se sabia 
instintivamente que seu destino era maior, com coisas melhores, ento podia muito bem descartar uma imagem e criar outra. E foi isso que fez. Foi esse interesse 
adquirido pela urbanidade que proporcionou o confortvel emprego em Miami. O dono da boate precisava de um cara com os talentos de Bobby para operar como recepcionista 
e relaes pblicas. Ele tinha boa aparncia e sua lbia atraa as damas. Agarrou-se ao emprego como um pato  gua. Os negcios cresceram significativamente. Em 
pouco tempo, o Cock'n'Bull passou a ser um dos pontos noturnos mais badalados de Miami, uma cidade famosa por suas casas noturnas. A boate lotava todas as noites 
com mulheres que sabiam como se divertir. Bobby tinha cultivado, e depois alimentado, a reputao de lugar vulgar e obsceno para competir com os outros clubes de 
mulheres. O Cock'n'Bull no se desculpava por apresentar um espetculo de sexo explcito que atraa mulheres, no damas, que no tinham medo de cair na gandaia. 
Na maioria das noites, os danarinos tiravam tudo e ficavam completamente nus. Bobby permanecia de smoking, mas seu discurso levava as mulheres ao frenesi sexual. 
Seus engodos verbais eram mais eficientes do que os quadris projetados para a frente dos danarinos. Elas adoravam seus dilogos sacanas. Ento, uma noite, uma f 
muito entusiasmada subiu no palco com um dos danarinos, ficou de joelhos e comeou a praticar aquele ato libidinoso com ele. As espectadoras enlouqueceram. Adoraram. 
Mas o esquadro antivcio que se misturava ao pblico  paisana no gostou. Secretamente, pediram reforos e, antes de qualquer pessoa entender o que estava acontecendo, 
o lugar ficou cheio de policiais. Bobby conseguiu escapar pela porta dos fundos, mas antes tratou de raspar toda a fria do cofre do escritrio. Devido a uma queda 
pelas pistas de corrida e uma mar recente de m sorte, ele devia dinheiro para um agiota, que no compreendia que o fechamento do clube representava uma interrupo 
temporria dos seus rendimentos, que seria corrigida em breve. "Em breve" no constava do vocabulrio do agiota. Por isso, com o proprietrio do clube, a polcia 
e o agiota na sua cola, ele fugiu do Estado Ensolarado com quase dez mil dlares nos bolsos do seu smoking. Mandou pintar seu Mercedes conversvel de uma cor diferente 
e trocou as placas. Por algum tempo ele viajou tranquilo subindo a costa, esbanjando o dinheiro roubado. Mas no durou para sempre. Teria de pr mos  obra, fazendo 
o nico negcio que conhecia. Fazendo-se passar por hspede dos hotis luxuosos, ele ficava nas piscinas onde aplicava seu charme em turistas solitrias. O dinheiro 
que roubava delas ele considerava uma troca justa pela felicidade que lhes proporcionava na cama. Ento, uma noite, enquanto bebia champanhe e cantava uma relutante 
divorciada para que lhe desse a chave do quarto, Bobby viu um conhecido de Miami do outro lado do restaurante. Pediu licena para ir ao banheiro, voltou para o seu 
hotel, ps apressadamente tudo que tinha no Mercedes e tratou de sair voando da cidade.
Ficou escondido algumas semanas, e at renunciou s conquistas. Suas reservas de dinheiro encolheram e se reduziram a uma quantia pfia. Apesar de todos os trejeitos 
e maneirismos afetados, quando Bobby olhava no espelho ele se via como era anos antes - um malandro imprudente e incompetente que competia com trapaceiros de quinta 
categoria. Essa insegurana crescia muito quando estava quebrado, dominava Bobby violentamente. Uma noite, desesperado e com um certo medo, ele se embebedou num 
bar e acabou se metendo numa briga com outro fregus. Foi a melhor coisa que podia acontecer. Aquela disputa de bar foi observada pela pessoa certa. Determinou o 
curso que ele seguia agora. E o resultado j era visvel. Se tudo funcionasse do jeito que ele planejara, faria uma fortuna. Teria todo o dinheiro que o Bobby Trimble 
que era agora merecia. No voltaria a ser o perdedor que fora antes. No entanto - e esse era um "no entanto" gigantesco -, seu sucesso dependia da parceira. Como 
havia estabelecido antes, das mulheres no se podia confiar que fossem qualquer outra coisa seno mulheres. Ele esvaziou o copo e levantou a mo para o atendente 
do bar.
        Preciso de mais uma dose.
Mas o barman estava entretido com a televiso. A imagem era cheia de chuvisco, mas, mesmo de onde estava sentado, Bobby conseguia ver um cara falando para os microfones 
apontados para ele. No era algum que Bobby conhecia. S sabia que o homem era antiptico e muito srio. S tinha pose, como os assistentes sociais que costumavam 
xeretar a casa de Bobby quando ele era pequeno, fazendo perguntas pessoais sobre ele e sua famlia, invadindo sua vida particular. O homem na televiso era um cara 
tranquilo, mesmo com uma dzia de reprteres se atropelando para chegar perto dele.
        O corpo foi encontrado esta noite - dizia ele -, logo depois das seis horas. Foi identificado positivamente.
        O senhor tem...
        E a arma?
        H algum suspeito?
        Sr. Smilow, pode nos dizer...
Bobby perdeu o interesse, e disse mais alto:
        Quero uma bebida aqui.
        J ouvi - respondeu o barman, invocado.
        O servio aqui deixa a desejar...
A reclamao morreu nos lbios de Bobby quando a imagem na tela da televiso mudou do cara de olhos frios para um rosto que Bobby reconheceu e que conhecia bem. 
Lute Pettijohn. Ele se esforou para ouvir cada palavra.
        No havia sinal de arrombamento na sute do sr. Pettijohn. Roubo foi descartado como motivo. Neste momento no temos nenhum suspeito.
A reportagem especial ao vivo terminou e voltaram a apresentar o noticirio das onze horas nos estdios. Mais uma vez confiante, com um sorriso de orelha a orelha, 
Bobby ergueu seu novo drinque num brinde silencioso  parceira. Evidentemente, ela subira no seu conceito.
        Isso  tudo que tenho para dizer por enquanto.
Smilow se afastou dos microfones, mas descobriu que havia outros atrs dele.
        com licena - disse ele, abrindo caminho pelo meio da turba da mdia.
Ele ignorou as perguntas aos gritos e continuou abrindo caminho entre os reprteres at eles entenderem que no iam conseguir arrancar mais nada dele e se dispersarem. 
Smilow fingia detestar a ateno da mdia, mas a verdade era que gostava de entrevistas coletivas ao vivo como aquela. No por causa das luzes e das cmeras, apesar 
de saber que parecia ameaador nas fotos. Nem mesmo pela ateno e pela publicidade que resultava disso. Seu emprego estava garantido e ele no precisava de aprovao 
pblica para mant-lo. Ele gostava mesmo era da sensao de poder gerada pelo fato de estar sendo filmado e citado.
Mas quando se aproximou da equipe de detetives reunida perto da recepo no saguo do hotel, ele resmungou:
        Ainda bem que terminou. Agora, o que vocs tm para mim? 54
Os outros balanaram a cabea concordando com o sumrio de Mike Collins.
Smilow tinha calculado seu retorno da casa dos Pettijohn para o Charles Towne Plaza de modo a coincidir com o noticirio das onze horas. E como previra, todas as 
emissoras locais, assim como as outras de lugares distantes, como Savannah e Charlotte, tinham montado uma transmisso ao vivo no saguo do hotel, onde ele revelou 
os fatos rudimentares para os reprteres e espectadores em casa. No dourou a plula. Primeiro porque s conhecia mesmo os fatos rudimentares. Pelo menos naquela 
vez ele no estava se esquivando ao se recusar a dar-lhes mais informao. Estava to aflito quanto a mdia para obter informaes. Por isso, o lacnico sumrio 
do sucesso dos detetives s fez desanim-lo.
        O que quer dizer zero?
        Exatamente isso - Mike Collins era um veterano. No se intimidava tanto com Smilow como os outros, por isso havia um acordo tcito de que seria sempre o 
porta-voz dos detetives. No temos nada at agora. Ns...
        Isso  impossvel, detetive.
Collins estava com olheiras escuras embaixo dos olhos fundos, evidncia da dureza que tinha sido sua noite. Ele se virou para Steffi Mundell, que o tinha interrompido, 
e olhou para ela como se quisesse estrangul-la, depois a ignorou educadamente e continuou seu relatrio verbal para Smilow:
        Como eu estava dizendo, esprememos todas essas pessoas - os hspedes e os empregados ainda estavam detidos no salo de baile do hotel. - Primeiro eles at 
gostaram, sabe como . Era emocionante. Como num filme. Mas tudo deixou de ser novidade algumas horas atrs. Eles deram as mesmas respostas para as mesmas perguntas 
inmeras vezes, por isso agora esto ficando irritados. No estamos conseguindo arrancar grande coisa deles, s reclamaes e pedidos para sair daqui.
        Acho difcil acreditar...
        Quem a convidou? - Collins atacou Steffi quando ela o interrompeu de novo.
        Que de todas essas pessoas - disse ela, ignorando Mike - ningum tenha visto nada.
Smilow levantou a mo para impedir uma discusso acalorada entre seu desanimado detetive e a promotora sem papas na lngua.
        Chega, vocs dois! Vocs esto todos cansados. Steffi, no vejo motivo para voc continuar por aqui. Quando tivermos alguma coisa avisamos para voc.
        Estou acreditando mesmo - ela cruzou os braos e olhou para Collins como se o desafiasse. - Eu fico.
Smilow hesitou um pouco, mas deu ordem para os hspedes do hotel voltarem para seus quartos. Ento, reuniu seus detetives em uma das salas de reunio no mezanino 
e pediu pizzas para todos. Enquanto dizimavam as pizzas, ele repassou as poucas informaes que tinham conseguido depois de horas de exaustivos interrogatrios.
        Pettijohn fez uma massagem no spa? - perguntou ele, relendo as anotaes.
        Fez - um dos detetives engoliu um pedao enorme de pizza. Logo depois que chegou aqui.
        Vocs interrogaram o massagista? ,- O homem fez que sim com a cabea.
        Disse que Pettijohn pediu a massagem de luxo, de noventa minutos. Pettijohn tomou uma chuveirada no banheiro do spa, por isso o banheiro da sute estava 
seco.
        Esse cara era suspeito?
        No vi nada suspeito nele - disse o detetive com a boca cheia de novo. - Contratado de um spa na Califrnia. Novo em Charleston. Viu Pettijohn pela primeira 
vez hoje.
Smilowleu a lista, feita s pressas, dos hspedes registrados. Todos pareciam acima de qualquer suspeita. Todos afirmaram que no conheciam Lute Pettijohn, mas alguns 
o tinham visto na cobertura da mdia na inaugurao do Charles Towne Plaza alguns meses antes. A maioria era gente comum, de frias com a famlia. Trs casais em 
lua-de-mel. Alguns outros fingiam ser recm-casados, mas era bvio que eram amantes secretos passando um fim de semana clandestino numa cidade romntica. Esses responderam 
s perguntas dos detetives com nervosismo, mas no por serem culpados de um assassinato, apenas de adultrio. Todos os quartos do quarto andar, menos trs, estavam 
ocupados por um grupo de professoras da Flrida. Duas sutes acomodavam amontoados meninos de um time de basquete que tinham terminado o segundo grau na primavera 
e estavam curtindo aquele programa juntos antes de partir cada um para a sua respectiva universidade. O nico crime que tinham cometido era o consumo de bebida alcolica, 
sendo menores de idade. Para desespero dos colegas, um deles entregou voluntariamente um porta-moedas com maconha dentro para o detetive que o interrogou. O consenso 
geral era o de que, se Lute Pettijohn no tivesse sido assassinado naquela tarde, teria sido um sbado de vero bem rotineiro.
        Comprido, quente e grudento - observou um dos detetives, dando um bocejo enorme.
        Voc est falando do dia ou do meu pau? - brincou outro.
        Bem que voc queria...
        E o vdeo da segurana? - perguntou Smilow, interrompendo a brincadeira. Os detetives debocharam do que era obviamente uma piada entre eles. - O qu? - 
quis saber Smilow.
        Quer ver o vdeo? - perguntou Collins.
        Tem alguma coisa para ver?
Depois de outra rodada de risos, Collins sugeriu que Smilow desse uma espiada, e at convidou Steffi para assistir ao vdeo com eles.
        Talvez voc possa aprender alguma coisa - disse ele para ela. Smilow e Steffi seguiram os detetives atravs do largo saguo do mezanino e entraram numa 
das menores salas de reunio, onde um aparelho de vdeo j estava ligado e pronto para funcionar com um monitor colorido.
Com uma ostentao desnecessria, Collins apresentou o vdeo:
        Primeiro, o cara que monitorava as cmeras da segurana ontem  tarde me disse que no estava encontrando o vdeo da cmera daquele andar.
Smilow sabia, por experincia prpria, que cmeras de observao em geral eram acopladas a gravadores de tempo que exibiam uma tela a cada cinco ou dez segundos, 
dependendo da vontade do usurio. Por isso os filmes pareciam pular quando eram rodados de novo. Costumavam gravar vrios dias antes de rebobin-los automaticamente.
        O que a fita estava fazendo fora da mquina? As fitas em geral no ficam nos gravadores e so recicladas se ningum precisar rev-las?
        Essa foi a primeira coisa que me fez achar que ele estava mentindo - disse Collins. - Por isso, fiquei no p dele. Finalmente ele cuspiu este vdeo. Esto 
prontos?
Smilow assentiu com a cabea, e Collins apertou o play no aparelho de vdeo. Mesmo que no tivessem imagem alguma, a trilha sonora era indiscutivelmente a de um 
filme pornogrfico. Os suspiros e gemidos eram pano de fundo de uma imagem granulada de um casal fazendo sexo.
        Essa cena dura cerca de quinze minutos - explicou Collins. Depois do clmax, muda para duas mulheres numa banheira, uma bolinando outra. Depois vem uma 
cena bsica de dominao com...
        J entendi - disse Smilow, aborrecido. - Desligue isso - ele ignorou as vaias e assobios dos outros homens na sala. - Sinto muito, Steffi.
        No precisa. A piadinha do detetive Collins s minhas custas simplesmente corrobora a minha teoria de que a expresso "macho adulto"  uma contradio.
Os outros riram, mas Collins pigarreou, sem se deixar abater pela crtica.
        A questo  a seguinte - disse ele. - Pettijohn se gabava da segurana de ltima gerao, mas tudo no passava de bazfia. As cmeras nos andares dos hspedes 
so de mentira. So falsas.
        O qu? - perguntou Stefi.
        A nica cmera que funciona em todo o complexo fica no departamento de contabilidade. Pettijohn no queria que ningum roubasse dinheiro dele, mas creio 
que no se importava se os hspedes fossem assaltados ou liquidados. O feitio se virou contra o feiticeiro, no foi?
        Por que o rapaz mentiu? - perguntou Smilow.
        Foi o que disseram para ele fazer. O prprio Pettijohn. No estamos falando de um cientista de foguetes, por isso ele no se entregou, mesmo depois de garantirmos 
que Pettijohn estava morto e que a nica coisa que tinha de temer era mentir para ns. Finalmente ele cedeu. E verificamos tudo. As cmeras so falsas.
        Quantas pessoas sabem disso?
        Acho que so poucas.
        Verifique. Comece com as pessoas que exercem funes administrativas.
        Est bom.
Smilow dirigiu-se ao grupo como um todo.
        A primeira coisa que vamos fazer amanh cedo  verificar os inimigos de Pettijohn. Faremos uma lista...
        Ou podemos poupar trabalho e simplesmente usar a lista telefnica - gracejou um dos homens. - Todo mundo que conheo ficar feliz com a morte daquele filho-da-me.
Smilow olhou zangado para ele.
        Oh, perdo - resmungou ele, e o sorriso desapareceu. - Esqueci que vocs eram parentes.
        No ramos parentes. Ele foi casado com a minha irm. Por um tempo. S isso. Eu provavelmente gostava menos dele do que qualquer outra pessoa.
Steffi inclinou o corpo para a frente.
        No foi voc que acabou com ele, no , Smilow? Todos riram, mas o conciso "no" dito por Smilow, como se levasse a pergunta dela a srio, acabou com o 
riso com a mesma rapidez com que tinha comeado.
        com licena, sr. Smilow?
Smitty estava  porta aberta. Smilow olhou para o seu relgio de pulso. J passava da meia-noite.
        Pensei que voc estivesse aflito para ir para casa - disse ele para o engraxate.
        S disseram que podamos ir para casa agora, sr. Smilow.
        Ah,  - ele no tinha pensado nos agregados do hotel, como Smitty, que seriam detidos horas e horas para serem interrogados, apesar de ter dado a ordem 
ele mesmo. - Sinto muito por isso.
        No tem importncia, sr. Smilow. Eu estava s pensando se algum contou para vocs sobre as pessoas que foram levadas ontem para o hospital.
        Hospital?
A letra E maiscula no painel de instrumentos do carro dela brilhou com uma luz vermelha.
Ela gemeu frustrada. A ltima coisa que queria fazer era parar para abastecer ela mesma o carro, mas sabia que, quando o marcador indicava vazio, costumava ser perigosamente 
correto. Os postos de gasolina eram raros naquela estrada rural, por isso, quando viu ums poucos quilmetros depois de avistar a luz vermelha, ela parou e saiu do 
carro cheia de preguia. Normalmente, quando ela mesma punha gasolina no carro, pagava com carto de crdito na prpria bomba. Mas a tecnologia no tinha chegado 
quele lugar onde Judas tinha perdido as botas. Por questo de princpio, no gostava de ter de pagar adiantado. Por isso, ela tirou a mangueira da bomba e abaixou 
a manivela. Desenroscou a tampa do tanque de gasolina do carro e ps na capota, enfiou o bico da mangueira no buraco e acenou para o atendente na cabine, indicando 
com um gesto para ele ligar a bomba. Ele estava assistindo a uma luta na sua televiso em preto e branco. Ela mal conseguia v-lo atrs das placas de cerveja em 
non e dos cartazes pregados na janela anunciando eventos que j tinham acontecido e animais de estimao perdidos. Ele no a viu, ou ento estava pondo em prtica 
o prprio princpio de no ligar a bomba se o fregus no pagasse adiantado, especialmente depois de escurecer.
        Droga - acabou ela cedendo, entrou no escritrio e ps uma nota na bandeja suja sob uma janela ainda mais suja.
        Vinte dlares? Mais alguma coisa? - perguntou ele, mantendo os olhos grudados na televiso.
        No, obrigada.
A gasolina saa gota a gota, mas a bomba finalmente desligou. Ela tirou a mangueira do tanque e pendurou-a de novo na bomba. Quando ia pegar a tampa do tanque na 
capota, outro carro saiu da estrada e entrou no posto. Ela ficou na linha dos faris e semicerrou os olhos, ofuscada. O carro parou lentamente, apenas a centmetros 
do pra-choque traseiro do carro dela. O motorista apagou os faris mas no desligou o motor antes de abrir a porta e descer. Ela ficou boquiaberta e muda quando 
o viu. Mas no se mexeu, nem disse nada. No reclamou de ele ter ido atrs dela. Nem exigiu saber por que tinha feito isso. Tampouco insistiu para ele ir embora 
e deix-la em paz. Ela no fez nada. S ficou olhando para ele. O cabelo dele parecia mais escuro agora que o sol tinha desaparecido, no to dourado como ficava 
de dia. Ela sabia que os olhos dele eram cinza-azulados, apesar de estarem escondidos da luz. Uma sobrancelha era um pouco mais alta e mais arqueada que a outra, 
mas as feies assimtricas s lhe aumentavam o charme. O queixo tinha uma reentrncia rasa e vertical. A sombra dele era comprida porque era bem alto. O peso jamais 
seria um problema. Ele no tinha estrutura para carregar quilos a mais. Por vrios segundos eles ficaram olhando um para o outro por cima do capo do carro dele, 
e ento ele saiu de trs da porta aberta. Ela seguiu com o olhar os passos dele, vindo na direo dela. A determinao que via no maxilar dele dizia muita coisa 
sobre o seu carter. Ele no desistia com facilidade e no tinha medo de correr atrs de alguma coisa que queria. Ele s parou quando estava bem na frente dela. 
Ento segurou o rosto dela com as duas mos, levantou-o um pouco, abaixou o seu rosto e beijou-a. E ela pensou: Oh, meu Deus! Os lbios dele eram carnudos e sensuais 
e provocavam o que sugeriam. O beijo era quente, doce e vido. Ele aplicava a presso perfeita, sem deixar dvida de que ela estava sendo firmemente beijada, mas 
sem fazer com que se sentisse dominada ou ameaada. Era um beijo to perfeito que os lbios dela se abriram naturalmente. Quando a lngua dele encostou na dela, 
seu corao se expandiu e ela abraou a cintura dele. Ele abaixou as mos e ficou com um brao nos ombros dela, a outra mo abaixo da cintura dela, puxando-a para 
que seus corpos ficassem colados um no outro. Ele inclinou a cabea. Ela inclinou a dela para outro lado. O beijo ficou mais profundo, a lngua dele mais agressiva. 
Quanto mais tempo durava o beijo, mais ardente ficava. Ento, de repente, ele se afastou. Estava ofegante. As mos voltaram para a posio inicial, segurando o rosto 
dela.
        Era isso que eu precisava saber. No era s eu.
Ela balanou a cabea at onde as mos dele permitiam.
        No - disse ela, surpresa com a rouquido da prpria voz. - No era s voc.
        Quer me seguir?
O protesto morreu nos lbios dela antes de conseguir reunir foras para pronunci-lo.
        Tenho uma casa de campo perto daqui. Quatro, cinco quilmetros.
        Eu...
-No diga que no-a voz dele, num sussurro, estava entrecortada, cheia de paixo. Ele apertou mais o rosto dela. - No diga que no.
Ela examinou os olhos dele, depois fez um movimento leve e positivo com a cabea. Ele a soltou imediatamente, deu meia-volta e voltou para o carro com passos largos. 
Ela deixou cair a tampa do tanque na pressa de atarrax-la. Finalmente conseguiu prend-la, deu a volta no carro e entrou. Ela deu partida no motor e ele encostou 
seu carro no dela. Ele olhava para ela como se quisesse se certificar de que ela estava to decidida quanto ele, que no ia desistir e desaparecer na primeira oportunidade. 
Ela sabia que era isso que devia fazer. Mas sabia com a mesma certeza que no faria. Agora no. Hammond no respirou com tranquilidade at o carro dela parar completamente 
ao lado do dele. Ele desceu do seu e foi abrir a porta para ela.
        Cuidado onde pisa, est escuro.
Ele segurou a mo dela e levou-a por um caminho de conchas quebradas at a cabana. Uma pequena luminria na entrada oferecia exatamente a luz necessria para ele 
destrancar o cadeado com a chave que tinha trazido de Charleston. Abriu a porta e levou-a para dentro. Uma senhora que morava ali perto fazia a faxina na casa sempre 
que ele precisava. Tinha combinado que ela iria mais cedo aquele dia. Em vez de cheirar a mofo como uma casa vazia que no era muito usada, a cabana estava com cheiro 
de limpa, como lenis recm-lavados. A pedido de Hammond, ela tambm tinha deixado o condicionador de ar ligado, por isso a temperatura estava fresca e bem agradvel. 
Ele fechou a porta da frente, separando-os da luz do prtico e fazendo com que mergulhassem na mais completa escurido. Ele tinha inteno de ser um bom anfitrio 
e um cavalheiro, de mostrar a casa para ela, de oferecer-lhe algo para beber, de contar mais a seu respeito e de dar-lhe tempo para se acostumar com o fato de estar 
sozinha com ele poucas horas depois de terem se conhecido. Em vez disso, ele a agarrou. Ela correspondeu ao abrao dele e queria seu beijo tambm. Sua boca reagiu 
com paixo s investidas da lngua dele, que acariciava, experimentava e saboreava at ter de parar para recuperar o flego. Ele abaixou o rosto e encostou no pescoo 
dela, enquanto ela punha as mos na cabea dele e enfiava os dedos no seu cabelo. Ele foi beijando o pescoo dela at a orelha.
        Isso  loucura - murmurou ele.
        Total.
        Est com medo?
        Estou.
        De mim? -No.
        Mas devia estar.
        Eu sei, mas no estou.
Os lbios dele rasparam nos dela num beijo que no chegou a ser um beijo.
        Est com medo da situao?
        Apavorada - disse ela quando sua boca se derreteu na dele. Finalmente o beijo terminou, e ele disse:
        Isso  temerrio, imprudente, e...
        Completamente irresponsvel.
        Mas no consigo evitar.
        Nem eu.
        Eu quero muito...
        Eu tambm quero voc - suspirou ela quando as mos dele deslizaram por baixo da camiseta e cobriram seus seios.
Qualquer receio que ele pudesse ter do desejo ser unilateral desapareceu quando ela deixou a cabea cair para trs, oferecendo o pescoo para os lbios dele enquanto 
era acariciada. Ficou sem ar e parou de respirar quando ele se atrapalhou com o fecho frontal do suti, mas deu um suave gemido de prazer quando as pontas dos dedos 
dele encostaram na sua pele nua. As mos dela se moviam nas costas dele. Ele sentiu os dez dedos dela apertando os msculos e explorando as costelas e a espinha. 
As palmas das mos dela rasparam no cinto dele, desceram para as ndegas e o puxaram para dentro dela. Eles se beijaram mais uma vez, um beijo longo, profundo e 
provocante. Ento ele pegou a mo dela outra vez e a puxou atrs dele enquanto tateava no escuro para chegar ao quarto. A casa no era nada luxuosa, mas ele no 
tinha sacrificado todos os confortos. Num quarto pequeno demais, ele tinha enfiado uma enorme cama de casal. Foi em cima dela que os dois caram, unidos bem no centro 
e entrelaados um no outro com o desejo cego e irracional dos novos amantes. Ela estava deitada de lado, de costas para ele. Hammond pensava em alguma coisa adequada 
para dizer, mas descartava as possibilidades antes de estarem formadas. Tudo que vinha  cabea parecia falso, piegas, clich ou uma combinao dos trs. Ele at 
pensou em contar-lhe a verdade. Meu Deus, isso foi incrvel, , Voc  incrvel. Nunca senti isso em toda a minha vida. No quero que esta noite termine nunca. Mas 
ele sabia que ela no ia acreditar em nada disso, por isso no disse nada. O longo e constrangedor silncio ficou ainda mais longo mais constrangedor. Ele acabou 
rolando de lado e acendeu o abajur da mesa-de-cabeceira. Ela reagiu  luz, puxando os joelhos para mais perto do peito, ficando mais distante e intocvel.
Desanimado, Hammond sentou-se na cama. Sua camisa estava amassada e desabotoada, o zper da cala aberto, mas ainda vestia as duas peas. Ele se levantou e tirou 
tudo, menos a cueca. Quando olhou de novo para a cama, viu que ela estava de costas e olhando para ele, com os olhos arregalados e apreensivos.
        Este momento  constrangedor. Podemos dizer isso, no podemos? Hammond sentou-se com cuidado na beira da cama.
        Podemos, sim.
Ela umedeceu os lbios, apertou-os para dentro, desviou os olhos de Hammond e balanou a cabea.
        Voc est pensando numa forma educada de livrar-se de mim agora?
        O qu? - perguntou ele baixinho. - No. No - ele estendeu a mo para acariciar o cabelo dela, mas deixou-a cair antes de toc-la. Eu estava pensando numa 
maneira de convenc-la a passar a noite comigo sem parecer um completo idiota.
Ele percebeu que ela gostara daquilo. Os olhos dela encontraram os dele novamente. Ela sorriu com timidez. Ainda afogueada por causa do sexo, com os lbios um pouco 
inchados dos beijos, o cabelo despenteado em volta do rosto, roupas mais desarrumadas do que as dele, ela parecia incrivelmente sedutora. Seus seios, livres do suti, 
pousavam macios contra o peito por baixo da camiseta. Mas os mamilos eram bem visveis sob o tecido. Ele comeou a ter uma nova ereo.
        Estou toda desgrenhada - preocupada com a aparncia, ela puxou a saia para cobrir as coxas.
Os dois ignoraram a calcinha largada em cima da colcha no p da cama.
        Posso usar seu banheiro?
         naquela porta - ele se levantou para sair do quarto, para dar mais privacidade para ela. - vou pegar alguma coisa para beber. Voc est com fome?
        Depois de comer todas aquelas porcarias na feira? 65
Ele retribuiu o sorriso dela.
        Que tal gua? Suco? Ch? Um refrigerante? Cerveja?
        gua est bom.
Ele apontou com o queixo para a porta do banheiro.
        Se precisar de qualquer coisa,  s pedir.
        Obrigada.
Ela parecia hesitar em sair da cama enquanto ele continuava no quarto, por isso ele sorriu de novo para ela e deixou-a sozinha. Ainda bem que a faxineira tinha abastecido 
a geladeira com bebidas engarrafadas, inclusive gua. Na cozinha, ele fez um inventrio dos suprimentos. Meia dzia de ovos. Meio quilo de bacon. Pezinhos de minuto 
ingleses. Caf. Creme? No. Torceu para que ela gostasse de caf puro. Suco de laranja? Sim. Uma lata de 200ml de suco de laranja concentrado no congelador. Ele 
raramente tomava caf da manh, a no ser em reunies de trabalho. Mas no campo, onde as manhs de fim de semana eram mais longas e preguiosas, gostava de saborear 
um farto caf da manh bem tarde. Ele cozinhava bem, especialmente algo to bsico quanto ovos com bacon. Talvez pudessem fazer juntos o caf da manh, dividindo 
as tarefas, esbarrando um no outro durante os preparativos. Dando risadas. Beijos. Podiam levar seus pratos para a varanda e comer l. Ele sorriu de pensar na manh 
seguinte.
        Esta manh - corrigiu ele, verificando que horas eram e descobrindo que j passava muito da meia-noite.
O dia anterior tinha sido pssimo. Havia sado de Charleston aborrecido e com raiva, frustrado com muitas coisas. Nada na vida dele tinha dado certo. Nunca, nem 
em um milho de anos, teria adivinhado que um dia to ruim terminaria na cama com uma mulher que poucas horas antes ele nem sabia que existia. E tampouco que seria 
uma experincia to marcante. Ele ainda estava maravilhado com os caprichos do destino quando ouviu a torneira do banheiro fechar. Controlou-se para esperar mais 
dois minutos, sem querer reaparecer rpido demais ou numa hora inoportuna. Ento pegou duas garrafas de gua e voltou para o quarto.
        Alis - disse ele, abrindo a porta com o p descalo -, acho que j  hora de nos apresen...
Ele parou de falar quando ela se virou rapidamente da penteadeira, com o telefone na mo. Ela desligou na mesma hora e gaguejou. Espero que no se importe.
Na verdade ele se importava, sim. E se importava muito. No de ela ter usado seu telefone sem antes pedir. Mas de ter algum na vida que era suficientemente importante 
para ela ter de ligar de madrugada, minutos depois de fazer amor com ele. Hammond ficou espantado ao perceber que aquilo tinha tanta importncia para ele. Tinha 
brincado na cozinha, fantasiando o caf da manh com ela, contando os minutos para poder voltar no momento adequado. Agora ele estava l parado, com cara de bobo 
e uma semi-ereo espetando a cueca. Tudo isso enquanto ela dava um telefonema para outra pessoa. Ele deixou as garrafas de gua na mesa-de-cabeceira. Ele se sentia 
burro, ridculo, sentimentos estranhos para Hammond Cross. Em geral muito confiante e dominando qualquer situao, a sensao naquele momento era da mais completa 
estupidez, e ele detestou isso.
        Voc quer privacidade? - perguntou secamente.
        No, tudo bem - ela ps o fone no lugar. - No consegui completar a ligao.
        Sinto muito.
        No era importante - ela cruzou os braos e depois, nervosa, deixou-os cair ao lado do corpo.
Se no era importante, ento por que diabos estava tentando telefonar para algum a essa hora da noite?, ele queria perguntar, mas no perguntou.
        Tudo bem se eu vestir isso?
        O qu? - perguntou ele distrado.
Ela passou a mo pela frente da velha camiseta desbotada. Ele reconheceu a camiseta de uma festa da fraternidade dos tempos de faculdade. Chegava  metade das coxas 
dela.
        Ah, claro, tudo bem.
        Encontrei-a na cmoda no banheiro. No estava bisbilhotando. S...
        No se preocupe - o tom lacnico traduzia um discurso inteiro. Ela cerrou os punhos ao lado do corpo e depois abriu e balanou os dedos.
        Olha, talvez seja melhor eu ir embora agora. Ns dois ficamos empolgados demais. Acho que a volta na roda-gigante nos subiu  cabea - a tentativa de fazer 
graa caiu no vazio. - De qualquer maneira, foi... - interrompeu ela a frase e olhou para a cama.
Ela ficou com o olhar parado provavelmente mais tempo do que pretendia. Os lenis amarfanhados eram uma lembrana comovente do que tinha acontecido ali, do quanto 
tinha sido envolvente e gratificante. Palavras sussurradas sem censura pareciam ecoar de volta para eles naquele momento. Quando estava no banheiro, ela havia se 
lavado. Hammond sentia o cheiro de gua e sabo na pele dela. Mas ele no tinha se lavado. Cheirava a sexo. Tinha o cheiro dela.
-vou vestir a minha roupa e ir embora - disse ela, apressada, tentando passar por ele, mas Hammond estendeu o brao e segurou-a pela cintura. Ela parou, mas no 
virou de frente para ele. Ficou olhando para a porta.
        Voc pode pensar o que quiser de mim, mas quero que saiba que... que eu no costumo fazer isso, nem de vez em quando.
        No importa - disse ele suavemente.
Ento ela olhou para ele, virando apenas a cabea.
        Importa para mim.  importante para mim que voc saiba disso. Movendo-se com cuidado, ele ps as mos nos ombros dela e fez
com que virasse de frente para ele.
        Voc acha, honestamente, que foi s uma volta na roda-gigante que nos trouxe at aqui? Como se quisesse evitar o tremor no lbio inferior, ela o mordeu 
e balanou a cabea, indicando que no.
Ele a abraou e puxou-a mais para perto. S isso. E ficou assim um longo tempo, com o rosto apoiado na cabea dela, os dedos dos ps tocando nos dela, compartilhando 
o calor dos corpos. Descala, engolida pela camiseta dele, ela parecia menor e mais delicada do que antes. Ele se sentia viril e protetor quando a abraava daquele 
jeito. Na verdade, desde que a conhecera, tinha se sentido como um maldito Conan.
Deu uma risadinha quando pensou nisso. Ela levantou a cabea do peito dele.
        O que foi?
        Nada. S estava pensando que voc me faz sentir muito bem ento o sorriso dele foi substitudo pelo cenho franzido de preocupao. - E voc? Voc est bem?
Ela inclinou a cabea, confusa.
        Estou.
        Quero dizer... em relao a... voc sabe.
        Oh - ela desviou o olhar e ficou encarando o pomo-de-ado dele. - Sim. Obrigada por ser responsvel.
Ele mantinha uma caixa de camisinhas na gaveta da mesa-de-cabeceira. Mas, de todas, aquela tinha sido a mais difcil de abrir e de colocar. Envergonhado com sua 
briga desajeitada com o diabo da coisa, num momento em que desejava ser o mais amvel, ele resmungou:
        Na hora H.
Ela o surpreendeu pondo as mos no peito dele e fazendo carinho de leve.
        Para mim tambm - murmurou ela bem baixinho.
O desejo se manifestou num gemido surdo quando ele segurou o queixo dela e inclinou sua cabea para beij-la. A paixo reacendeu. Pegou fogo. Ardeu. Mais quente 
do que antes.
Os sussurros incrementavam a intimidade.
        Voc gosta disso.
        Gosto.
        Violento demais? -No.
        Eu nem percebi.
        Nem eu.
        Sinto muito.
        No tem importncia.
        Mas se te machuquei...
        Voc no me machucou. E no vai me machucar.
        Voc se importa se eu... -No.
-Jesus. Olhe s para voc. Isso  lindo. Voc j est...
        Estou.
        Ento...
        Oh...
        Molhada.
Perdoe-me, sinto muito. Sente muito? Bem, quero dizer... voc... No se desculpe. Deixe-me tocar em voc. No, deixe que eu toco em voc.
Steffi dirigia o carro, e Smilow e ela chegaram ao hospital Roper em tempo recorde.
        Quantas pessoas eles disseram? - perguntou ela enquanto atravessavam rapidamente o estacionamento da emergncia do hospital, dirigindo-se ao prdio.
Steffi tinha perdido os detalhes quando saiu da sala de conferncia para pegar o carro. Apanhara Smilow na entrada principal do Charles Towne Plaza.
        Dezesseis. Sete adultos e nove crianas. Eles pertencem a um coro de igreja de Macon, na Gergia, que fazia uma turn. Almoaram cedo no restaurante do 
hotel antes de sair para um passeio a p pelo Centro da cidade. Retornaram duas horas depois, quando as crianas comearam a passar mal.
        Dor de estmago? Vmitos? Diarreia?
        Todas as respostas acima.
" -A gente nunca esquece de uma intoxicao alimentar quando se teve uma. Eu tive uma vez. Sopa de creme de cogumelos de uma delicatessen famosa.
        Rastrearam at um molho de carne marinada que usaram numa pizza que as crianas comeram. Tambm foi usado na pasta especial.
Quase correndo, eles entraram no pronto-socorro do hospital. Para uma noite de sbado, a sala de espera estava relativamente calma, mas havia alguns pacientes. Um 
policial uniformizado vigiava um homem algemado. O homem tinha uma toalha de banho ensanguentada enrolada na cabea como um turbante. Estava de olhos fechados e 
gemendo, enquanto a mulher dele dava respostas lacnicas para as perguntas padronizadas da enfermeira sobre seu histrico mdico. Uma jovem me e um jovem pai tentavam 
em vo acalmar o beb que chorava. Havia um homem mais velho sentado sozinho, chorando com um leno no rosto, sem motivo aparente. Uma mulher estava inclinada para 
a frente, quase dobrada em duas na cadeira, com a cabea quase encostando no colo. Parecia dormir. Ainda era um pouco cedo para as emergncias srias comearem a 
chegar. Smilow e Steffi no prestaram ateno nas pessoas da sala de espera e foram diretamente para a mesa de admisso, onde Smilow se apresentou para a enfermeira, 
mostrou seu distintivo e perguntou se as pessoas transportadas do Charles Towne Plaza ainda estavam na sala de emergncia ou se tinham sido levadas para os quartos.
        Eles ainda esto aqui - disse a enfermeira.
        Preciso v-los agora mesmo.
        Bem, eu... vou procurar o mdico. Sentem-se, por favor. Nenhum dos dois sentou. Steffi comeou a andar de um lado para
outro.
        O que no entendi foi como seus homens deixaram passar a discrepncia. Eles no tinham de verificar o nmero de hspedes registrados comparando com o nmero 
de pessoas que interrogaram?
        D-lhes uma colher de ch, Steffi. As pessoas se desgarraram aquele tempo todo, depois de terem ficado horas fora do hotel. Estamos falando de centenas 
de hspedes registrados, alm dos empregados que trocavam de turno. Seria quase impossvel obter uma contagem exata.
        Eu sei, eu sei - disse ela com impacincia. - Mas depois da meianoite? Quando todo mundo deve estar se retirando para os quartos? Eu esperaria que um deles 
tivesse a ideia de fazer uma nova contagem. Ou ser que estavam entretidos demais com o filme deles?
        Estavam de mos cheias - disse ele meio irritado.
        , tocando punheta.
Smilow era o primeiro a criticar se um investigador criminal fizesse besteira. Mas se a crtica partisse de algum de fora, isso era outra histria. Os lbios dele 
ficaram finos e esticados de raiva.
        Olha, peo-lhes desculpas - disse Steffi num tom de trgua. No queria ter dito isso.
        , mas disse. Deixa que eu me preocupo com a coleta de provas, est bem? Steffi sabia quando era preciso recuar. No seria nada bom deixar Smilow contra 
ela. Apesar da nova orientao da viva, ela pretendia procurar o procurador municipal de justia, Monroe Mason, e pedir para ser nomeada promotora-chefe daquele 
caso. E quando conseguisse, ia precisar do apoio do departamento de polcia. Especificamente de Smilow.
Ela deu a Smilow alguns segundos para se acalmar.
        Acho que essas pessoas com intoxicao alimentar tambm no vo saber nada. Elas foram trazidas para o hospital antes da hora estimada do assassinato de 
Pettijohn.
-Algumas s apresentaram os sintomas mais tarde - argumentou ele. - O gerente do hotel confessou que tirou algumas delas s escondidas do hotel por volta das oito 
horas da noite.
        Por que ele no contou isso para voc?
        Porque seria propaganda negativa. Ele parecia mais preocupado com a intoxicao alimentar e com o que representa para sua cozinha nova em folha do que com 
a descoberta do corpo de Pettijohn na sute da cobertura.
        Vocs esto me procurando?
Steffi e Smilow viraram para trs. O mdico era to jovem que ainda tinha acne, mas os olhos atrs dos culos de armao metlica pareciam velhos, cansados e privados 
de sono. O colete verde e o jaleco branco estavam amassados e com manchas de suor. O crach de identificao com foto dizia RODNEY C. ARNOLD.
Smilow apresentou novamente seu distintivo.
        Preciso fazer umas perguntas para as pessoas do Charles Towne Plaza que foram trazidas para c com intoxicao alimentar.
        Perguntas sobre o qu?
        Elas podem ser testemunhas de um assassinato que aconteceu esta tarde no hotel.
        No hotel novo? Esto brincando.
        Temo que no.
        Esta tarde? Quer dizer, ontem?
-At o mdico-legista poder dar uma hora mais definida, a nossa estimativa  que a vtima morreu entre quatro e seis horas da tarde.
O residente deu um sorriso triste.
        Detetive, a essa hora, ontem, esse pessoal estava sofrendo de diarreia aguda, ou vomitando as vsceras, ou as duas coisas ao mesmo tempo. A nica coisa 
que os olhos dessas pessoas testemunharam foi o fundo da comadre. Quando tinham sorte, e conseguiam pegar a comadre em tempo, e eu soube que algumas no tiveram 
essa sorte.
        Compreendo que elas estavam passando muito mal...
        Estavam no. Esto.
Steffi se adiantou e se identificou.
        Dr. Arnold, acho que o senhor no est entendendo que  muito importante interrogar essas pessoas. Algumas ocupavam quartos no quinto andar, onde ocorreu 
o crime. Uma delas pode ter uma informao vital e nem saber disso. A nica maneira de descobrir  falando com elas.
        Tudo bem - disse ele, dando de ombros. - Apresentem-se no balco de admisses amanh. Tenho certeza de que algumas ainda estaro aqui, mas a maioria ter 
ido para os quartos.
Ele deu meia-volta e j ia embora.
        Espere um minuto - disse Steffi. - Precisamos falar com elas agora.
        Agora? - O dr. Arnold olhou para os dois com expresso de incredulidade. - Sinto muito. No pode ser. Alguns ainda esto sofrendo muito com problemas gastrintestinais 
agudos. Agudos. Sofrendo muito - repetiu ele, separando as palavras para dar mais nfase.
"Esto sendo hidratados com soro na veia. Os que tiveram a sorte de superar a crise esto descansando e, depois da provao que passaram por causa dos intestinos, 
eles bem que precisam. Voltem amanh. Possivelmente no incio da tarde. De preferncia  noite. At l...
         tempo demais.
        Mas tem de ser assim - afirmou o mdico. - Porque ningum vai conversar com nenhum deles esta noite. Agora, se me derem licena... Os pacientes estio me 
esperando.
Dito isso, ele deu meia-volta e passou pelas portas que separavam a entrada do hospital das salas de exames.
        Droga - disse Steffi. - Vai deix-lo se safar assim?
        Voc quer que eu invada a sala de emergncia e comece a perturbar pacientes que esto sofrendo... et cetera? Por falar em propaganda negativa... - ele retornou 
ao balco da enfermeira e pediu para ela dar seu carto para o dr. Arnold. - Se qualquer um dos pacientes comear a melhorar, diga para ele me ligar. A qualquer 
hora.
        No acredito que o doutor esteja disposto a ajudar - observou Steffi quando Smilow voltou para o lado dela.
        Eu tambm no. Ele parece estar gostando de ser o ditador do seu pequeno reino.
Steffi olhou para ele com um sorriso malicioso.
        E voc pode se identificar com isso.
        E voc, no? - devolveu ele. - Pensa que no sei por que voc quer tanto este caso? Smilow era um excelente detetive por causa da sua sensibilidade. Mas 
s vezes essa percepo o tornava uma companhia desagradvel.
        Temos cinco minutos? Preciso de cafena - ela foi at uma mquina e enfiou moedas nela. - Quer uma coca?
        No, obrigado.
Ela tirou a tampinha da lata de refrigerante.
        Bem, encare isso da seguinte forma. Se esse pessoal de Macon est to doente assim, voc provavelmente no ia mesmo conseguir arrancar-lhes nada til ou 
confivel deles. Sofrendo de intoxicao alimentar, como podiam observar alguma coisa ontem  tarde? No far mal nenhum voltar aqui amanh e conversar com eles, 
mas acho que acabar sendo um beco sem sada para voc.
        Pode ser - ele se sentou numa cadeira vaga, apoiou os cotovelos nos joelhos e ps os dois dedos indicadores esticados sobre os lbios. Steffi sentou-se 
na cadeira ao lado da dele. Ele recusou um gole da bebida dela com um gesto. - Uma das regras da investigao criminal  que algum viu alguma coisa.
        Voc acha que as pessoas esto sonegando informao?
        No. Elas simplesmente no sabem que o que viram  importante.
Ambos ficaram calados algum tempo, perdidos em seus pensamentos. Finalmente, Steffi perguntou:
        O que voc acha que aconteceu naquela sute da cobertura?
        Procuro no elaborar teoria nenhuma. Pelo menos no to cedo. Se fizesse isso, poderia desfigurar a investigao. Estaria procurando pistas para comprovar 
a minha ideia, ignorando as pistas que levam  soluo verdadeira.
        Pensei que todos os policiais se apoiavam em palpites.
        Palpites, sim. Mas os palpites se baseiam em pistas. Ficam mais fortes ou mais fracos  medida que voc vai avanando, dependendo das provas que voc encontra, 
que podem confirmar ou destruir o seu palpite - ele se recostou na cadeira e deu um profundo suspiro, deixando atipicamente seu cansao transparecer. - Tudo que 
realmente tenho neste momento  um homem que muita gente gostaria de ver morto.
        Inclusive voc.
Os olhos dele ficaram frios.
        Estaria mentindo se dissesse que no. Eu detestava aquele filho-da-me e no escondia isso de ningum. Voc, por outro lado...
-Eu?
        Pettijohn tinha muita influncia na poltica local. A procuradoria municipal de justia no era exceo. Com Mason prestes a se aposentar...
        Isso ainda no se tornou pblico.
        Mas logo ser. Se ele se recusar a tentar a reeleio, e com o segundo no comando lutando contra um cncer de prstata...
        Wallis tem cerca de seis semanas.
        Ento, em novembro o cargo ficar vago. Pettijohn era famoso por pendurar cenouras como essa na frente dos ambiciosos e corruptos. Pense s que maravilha 
seria para um vigarista como ele ter uma coisinha doce e jovem como voc exercendo a funo de promotor pblico.
        No sou doce. Quanto  juventude, os quarenta pairam ameaadoramente prximos.
         estranho voc se referir a isso e no  parte da ambio e da corrupo.
-Admito a primeira e nego a segunda. Alm do mais, se Pettijohn fosse o tapete vermelho para me levar ao cargo, por que eu ia mat-lo?
        Boapergunta-disse ele, analisando Steffi com um olho fechado. -Voc  muito besta, Smilow-balanou ela a cabea e deu risada.
        Mas estou entendendo onde quer chegar. Considerando todas as maquinaes de Pettijohn, a lista de suspeitos no acaba mais. 76
        O que no facilita em nada o meu trabalho.
        Talvez voc esteja se esforando demais - com ar pensativo, ela tomou um gole do refrigerante. - Quais so os dois motivos mais comuns para se cometer um 
assassinato?
Ele sabia a resposta, que apontava para uma pessoa.
        A sra. Pettijohn?
        O sapato serve direitinho, no serve? - Steffi levantou o dedo indicador. - Ela ficou cheia das traies flagrantes do marido. Mesmo sem am-lo, seu comportamento 
de mulherengo a humilhava.
        O pai dela fez a mesma coisa com a me dela.
        O que poderia explicar o segundo tiro, j que o primeiro deve t-lo matado - ela levantou o segundo dedo. - Ela recebe rios de dinheiro com Lute Pettijohn 
morto. Um desses motivos j seria suficiente. Combinados ento...
Ela ergueu os ombros como se a concluso falasse por si mesma. Depois de pensar um pouco, ele franziu a testa.
         quase bvio demais, no ? Alm disso, ela tem um libi. Steffi bufou com desprezo.
        A servaleal da famlia? Sim, srta. Scarlett. No, srta. Scarlett. Por que no me d outro tapa, srta. Scarlett?
        Sarcasmo no lhe cai bem, StefE.
        No estou sendo sarcstica. O relacionamento delas reflete uma atitude arcaica.
        No para a sra. Pettijohn. E tenho certeza de que para Sarah Birch tambm no. Elas so muito dedicadas uma  outra.
        Enquanto a srta. Davee for a patroa. Ele balanou a cabea.
        Voc teria de ser criada l para entender.
        Graas a Deus que no fui. No Meio-Oeste...
        Onde as pessoas so mais esclarecidas e todos os homens so criados iguais?
        Foi voc que disse, Smilow, no eu.
        Alm de sarcstica, condescendente e dona da verdade tambm. Se voc nos despreza tanto, e ao que considera nosso comportamento arcaico, por que se mudou 
para c?
        Por causa da oportunidade que havia aqui. "
        Para corrigir todos os nossos erros? Para tornar mais esclarecido esse pobre povo atrasado do Sul? Ela olhou para ele de cara feia.
        Ou voc inveja o nosso modo devida? - Provocando ainda mais, ele acrescentou: - Tem certeza de que no sente inveja de Davee Pettijohn?
Steffi formou com os lbios, silenciosamente, vai se foder, Smilow! Ela ento terminou de beber o refrigerante e levantou-se para jogar a lata vazia num recipiente 
de lixo reciclvel de metal. O barulho que fez assustou todo mundo na sala de espera, menos a mulher adormecida.
        No suporto mulheres como Davee Pettijohn - disse Steffi. Aquela afetao de madame sulista bvia demais me d vontade de vomitar.
Ele apontou para a porta. Os dois saram para o ar quente e mido. O cu a leste estava adquirindo um tom rosa-acinzentado, anunciando
a aurora.
Smilow refletiu um pouco e disse:
        Concordo que a sra. Pettijohn faz disso uma arte.
        O que estou achando  que ela  suficientemente habilidosa nessa arte para us-la a favor da impunidade.
        Seu corao  frio, Steffi.
        Olha quem fala. Se voc fosse um nativo, seu nome seria Gelo Flui nas Veias.
         verdade - disse ele, sem se ofender. - Mas no estou to certo quanto a voc.
Ela chegou  porta do motorista, mas no entrou no carro. Em vez disso, parou e olhou para ele por cima da capota.
        Quanto a mim, o qu?
        Ningum questiona a sua ambio, Steffi. Mas ouvi dizer que o trabalho no  a nica coisa que est mantendo seu sangue fervendo estes dias.
        O que foi que voc ouviu?
        Boatos - disse ele.
        Que tipo de boatos?
        Apenas boatos - disse ele novamente, com seu sorriso gelado.
Loretta Boothe, que estava toda curvada, levantou a cabea e observou Rory Smilow e Stefanie Mundell atravessando o estacionamento e chegando a um carro onde pararam 
para conversar antes de entrar nele e partir. Tinham entrado na emergncia do hospital com uma exploso de energia e determinao, que Loretta sabia que ambos possuam 
abundantemente. Parecia que sugavam todo o oxignio da atmosfera. No gostava de nenhum dos dois. Mas por motivos diferentes. Tinha uma rixa pessoal contra Rory 
Smilow havia alguns anos. Quanto a Steffi Mundell, s conhecia a reputao dela. A assistente do promotor pblico era considerada por todos uma megera perfeita, 
que se achava dona da verdade. Loretta no sabia por que no tinha falado com eles, ou se identificado. Alguma coisa fez com que mantivesse a cabea abaixada, o 
rosto escondido, fingindo estar dormindo. No que um deles desse a mnima para ela, de qualquer maneira. Smilow olharia para ela com desprezo. Steffi Mundell possivelmente 
no ia reconhec-la, ou ento, se reconhecesse, no se lembraria do seu nome. O mais provvel  que eles dissessem qualquer coisa razoavelmente educada e depois 
a ignorassem. Ento, por que no tinha dito nada? Devia ter sido a sensao de superioridade de poder ouvir toda a conversa sem ser vista ou observada, primeiro 
com o mdico, depois entre eles. Naquela noite mesmo, antes de comear a sentir nuseas e ter de ir para o pronto-socorro do hospital, tinha sabido do assassinato 
de Lute Pettijohn pela televiso. Tinha assistido  entrevista coletiva de Smilow. Ele havia se conduzido com sua habitual eficincia e postura inabalvel. Steffi 
Mundell j estava se intrometendo onde no era querida nem necessria, ultrapassando suas fronteiras, no que diziam que ela era muito boa. Loretta deu uma risadinha. 
Fazia bem ao seu velho corao v-los correndo atrs de pistas e seguindo as que acabavam num beco sem sada. A investigao no podia estar indo muito bem se as 
nicas testemunhas possveis eram as pessoas com intoxicao alimentar. De uma coisa tinha certeza: Smilow no tinha um suspeito vivel, seno no estaria perseguindo 
pacientes na emergncia do hospital. Loretta olhou para o relgio na parede. Estava esperando havia mais de duas horas, e piorava a cada minuto. Esperava que o socorro 
viesse logo.
Para passar o tempo e distrair a mente dos seus problemas pessoais, ela ficou olhando atravs da janela de vidro laminado para o lugar, agora vazio, onde o carro 
deles estava estacionado. Rory Smilow e Steffi Mundell. Cristo, que combinao perigosa! Que Deus ajude o pobre criminoso quando eles o pegarem.
        O que voc est fazendo aqui?
Loretta virou-se ao ouvir a voz da filha. Bev estava diante dela, com as mos nas cadeiras, olhar crtico, nada feliz de v-la. Ela tentou sorrir, mas sentiu os 
lbios secos rachando quando os esticou sobre os dentes.
        Oi, Bev. S disseram agora para voc que eu estava aqui?
        No, mas eu estava ocupada e s pude vir agora.
Bev era enfermeira da UTI, mas Loretta achava que ela podia ter pedido para algum substitu-la por cinco minutos, se quisesse.  claro que ela no quis.
Nervosa, Loretta molhou os lbios descascados com a lngua.
        Achei que podia vir at aqui para ver... Podemos tomar caf da manh juntas.
        Quando meu turno terminar, s sete, estarei completando doze horas. Vou para casa dormir.
-Oh.
Aquilo no estava indo como Loretta esperava, nem tinha muita esperana de que funcionasse mesmo. Ficou mexendo nos botes da blusa suja.
        Voc no veio at aqui para tomar caf da manh comigo, veio?
        a voz de Bev possua um tom imperativo e acabou chamando a ateno da enfermeira da recepo. Loretta viu que ela olhou para as duas curiosa. - Voc ficou 
sem dinheiro, no podia mais comprar sua bebida e veio aqui me pedir esmola.
Loretta abaixou a cabea para evitar o olhar furioso e inclemente da filha.
        No bebo h dias, Bev. Juro que no.
        Estou sentindo o cheiro em voc.
        Estou doente.  verdade, eu...
        Ah, poupe-me disso - Bev abriu a carteira e tirou uma nota de dez dlares. Mas no a deu para Loretta. Forou-a a estender a mo para peg-la, acentuando 
a humilhao. -No me incomode no trabalho novamente. Se voltar aqui pedirei para a segurana do hospital lev-la para fora. Entendeu?
Loretta concordou com a cabea, engolindo seu orgulho e a vergonha. As solas de borracha do sapato de Bev guincharam no piso quando ela deu meia-volta para ir embora. 
Loretta ouviu as portas do elevador se abrindo, levantou a cabea e chamou, com a voz entrecortada.
        Bev, no...
As portas se fecharam antes de Loretta terminar a frase, mas s depois de notar que Bev desviou o olhar, como se no suportasse ver a prpria me.
Simplesmente no fazia sentido. Inesperadamente, completamente ao acaso, voc conhece algum.  como receber um presente sem motivo. A atrao  instantnea, forte 
e mtua. Vocs gostam da companhia um do outro. Riem, danam, comem milho cozido e tomam sorvete. Fazem sexo, e  de um jeito que voc conclui que antes no tinha 
a menor ideia do que era sexo. Adormecem nos braos um do outro e se sentem mais satisfeitos do que nunca. Ento voc acorda sozinho. Ela foi embora. Nem at logo, 
nem adeus. Nem um hasta la vista, baby. Nada. Hammond tamborilava na direo do carro, com raiva dela, mas com mais raiva dele mesmo por se importar. Por que se 
importaria de ela ter fugido? Ei, ele teve uma noite de sbado sensacional. Fez um sexo timo com uma estranha linda, que convenientemente foi para a cama com ele, 
e depois, mais conveniente ainda, desapareceu, sem nenhuma cobrana. Programa de sonho, certo? No podia ser melhor. Pergunte para qualquer homem solteiro qual  
sua fantasia principal, a nmero um, e ele dir que  essa. Ento aceite tudo do jeito que foi, seu idiota, ele se repreendeu. No d importncia demais. E no tenha 
lembranas melhores do que o que realmente aconteceu.
Mas no estava imaginando que tinha sido melhor do que realmente foi. Foi fantstico, e a lembrana era exatamente essa. Xingando, ele desviou de um motorista que 
punha  prova a sua pacincia, dirigindo devagar demais. Hoje tudo era irritante. Desde que acordara aquela manh, andava descarregando sua decepo e frustrao 
nos objetos inanimados. Primeiro na escrivaninha, quando deu nela uma topada com o dedo do p, pulando da cama e correndo para a sala da cabana, com a esperana 
frentica de v-la mexendo na cozinha  procura de um pote para servir o cereal, ou folheando uma revista na sala de estar, ou sentada na cadeira de balano na varanda, 
vendo o rio fluir languidamente enquanto bebia caf e esperava Hammond acordar. As fantasias dele tinham adquirido o brilho sem foco dos comerciais de carto-postal. 
Mas no passavam disso mesmo... fantasias. Porque no havia ningum na sala de estar e na cozinha, o carro dela no estava mais l e a nica ocupante da cadeira 
de balano na varanda era uma aranha que se empenhava em tecer uma teia que ia de um brao a outro, cobrindo o assento. Sem se importar de estar nu, ele espantou 
a aranha e sentou-se na cadeira de balano, tirando o cabelo da testa com os dez dedos, gesto de um homem desesperado,  beira de perder completamente o controle. 
A que horas ela fora embora? Que horas eram agora? H quanto tempo tinha ido? Talvez ela fosse voltar. Talvez ele estivesse se preocupando  toa. Por meia hora ele 
se iludiu, acreditando que ela havia sado para comprar sonhos e manteiga. Ou creme para o caf. Ou o jornal de domingo. Mas ela no voltou. Depois de um tempo, 
ele cedeu a cadeira de balano para a aranha e entrou na casa. Quando tentou fazer caf, derramou borra de caf em cima do aparador. Furioso, ele rachou o bule de 
vidro e acabou jogando a cafeteira inteira no cho, que se espatifou e espalhou a gua que ele tinha posto para ferver. Havia vasculhado a casa toda  procura de 
alguma coisa que ela podia ter deixado ou esquecido, torcendo para encontrar um carto de apresentao ou, melhor ainda, um bilhete. No achou nada. No banheiro, 
tinha inspecionado o cesto de papel embaixo da pia, mas no havia nada alm do saco plstico descartvel. Ao levantar, bateu com a cabea na porta aberta do armrio. 
Com raiva, Hammond bateu a porta com fora e xingou com mais ferocidade ainda porque espremeu o dedo quando fez isso. Finalmente, apesar da cama ser a lembrana 
mais marcante da presena dela, ele se deitou com o brao dobrado em cima dos olhos, fazendo fora para recuperar o controle. O que havia de errado com ele? Ficou 
pensando. Ningum que o conhecia teria reconhecido Hammond aquela manh, andando nu e com a barba por fazer pela casa, sem dar a mnima, com a aparncia e o comportamento 
de um louco, um luntico perigosamente desequilibrado. Hammond Cross, agindo como um imbecil, como um adolescente com dor-de-cotovelo. O nosso Hammond Cross? Voc 
deve estar brincando! Espere um minuto, voc disse dor-de-cotovelo? Lentamente ele tirou o brao de cima do rosto e virou para o travesseiro dela. Ps a mo na depresso 
formada pela cabea dela. Aos pouquinhos foi ficando de lado, segurou o travesseiro contra o peito e enfiou a cara nele, aspirando profundamente o perfume dela. 
Foi tomado pelo desejo, mas no era sexo. Tudo bem, era sexo sim, mas no s sexo. No era um teso comum. Tinha sentido esse milhares de vezes. Era capaz de reconhecer. 
Aquilo era diferente. Mais profundo. Mais envolvente. Ele estava dominado por uma... necessidade de estar com ela.
        Merda - sussurrou ele. Quer prestar ateno no que voc est pensando? Necessidade de estar com ela?
Rolou na cama e ficou de costas de novo, olhou para o teto e, desolado, reconheceu que no conhecia uma palavra que descrevesse o que estava sentindo. Era estranho 
para ele. Nunca sentira isso antes, como  que podia dar um nome? S sabia que era abrangente e muito debilitante, que nunca se sentira assim antes, apesar de ter 
estado com muitas mulheres lindas, cativantes e sensuais. Da em diante seus pensamentos vagaram da sua histria sexual para a dela. E foi ento que se lembrou do 
telefonema. Franziu a testa e olhou para o telefone sobre a mesa do outro lado do quarto. Quando a surpreendera usando o aparelho, ela parecera assustada e culpada. 
Para quem estava telefonando? Subitamente ele pulou da cama. Com o corao aos saltos, inclinou-se sobre o telefone e passou o dedo pelos botes emborrachados no 
painel. Nem tinha certeza se aquele modelo tinha aquilo que procurava, mas ento, sim!, l estava. Auto Redial, rediscagem automtica.
Hesitou apenas um segundo, e apertou o boto. O telefone emitiu uma srie de tons e discou automaticamente o nmero, que apareceu na mesma hora no mostrador. Ele 
pegou um lpis e o nico papel que tinha ao seu alcance - o exemplar da ltima temporada da Sports Illustrated-, edio de trajes de banho. Escreveu o nmero do 
telefone na barriga da menina da capa.
        Clnica Ladd.
Hammond no sabia o que esperar e, depois de tocar duas vezes, quando a sua ligao foi atendida por uma voz feminina bem profissional, ele foi pego desprevenido.
        Perdo?
        O senhor ligou para a clnica Ladd?
        Uh... Eu... devo ter discado o nmero errado - ele repetiu o nmero que tinha rabiscado na revista.
        Est correto. Este  um servio de recados. O senhor queria marcar uma hora? Sem saber o que dizer, ele respondeu:
        Uh, queria.
        Seu nome e nmero do telefone onde possa ser encontrado, por favor.
        Sabe, pensando bem, vou esperar e ligar de novo no horrio comercial.
Ele desligou rapidamente, mas ficou muito tempo l sentado, na beirada da cama, imaginando que clnica seria aquela, e por que ela havia telefonado para l no meio 
da noite. Tinha passado uma agenda inteira de nomes e rostos no seu banco de memria. Convivia socialmente com diversos mdicos. Era scio de dois clubes de campo, 
onde mdicos de todas as especialidades se acotovelavam. Mas no se lembrava de jamais ter encontrado um dr. Ladd. Mas ser que tinha conhecido a mulher do dr. Ladd? 
Ser que conhecia intimamente a mulher do dr. Ladd? Irritado com essa possibilidade triste mas muito concreta, esforou-se para levantar da cama e tomar uma chuveirada. 
No que uma ducha quente significasse alguma coisa. No que estivesse se sentindo culpado, precisando de uma limpeza. Se ela era casada e tinha mentido sobre isso, 
a culpa no era dele. Certo? Certo. Depois de se vestir, ele foi se arrastando at a cozinha, onde tomou duas xcaras de caf desidratado, congelado e descafeinado. 
Forou-se at a comer metade de um pozinho, mastigando e ruminando em sincronia. Ela disse que no era casada, mas que diabos, como podia acreditar numa mulher 
que nem tinha dito seu nome para ele? Por Deus, ele nem sabia o nome dela! Ela contou uma poro de coisas. Por exemplo, que no costumava ir para a cama com homens 
que acabava de conhecer. Nem casual, nem habitualmente. Essas eram as palavras exatas? Mas como ele ia saber se isso era verdade? Como saber se ela no era uma mentirosa 
compulsiva e uma vadia, que por acaso era casada com um pobre-diabo com diploma de mdico? Ela podia ser uma esposa volvel que tinha trado o marido tantas vezes 
que ele no se surpreendia mais com telefonemas no meio da noite. Quanto mais Hammond pensava, mais mal-humorado ficava.
Enquanto arrumava a cozinha ele tinha olhado para o relgio de parede e se surpreendido ao ver que j eram quase trs horas. Como podia ter dormido tanto? Fcil. 
Eles no pararam de fazer amor... No tinham dormido at quase seis da manh. Ele no pretendia voltar para Charleston at a noite. Tinha planejado passar um domingo 
tranquilo, pescando, ou sentado na varanda, apreciando a paisagem, basicamente sem fazer nada que exigisse pensar muito. Mas ficar na cabana no tinha muita graa. 
Nem pensar. Por isso ele trancou a casa e voltou antes do programado. Agora ele estava atravessando a ponte Memorial e entrando na cidade, e imaginando se ela era 
de Charleston e se tinha voltado para casa por aquele mesmo caminho. E se dessem de cara um com o outro uma noite, numa festa qualquer? Comentariam a noite que passaram 
juntos ou apenas se cumprimentariam como desconhecidos bem-educados e fingiriam que jamais tinham se visto? Isso talvez dependesse de estarem ou no com outras pessoas 
neste momento. Como se sentiria se fosse apresentado ao casal aparentemente feliz, dr. E sra. Ladd, e tivesse de olhar bem nos olhos do marido, apertar a mo dele, 
jogar conversa fora e agir como se no conhecesse intimamente a mulher ao lado dele? Por inmeros motivos, ele esperava que nunca tivesse de enfrentar uma situao 
como essa, mas se tivesse ia se comportar com um grau razovel de compostura. Esperava no ficar parecendo um simplrio. Esperava conseguir dar as costas para ela 
e ir embora. No tinha certeza se podia fazer isso. Era isso que o deixava mais preocupado. Quando tinha de encarar um dilema moral, Hammond normalmente escolhia 
o lado do bem. Fora as brigas normais da infncia, maldades da adolescncia e as farras da faculdade, sua conduta era irrepreensvel. No importava se tinha sido 
amaldioado com uma dose extra de virtude, ou se era apenas covarde, ele costumava seguir as regras. Nem sempre era fcil. Na verdade, o sentido inabalvel que tinha 
de certo ou errado estivera sempre no cerne da maioria dos seus conflitos com amigos e colegas, at com seus pais. Especialmente com o pai. O pai e ele no obedeciam 
as mesmas regras de comportamento. Preston Cross acharia graa dessa perplexidade toda a respeito de uma mulher. Entrando no condomnio onde morava, Hammond se perguntou 
o que teria acontecido se tivesse entrado no quarto segundos antes e ouvido ela dizer ao telefone uma coisa assim: "Querido, j que  muito tarde, resolvi passar 
a noite com a minha amiga. Isto , se voc no se importar. Achei que podia ser perigoso voltar dirigindo, sozinha, a essa hora. Tudo bem, ento, vejo voc de manh. 
Tambm te amo." A porta automtica se abriu e Hammond entrou com o carro na garagem estreita. Mas depois de desligar o motor ele ficou alguns minutos l sentado, 
olhar parado para a frente, avaliando se passaria ou no naquele teste especfico da sua fibra moral. Finalmente, aborrecido com ele mesmo por alimentar especulao 
to sem sentido, ele desceu do carro e entrou na casa pela porta que ligava a garagem  cozinha. Por fora do hbito, foi direto para o telefone checar os recados 
na secretria. Pensou melhor e ignorou o telefone. Haveria pelo menos um recado do seu pai. No estava a fim de recomear o confronto da vspera. No estava a fim 
de falar com ningum. Talvez sasse para velejar um pouco. Ainda faltavam algumas horas para o anoitecer. O barco de dezesseis ps, presente dos pais quando foi 
inscrito como advogado no foro, estava apoitado do outro lado da rua, no City Marina. Por isso tinha comprado a casa naquele condomnio. Era uma caminhada curta 
at a marina. Hoje era um dia perfeito para sair de barco. Podia ajudar a clarear sua cabea. Apressando o passo, ele atravessou a cozinha, passou pelo corredor, 
pela sala de estar, e estava indo para a escada quando ouviu algum enfiando a chave na porta da frente. Mal teve tempo de se virar e Steffi Mundell entrou, com 
um telefone celular na orelha.
        No acredito que eles estejam sendo to rgidos com isso - dizia ela, fazendo malabarismos com as chaves, o telefone, a pasta e uma bolsa, mexendo os dedos 
para cumprimentar Hammond. - Quero dizer, intoxicao alimentar no  exatamente cncer sseo... Bem, avise-me... Sei que no preciso estar a, mas quero estar. 
Voc tem o nmero do meu celular, no tem?... Tudo bem, tchau - ela desligou o telefone e olhou para Hammond, exasperada. - Onde, diabos, voc esteve?
        O que aconteceu com o "oi"?
A colega nunca parava de trabalhar. Numa pasta enorme, ela carregava uma miniatura do escritrio. Quando passou a fazer parte da Procuradoria Municipal de Charleston, 
ela mandou instalar um rastreador da polcia no carro e ouvia as transmisses como os outros motoristas ouviam msica ou entrevistas no rdio. No meio dos outros 
advogados e oficiais de polcia, era piada corrente que, para a promotoria, Steffi era o equivalente a um advogado de defesa que perseguia ambulncias. Ela largou 
seus inmeros pertences numa cadeira, tirou o sapato de salto alto e tirou a blusa de dentro da saia. Abanou a barriga com a fralda da blusa.
        Meu Deus, est muito abafado l fora. Estou pegando fogo! Por que no atendeu o telefone?
        Eu disse que ia para a minha cabana.
        Eu liguei para l. Milhes de vezes.
        Desliguei a campainha.
        Que coisa! Por qu?
Porque eu estava totalmente envolvido com uma mulher e no queria ser perturbado, pensou ele.
        Voc deve ter o radar de um morcego. Acabei de entrar em casa pela porta dos fundos. Como sabia que eu estava aqui?
        No sabia. A sua casa  mais perto da central de polcia do que a minha. Achei que voc no ia se incomodar se eu ficasse aqui esperando at saber de alguma 
coisa.
        Sobre o qu? Com quem voc estava ralando? O que  to urgente?
        Urgente? Hammond? - de frente para ele, com as mos na cintura, primeiro ela pareceu confusa. Depois, sua expresso mudou para profunda incredulidade: - 
Oh, meu Deus, voc no sabe.
        Parece que no.
O drama que ela estava fazendo no impressionou Hammond. Era sempre dramtica.
L se foi o passeio de barco. Ele no queria convidar Steffi para velejar com ele, e era difcil livrar-se dela, especialmente quando ficava agitada daquele jeito. 
Ele subitamente sentiu um cansao enorme.
        Preciso beber alguma coisa. O que voc quer? Ele voltou para a cozinha e abriu a geladeira.
        gua ou cerveja? Ela foi atrs dele.
        No acredito. Voc no sabe mesmo. Voc no ouviu nada. Onde fica essa sua cabana, na periferia da Monglia? No tem televiso l?
        Tudo bem, cerveja.
Ele tirou duas garrafas da geladeira, abriu a primeira e entregou-a para ela. Ela pegou a garrafa, mas continuou olhando para ele como se a cara dele tivesse acabado 
de se desmanchar em feridas purulentas. Ele abriu a segunda cerveja e aproximou o gargalo da boca.
        O suspense est me matando. O que a est deixando to agitada?
        Algum assassinou Lute Pettijohn ontem  tarde na sua cobertura do Charles Towne Plaza.
A garrafa de cerveja no chegou  boca de Hammond. Ele abaixou o brao lentamente, olhando incrdulo para Steffi. Segundos foram se passando.
        Isso  impossvel - disse ele, com a voz rouca.
         verdade.
        No pode ser.
        Por que eu mentiria?
Depois de um tempo imobilizado pelo choque, ele se mexeu. Passou a mo na nuca, onde a tenso j tinha se concentrado. Funcionando no piloto automtico, ele deixou 
a cerveja na pequena mesa de bistr, puxou a cadeira e sentou-se nela. Quando Steffi se sentou na frente dele, ele piscou e conseguiu focaliz-la.
        Voc disse assassinado?
        Assassinado.
        Como? - perguntou ele, com a mesma voz seca. - Como foi que ele morreu?
        Voc est bem?
Ele olhou para ela como se no entendesse mais a lngua e, ento, balanou a cabea, distrado.
        Estou, estou bem. S um pouco... - ele abriu as mos.
        Sem palavras.
        Estupidificado - ele pigarreou. - Como foi que ele morreu?
        Baleado. Dois tiros nas costas.
Ele baixou os olhos para o tampo de granito da mesa e ficou olhando, sem ver, para a condensao que se formava na garrafa de cerveja gelada, tentando assimilar 
a notcia espantosa.
        Quando? A que horas?
        Ele foi encontrado por uma camareira pouco depois das seis.
        Ontem  noite.
        Hammond, no estou gaguejando. . Ontem  noite.
        Desculpe-me.
Ele ouviu Steffi descrever o que a camareira tinha encontrado.
        O ferimento na cabea foi mais do que uma pancada, mas John Madison acha que os tiros o mataram. Naturalmente ele no pode determinar oficialmente a causa 
da morte at terminar a autpsia. Todos os detalhes s sero conhecidos depois disso.
        Voc conversou com o mdico-legista?
        Pessoalmente, no. Smilow me deu as informaes.
        Ento ele est no caso?
        O que voc acha?
         claro que est - resmungou Hammond. - O que ele acha que aconteceu? 93
Nos cinco minutos seguintes, Hammond ouviu Steffi explicar os detalhes conhecidos do caso.
        Achei que a promotoria devia estar acompanhando isso desde o incio, por isso passei a noite com Smilow... por assim dizer - o sorriso malicioso dela pareceu 
grosseiro e fora de propsito. Hammond simplesmente fez que sim com a cabea e gesticulou impaciente para ela continuar. - Eu estava com ele quando ele seguiu algumas 
pistas, as pouqussimas que havia.
        Segurana do hotel?
        Pettijohn morreu sem emitir um som. Nenhum sinal de arrombamento. Nenhum sinal de luta. E podemos eliminar superviso com cmeras. Tudo que temos em vdeo 
 uma trilha sonora montona e gente nua se contorcendo.
        Hein?
Quando ela contou a histria das cmeras de segurana falsas, ele balanou a cabea consternado.
        Cristo! Ele falava tanto daquele sistema, de quanto tinha custado. Que atrevimento do homem! Hammond conhecia bem as caractersticas pessoais desagradveis 
e os negcios inescrupulosos de Lute Pettijohn. Vinha investigando o homem secretamente para o promotor-geral havia seis meses. Quanto mais descobria sobre Pettijohn, 
mais tinha a desprezar e no gostar.
        Alguma testemunha?
        Nenhuma at agora. A nica pessoa no hotel que teve algum contato com ele foi um massagista no spa, e  um beco sem sada - ela ento contou para ele sobre 
o grupo com intoxicao alimentar. Tirando as crianas, h sete adultos que Smilow quer interrogar. Nenhum de ns est muito otimista quanto ao resultado, mas ele 
prometeu me avisar assim que o mdico der sinal verde. Quero estar l.
        Voc est ficando pessoalmente muito envolvida, no est?
        Ser um caso gigantesco.
A afirmao caiu entre os dois como uma luva jogada no cho. A rivalidade no era articulada, mas estava sempre l. Hammond reconhecia humildemente que costumava 
levar vantagem sobre ela, e no porque era mais inteligente. Tinha tirado segundo lugar na turma da faculdade de direito, mas Steffi tirou o primeiro na dela. O 
que os distinguia eram suas personalidades. A dele representava uma grande vantagem para ele, mas a de Steffi funcionava contra ela. As pessoas no reagiam bem  
sua causticidade nem s suas abordagens agressivas. Ele admitia que sua maior vantagem era o declarado favoritismo de Monroe Mason por ele. Uma posio tinha ficado 
vaga logo depois que Steffi se juntou a eles. Ambos eram qualificados. Ambos foram avaliados. Mas, na verdade, nunca houve nenhuma disputa quanto a quem seria promovido. 
Hammond agora era promotor assistente especial. A decepo de Steffi ficou muito clara, apesar de ter enfrentado a situao com brio. Ela no era m perdedora e 
no tinha guardado rancor. O relacionamento profissional dos dois continuou a ser mais de cooperao do que de rivalidade. Mesmo assim, como estava acontecendo naquele 
momento, s vezes despontavam desafios silenciosos. Naquela hora, nenhum dos dois quis aceitar. Hammond mudou de assunto:
        E quanto a Davee Pettijohn?
        Em que aspecto? Voc quer dizer e quanto a Davee Pettijohn como suspeita? Ou como a viva atormentada?
        Suspeita? - repetiu Hammond, surpreso. -Algum acha que ela matou o Lute?
        Eu acho.
Steffi, ento contou para Hammond a ida dela com Smilow  manso Pettijohn e por que considerava a viva uma provvel suspeita.
Depois de ouvir a histria, Hammond refutou a teoria de Steffi.
        Para comeo de conversa, Davee no precisa do dinheiro de Lute. Nunca precisou. A famlia dela...
-J fiz a minha pesquisa. O dinheiro dos Burton jorra pelo ladro. O tom malicioso dela no passou despercebido.
        O que est incomodando voc?
        Nada - respondeu ela secamente. Ento respirou bem fundo e desabafou devagar: - Tudo bem, talvez eu esteja mesmo irritada. Fico irritada quando os homens, 
que supostamente so adultos, profissionais e inteligentes, se transformam em manteiga derretida diante de uma mulher igual a ela.
        Uma mulher igual a ela?
        Ora, Hammond - continuou ela, ainda mais aborrecida que antes. - Gatinha fofa por fora, pantera por dentro. Voc conhece esse tipo.
        Voc rotulou Davee depois de v-la apenas uma vez?
        Est vendo? Voc j a est defendendo.
        No estou defendendo ningum.
        Primeiro Smilow fica retardado perto dela, se  que voc  capaz de acreditar nisso. Agora voc.
        No sou nenhum retardado. S no estou entendendo como voc pode traar um perfil completo da personalidade de Davee depois de...
        Est bem! Eu no me importo - disse ela, impaciente. - No quero mais falar sobre Lute Pettijohn, o assassinato e os motivos. S tenho pensado nisso h 
quase vinte e quatro horas. Preciso de um descanso.
Ela se levantou da cadeira, ps as mos nas costas e se espreguiou com gosto, depois deu a volta na mesa para se sentar no colo de Hammond. Passou os braos em 
volta do pescoo dele e o beijou.Depois de alguns beijos rpidos, Steffi se endireitou e despenteou o cabelo dele.
        Esqueci de perguntar. Como foi sua noite?
        Foi tima - respondeu Hammond sinceramente.
        Fez alguma coisa especial?
Especial? Muito especial. At as conversas bobas tinham sido extraordinrias.
-Joguei futebol americano na Liga Nacional de Futebol, sabia? -Jogou?
-Joguei. Mas depois que ganhei meu segundo campeonato fui trabalhar para a CIA.
        Trabalho perigoso?
        Operaes bsicas de capa e espada.
        Uau!
        Para falar a verdade, foi muito chato. Por isso me alistei no Corpo da Paz.
        Fascinante.
-Foi legal. At um certo ponto. Mas depois que recebi o Prmio Nobel por ter alimentado todas as crianas famintas da frica e da sia, comecei a procurar outra 
coisa para fazer.
        Um desafio maior?
        Isso mesmo. Limitei minhas opes a tornar-me presidente e a servir ao meu pas, ou a descobrir a cura do cncer.
        Auto-sacrificio deve ser seu nome do meio.
        No,  Greer.
        Eu gosto.
        Voc sabe que estou mentindo.
        O seu nome do meio no  Greer?
        Isso  verdade. O resto  tudo mentira.
-No!
        Eu queria impression-la.
        Sabe de uma coisa?
        O qu?
        Estou impressionada.
Hammond se lembrou do toque da mo dela, de ficar excitado...
        Humm - ronronou Steffi. - Exatamente o que pensei. Voc sentiu a minha falta.
Ele estava com ereo, mas no motivada pela mulher sentada no seu colo que o acariciava por cima da cala. Ele afastou a mo dela.
        Steffi...
Ela chegou para a frente e beijou-o com agressividade. Levantou a saia acima dos quadris, montou em cima dele e o continuou beijando, enquanto atacava a fivela do 
cinto.
-Detesto correria-disse ela, ofegante, entre beijos. - Mas quando Smilow ligar, vou ter de correr. Temo que isso ter de ser rpido.
Hammond agarrou as mos atarefadas dela.
        Steffi. Ns precisamos...
        Subir para o quarto? timo. Mas no podemos perder tempo, Hammond.
gil e enrgica, ela pulou do colo dele e foi para a porta, desabotoando a blusa no caminho.
        Steffi.
Ela virou de frente para ele e ficou atnita ao ver Hammond levantar-se e fechar o zper da cala. Ela riu um pouco.
        Estou disposta a experimentar praticamente qualquer coisa, mas vai ser meio complicado se voc no tirar a cala.
Ele foi para outro canto da cozinha e apoiou os braos na bancada de granito. Ficou olhando para a pia imaculada alguns segundos antes de encar-la de novo.
        Isso no est mais funcionando para mim, Steffi.
Assim que conseguiu dizer isso, ele se sentiu enormemente aliviado. Tinha sado da cidade na tarde anterior, sobrecarregado por diversos motivos. Um deles - na verdade 
o menos importante - era sua indeciso quanto ao caso com Steffi. No tinha certeza se queria terminar. O esquema deles era confortvel. Nenhum dos dois cobrava 
quase nada do outro. Compartilhavam muitos interesses comuns. Eram sexualmente compatveis. No entanto, a ideia de morar juntos nunca tinha aflorado nas conversas 
e Hammond estava feliz por causa disso. Se tivesse, ele teria feito uma lista de desculpas apropriadas para explicar por que morar no mesmo endereo seria uma m 
ideia, mas o verdadeiro motivo era que o nvel de energia de Steffi ia cans-lo rapidamente. E, aparentemente, ela tambm demonstrava que no queria t-lo por perto 
o tempo todo. O caso deles era mantido em segredo. Os dois se viam regularmente e quando queriam. Por quase um ano tinha sido um arranjo perfeito. Mas ultimamente 
ele andava sentindo que, afinal de contas, no era to perfeito assim. No gostava da clandestinidade e dos subterfgios, especialmente no que diziam respeito a 
relacionamentos pessoais, pois se agarrava  crena antiquada de que a honestidade devia ser um pr-requisito. Tambm estava insatisfeito com o nvel de intimidade 
deles. Para ser mais exato, no existia intimidade nenhuma. De verdade, no. Steffi era uma amante ardente e capaz, mas eles no estavam mais prximos emocionalmente 
do que da primeira vez que ela o convidou para jantar e eles acabaram arrancando as roupas no sof da sala. Depois de pesar todos os prs e contras, de pensar semanas 
no assunto, Hammond tinha resolvido que o relacionamento chegara a um ponto que fazia com que ele quisesse e precisasse de mais. Em vez de aguardar com ansiedade 
as noites que eles passavam juntos, passara a tem-las. Passou a responder s ligaes dela com atraso e no assim que podia. Mesmo na cama, quando faziam sexo, 
ele se surpreendia distrado e pensando em outras coisas, tendo um desempenho adequado, mas rotineiro, fsico, mas sem emoo. Antes da indiferena decair para o 
ressentimento, era melhor terminar tudo. O que queria e precisava de um relacionamento ele no sabia ao certo. Mas tinha certeza de que o que quer que fosse no 
ia encontrar em Stefanie Mundell. Tinha chegado mais perto dessa descoberta na noite anterior, com uma mulher da qual nem sabia o nome. Essas eram observaes tristes 
sobre seu relacionamento com Steffi, mas indicavam a plena confirmao de que era hora de acabar. Chegar a essa deciso era apenas a metade do problema. Agora tinha 
de enfrentar o ato em si. Queria terminar o caso da forma mais civilizada possvel, de preferncia evitando o equivalente temperamental da Guerra dos Cem Anos. O 
melhor que podia esperar era que terminasse com os mesmos fogos de artifcio com que tinha comeado. A probabilidade disso acontecer era nula. Uma cena era praticamente 
garantida. Ele tinha provocado, e agora ela estava chegando. O que ele tinha dito levou algum tempo para ser registrado. Quando Steffi entendeu, ela engoliu em seco, 
cruzou os braos por cima da blusa aberta e ento, num gesto de desafio, descruzou-os e os deixou cados ao lado do corpo.
        Quando voc diz "isso", imagino que esteja se referindo a... -Ns.
-Ah, ?
Ela inclinou a cabea para um lado e ergueu as sobrancelhas de um modo familiar demais. Era a expresso que ela fazia quando estava furiosa, quando estava prestes 
a estraalhar algum, em geral um estagirio ou funcionrio que no tivesse feito um bom trabalho no preparo de uma minuta para ela, ou um policial que tivesse deixado 
de incluir um fato completo de um caso em seu relatrio, ou qualquer um que ousasse irrit-la quando estava determinada a ter tudo a seu modo.
        E desde quando no est "funcionando" para voc?
        H algum tempo. Sinto que estamos nos movendo em direes diferentes.
Ela sorriu e deu de ombros.
        Ns dois andamos distrados ultimamente, mas  fcil consertar isso. Temos bastante coisa em comum para salvar...
Ele balanou a cabea.
        No apenas em direes diferentes, Steffi. Direes opostas.
        Ser que voc podia ser um pouco mais especfico?
        Tudo bem - falou ele sem nenhuma entonao especial, apesar de ter se ressentido do tom que ela usou, porque indicava que ele no era to inteligente quanto 
ela. - Um dia eu gostaria de me casar. Ter filhos. Voc deixou bem claro em inmeras ocasies que no est interessada em ter uma famlia.
        O seu interesse  uma surpresa. Ele deu um sorriso triste.
        Na verdade  uma surpresa para mim tambm.
        Voc disse que no queria ser para nenhuma criana inocente o que o seu pai tinha sido para voc. .lynw
        E no vou ser - disse ele muito srio.
         uma mudana de ideia recente?
        Recente mas gradual. O nosso relacionamento foi perfeito por algum tempo, mas depois...
        A novidade acabou?
        No.
        Ento foi o qu? No o excito mais? Ir para a cama com a mais quente do escritrio da promotoria perdeu seu encanto? Ser o amante secreto de Steffi Mundell 
no te d mais teso?
Ele abaixou a cabea e balanou-a de um lado para outro.
        Por favor, no faa isso, Steffi.
        No estou fazendo nada - retrucou ela, e sua voz ficou mais aguda. - Essa conversa foi ideia sua - ela semicerrou os olhos escuros.
        Voc tem alguma ideia de quantos homens gostariam de trepar comigo?
        Tenho - disse ele, elevando o tom de voz para igualar o nvel furioso da voz dela. - Ouo as fofocas do vestirio a seu respeito.
        Voc costumava gostar muito quando eles especulavam quem seria o homem misterioso na minha cama, e era voc o tempo todo. Costumvamos rir muito disso.
        Acho que deixou de ser engraado.
Sem nada para dizer, Steffi ficou l parada, soltando fogo pelas ventas, em silncio.
Ele continuou com voz mais calma:
        De qualquer modo, viajei esse fim de semana para reavaliar o nosso relacionamento...
        Sem ao menos conversar comigo primeiro? Nunca te ocorreu me convidar para ir junto nessa reavaliao?
        No vi necessidade.
        Ento j tinha decidido antes mesmo de ir para a sua preciosa cabana no mato para reavaliar - disse ela, arranhando a palavra.
        No, Steffi. No tinha decidido nada. Enquanto estive fora examinei nosso relacionamento de todos os ngulos e sempre chegava  mesma concluso.
        Que voc queria me dar o fora.
        No...
        Dar o fora? Que palavra voc usaria? ,m
        Esse  exatamente o tipo de cena que eu esperava evitar - disse ele, finalmente, gritando mais alto que ela. - Porque eu sabia que voc ia discutir. Sabia 
que ia argumentar at a morte como se estivesse no tribunal, expondo seu caso para um jri. Voc rebateria tudo que eu dissesse simplesmente para argumentar e no 
cederia um milmetro porque com voc tudo se reduz a uma disputa. Bom, isso no  uma competio, Steffi. E no  um julgamento. So as nossas vidas!
        Meu Deus, poupe-me desse melodrama! Ele bufoum uma risada breve.
         exatamente isso. Preciso de um pouco de melodrama. O nosso relacionamentito  completamente desprovido de melodrama. Melodrama  humano. ...
        Hamond, de que diabos voc est falando?
        Nem tudo na vida pode ser resumido numa minuta. Nem todas as respostas so encontradas em livros de direito - frustrado com a prpria incapacidade de se 
explicar, ele xingou baixinho antes de tentar de novo. - Voc  brilhante, mas nunca pra. As discusses, a disputa, so constantes. Incessantes. No h trgua com 
voc.
        Perdoe o o duplo sentido, mas eu no sabia que estar comigo tinha sido como um julgamento para voc.
        Olhe - - disse ele secamente -, vou poup-la do melodrama se voc me poupar da encenao canastrona de parte ferida. Voc est zangada, mas no magoada.
        Quer parar de dizer o que sou e o que deixo de ser? Voc no sabe o que estou sentindo.
        Sei que no  amor. Voc no me ama. Ama? Se tivesse escolha agora mesmo, o que ia preferir, a sua carreira? Ou eu?
        O qu? - gritou ela. - No acredito que voc seja capaz de dar um ultimato to ridculo e juvenil. Se tivesse escolha? Que tipo de merda sexista   essa? 
Por que tenho de fazer uma escolha? Voc no precisa escolher. Por que no posso ter voc e a minha carreira?
        Voc pode. Mas para tudo funcionar  preciso que haja duas pessoas dispstas a fazer alguns sacrifcios. Duas pessoas que se amam muito e que so dedicadas 
ao relacionamento e  felicidade uma da outra. O que fazemos juntos - disse ele, apontando para o quarto l em cima - no  amor.  recreao.
        bom, ficamos muito bons em manter um ao outro entretido.
        No vou negar isso. Mas entretenimento  o que sempre foi, e  intil imaginar que foi qualquer outra coisa.
Ele parou de falar para recuperar o flego. Ela continuou a olhar fixamente para ele, furiosa.
Ele se aproximou da mesa, pegou sua cerveja e deu um longo gole. Finalmente, olhou para ela.
        No finja que voc discorda. Sei que concorda.
        Ns nos damos to bem!
        Nos dvamos. Nos damos. Tivemos momentos timos. Isso no  culpa de ningum. No existe um lado certo e um errado.  simplesmente uma questo de desejar 
futuros diferentes. Ela pensou nisso um pouco.
        No fiz segredo nenhum do que eu queria, Hammond. Se eu quisesse uma lareira e um lar, teria ficado na minha cidade natal, obedecendo meu pai e casando 
logo depois de terminar o segundo grau, seno antes, e tendo filhos logo, como minhas irms fizeram. Teria me poupado do desprezo delas e dos sermes dele. No teria 
batalhado para chegar onde estou. Ainda tenho um longo caminho pela frente para chegar onde quero. Desde o princpio voc sabia quais eram as minhas prioridades.
        E eu a admiro por elas.
        Correo. Quais so as minhas prioridades.
        Espero que voc ultrapasse todos os objetivos que determinou para a sua vida. E digo isso sinceramente. S que os seus objetivos pessoais no deixam espao 
para mais nada. So incompatveis com o comprometimento que desejo de uma companheira de vida.
        Voc quer realmente uma Santa Dona de Casa?
        Claro que no - disse ele, rindo e balanando a cabea. Ficou olhando para o vazio algum tempo e depois disse: - No sei bem o que quero.
        S sabe que no me quer.
Mais uma vez ele sabia que ela estava mais zangada do que magoada. Mesmo assim, nenhuma mulher gostava de ser rejeitada. Ele a respeitava o suficiente para dar-lhe 
o fora com gentileza.
        No  voc, Steffi, sou eu. Quero algum que pelo menos se disponha a se comprometer em alguns pontos.
        Eu nunca me comprometo. Suavemente, ele disse: 103
        Voc est escorregando. Acabou de fundamentar meu caso para mim.
        No, dei essa para voc.
        Obrigado, aceito.
Ento sorriram um para o outro, porque, alm da atrao fsica, sempre tinham admirado a sagacidade um do outro.
        Voc  muito inteligente, Hammond. Gosto de inteligncia e admiro o intelecto. Voc tem muita perspiccia.  duro quando  preciso ser duro. Pode at 
ser cruel quando tem de ser, e a crueldade realmente me enlouquece. Voc  indiscutivelmente bonito.
        Por favor, estou ruborizando.
        No seja tmido. Voc sabe que faz coraes palpitar e hormnios jorrar.
        Obrigado.
-Voc  generoso e atencioso na cama, nunca recebe mais que d. Resumindo, tudo que desejo num homem. Ele ps a mo no corao.
        Eu levaria muito mais tempo para enumerar as qualidades que admiro em voc.
-No estou querendo elogios. Deixo esse tipo de manha feminina para as Davee Pettijohn do mundo. Ele deu uma risadinha.
        O que estou querendo dizer ... - ela respirou fundo. - Imagino que voc nem pensa em continuar como estvamos, at...
Ele a fez parar de falar balanando a cabea vigorosamente.
        Isso no seria bom, nem justo, para nenhum de ns.
        No existe opo B?
-Acho que uma separao tranquila seria melhor, voc no acha? Ela deu um sorriso amargo.
         um pouco tarde para solicitar a minha opinio, Hammond. Mas sim, suponho que, se  assim que voc se sente, no quero que fique indo para a cama comigo 
por pena.
Ele deu uma gargalhada.
        A ltima coisa que voc pode ser  objeto de pena. Mais calma, ela disse:
        Vai sentir a minha falta, sabe disso.
        Muita.
com a pontinha da lngua no meio do lbio superior, Steffi abriu a blusa. Ele no se surpreendeu de ver que os mamilos dela estavam duros e escuros de desejo. O 
que mais excitava Steffi era uma discusso. Nada a estimulava mais que uma briga aos gritos. Quase sempre o sexo mais violento que eles faziam era depois de algum 
tipo de confronto. Naquele momento ele descobriu que ela garantia assim uma vitria final para todas as disputas. O clmax dele sempre foi a vitria dela. E isso 
bastaria para tornar vlida sua deciso. Ela deu um sorriso malicioso para ele.
        Uma ltima vez? Pelos velhos tempos? Ou voc  elevado demais, ou tico demais para trepar com uma mulher que acabou de dispensar?
        Isso no  exatamente uma inspirao romntica, Steffi.
        Ento, agora voc quer melodrama e romance? Que bicho te mordeu, Hammond? Ele ficou tentado a aceitar a oferta dela, no porque a desejasse, mas porque 
dormir com ela poderia ajudar a desfazer um pouco a lembrana to clara e docemente dolorosa da noite anterior. Possuir outra mulher agora talvez aliviasse a pesada 
sensao de perda.
Enquanto ele ainda avaliava a situao, o telefone tocou.
Steffi deu uma risada sem graa, fechou a blusa e abotoou-a de novo.
        Seu filho-da-me sortudo. A sorte simplesmente continua a sorrir para voc, Hammond. Foi salvo pelo gongo!
Ela deu meia-volta e foi para a sala recolher suas coisas. Hammond atendeu o telefone.
-Alo?
         Monroe.
No que o procurador municipal Monroe Mason precisasse se identificar. S conhecia um tom de voz, que era retumbante. As cordas vocais do homem pareciam equipadas 
com um megafone embutido. Na mesma hora Hammond ajustou o volume do telefone.
        Ei, Monroe, o que houve? Passei uma noite fora de Charleston e armou-se a maior confuso.
        Ento voc j soube?
        Steffi me contou.
        Soube que ela est metida nisso at o pescoo.
Hammond olhou para a sala de estar, onde Steffi calava os sapatos e enfiava a blusa na saia. Hammond ficou de costas para a porta e baixou a voz.
        Ela parece que est cuidando do caso.
        Voc quer que ela cuide disso?
Hammond percebeu que sua camisa estava grudada no peito. Quando tinha comeado a suar? Esfregou a testa e descobriu que estava molhada tambm. Havia um motivo para 
aquela transpirao nada habitual: ele tinha encontrado Lute Pettijohn na vspera,  tarde, no Charles Towne Plaza. Monroe Mason devia saber disso. A hora para contar 
para ele era aquela. Mas por que dar tanta importncia a isso? No tinha relao com o assassinato de Pettijohn. O encontro tinha sido breve. Aconteceu antes da 
hora estimada da morte. Logo antes, mas mesmo assim... Ele no via motivo para contar para Mason, assim como no tinha achado necessrio contar para Steffi quando 
ela lhe deu a espantosa notcia do homicdio. No teria nada a ganhar se informasse essa coincidncia, s muito a perder. Ele secou a testa com a manga da camisa 
e disse:
        Quero esse caso.
Seu mentor deu uma risadinha.
        bom,  seu, rapaz.
        Obrigado.
        No me agradea. J era seu mesmo antes de pedir.
        Aprecio seu voto de confiana.
        Deixe de ser puxa-saco, Hammond. No tomei a deciso sozinho. Voc  o encarregado do caso porque a viva Pettijohn est me ligando toda hora desde s dez 
da noite de ontem.
        Para qu?
        Ela pediu, e interprete como uma exigncia, para voc levar o assassino do marido dela a julgamento.
        Ento agradeo a ela...
        Chega de merda, Hammond! Posso sentir o cheiro a um quilmetro de distncia. Droga, sou to velho que acho que fui eu que inventei isso. Onde  que eu estava?
-Aviva. . .
        Ah, . Lute est morto, mas parece que Davee vai assumir a influncia dele de onde ele parou. Ela pode fazer muito barulho neste municpio. Por isso, para 
poupar o nosso escritrio de muito sofrimento e propaganda negativa na imprensa, concordei em design-lo para este caso.
Esse caso provocaria um impacto na carreira dele como nenhum outro seria capaz. Uma vtima famosa de assassinato. Saturao da mdia. Tinha todos os elementos que 
fazem promotores ambiciosos ficarem com gua na boca.  claro que ele se sentiria melhor se Mason tivesse dado o caso para ele sem a interveno de Davee, mas no 
ia ficar se importando com um detalhe to pequeno como esse. No fazia mal de que forma tinha acontecido, o caso era dele. Ele o queria, precisava dele e era definitivamente 
o homem para a funo. Tinha levado cinco casos de assassinato a julgamento antes e conseguiu condenaes em todos, menos um, porque o acusado tinha feito um acordo. 
Desde o dia em que havia ingressado no lado da acusao, ele vinha se preparando para um caso daquela magnitude. Tinha apetite para isso e tinha competncia para 
sair vencedor. O julgamento do assassinato de Lute Pettijohn ia alavancar sua carreira para onde queria chegar... o cargo de promotor municipal. Como o caso era 
dele, j tinha a confiana do seu superior e o apoio da viva, imaginou se devia contar para Mason sobre seu encontro com Pettijohn. Detestava a ideia de entrar 
num projeto daquele calibre com qualquer desvantagem, por menor que fosse. Uma ambiguidade insignificante como aquela podia se tornar crucialmente danosa se fosse 
descoberta mais tarde.
        Monroe?
        No me agradea, rapaz. Voc ter pela frente muitas noites insones.
        Gosto do desafio.  uma outra coisa. Eu...
        O qu?
Depois de um momento de hesitao, ele disse:
        Nada. Nada, Monroe. Mal posso esperar para comear.
        timo, timo - disse ele, e depois passou para o prximo assunto. - Voc vai trabalhar com Rory Smilow. Algum problema?
        No.
        Mentiroso.
        No teremos de nos beijar. A nica coisa que quero  que ele coopere conosco.
        Ele tirou sangue primeiro.
        O que isso quer dizer?
        Recebi uma ligao do chefe Crane esta tarde. Smilow indicou Steffi Mundell para ser a advogada de acusao do caso. Mas eu disse para Crane quem a viva 
preferia.
        E a?
Ele deu uma risadinha. Monroe Mason adorava poltica, mais que a lei. Hammond no gostava da poltica necessria que acompanhava o trabalho para o governo municipal, 
mas fazia parte do trabalho com que Mason se deleitava.
        Davee j tinha falado tambm com o chefe de polcia. Ela disse para ele que queria que Smilow encontrasse o criminoso e que queria que voc o pusesse na 
priso. E foi assim que combinamos.
Hammond fez uma careta como fazia quando o dentista se aproximava com a injeo de anestesia e dizia que ia sentir uma picadinha.
        Voc e Smilow vo deixar de lado suas diferenas at essa coisa acabar. Entendeu?
        Ns somos profissionais.
Hammond no fazia promessas quanto a Rory Smilow, mas uma trgua de cessar-fogo era uma concesso relativamente fcil. Ento Mason acrescentou a segunda condio:
        E vou pr a Steffi para agir como juiz.
        O qu? - procurando esconder a raiva e manter a voz baixa, Hammond disse: - Isso  uma droga de arranjo, Monroe! No preciso de monitora.
        A troca  essa, Hammond,  pegar ou largar. Hammond ouviu Steffi falando ao celular no outro cmodo.
        Voc j contou para ela sobre esse arranjo? - perguntou ele.
        Amanh de manh. Voc entendeu tudo, rapaz?
        Entendi tudo.
Mesmo assim, Monroe Mason berrou mais uma vez:
        Steffi vai ajud-lo e funcionar como pra-choque entre voc e Smilow. Vamos torcer para ela conseguir evitar que vocs se matem antes de julgar e condenar 
o assassino do Lute.
Parecia que seus pulmes iam explodir. Os msculos pegavam fogo. As articulaes berravam para ela parar. Mas em vez de ir mais devagar ela acelerou o ritmo, correu 
mais que nunca, mais que a sade permitia. Tinha algumas centenas de calorias de comida para queimar. E a conscincia culpada para deixar para trs. O suor pingava 
em seus olhos, prejudicando a viso e provocando ardncia. A respirao estava ofegante e ruidosa. A boca seca. Os batimentos do corao acompanhavam as passadas 
rpidas. Mesmo quando achava que no ia conseguir dar mais um passo, continuava, obstinadamente. Certamente havia superado a melhor velocidade e nvel de resistncia 
anteriores. Mesmo assim, nunca conseguiria escapar do que tinha feito na vspera. Correr era seu exerccio aerbico preferido. Ela corria alguns dias da semana. 
Frequentemente participava de corridas para arrecadar fundos. Tinha ajudado a organizar uma para levantar doaes para a pesquisa do cncer de mama. Mas aquela noite 
no estava correndo por nenhum motivo altrusta, nem pelos benefcios fsicos proporcionados pelo exerccio, tampouco para aliviar a tenso de um dia de trabalho. 
A corrida daquela noite era uma autoflagelao. Claro que no era nada lgico supor que o esforo fsico de hoje repararia as transgresses da noite anterior. O 
perdo s viria para algum sincera e profundamente arrependido. Ela lamentava que o encontro deles tivesse sido calculado, no fruto de um capricho. No tinha sido 
o encontro casual que ele pensava. Num arroubo de conscincia, ela tentara pr um fim naquilo antes que culminasse em sexo, mas no sentia remorso algum de ter evoludo 
daquela forma. Em nenhum momento ela se arrependeu da noite que passara com ele.
         sua esquerda.
Civilizadamente, ela chegou para a direita para deixar o outro corredor passar. O trnsito de pedestres na Battery estava intenso aquela noite. Era uma alameda popular, 
que atraa atletas, patinadores e pessoas que saam para passear. Aquela ponta histrica da pennsula onde os rios Ashley e Cooper convergiam e desaguavam no Atlntico 
constava da agenda de todos os turistas que visitavam Charleston. A Battery, que inclua o White Point Gardens e o quebra-mar, tinha cicatrizes de guerras, desgraas 
e das intempries, assim como toda a Charleston. Tendo sido o local dos enforcamentos pblicos, depois um posto estratgico de defesa, a principal funo da Battery 
hoje era oferecer uma paisagem e prazer. No parque que ficava do outro lado da rua do quebra-mar, os antigos e imponentes carvalhos que tinham desafiado tempestades 
violentas, at o furaco Hugo, davam sombra para os monumentos, canhes confederados e para casais empurrando carrinhos de beb. O calor opressivo e mido no tinha 
arrefecido nem um pouco, mas pelo menos no quebra-mar, com vista para o porto de Charleston e para o forte Sumter  distncia, havia uma brisa que era quase um blsamo 
para as pessoas que queriam admirar o fim de um lindo entardecer que encerrava o fim de semana. Desacelerando at um passo mais prudente, ela resolveu que era hora 
de voltar. Ao refazer seu caminho, cada impacto no calamento projetava uma pontada de dor nas canelas, que subia para as coxas e chegava  regio lombar, mas pelo 
menos dava para aguentar. Os pulmes continuavam sacrificados, mas a sensao dos msculos pegando fogo tinha diminudo. No entanto, sua conscincia a continuava 
incomodando. Lembranas dele e da noite que passaram juntos promoviam ataques de surpresa o dia inteiro. No tinha se permitido curtir essas lembranas muito tempo 
porque parecia que isso daria mais peso  ofensa original, como um intruso que, alm de invadir a propriedade da vtima, ainda violava seus bens mais pessoais. Mas 
no podia mais manter aqueles pensamentos afastados. Reduziu o esforo, acolheu as lembranas e deixou-as ficar. Saboreou outra vez o que tinham comido na feira, 
sorriu ao lembrar da piada boba que ele contou, imaginou a respirao dele na sua orelha, as pontas dos dedos encostando-lhe na pele. Ele dormia to profundamente 
que nem acordou quando ela desceu da cama e se vestiu no quarto escuro. Ela havia parado na porta para olhar para ele. Estava deitado de costas. Uma perna descoberta. 
O lenol cobria a cintura dele. Ele tinha mos maravilhosas. Pareciam fortes e msculas, mas bem cuidadas. Uma delas segurava de leve o lenol. A outra estava em 
cima do travesseiro dela. Os dedos estavam um pouco curvados para dentro, e at segundos antes tinham estado no cabelo dela. Vendo o peito dele subindo e descendo 
com a respirao tranquila, ela teve de lutar contra a tentao de despert-lo e confessar tudo. Ser que ele entenderia? Teria agradecido por ela ter sido honesta 
com ele? Talvez tivesse dito que no tinha importncia, talvez a tivesse puxado de volta para o lado dele, talvez a beijasse de novo. Ele acharia bom ou ruim se 
ela admitisse o que tinha feito? O que ele tinha pensado quando acordou e descobriu que ela fora embora? Sem dvida, no incio, deve ter entrado em pnico, achando 
que tinha sido roubado. Recm-sado da cama, ele provavelmente verificou se a sua carteira ainda estava na escrivaninha. Ser que disps seus cartes de crdito 
em leque para se certificar de que nenhum deles estava faltando? Ser que ficou surpreso de ver que todo o seu dinheiro estava intacto na carteira? Ser que ele 
sentiu um alvio imenso? Depois desse alvio, ser que ficou confuso com o desaparecimento dela? Zangado? Provavelmente zangado. Podia ter considerado a sada s 
escondidas como uma afronta. Ela esperava que, no mnimo, quando acordou e viu que ela no estava mais l, ele no tivesse simplesmente dado de ombros, rolado para 
o lado e voltado a dormir. Essa era uma possibilidade triste, mas bem concreta, que a fez pensar se ele tinha ou no pensado nela naquele dia. Ser que ele tambm 
tinha repassado a noite toda na cabea, a partir do momento em que seus olhos se encontraram, cada um de um lado da pista de dana, at a ltima vez...? Ele beijava 
todo o rosto dela.
        Por que isso  to bom? - sussurrou ele.
        Porque  para ser bom, no ?
        . Mas no assim. No to bom.
        O qu?- inclinando a cabea para trs, os olhos dele procuraram os dela.
         quase melhor.
        Voc quer dizer ficar parado?
Ela apertou as coxas nos quadris dele, abraou-o com mais fora, ela o prendeu.
        Assim. S ter voc...
        Humm - ele afundou o rosto no pescoo dela, mas depois de um longo tempo, gemeu. - Sinto muito. No consigo ficar parado.
        Eu tambm no - disse ela ofegante, levantando o quadril.
De repente, para no tropear, ela parou de correr e dobrou o corpo da cintura para cima, apoiou as mos nos joelhos e sugou o ar insuficiente e abafado. Piscou 
para tirar o suor salgado dos olhos e tentou sec-los com as costas da mo, que, no entanto, tambm estava pingando. Precisava parar de pensar nisso. A noite que 
passaram juntos, apesar de terrivelmente romntica para ela, provavelmente no tinha sido nada fora do comum para ele, independentemente de todas as coisas poticas 
que ele tinha dito. No fazia diferena, de um jeito ou de outro, ela lembrou. No fazia diferena o que ele pensava dela ou se pensava nela. Eles nunca mais poderiam 
se encontrar. Depois de um tempo, ela recuperou o flego e o corao passou a bater mais devagar, e ento desceu os degraus do quebra-mar. Mais que a corrida exaustiva, 
a certeza de nunca mais v-lo sugava sua energia. Ela morava a poucos quarteires da Battery, mas caminhar esse trecho parecia mais penoso do que toda a distncia 
que havia corrido. Continuava perdida no desalento daqueles pensamentos quando abriu o porto de ferro da frente da casa. O som estridente da buzina de um carro 
a assustou, ela se virou e viu um Mercedes conversvel cantando os pneus e parando junto ao meio-fio. O motorista baixou os culos escuros e olhou para ela por cima 
da armao.
        Boa-noite - disse Bobby Trimble, com a voz arrastada. - Estive ligando para voc o dia inteiro e j estava quase achando que a tinha perdido.
        O que voc est fazendo aqui?
O sorriso de censura dele provocou-lhe arrepios.
        Afaste-se da minha casa e deixe-me em paz.
        No seria uma boa ideia me irritar. Especialmente no agora. Onde voc esteve o dia todo? Ela no quis responder.
Ele deu um sorriso largo, aparentemente achando graa da sua teimosia.
        No faz mal. Entre.
Com o corpo inclinado por cima do banco, ele abriu a porta do lado do passageiro. Quando a porta abriu, ela teve de dar um pulo para trs para que no batesse na 
sua perna.
        Se est pensando que vou para qualquer lugar com voc, est maluco.
Ele ps a mo na chave, na ignio.
        Tudo bem, ento vou entrar.
        No!
Ele deu uma risadinha.
        , achei que no. - Dando um tapinha no assento do passageiro ele disse: - Ponha seu rabinho lindo aqui. Agora.
Ela sabia que ele no ia desistir com facilidade e desaparecer. Mais cedo ou mais tarde ela teria de enfrentar aquilo, por isso era melhor acabar com isso de uma 
vez por todas. Ela entrou no carro e bateu a porta com raiva. Hammond resolveu no adiar sua apresentao de condolncias para a viva de Lute Pettijohn. Depois 
de concluir a conversa com Mason e de se despedir de Steffi, ele tomou uma ducha e trocou de roupa. Em poucos minutos j estava no carro a caminho da manso Pettijohn. 
Esperando algum atender a campainha no porto, ele ficou observando, distrado, as pessoas que aproveitavam a noite de domingo na Battery. Dois turistas do outro 
lado da rua do parque tiravam fotografias da manso dos Pettijohn, apesar da presena dele no primeiro plano. O nmero habitual de corredores e caminhantes parecia 
o de silhuetas mveis ao longo do quebra-mar. Quem abriu a porta para ele foi Sarah Birch. A empregada pediu para ele esperar no hall de entrada enquanto ia anunci-lo. 
Ela retornou logo.
        A srta. Davee disse para o senhor subir, sr. Cross.
A mulher corpulenta levou-o para o andar de cima, atravessando o balco, passando por um largo corredor, depois por um enorme quarto de dormir, at um banheiro que 
no se parecia com nenhum que Hammond j tinha visto. Sob a clarabia de vitral, havia uma banheira redonda num plano mais baixo onde caberia um time inteiro de 
vlei. Estava cheia de gua, mas as torneiras estavam fechadas. Brotos de magnlias creme, do tamanho de pratos, flutuavam na superfcie imvel. O que parecia ser 
quilmetros de paredes espelhadas refletia velas perfumadas que tremeluziam sobre castiais elaborados espalhados por todo o banheiro. Num canto havia uma espreguiadeira 
forrada de seda, cheia de almofadas decorativas. A pia de ouro era do tamanho de uma banheira. As torneiras eram de cristal, combinando com os inmeros vidros de 
cosmticos e perfumes dispostos na bancada. Hammond entendeu que os boatos deviam ser acanhados na avaliao de quanto Lute tinha gasto na reforma da casa. Apesar 
de j ter estado l diversas vezes em vrios eventos sociais, aquela era a primeira vez que subia ao segundo andar. Tinha ouvido falar da opulncia, mas no esperava 
nada parecido com aquele luxo todo. E tambm no esperava encontrar a viva recente nua e gemendo de prazer enquanto um massagista sarado alisava a parte de trs 
da sua coxa.
        Voc no se incomoda, no , Hammond? - perguntou Davee Pettijohn enquanto o massagista enrolava nela uma toalha para cobrir tudo, menos os ombros e a perna 
que ele estava massageando.
Hammond segurou e apertou a mo que ela lhe estendeu.
        Se voc no se incomodar eu no me incomodo. Ela deu um sorriso malicioso.
        Voc me conhece muito bem. No tenho nem um pingo de modstia. Um defeito que devia enlouquecer a minha me. Claro que ela era maluca de qualquer jeito.
Ela apoiou o queixo nas duas mos abertas e suspirou quando o massagista apalpou suas ndegas.
        Estamos bem no meio da sesso de noventa minutos, e  to divino que simplesmente no tive coragem de pedir ao Sandro para parar.
        No a culpo. Mas  engraado.
        O qu?
        Lute fez massagem no spa do hotel ontem.
-Antes ou depois de ser assassinado? - Hammond franziu a testa e ela riu. - S estava brincando. Por que no se serve de um pouco de champanhe?
Com um gesto indolente, ela apontou para o balde de gelo de prata perto da penteadeira. A rolha j tinha sido tirada, mas na bandeja de prata ao lado do balde havia 
uma flute que no tinha sido usada. Passou pela cabea de Hammond que Davee j devia estar esperando a visita dele aquela noite. Era uma ideia perturbadora.
        Obrigado, mas  melhor no - disse ele.
        Oh, pelo amor de Deus! - disse ela com impacincia. - No seja um estraga-prazeres. Voc e eu nunca tivemos de fazer cerimnia um com o outro; para que 
comear agora? Alm do mais, acho que o champanhe  a bebida perfeita quando seu marido  baleado na sute da cobertura do prprio hotel. E enquanto estiver com 
a mo na massa, aproveite para servir mais uma dose para mim tambm.
A flte de champanhe que ela usava estava no cho, ao lado da mesa de massagem. Sabendo que em geral era intil discutir com Davee, Hammond encheu o copo dela, depois 
serviu-se de meia flte. Quando levou o champanhe para ela, ela bateu com sua flute na dele.
        Sade! Aos funerais e a outros momentos divertidos.
        No compartilho exatamente com os seus sentimentos - disse ele depois de dar um gole.
Ela passou a lngua nos lbios para saborear o gosto do vinho.
        Voc pode estar certo. Talvez s se deva beber champanhe em casamentos.
Quando ela olhou para ele, Hammond sentiu o rosto ficar quente. Adivinhando exatamente o que ele estava pensando, ela deu risada. Era a mesma risada que ele lembrava 
que ela dera numa noite de julho, anos antes, quando os dois eram convidados de um casamento de um amigo mtuo. Tinham usado gardnias, lrios Casa Blanca, penias 
e outras flores perfumadas para decorar o jardim da casa da noiva onde deram a recepo. O cheiro forte das flores era penetrante e to intoxicante quanto o champanhe 
que ele tinha bebido, num esforo para se refrescar um pouco, apertado dentro do seu smoking. Como se tivessem sido escolhidas por uma agncia de modelos, as oito 
damas de honra eram louras lindssimas. Com o vestido comprido rosa-claro e um decote profundo, Davee estava ainda mais estonteante que as outras.
        Voc est to apetitosa que d vontade de com-la - ele tinha dito para ela do lado de fora da capela segundos antes do casamento.
        Ou beber, talvez. Est parecendo que voc devia ter um guardachuvinha de papel saindo do topo da sua cabea.
        Um guarda-chuva de papel  tudo que esse traje precisa para ser cem por cento nojento.
        Voc no gostou? - perguntou ele, querendo provoc-la. ' Ela mostrou o dedo para ele.
Mais tarde, na recepo, quando os dois saram da pista de dana depois de uma msica animada, "Shout", de Otis Day e os Knights, ela abanou o rosto e reclamou:
-Alm de esse vestido ter frufrus demais,  a merda de roupa mais quente que j pus no corpo.
        Ento tire.
Os Burton e os Cross eram amigos antes de Davee ou Hammond nascerem. Consequentemente, as primeiras lembranas que ele tinha das festas de Natal e churrascos na 
praia incluam Davee. Quando as crianas eram levadas para suas camas no segundo andar da casa enquanto os adultos continuavam se divertindo l embaixo, Davee e 
ele pregavam peas nas babs que tinham a m sorte de estarem encarregadas de tomar conta deles. Fumaram o primeiro cigarro da vida juntos. Com ar de superioridade, 
ela confidenciou para ele quando teve sua primeira menstruao. Na primeira vez que ela tomou um porre, foi no carro dele que vomitou. Na noite em que perdeu a virgindade, 
Davee telefonou para Hammond assim que chegou em casa, para dar um relatrio detalhado sobre o acontecimento. Desde quando eram pequenos, trocando o vocabulrio 
de palavres, por toda a adolescncia, falavam sacanagens um para o outro. Primeiro porque era divertido, e porque ningum ficava sabendo. Nenhum dedurava o outro, 
nem se sentia ofendido. Quando passaram a ser jovens adultos, a brincadeira adquiriu um tom mais sexual e de flerte, mas continuava sem sentido e, portanto, segura. 
Mas antes daquele casamento em julho, eles estavam cada um na sua respectiva universidade - ele na Clemson e ela na Vanderbilt - e no se viam havia bastante tempo. 
Estavam mais que um pouquinho bbados de champanhe e afetados pelo romantismo da ocasio. Por isso, quando Hammond fez aquele desafio malvado, Davee olhou para ele 
com os olhos enevoados e respondeu:
        Talvez eu tire mesmo.
Enquanto todos se reuniam em crculo para ver os noivos cortando o bolo do casamento, Hammond roubou uma garrafa de champanhe de um dos bares e puxou Davee pela 
mo. Esgueiraram-se at o quintal da casa vizinha, sabendo que o vizinho estava na recepo. Os gramados das duas casas eram divididos por uma sebe espessa e alta 
cultivada havia dcadas para garantir o tipo de privacidade que Hammond e Davee procuravam. O espoucar da rolha da garrafa de champanhe soou como um tiro de canho 
quando Hammond a tirou. Isso fez com que os dois comeassem a rir histericamente. Ele serviu uma taa para cada um e beberam tudo. Depois uma segunda. Num certo 
ponto da terceira taa, Davee pediu para ele ajud-la a desabotoar os botes das costas do vestido de dama de honra, e tirou tudo, inclusive o suti sem alas, a 
cinta-liga e as meias. Ela hesitou quando enfiou os polegares no elstico da cintura da calcinha, mas ele sussurrou:
        Duvido, Davee - um refro familiar da infncia e da juventude dela.
Davee nunca recuava quando recebia um desafio. E aquela noite no foi exceo.
Ela tirou a calcinha e deixou Hammond olhar bem para o recheio dela, depois desceu de costas os degraus da piscina e entrou na gua fria. Hammond tirou o smoking 
numa frao do tempo que tinha levado para vesti-lo, isolando as abotoaduras que nunca mais seriam encontradas... pelo menos por ele. Ele ficou em p na beira da 
piscina e Davee arregalou os olhos de espanto e admirao.
        Hammond, querido, voc melhorou muito desde aquele dia em que nos pegaram brincando de mdico.
Ele mergulhou.
Fora os beijos experimentais da adolescncia, quando concordavam que era "nojento" demais at pensar em abrir a boca e encostar a lngua, eles jamais tinham se beijado. 
E naquela noite tambm no se beijaram. No perderam tempo com isso. O perigo de serem pegos aumentava a excitao deles a tal ponto que as preliminares nem eram 
necessrias. No momento em que ele a alcanou, puxou-a para cima das suas coxas e penetrou-a. Foi escorregadio. Foi rpido. Os dois riram o tempo todo. Depois daquela 
noite ele no a viu mais por uns dois anos. Quando se reencontraram, ele fingiu que a escapada na piscina nunca acontecera, e ela fez a mesma coisa. Provavelmente 
nenhum dos dois queria que aquela nica experincia sexual estragasse a amizade de uma vida inteira. Nunca tinham mencionado o fato at aquele momento. Ele nem se 
lembrava como se vestiram de novo aquela noite, ou como se explicaram para as outras pessoas na recepo do casamento, ou se tiveram de dar explicaes para algum. 
Mas ele se lembrava muito bem da risada de Davee, escandalosa e forte, sedutora e sensual. A sua risada no tinha mudado. Mas o sorriso dela era quase triste.
-Ns nos divertimos bastante quando ramos crianas, no acha?
        disse ele.
        , nos divertimos muito.
Ento ela olhou para as bolhas na sua taa e ficou pensativa um instante antes de beber.
        Infelizmente tivemos de nos tornar adultos e a vida ficou um saco.
Ela deixou o brao cair sem vida ao lado da mesa. Hammond tirou aflte da mo dela antes que casse e se espatifasse no cho de mrmore.
        Sinto muito a morte do Lute, Davee. Foi para isso que eu vim, para dizer que acho horrvel isso que aconteceu. Tenho certeza que meus pais vo telefonar 
ou vir at aqui para v-la amanh.
        Ah, amanh haver uma procisso de gente compadecida fazendo fila por aqui. Recusei-me a receber qualquer pessoa hoje, mas amanh no vou mais poder evitar. 
Trazendo seus ensopados de galinha e gelatina de limo, eles vo se amontoar aqui dentro para ver como estou reagindo.
        E como  que voc est reagindo?
Davee notou a mudana no tom de voz dele, rolou de lado, puxou a toalha para a frente do corpo e sentou, balanando as pernas na beirada da mesa.
        Voc est perguntando como meu amigo ou como o provvel herdeiro da promotoria pblica?
        Eu poderia contestar essa questo, mas estou aqui como seu amigo. Nem devia precisar dizer isso.
Ela respirou fundo.
        bom, no espere luto, penitncia ou camisa de cilcio. Nenhum desses rituais da Bblia. No vou cortar fora um dedo nem nada que as vivas ndias fazem 
nos filmes. No, vou me comportar de acordo. Graas a Lute as fofocas tero bastante combustvel sem que eu tenha de demonstrar o que realmente sinto.
        E o que ?
Ela deu um sorriso brilhante como na noite do seu baile de debutante.
        Estou achando timo o filho-da-me estar morto - os olhos cor de mel desafiaram Hammond a fazer qualquer comentrio. Ele no fez, ela simplesmente riu, 
e ento virou-se para o massagista: - Sandro, seja bonzinho e faa meu pescoo e meus ombros, por favor.
Desde o momento em que ela se sentou, ele ficou encostado na parede espelhada, os braos cruzados sobre o peito musculoso. Sandro era bonito e muito forte. O cabelo 
preto e liso estava penteado para trs com muito gel. Os olhos eram negros como azeitonas maduras. Quando ele se aproximou de Davee por trs e ps as mos nos ombros 
dela, seus olhos mediterrneos e intensos olharam fixamente para Hammond, como se avaliasse um competidor. Era bvio que seus servios iam alm da massagem. Hammond 
queria dizer para ele relaxar, que Davee e ele eram velhos amigos, nada mais, e que ele no precisava ter cime nenhum. Ao mesmo tempo, ele queria avisar Davee que 
aquela no era hora de afrontar as convenes trepando com o massagista. Pelo menos uma vez na vida ela devia exercitar a discrio. A no ser que Hammond estivesse 
enganado, e levando em conta as observaes de Steffi, o nome dela estaria no topo da lista de suspeitos de Rory Smilow. Tudo que ela fizesse seria acompanhado muito 
de perto.
        Admiro a sua candura, Davee, mas...
        Por que mentir? Voc gostava de Lute?
        No - respondeu ele sinceramente e sem hesitar. - Ele era um bandido, um trapaceiro e um oportunista sem escrpulos. Machucava todas as pessoas que podia 
e usava as que no podia machucar.
        Voc tambm est sendo cndido, Hammond. A maioria das pessoas sentia isso. No sou a nica a desprez-lo.
        No, mas voc  viva dele.
        Eu sou viva dele. Sou uma poro de coisas. Mas uma coisa que no sou  hipcrita. No vou lamentar a morte desse filho-da-me.
        Davee, se as pessoas erradas ouvissem voc dizer coisas como essa, criariam problemas para voc.
        Como Rory Smilow e aquela vaca que ele trouxe para c a noite passada?
        Exatamente.
        Aquela tal de Steffi trabalha com voc, certo? - assentiu ele com a cabea, e ela disse: - Bem, eu a achei um horror.
Ele sorriu.
        Pouca gente gosta da Steffi. Ela  muito ambiciosa. Afeta as pessoas do modo errado, mas no d a mnima. Ela no pretende ganhar nenhum campeonato de personalidade.
         bom, porque ia perder.
        Na verdade ela  muito agradvel depois que a conhecemos.
        Dispenso.
        Voc tem de considerar de onde ela vem.
        De algum lugar ao Norte. Ele deu uma risadinha.
        No estava me referindo a uma regio, Davee. Quis me referir  motivao dela. Ela teve algumas decepes na carreira. Quer compensar esses contratempos 
e, s vezes, exagera um pouco.
        Se voc no parar de defend-la, vou acabar ficando de mau humor.
Ela ps o brao atrs da cabea e levantou o cabelo para Sandro ter acesso livre. Era uma pose muito provocante, expondo o lado de baixo do brao e parte do seio. 
Hammond entendeu que ela sabia que era provocante e imaginou se Davee estava querendo distra-lo de propsito.
        Voc acha mesmo que eles vo suspeitar de mim? - perguntou ela.
        Voc vai herdar muito dinheiro agora.
        Ah , tem isso - concordou ela pensativa. - E h tambm o consenso de que o principal objetivo da vida do meu falecido marido era enrabar o maior nmero 
possvel de amigas minhas, e uso esse termo de modo superficial.
No sei se ele se metia com elas porque elas so, de modo geral, as mulheres mais desejveis de Charleston, ou se eram desejveis para ele s porque eram minhas 
amigas. Provavelmente essa ltima hiptese, porque o rabo de Georgia Arendale  to grande quanto um navio de guerra, e isso no o impediu de lev-la para Kiawah 
para passarem um dia na praia. Aposto que ela sofreu uma queimadura sria porque precisaria de um tubo inteiro de Coppertone para cobrir aquela celulite toda. "Emily 
Southerland tem uma pele que faria parar um relgio, apesar de ter feito inmeros peelings qumicos, mas Lute transou com ela assim mesmo, naquele horrendo toalete 
do primeiro andar da casa dela, tem uma capa no vaso que imita pele, na festa de ano-novo que ela deu." Hammond riu, apesar de Davee no estar tentando ser engraada.
        E voc, claro, enquanto isso, era fiel aos seus votos do casamento.
         claro.
Ela deixou a toalha cair um ou dois centmetros e piscou os olhos para ele, enfatizando a mentira.
        O seu casamento no era exatamente um modelo, Davee.
        Eu nunca disse que amava Lute. Na verdade, ele sabia que eu no o amava. Mas no fazia mal, porque ele tambm no me amava. Mesmo assim, o casamento servia 
para um propsito. Ele queria exibir os direitos que tinha sobre mim. Ele era o nico homem em Charleston que tinha culhes suficientemente grandes para possuir 
Davee Burton. Em troca, eu... - ela fez uma pausa e fez cara de desgosto. - Tive meus motivos para casar com ele, mas no eram a busca da felicidade.
Ela abaixou o brao e soltou o cabelo enquanto Sandro comeava a trabalhar sua espinha lombar.
        Voc est fazendo careta, Hammond. Qual  o problema?
        Tudo que voc diz parece motivo para cometer um assassinato. Ela deu uma risada de desprezo.
        Se eu tivesse de matar Lute, no teria feito desse jeito. No teria me abalado at o Centro numa tarde quente de sbado, quando esta cidade fica cheia de 
turistas nortistas fedorentos e suados, levando uma arma e atirando nele pelas costas.
        De qualquer forma, seria isso que voc ia querer que a polcia pensasse.
        Psicologia invertida? No sou to inteligente assim, Hammond.
Ele olhou para ela de um jeito que dizia Ah,  sim.
        Tudo bem - disse ela, interpretando corretamente a expresso dele -, eu sou. Mas tambm teria de ser muito esforada, e ningum nunca me acusou de fazer 
alguma coisa que no me agrada, ou de sacrificar meu conforto fsico por qualquer que fosse o motivo. Eu simplesmente no sinto paixo por nada.
        Acredito em voc - disse ele, sinceramente. - Mas acho que no existe precedente legal para basear a defesa na preguia.
        Defesa? Voc realmente acha que vou precisar me defender? O detetive Smilow me considera seriamente suspeita? Isso  loucura! Exclamou ela. - Ora, ele poderia 
matar Lute com mais facilidade do que eu. Smilow nunca perdoou Lute pelo que aconteceu com a irm dele.
Hammond franziu a testa.
        Voc se lembra? Margaret, irm de Smilow, foi a primeira mulher do Lute. J devia ser manaco-depressiva sem que ningum soubesse, mas o casamento com Lute 
foi a sua desgraa. Um dia ela surtou e devorou um vidro de comprimidos no almoo. Quando ela se matou Smilow culpou Lute, dizendo que ele tinha sido negligente 
e que a tinha explorado emocionalmente, sem nenhuma sensibilidade para compreender as carncias de Margaret. De qualquer modo, no enterro dela eles trocaram insultos 
que provocaram um enorme escndalo. Voc no se lembra?
        Agora estou lembrando.
        Smilow odeia Lute desde ento. Por isso no vou me preocupar com ele - disse ela, mudando de posio na mesa sob orientao de Sandro. - Se ele me acusar 
de ter matado Lute, simplesmente viro a mesa e lembro de quantas ameaas de morte ele me fez.
        Eu daria tudo para ver isso - disse Hammond. Devolvendo o sorriso dele, ela disse:
        Voc j bebeu todo o seu champanhe. Quer mais?
        No, obrigado.
        Eu quero mais - enquanto ele servia, ela perguntou: - Suponho que Monroe Mason falou com voc? Voc ser o promotor quando eles capturarem o assassino?
        O combinado foi esse. Obrigado pela recomendao. Ela bebeu daflte que ele deu para ela.
        Posso ser qualquer outra coisa, Hammond, mas sou uma amiga leal. Nunca duvide disso.
Ele desejou que ela no tivesse dito isso. O promotor municipal Mason tinha informado  equipe que ia se aposentar logo. O assistente do promotor, Wallis, tinha 
uma doena fatal e no podia concorrer ao cargo mximo na eleio de novembro. Hammond era o terceiro a pleitear o cargo. E tinha praticamente garantido o apoio 
de Mason como sucessor dele.
Mas o fato de Davee ter intercedido a seu favor junto a Mason deixava Hammond aflito. Ele apreciava sua recomendao; porm, mais tarde, podia se transformar num 
conflito de interesses se ela fosse julgada pelo assassinato do marido.
        Davee,  meu dever perguntar... o seu libi  bom?
        Creio que o termo  "perfeito".
        timo.
Ela jogou a cabea para trs e deu uma risada.
        Hammond, querido, voc  uma gracinha! Est mesmo com medo de ter de me acusar de assassinato, no est?
Ela deslizou da mesa de massagem e se aproximou dele, segurando a toalha na frente do corpo e deixando-a aberta atrs. Ficou na ponta dos ps e beijou o rosto de 
Hammond.
        No precisa se preocupar. Se eu fosse atirar no Lute no seria pelas costas. Que graa teria isso? Eu ia querer olhar bem nos olhos do filho-da-me quando 
apertasse o gatilho.
        Essa defesa no  melhor que a preguia, Davee.
        No preciso de defesa. Juro que no matei Lute - demonstrou desenhando umXinvisvel sobre o peito. - Eu nunca mataria ningum.
Ele ficou aliviado ao ouvi-la negar com tanta convico. Ento ela estragou tudo, completando o raciocnio:
        Aqueles uniformes da priso so muito fora de moda.
Davee estava deitada de costas, de olhos fechados, satisfeita e relaxada com a massagem de Sandro seguida de sexo que no exigiu nenhuma participao dela, a no 
ser curtir o prprio orgasmo. Ela sentiu a presso da ereo insaciada dele contra sua coxa, mas ignorou. Ele acariciou de leve o mamilo dela com a lngua.
         estranho - murmurou ele com seu sotaque carregado.
        O qu?
        O seu amigo deu indiretas, mas em nenhum momento perguntou se voc matou o seu marido.
Ela o empurrou e olhou para ele.
        O que voc quer dizer? Ele deu de ombros.
        Ele  seu amigo, por isso no queria ter certeza de que foi voc. Os olhos de Davee se moveram para um espao vazio logo atrs
do ombro dele, e ela sem querer disse em voz alta o que estava pensando.
        Ou talvez ele j saiba, com certeza, que no fui eu.
Quando Hammond se afastou da manso Pettijohn, ele pediu a Deus para nunca ter de chamar Davee para testemunhar no tribunal, por dois motivos muito srios. O primeiro, 
porque Davee e ele eram amigos. Ele gostava dela. Ela no era nenhum pilar de virtude, mas ele a respeitava por no fingir que era. Quando ela afirmava que no era 
hipcrita, no era uma afirmao vazia. Ele conhecia dzias de mulheres que fofocavam maldosamente sobre ela, e que no eram mais ntegras do que ela. A diferena 
 que elas pecavam em segredo. Davee pecava s claras. Ela era considerada vaidosa e egosta, e era mesmo. Mas essa reputao quem cultivava era ela. Deliberadamente, 
dava motivos para seus crticos estremecerem com o seu comportamento. Nenhum deles percebia que a persona que eles censuravam no era a verdadeira Davee. Os melhores 
aspectos da sua personalidade Davee mantinha escondidos. Hammond concluiu que a charada era o mecanismo de autodefesa dela para no se machucar ainda mais do que 
tinha sido na infncia. Ela afastava as pessoas antes que tivessem oportunidade de rejeit-la. Maxine Burton foi uma pssima me. Davee e as irms foram privadas 
da sua ateno e do seu afeto. Ela no fez nada para merecer o amor ou a dedicao das filhas. No entanto, Davee visitava religiosamente a me toda semana na clnica 
de elite onde estava confinada. Alm de financiar e supervisionar o seu tratamento, Davee se envolvia diretamente com ela, cuidando das necessidades pessoais da 
me nas suas visitas rotineiras. Provavelmente Hammond era a nica pessoa que sabia disso e no teria descoberto se Sarah Birch no tivesse feito essa confidncia 
para ele. O segundo motivo que fazia Hammond no querer interrogar Davee no julgamento era que ela mentia muito bem. Ouvi-la falar era um prazer to grande que a 
pessoa deixava de se importar se ela dizia ou no a verdade. Os jurados achavam testemunhas como Davee divertidas. Se ela fosse chamada para testemunhar, iria para 
o tribunal vestida para matar. S a aparncia dela j faria o jri se empertigar nas cadeiras e not-la. Eles podiam cochilar durante o testemunho de outras pessoas, 
mas ouviriam com ateno e esperariam com ansiedade cada palavra coberta de acar que sairia dos lbios de Davee. Se ela dissesse que, apesar de no ter matado 
Lute, no sentia a morte dele, que ele era um marido infiel, que a enganava tantas vezes que nem dava para contar, que ele era basicamente mau e cruel e que merecia 
morrer, os jurados de ambos os sexos provavelmente concordariam. Ela teria persuadido a todos que o carter e as trapaas do filho-da-me justificavam o crime. No, 
ele no ia querer expor Davee ao julgamento pelo assassinato do marido. Mas se tivesse de fazer isso, ele faria. Receber esse caso tinha sido a melhor coisa que 
podia acontecer na carreira de Hammond. Ele esperava que a equipe de Smilow lhe desse bastante material com que trabalhar, que o acusado no se declarasse culpado 
para que o caso fosse julgado pelo tribunal do jri. Esse era um caso em que ele podia enfiar os dentes. Certamente seria um desafio. Ia exigir toda a sua concentrao. 
Mas tambm seria uma excelente prova. Ele pretendia definitivamente concorrer ao cargo de promotor pblico em novembro. Queria vencer. Mas no queria vencer porque 
era mais bonito, ou por ter um pedigree melhor, ou por ter mais recursos do que o outro ou os outros candidatos. Ele queria merecer o cargo. Raramente acontecia 
um caso com o peso do assassinato de Lute Pettijohn. Era por isso que precisava dele. Por isso tinha omitido revelar seu encontro com Pettijohn para Monroe Mason. 
Ele simplesmente tinha de ter esse caso, e no estava disposto a deixar que qualquer coisa o impedisse de lev-lo a julgamento. Era o veculo perfeito para dar-lhe 
a exposio pblica que precisava antes de novembro. Era tambm o veculo perfeito para afrontar o pai dele.
Aquele era o motivo mais atraente de todos. Alguns anos antes, Hammond tinha tomado uma deciso na carreira, de mudar de defensor para promotor. Preston Cross se 
ops violentamente  deciso do filho, citando as diferenas do potencial de ganhos financeiros e dizendo para Hammond que ele era louco de se contentar com o salrio 
de um funcionrio pblico. Pouco tempo atrs, Hammond tinha descoberto que o nvel de renda de um promotor pblico no era o maior problema para o pai dele. A mudana 
ps os dois em lados opostos. Como Preston era scio de Lute Pettijohn em alguns negcios de terras inescrupulosos, ele temia ser processado pelo prprio filho. 
S recentemente Hammond tinha feito essa descoberta. Ele ficou enojado. O confronto que tiveram sobre o assunto foi amargo e acrescentou uma nova dimenso  inimizade 
entre os dois. Mas ele no podia pensar nisso agora. Sempre que pensava no pai, ele ficava com a mente entorpecida. Tirar camada aps camada do relacionamento deles 
para examinar mais a fundo consumia tempo, era emocionalmente extenuante e acabava sendo improdutivo. Ele no tinha muita esperana de chegar a uma reconciliao. 
Por hora ele resolveu arquivar esse problema e se concentrar no que tinha imediatamente se tornado prioritrio: o caso. O momento que tinha escolhido para romper 
com Steffi foi feliz. Estava livre de uma responsabilidade que o deixava infeliz e que poderia ter prejudicado a sua concentrao. Ela ficaria furiosa de saber que 
tinha sido designada para o posto de co-piloto, mas ele saberia lidar com o mau humor dela se fosse necessrio. Para Hammond Cross aquele dia significava um novo 
comeo que, na verdade, tinha comeado na noite anterior. Dirigindo o carro para longe da manso Pettijohn, com apenas uma das mos, ele pegou no bolso da frente 
da camisa o pedao de papel que tinha posto ali mais cedo e verificou o endereo escrito nele. Ofegante, Steffi entrou correndo no quarto do hospital.
        Vim o mais rpido que pude. O que foi que perdi? Smilow tinha ligado para o seu celular logo antes de Steffi sair da
casa de Hammond. Como prometera, ele tinha telefonado assim que o mdico encarregado dera permisso para interrogar os pacientes.
        Quero estar nessa, Smilow - disse ela para ele ao telefone.
        No posso ficar esperando voc chegar. O mdico pode retirar a oferta se eu no agarr-la logo.
        Tudo bem, mas v devagar. Estou a caminho.
O bairro do condomnio de Hammond no ficava longe do complexo hospitalar. Mesmo assim, ela excedeu todos os limites de velocidade para chegar l. Estava muito ansiosa 
para saber se os pacientes com intoxicao alimentar tinham visto algum perto da sute de cobertura do hotel de Pettijohn. Logo que chegou assim apressada, ela 
parou um pouco na porta e depois cruzou o piso de cermica at o leito do hospital. O paciente nele era um homem com cerca de cinquenta anos, cujo rosto tinha a 
cor da farinha de trigo, os olhos afundados no crnio e emoldurados por crculos escuros. A mo direita estava presa a uma agulha de soro. Havia uma comadre e um 
patinho ao alcance dele na mesa ao lado da cama. Uma mulher que Steffi concluiu que devia ser a esposa dele estava sentada numa cadeira ao lado. Ela no parecia 
doente, apenas exausta. Ainda usava a roupa de turista, tnis, short de caminhada e uma camiseta onde se lia com letras cintilantes: GIRLS RAISED IN THE SOUTH [mulheres 
criadas no Sul, e grits - as iniciais - significa esprito indmito] .Smilow, em p ao lado da cama, fez as apresentaes:
        Sr. E sra. Daniels, Steffi Mundell. A srta. Mundell  do escritrio do promotor pblico. Est intimamente envolvida na investigao.
        Ol, sr. Daniels. -Oi.
        O senhor est melhor?
        Parei de rezar para morrer.
        Imagino que isso representa alguma melhora - ela olhou para a mulher dele do outro lado da cama. - A senhora no ficou doente, sra. Daniels?
        Tomei sopa de caranguejo fmea - respondeu ela com um sorriso plido.
        Os Daniel so os ltimos com quem estou conversando - disse Smilow. - Os outros do grupo deles no puderam nos ajudar.
        E eles podem?
        O sr. Daniels  uma possibilidade.
Sem parecer muito contente com isso, o homem no leito resmungou:
        Talvez eu tenha visto algum.
Sem conseguir conter sua impacincia, Steffi insistiu para que ele fosse mais preciso:
        O senhor viu ou no viu algum? A sra. Daniels ficou de p.
        Ele est muito cansado. Isso no podia esperar at amanh? Depois de mais uma noite de descanso?
Steffi percebeu seu erro no mesmo instante e fez fora para desacelerar.
        Sinto muito. Perdoe-me por ser to incisiva. Temo que adotei certos maus hbitos na convivncia com as pessoas que processei. Estou acostumada a lidar com 
assassinos, ladres e estupradores, em geral reincidentes, no gente boa como vocs. No  comum eu interagir com pessoas que pagam impostos, obedecem s leis e 
temem a Deus.
Depois desse discurso ela no teve coragem de olhar para Smilow, sabendo que veria escrnio na expresso dele. Mordendo o lbio, a sra. Daniels consultou o marido:
         voc que sabe, meu bem. Est disposto a fazer isso agora? Steffi tinha avaliado os dois e imediatamente concluiu que no
haveria disputa entre o QI dela e o deles. Aproveitou a vantagem da indeciso do casal para manipul-los um pouco.
         claro que se quiserem esperar at amanh de manh para responder s nossas perguntas, tudo bem, sr. Daniels. Mas, por favor, compreenda a nossa posio. 
Um lder da nossa comunidade foi assassinado a sangue-frio. Foi baleado pelas costas sem provocao. Nenhuma que pudssemos determinar, de qualquer maneira - ela 
deu um tempo para eles assimilarem aquela informao, e depois acrescentou:
        Esperamos pegar esse criminoso brutal antes de ele ter outra oportunidade de atacar.
        Ento no posso ajud-los.
Todos ficaram atnitos com a inesperada declarao do sr. Daniels. Smilow foi o primeiro a recuperar a voz:
        Como sabe que no pode ajudar?
        Porque a sra. Mundell aqui disse que o criminoso foi um homem, e a pessoa que vi foi uma mulher.
Steffi e Smilow trocaram olhares.
        Usei o masculino de forma genrica - explicou ela.
        Ah, bem, quem eu vi foi uma mulher - disse Daniels, recostando no travesseiro. - S que ela no parecia uma assassina.
        Poderia explicar isso melhor? - pediu Steffi.
        Quer dizer, como ela era?
        Comece pelo comeo e v nos contando - sugeriu Smilow.
        Bem, ns... isto , nosso grupo do coral... samos do hotel logo depois do almoo. Cerca de uma hora depois, comecei a me sentir mal. No incio pensei que 
era por causa do calor. Mas dois garotos que estavam conosco j tinham sentido nuseas e dores de barriga, por isso suspeitei que fosse mais que isso. Fui piorando 
a cada minuto. Finalmente, disse para a minha mulher que ia voltar para o hotel, tomar um anticido ou qualquer coisa assim, e que os alcanaria mais tarde.
A sra. Daniels confirmou isso balanando a cabea solenemente, sem dizer nada.
        Quando voltei a p para o hotel, eu estava a ponto de... de vomitar. Tive medo de no conseguir chegar a tempo ao meu quarto.
        Quando o senhor viu a mulher? - perguntou Steffi, querendo que ele fosse direto ao ponto.
        Quando cheguei ao nosso quarto.
        Que ficava no quinto andar - verificou Smilow.
        Cinco, zero, seis - disse Daniels. - Notei outra pessoa no fim do corredor e olhei para ela. A mulher estava parada na frente de uma outra porta.
        Fazendo o qu? - perguntou Smilow.
        No estava fazendo nada. S olhando para a porta, como se tivesse batido e esperasse algum abri-la.
        A que distncia ela estava do senhor?
        Humm, no muito longe. Mas longe. Nem prestei muita ateno. Sabe como  quando a gente olha nos olhos de uma pessoa estranha e s tem vocs dois no lugar? 
Foi assim. Voc no quer parecer muito anti-social, nem amigvel demais. Hoje em dia a gente tem de tomar cuidado com as pessoas.
        O senhor falou com ela?
        No, no, nada disso. S olhei na direo dela. A verdade  que eu no pensava em nada alm de chegar ao banheiro.
        Mas deu uma boa olhada nela?
        No to boa.
        Suficientemente boa para determinar a idade dela?
        Ela no era velha. Mas tambm no era nenhuma menina. Mais ou menos a sua idade - disse ele para Steffi.
        De alguma outra raa?
        No.
        Alta, baixa?
Daniels franziu a testa e passou a mo na barriga.
        Meu bem? - disse a mulher dele, pegando uma bacia, aflita, e pondo-a embaixo do queixo dele.
Ele empurrou a bacia.
        S uma dorzinha.
        Quer um pouco de Sprite?
        Um gole. - A sra. Daniels ps a xcara coberta perto dos lbios dele e ele sugou atravs de um canudo com uma dobra. Quando terminou, ele olhou para Smilow 
de novo. - O que o senhor perguntou... ah, a altura dela? - ele balanou a cabea. - No notei. No era nenhum extremo. Acho que ficava na mdia.
        Cor do cabelo? Ela era loura? - perguntou Steffi.
        No muito.
        No muito? - repetiu Smilow.
        No era muito loura. No achei que fosse do tipo Marilyn Monroe, entende? Mas o cabelo tambm no era escuro. Assim, mdio.
        Sr. Daniels, pode nos dar uma descrio fsica geral?
        Quer dizer, se ela era... como, gorda?
        Ela era? -No.
        Magra?
        . Mais para magra. Bem, meio magra, acho que se pode dizer. Sabe, eu realmente no prestei muita ateno nela. S estava tentando evitar provocar um acidente 
horrvel ali no corredor.
        Acho que isso  tudo que ele pode dizer - disse a sra. Daniels para os dois. - Se quiserem perguntar mais alguma coisa, podem voltar amanh.
        Uma ltima pergunta, por favor - disse Smilow. - O senhor viu essa mulher entrar no quarto do sr. Pettijohn?
        No. Destranquei a minha porta com aquela chave que parece um carto de crdito o mais rpido possvel, e entrei - ele esfregou a barba por fazer no queixo. 
-Alis, nem sei se era ou no o quarto onde o cara foi morto. Podia ser qualquer quarto daquele corredor.
        Era a sute de cobertura. A porta fica mais para dentro - disse Steffi. -  diferente dos outros. Se apontssemos a sute do sr. Pettijohn para o senhor, 
poderia determinar se foi diante daquela porta que o senhor viu a mulher parada?
        Duvido muito. Como j disse antes, s dei uma olhada rpida para aquele lado do corredor. Registrei que havia uma mulher parada diante de uma porta, esperando 
algum abri-la. Apenas isso.
        O senhor tem certeza de que ela no estava saindo, se afastando do quarto?
        No, no tenho certeza - Daniels estava comeando a parecer irritado. - Mas foi essa a impresso que tive. No havia nada estranho nela ou na situao. 
Sinceramente, se vocs no perguntassem eu nunca mais pensaria nela. Vocs perguntaram se vi algum no corredor aquela tarde, e foi ela que vi.
A sra. Daniels interrompeu de novo. Steffi e Smilow se desculparam por ter de incomod-lo, agradeceram a informao, desejaram que ele se recuperasse logo e foram 
embora.
No corredor do hospital, Smilow parecia abatido.
        Maravilha! Temos uma testemunha ocular que viu uma mulher parada no muito longe dele, mas bem longe, que poderia ou no estar na frente da sute de Pettijohn. 
No era velha nem jovem. Altura mdia. Cabelo "meio mdio" e "meio magra".
        Estou desapontada, mas no surpresa - disse Steffi. - Desconfiei de que ele no ia se lembrar de nada devido  preocupao dele naquele momento.
        Merda! - xingou Smilow.
        Exatamente.
Ento eles olharam um para o outro e caram na risada, e ainda estavam rindo quando a sra. Daniels saiu do quarto do marido.
        Ele finalmente me convenceu a voltar para o hotel. No fui l desde que a ambulncia nos trouxe para c. Vocs vo descer? Perguntou ela educadamente quando 
o elevador chegou.
        Ainda no - disse Steffi para ela. - Tenho outros assuntos para conversar com o detetive Smilow.
        Boa sorte na soluo do mistrio.
Eles agradeceram a cooperao dela e a disposio para ajudar, ento Steffi levou Smilow para a sala de espera, que estava vazia naquele momento. Depois que se sentaram 
de frente um para o outro, Smilow informou, sem rodeios, que Hammond Cross seria o promotor do caso Pettijohn.
        Mason premiou seu menino de ouro.
Sem fazer nenhum esforo para mascarar a decepo ou o ressentimento, Steffi perguntou quando ele tinha sabido disso.
        Esta noite mesmo. O chefe Crane telefonou e me contou porque eu tinha feito campanha por voc.
        Obrigada. Apesar de no ter servido para nada - disse ela amargamente. - Quando  que eu ia ficar sabendo dessa reviravolta?
        Amanh, acho.
Hammond no sabia do assassinato de Pettijohn at ela contar para ele. Deve ter sido o telefonema de Mason que ele recebeu quando ela ainda estava na casa dele. 
Foi um tormento duplo ele ter tirado dela um caso que faria a sua carreira, segundos depois de terminar o namoro deles.
        Davee Pettijohn mexeu os pauzinhos - disse Smilow.
        Conforme ela prometeu.
        Ela disse que nunca se contenta com o segundo melhor. Parece que acha que voc  a segunda melhor.
        No  isso. No  s isso, quero dizer. Ela prefere muito mais um homem trabalhando para ela do que uma mulher.
        Bem pensado. Uma qumica melhor. Alm do mais, a famlia dela e os Cross so amigos h dcadas.
        No  o que voc sabe, mas quem.
Depois de um momento refletindo em silncio, Steffi levantou e pendurou a ala da sua pesada valise no ombro.
        J que no sou mais...
Smilow fez um sinal para ela se sentar novamente.
        Mason jogou o osso para voc. Finja surpresa quando ele lhe der a notcia oficialmente amanh de manh.
        Que tipo de osso?
        Voc ser assistente do Hammond.
        Nenhuma surpresa nisso. Um caso como esse exige pelo menos duas cabeas boas - sentindo que havia mais, ela olhou para Smilow com uma sobrancelha levantada. 
- E?
        E  da sua responsabilidade servir de barreira entre ns e manter a interao amigvel. Fora isso, voc deve tentar evitar derramamento de sangue.
        Palavras de Mason para o seu chefe?
        Estou parafraseando - ele deu um sorriso triste. - Mas no se preocupe demais. Duvido que chegue a derramamento de sangue.
        No tenho tanta certeza. J vi vocs dois prestes a travar o que parecia ser um combate mortal. Por falar nisso, o que foi aquilo?
        Ns nos detestamos.
        At a eu sei, Smilow. Mas o que provocou isso?
         uma longa histria.
        Fica para outra hora?
        Talvez.
Ela ficou frustrada de Smilow no ter prometido contar. Gostaria de conhecer as circunstncias por trs daquele dio to virulento que havia entre Hammond e Smilow. 
 claro que eram personalidades completamente diferentes. A insociabilidade de Smilow repelia as pessoas e, a no ser que ela estivesse completamente enganada, era 
proposital. Hammond era carismtico. Amizades ntimas com ele tinham de ser merecidas, mas ele era simptico e afvel. Smilow era fastidioso e estava sempre impecavelmente 
arrumado, enquanto que o charme de Hammond era natural e espontneo. Na faculdade, Smilow seria o nico cara na classe a gabaritar a prova e arruinar a curva de 
classificao para todos os outros. As notas de Hammond eram excelentes tambm, mas ao mesmo tempo ele tinha sido um aluno muito popular, lder e atleta completo. 
Os dois eram superempreendedores, mas as conquistas de um eram obtidas com dificuldade, e para o outro vinham fceis. Steffi se identificava mais com Smilow. Entendia 
e era capaz de simpatizar com o ressentimento que ele sentia em relao a Hammond, ressentimento que crescia com a prpria atitude de Hammond em relao s suas 
vantagens. Ele no as explorava. Alm do mais, ele as rejeitava. Desdenhando o dinheiro da famlia, ele vivia com o que ganhava. O condomnio onde morava era bom, 
mas poderia morar muito melhor. Suas nicas extravagncias eram o veleiro e a cabana, mas nunca fazia propaganda de nenhum dos dois. Seria muito mais fcil odi-lo 
se ele usufrusse dos seus privilgios. Seria interessante, para no dizer til, conhecer a origem da antipatia que havia entre ele e Smilow. Eles estavam do mesmo 
lado da lei, trabalhavam por um objetivo comum, e, no entanto, pareciam desprezar ainda mais um ao outro do que aos criminosos incorrigveis.
        Deve ser difcil - disse Smilow, tirando Steffi de seus devaneios.
        O qu?
        Estar sempre competindo com Hammond no mbito profissional, mas dormindo com ele  noite. Ou ser que esse toque de competitividade  o que torna o caso 
to excitante?
Pela primeira vez Steffi foi pega de surpresa. Ela olhou fixamente para ele, muda de espanto.
        Est imaginando como  que sei? - ele deu um sorriso to frio que provocou arrepios na espinha de Steffi. - Pelo processo de eliminao. Ele  o nico homem 
no prdio do frum que no se gaba de ter estado a-ele olhou significativamente para o colo dela. -Juntei as coisas, e a sua reao atnita ao meu palpite apenas 
serviu para confirmar.
A presuno dele era insuportvel, mas ela se recusou a demonstrar raiva ou aborrecimento, o que teria deixado Smilow imensamente satisfeito. Em vez disso, ela no 
mudou a expresso do rosto e manteve a voz calma.
        Por que est to interessado na minha vida amorosa, Smilow? Ser que  cime? Ele deu uma risada.
        Flertar no lhe cai bem, Steffi.
        V  merda!
Sem se perturbar, ele continuou:
        Raciocnio dedutivo  o meu negcio. Sou bom nisso.
        O que voc pretende fazer com essa informao picante?
        Nada - respondeu ele com um dar de ombros negligente. - S me diverte saber que o menino de ouro comprometeu sua tica profissional. A armadura dele est 
comeando a perder o brilho? S um pouquinho?
        Transar com um colega no  exatamente uma ofensa capital. Quanto s transgresses,  um pequeno insulto.
         verdade. Mas, para Hammond Cross,  praticamente um pecado mortal. Seno, para que manter segredo?
        Bem, voc pode parar de se vangloriar. No h mais nenhum segredo para manter. O caso acabou. Verdade - disse ela quando ele olhou para ela desconfiado.
        Desde quando?
Ela consultou o relgio de pulso.
        Duas horas e dezoito minutos atrs.
         mesmo? Antes ou depois de Mason dar o caso para ele? 135
        Uma coisa no teve nada a ver com outra - disse ela, irritada. O canto dos lbios de Smilow tremeu num quase sorriso.
        Voc tem certeza disso?
        Absoluta. Voc pode muito bem saber da verdade, de toda a verdade e nada mais que a verdade, detetive. Hammond me dispensou. Sem mais nem menos. Fim de 
papo.
        Por qu?
        Recebi o discurso bsico "estamos indo em direes opostas", que normalmente se traduz para "estive l, fiz aquilo e estou pronto para experimentar outro 
local de frias".
        Humm. Voc sabe de algum balnerio que ele planeje visitar?
        Nenhum. E em geral a mulher sabe.
        O homem tambm.
O tom de voz dele indicava mais que aquelas trs palavras. Steffi olhou bem para ele.
        Ora, Rory! Ser que  remotamente possvel que o sr. Gelo nas Veias j tenha se apaixonado uma vez na vida?
        com licena? - eles no tinham notado a chegada da enfermeira at ela falar com eles. - Meu paciente... - ela indicou o quarto do sr. Daniels com o polegar 
por cima do ombro. - Ele queria saber se os senhores tinham ido embora. Quando eu disse que ainda estavam aqui, ele me pediu para lhes dizer que lembrou de uma coisa 
que pode ser til.
Antes da enfermeira terminar de falar, os dois j estavam em p. Hammond consultou o endereo que tinha rabiscado no papel e guardado no bolso da camisa antes de 
sair de casa para visitar Davee. Sem saber se o nmero de telefone do servio de recados da clnica era de Charleston, Hammond passara o dedo, aflito, por uma lista 
de clnicas mdicas nas Pginas Amarelas at encontrar a clnica A. E. Ladd. Na mesma hora soube que era aquela mesma, porque o nmero para ligaes fora do horrio 
de expediente era o mesmo que ele tinha chamado da cabana aquela manh. A clnica era a nica pista que ele tinha para a mulher com quem tinha estado aquela noite. 
 claro que conversar com ele estava fora de questo. O objetivo de Hammond no curto prazo era apenas localizar o consultrio dele e ver o que podia descobrir com 
isso, se  que poderia mesmo descobrir alguma coisa. Mais tarde ele pensaria num modo de abord-lo. Apesar de estar preocupado com o fim do namoro com Steffi, com 
a conversa perturbadora que tinha tido com Davee, e com o assassinato de Pettijohn e com tudo que aquilo significava, a lembrana da mulher que havia seguido na 
sada da feira rural e beijado no posto de gasolina no lhe dava trgua. Seria intil tentar ignor-la. Hammond Cross no aceitava perguntas sem respostas. Mesmo 
quando era menino, no se contentava com respostas apenas convenientes. Perturbava os pais at eles darem uma explicao que satisfizesse a sua curiosidade. Tinha 
mantido essa caracterstica na idade adulta. Esse desejo de saber mais que apenas generalidades, de conhecer as particularidades, beneficiava o trabalho dele. Hammond 
cavava para ir mais fundo, e continuava cavando at chegar  verdade, s vezes para a suprema frustrao dos seus colegas. s vezes, at ele mesmo ficava frustrado 
com a prpria teimosia. A lembrana dela ia persistir at ele descobrir quem ela era e por que, depois da noite incrvel que passaram juntos, resolveu sair da cabana 
e, conseqentemente, da vida dele. Localizar a clnica Ladd era uma tentativa, apesar de juvenil pattica e desesperada, de descobrir alguma coisa sobre ela. Especificamente, 
se ela era ou no a sra. Ladd. Se fosse, terminaria ali. Se no fosse... Ele no se permitiu considerar os diversos "se no". Tendo sido criado em Charleston, Hammond 
sabia mais ou menos onde ficava a rua, e era apenas a alguns quarteires da manso de Davee. Chegou l em poucos minutos. Era uma rua curta e estreita, onde os prdios 
se cobriam de trepadeiras e histria. Era uma das vrias ruas assim que ficavam prximas do movimentado bairro comercial e que pareciam pertencer a um outro mundo. 
A maioria das casas e prdios naquela rea entre a rua Broad e a Battery era repleta de marcos histricos. Alguns nmeros das casas terminavam com 1/2, indicando 
que uma estrutura externa do prdio principal, como uma cocheira ou cozinha separada, tinha sido convertida numa outra residncia. Os imveis eram valiosssimos. 
Era um bairro muito caro. O acrnimo para qualquer pessoa que morava ao sul da Broad era S.O.B. [south of Broad, mas tambm son ofbitch filho-da-puta]. Hammond no 
se surpreendeu ao ver que a clnica ficava numa rea basicamente residencial. Muitos profissionais liberais tinham convertido casas mais antigas em escritrios, 
e muitas vezes moravam nos andares de cima, o que era uma tradio em Charleston havia sculos. Ele deixou o carro estacionado numa rua mais larga e entrou na ruazinha 
de paraleleppedos a p. J era noite. O fim de semana tinha terminado. As pessoas j estavam em suas casas. Ele era o nico pedestre na rua. O lugar era escuro 
e silencioso, mas, apesar disso, simptico e hospitaleiro. Janelas abertas revelavam cmodos iluminados que pareciam convidativos. Sem exceo, as propriedades eram 
luxuosas e bem cuidadas. Parecia que o proprietrio da clnica estava se dando bem na vida. O ar da noite era pesado e denso. To tangvel quanto um cobertor de 
algodo enrolado claustrofobicamente nele. Em questo de minutos, a camisa grudou no corpo. At uma caminhada lenta era aflitiva, especialmente quando um dos fatores 
era o nervosismo.
Ele foi forado a respirar fundo e captou perfumes florais exticos e o pungente aroma de smen salgado da maresia no porto, que ficava a poucos quarteires de distncia. 
Sentiu o cheiro do resto de fumaa de carvo com o qual algum tinha assado o jantar de domingo. Aquele aroma lhe deu gua na boca e o fez lembrar que no tinha 
comido nada o dia inteiro, s aquele pozinho na cabana. A caminhada deu-lhe tempo para pensar como ia se sair naquele primeiro contato com a clnica. E se simplesmente 
chegasse l e tocasse a campainha? Se o mdico proprietrio atendesse, podia fingir que obviamente tinha anotado errado o endereo, dizer que estava procurando outra 
pessoa, pedir desculpas por incomod-lo e ir embora. Mas e se ela abrisse a porta... que opo ele teria? A pergunta mais inquietante seria respondida. Ele daria 
meia-volta e iria embora, sem olhar para trs, e continuaria sua vida. Todas essas contingncias eram baseadas na probabilidade de ela ser casada com um mdico. 
Para Hammond, essa era a explicao lgica para ela ter de fazer uma ligao para a clnica furtivamente e depois parecer culpada quando flagrada no ato. Ela era 
a imagem da sade, e certamente no tinha apresentado nenhum sintoma visvel de doena. Por isso nunca passou pela cabea dele o fato de ela poder ser uma paciente. 
Nunca, at ele chegar  casa com aquele nmero. No pequeno quadrado de grama demarcado por uma cerca de ferro havia uma discreta placa de madeira branca com letras 
cursivas em preto. A clnica A. E. Ladd era uma clnica de terapia psicolgica. Ser que ela era uma paciente? Se era, a ideia de ela ter sentido necessidade de 
consultar o psiclogo segundos depois de levantar-se da cama dele era um pouco perturbadora. Ele se consolou reconhecendo que atualmente era comum se ter um terapeuta. 
Como confidentes, eles tinham substitudo cnjuges dedicados, parentes mais velhos e religiosos. Hammond tinha amigos e colegas que se consultavam toda semana, s 
vezes apenas para aliviar o estresse da vida moderna. Ter um psiclogo no representava nenhum estigma e certamente no era motivo para ningum se envergonhar. De 
fato, ele sentiu um alvio imenso. Ir para a cama com a paciente da clnica Ladd era aceitvel. O inaceitvel era dormir com a mulher do dono da clnica. Mas uma 
nuvem cobriu aquele pequeno raio de esperana. E da se ela era paciente? Seria quase impossvel descobrir a identidade dela.
A clnica no daria nenhuma informao sobre seus pacientes. Mesmo se Hammond se rebaixasse a ponto de usar o cargo de promotor para se insinuar, eles provavelmente 
fariam valer o privilgio profissional e se recusariam a abrir seus arquivos, a menos que recebessem uma intimao, e Hammond jamais chegaria to longe assim. Seus 
padres profissionais no permitiriam. Alm do mais, como poderia pedir informao sobre ela se nem sabia o seu nome? Do outro lado da rua, Hammond ruminava esse 
dilema enquanto estudava a estrutura elegante de tijolos em que o consultrio se instalara. Era tpica de um estilo nico de arquitetura - uma casa nica, chamada 
assim porque da rua parecia ter apenas um cmodo na largura, mas tinha vrios cmodos para trs. Essa tinha dois andares, com largas varandas laterais, oupiazzas, 
que ocupavam toda a extenso da casa, da frente at os fundos, nos dois andares. Atrs de um porto enfeitado, o passeio da frente da casa ia reto at o lado direito 
do jardim, onde havia uma porta dianteira pintada de verde Charleston - quase s tinta preta com apenas uma poro pequena de verde, misturado. A porta tinha uma 
aldrava de bronze bem no centro e, como as portas da frente da maior parte das casas nicas, no se abria para a casa em si, mas para a plazza, de onde se entrava 
na casa. Uma figueira trepadeira se agarrava  grande parte da fachada, mas tinha sido bem podada em torno das quatro janelas altas que serviam de contrapeso  porta 
da frente. Embaixo de cada uma dessas janelas havia uma jardineira transbordante de samambaias e balsminas brancas. No havia nenhuma luz acesa. Quando Hammond 
ia pr o p na rua para atravess-la e dar uma olhada mais de perto, a porta da casa s suas costas se abriu e um enorme co pastor cinza e branco saiu galopando, 
arrastando o dono atrs dele.
        Ua, Winthrop!
Mas ningum segurava Winthrop. Ele estava louco para sair, e puxava a correia quando chegou ao fim do caminho da casa, levantou-se nas patas traseiras e se jogou 
contra o porto. Instintivamente, Hammond deu dois passos para trs. Rindo da reao dele, o dono do cachorro abriu o porto e Winthrop saiu pulando.
        Desculpe o escndalo! Espero que ele no tenha assustado voc. Ele no morde, mas se tiver oportunidade, pode lamb-lo at a morte.
Hammond sorriu.
        No tem problema.
Winthrop, sem demonstrar interesse nenhum nele, tinha levantado a perna e estava mijando numa cerca.
Hammond devia estar parecendo inofensivo, mas perdido, porque o homem perguntou:
        Est precisando de ajuda?
        , na verdade eu estava tentando localizar a clnica Ladd.
        J a encontrou - o homem apontou com o queixo para a casa do outro lado da rua.
        Certo, certo.
O homem olhou para ele com a testa franzida, sem entender.
         que sou vendedor - gaguejou ele. - De formulrios mdicos. Coisas assim. A placa no diz a que hora abrem o consultrio.
        Por volta das dez, acho. Voc pode telefonar para Alex para confirmar.
-Alex? -Alex Ladd.
        Ah, claro. , eu devia ter ligado, mas... sabe como ... pensei que... bem, tudo bem.
Winthrop estava ruando embaixo de um arbusto de camlias.
        Obrigado. V com calma, Winthrop.
Torcendo para o vizinho nunca associar o idiota inarticulado com o assistente do promotor pblico que era sempre visto falando com reprteres na televiso, Hammond 
deu um tapinha na cabea do cachorro peludo e partiu na direo de onde tinha chegado.
        Alis, ela acabou de sair. Hammond deu meia-volta como um raio. -Ela? O sr. Daniels evitava olhar os olhos de Smilow ou de Steffi quando os dois voltaram 
para o seu quarto, no hospital, e se posicionaram um de cada lado da cama. Para Smilow, o paciente parecia mais desconfortvel agora do que quinze minutos antes, 
mas no era um desconforto gastrintestinal. Parecia mais um caso muito srio de conscincia pesada. -A enfermeira disse que o senhor se lembrou de alguma coisa que 
pode ajudar a nossa investigao.
        Talvez - os olhos de Daniels dardejaram nervosos para um lado e para outro, entre Smilow e Steffi. - Olha, o negcio  o seguinte. Desde que eu me desgarrei...
        Desgarrou?
Daniels olhou para Steffi, que tinha interrompido. ???
        Do meu casamento.
        O senhor teve um caso? Steffi era mestra em engrossar o caldo. "Tato" no constava do seu vocabulrio. O sr. Daniels parecia muito infeliz quando gaguejou.
        . Essa, ... uma colega de trabalho? Ns... vocs sabem - ele mudou o corpo magro de posio no colcho duro, constrangido. Mas no durou muito. Percebi 
que estava errado. Era s uma daquelas coisas que acontecem sem a gente saber por qu. Ento um dia voc acorda e pensa: para que estou fazendo isso? Amo a minha 
mulher.
Smilow compartilhava a bvia impacincia de Steffi com a longa confisso de Daniels. Queria que o homem fosse direto ao ponto. Mas ele avisou Steffi, com um olhar 
muito srio, para respeitar o ritmo de Daniels contar a sua histria.
        Estou contando isso para vocs... porque ela, a minha mulher, fica desesperada se eu elogiar uma mulher qualquer. No a culpo por isso - apressou-se em 
dizer. - Ela tem o direito de suspeitar de mim. Dei esse direito a ela quando cometi adultrio.
"Mas pode ser uma coisa insignificante, at uma palavra gentil para uma mulher, e ela j comea. Sabem o que quero dizer? Ela comea a chorar. E a dizer que no 
me satisfaz como mulher. Que no  capaz de satisfazer as minhas necessidades - ele olhou para Smilow com olhos cansados. - O senhor sabe como elas ficam." Mais 
uma vez Smilow lanou um olhar para Steffi, indicando que ela no podia estragar tudo fustigando o editorial sexual do homem:
        No descrevi aquela mulher para vocs com mais detalhes porque no queria que a minha mulher ficasse aborrecida. Estamos nos dando bem ultimamente. Ela 
at trouxe alguns, vocs sabem, apetrechos sexuais nessa viagem, para apimentar nossos momentos a ss. Ela at considera essa uma espcie de segunda lua-de-mel. 
No se pode fazer muita coisa num nibus de um coro de igreja, mas quando chegamos ao nosso quarto toda noite... nossa!
Ele deu um sorriso largo para os dois, mas ento o sorriso murchou como se algum tirasse o ar de uma mscara de borracha.
        Mas se a patroa pensasse que eu tinha prestado ateno no rosto ou no corpo de outra mulher, ela poderia achar que l no fundo eu desejava uma estranha. 
E eu ia curtir um dobrado por nada.
        Ns compreendemos - Steffi ps a mo no brao dele com rara e, Smilow sabia, falsa compaixo.
        Sr. Daniels, agora o senhor est dizendo que pode descrever a mulher que viu no corredor do hotel com mais detalhes?
Ele olhou para Smilow.
        O senhor tem lpis e papel a?
Lentamente ele puxou a velha camiseta por cima da cabea dela. Antes tinha tocado nela no escuro. Sabia como ela era pelo tato, mas queria ver o que suas mos tinham 
tocado.
No se decepcionou. Ela era linda. Gostava de ver suas mos sobre os seios dela, gostava de v-los reagindo s suas carcias, gostava de ouvi-la murmurando de prazer 
quando encostava os lbios neles.
        Voc gosta disso.
        Gosto.
Ele envolveu o mamilo com a boca e sugou. Ela segurou a cabea dele e gemeu baixinho.
        Muita fora? - perguntou ele.
        No.
Mas ele ficou preocupado, especialmente quando notou arranhes da barba na pele clara dela. Passou o dedo no lugar.
        Eu nem percebi.
Ela olhou para o pequeno arranho, encostou o dedo dele nos lbios e beijou.
        Nem eu.
        Desculpe.
        No faz mal.
        Mas se a machuquei...
        Voc no me machucou. No vai me machucar.
Ela ps a mo no pescoo dele e tentou puxar sua cabea para ela. . Mas ele hesitou.
        Voc se importa se... - ele apontou com a cabea para a cama. -No.
Eles deitaram sem se dar ao trabalho de arrumar os lenis. Ele se inclinou sobre ela, segurou seu rosto com as duas mos e beijou-a com tanta paixo que o corpo 
dela se arqueou na cama para encostar no dele.
As mos dele deslizaram sobre os seios dela, as costelas e a barriga macia.
        Cristo. Olha s para voc. Linda-ele ps a mo entre as pernas dela, cobriu o monte-de-vnus com a palma da mo, com os dedos para baixo. Para dentro. Na 
maciez dela.
        Voc j est...
        Estou.
        To doce. To...
        Oh... - ela gemeu ofegante.
        Molhada.
Ele chegou o corpo para cima para beij-la de novo. Foi um beijo sedoso e sensual, que s terminou quando ela deu um grito abafado e gozou com os dedos dele, sob 
a presso do polegar. Alguns segundos depois ela abriu os olhos e viu que ele sorria para ela.
        Eu sinto muito, sinto muito.
        Sente muito? - repetiu ele, rindo baixinho e beijando a testa molhada de suor.
        Bem, quero dizer... voc...
Os lbios dele mal encostaram nos dela. O sussurro dele foi suave e urgente.
        No se desculpe.
Ele tossiu e deu um grito rouco de surpresa quando ela o segurou. Quase protestou, quase disse para ela que no precisava se sentir obrigada a nada, quase disse 
que no era necessrio retribuir, que ele no ia ficar mais rijo do que estava. Mas quando ela comeou a explorar e a massagear, os nicos sons que ele conseguiu 
emitir foram suaves gemidos de extremo prazer. Sem conscincia plena do que estava fazendo, ele ps a mo sobre a dela e incentivou os movimentos. Ela passou o nariz 
no pescoo dele, beijou os plos do peito dele e mordiscou apele. Sem querer- ou talvez por querer-, o mamilo ereto dela roou no dele. Foi excitante. Foi tremendamente 
ertico. E ele quase gozou. Quando ele tirou a mo dela, ela elevou o corpo e beijoufreneticamente o maxilar dele, o rosto, os lbios, murmurando:
        Deixe-me tocar em voc.
Mas era tarde demais. Ele se posicionou e mergulhou nela. Recuou. Avanou. Fundo. Mais fundo. Ento encostou a testa na dela, cerrou os dentes, fechou os olhos bem 
apertados e sentiu um prazer maior do que todos os seus encontros sexuais juntos...
        No, eu  que vou tocar em voc.
... ele gozou.
A campainha do telefone arrancou Hammond daquela lembrana fumegante. Ficou constrangido ao ver que estava com ereo e banhado em suor. Quanto tempo tinha perdido 
com aquela lembrana especfica? Verificou o relgio do painel. Vinte minutos, um pouco mais, um pouco menos. O telefone tocou pela terceira vez. Ele o atendeu.
        O que ?
        Onde, diabos, voc se meteu?
        Sabe, Steffi - disse ele, irritado -, voc precisa arranjar um roteiro novo.  a segunda vez hoje que voc me faz essa pergunta, e com o mesmo tom de voz.
        Desculpe, mas estou ligando para a sua casa h uma hora e deixando recados. Finalmente, resolvi experimentar o seu celular. Voc est no carro?
        Estou.
        Voc saiu?
        Acertou de novo.
        Oh. No imaginava que voc ia sair de casa esta noite.
Ela estava insinuando que ele explicasse para ela aonde tinha ido e por qu, mas ele no lhe devia mais satisfaes do que fazia. Ela provavelmente estava com o 
orgulho ferido com o fato de Hammond ter sado na noite em que eles terminaram seu relacionamento.
Ela ia ficar realmente ferida se soubesse que ele estava escondido numa rua escura como um pervertido, tomando um suador de excitao sexual e esperando para ver 
se a dra. A. E. Ladd era a mulher que, mais ou menos quela mesma hora, na vspera, tinha estado deitada e nua ao lado dele, com o rgo sexual dele bem confortvel, 
ensanduichado entre a barriga dos dois, as mos dele acariciando as ndegas dela, e ela perguntando se ele sabia que seus olhos eram da cor de nuvens de tempestade. 
Ele sentiu um mpeto maligno de contar para Steffi. Mas  claro que no contou. Ele secou o rosto na manga da camisa.
        O que est havendo?
        Para comeo de conversa, por que voc no me contou que Mason lhe deu o caso Pettijohn?
        No era eu que tinha de contar isso para voc.
        Esse  um motivo de merda, Hammond.
        Obrigado, Rory Smilow - resmungou ele.
        Ele me contou como amigo.
-Amigo uma ova. Ele contou para voc porque no  amigo meu. E agora, vai me dizer o que est havendo?
        Sem saber que eu ia ser o segundo violino - disse ela docemente -, encontrei-me com Smilow no hospital Roper e tivemos sorte.
        Como assim?
        Sabe aquelas pessoas com intoxicao alimentar? -Sim? Apareceram faris do outro lado da rua onde Hammond estava estacionado. Ele ligou o carro.
        Onde voc est, Hammond? - perguntou StefFi, irritada. - Voc est me ouvindo? Parece que est desligando.
        Estou ouvindo. Pode falar. Uma das pessoas com intoxicao alimentar...
        Viu uma mulher do lado de fora da sute de Pettijohn. Bom, na verdade ele no pode jurar que era a sute de Pettijohn, mas isso  uma tecnicalidade que 
podemos contornar se tudo o mais se encaixar.
O carro parou na frente do consultrio da dra. Ladd. Ela saiu com um cara num carro conversvel, o dono de Winthrop tinha dito para ele.
        E depois de muita lengalenga sobre uma traio... - Steffi estava dizendo.
Dirigindo bem devagar, Hammond chegou suficientemente perto para ver que o carro era um conversvel.
        Pensando melhor, deixe a traio pra l - disse Steffi. -  irrelevante. Pode acreditar em mim. De qualquer maneira, o sr. Daniels tinha observado a mulher 
muito melhor do que nos levou a crer na primeira vez que falou conosco, na frente da mulher dele.
O brilho dos faris do conversvel ofuscou Hammond, e ele no conseguia ver nada atrs deles. Mas quando ficou lado a lado com o carro, ele virou a cabea a tempo 
de ver os ocupantes. Um homem no lugar do motorista. Uma mulher no lugar do passageiro. A mulher dele. Sem sombra de dvida.
        O sr. Daniels agora admite que se lembra da altura, peso, cor de cabelo e de todo o resto.
Hammond se desligou de Steffi. Depois que passou pelo outro carro, ele olhou para o espelho retrovisor externo a tempo de ver o homem estender o brao por cima do 
console e pr a mo na nuca da mulher, puxando o rosto dela para ele. Hammond meteu o p no acelerador, dobrou a esquina rpido demais e fez cantar os pneus. Claro 
que foi uma reao de cime imatura, mas sentiu vontade de fazer isso. Estava com vontade de bater em algum. Realmente queria dizer para Steffi calar a boca.
        V em frente, Steffi - disse ele, interrompendo a frase que ela dizia subitamente.
Confusa, ela se assustou:
        V em frente para onde?
Ele no sabia. No estava prestando muita ateno, mas no queria admitir isso. Ela estava falando de uma possvel testemunha. Algum que tinha visto uma pessoa 
perto da sute de Pettijohn e que poderia dar uma descrio razoavelmente correta.
Steffi tambm podia ter sugerido um retrato falado. Tinha mencionado isso na hora que Hammond passou pelo conversvel, e a voz dela foi abafada pelo sangue que subiu 
 cabea dele. Ele tinha registrado o teor do relato de Steffi, mas quase tudo que ela dizia foi obscurecido por uma necessidade violenta e primitiva de voltar e 
agarrar o sujeito no conversvel pelo pescoo.
De uma coisa ele tinha certeza. Precisava fazer alguma coisa, seno ia explodir. Agora. Imediatamente. Tinha de determinar que existia alguma coisa sobre a qual 
Hammond Cross ainda tinha controle.
        Quero um desenhista l de manh cedo.
         tarde, Hammond.
Ele sabia que horas eram. Tinha ficado horas sentado naquele forno de automvel, alimentando fantasias sexuais. E todo aquele sacrifcio s tinha servido para ver 
a dra. Lad na. Companhia de outro homem.
        Sei que  tarde.
        O que quero dizer  que no sei se vou conseguir... .
        Qual  o nmero do quarto do cara?
        O nmero do quarto do sr. Daniels?
        Quero falar com ele.
        Isso no  necessrio. Smilow e eu perguntamos tudo para ele. Alm disso, acho que ele receber alta pela manh.
        Ento  melhor marcar isso bem cedo. s sete e meia. E ponha o artista da polcia de prontido.
s sete e meia da manh seguinte, Hammond entrou no hospital com a sua pasta e o Postand Courier. Parou no balco de informaes para perguntar o nmero do quarto, 
que Steffi no havia dito. Parou tambm numa mquina para comprar uma xcara de caf. Estava de gravata, mas, atendendo  promessa de um dia muito quente, tinha 
deixado o palet no carro, arregaado as mangas da camisa e desabotoado o colarinho. A postura era de um militante e a expresso fechada como uma nuvem negra. Para 
crdito de Steffi, os outros j estavam l quando ele chegou. Ela estava l, junto com Rory Smilow, uma mulher mal-ajambrada com um uniforme de polcia que no lhe 
caa bem e o homem no leito do hospital. Steffi estava com os olhos inchados, como se no tivesse dormido bem. Depois de uma rodada mal-humorada de cumprimentos, 
ela disse:
        Hammond, voc deve se lembrar do cabo Mary Endicott. Trabalhamos com ela uma vez.
Ele largou a pasta e o jornal numa cadeira para apertar a mo da artista da polcia.
        Cabo Endicott.
        Sr. Cross.
Steffi, ento, apresentou o sr. Daniels, em visita  cidade vindo de Macon, Gergia, que naquele momento mordiscava a comida insossa que havia na bandeja do caf 
da manh.
        Sinto muito que a sua visita a Charleston no tenha sido das melhores, sr. Daniels. Est se sentindo melhor?
        Suficientemente bem para sair daqui. Se possvel, gostaria de acabar logo com isso, antes da minha mulher vir me pegar.
        Essa rapidez vai depender da preciso da sua descrio. Cabo Endicott  excelente no que faz, mas s depende do senhor.
Daniels parecia preocupado.
-vou ter de testemunhar no tribunal? Quero dizer, se vocs pegarem essa mulher, e descobrirem que foi ela que matou aquele homem, terei de apont-la no julgamento?
         uma possibilidade - disse Hammond para ele. O homem deu um suspiro de tristeza.
        Bem, se chegar a isso, cumprirei meu dever cvico - ele deu de ombros filosoficamente. - Vamos logo com isso.
        Primeiro eu gostaria de ouvir a sua histria, sr. Daniels - disse Hammond.
        Ele j nos contou diversas vezes - disse Smilow. - Realmente no  grande coisa.
Fora o negligente bom-dia, at aquele momento Smilow tinha ficado calado e imvel como um lagarto tomando sol. Muitas vezes a postura de Smilow parecia indolente, 
mas, para Hammond, ele dava a impresso de ser um rptil  espera, atento o tempo todo a uma oportunidade de atacar. Hammond reconheceu que comparar Smilow a uma 
serpente se devia unicamente ao fato de detestar o homem. Sem mencionar a injustia com as serpentes. O terno cinza de Smilow era impecvel e estava perfeitamente 
passado. A camisa branca era to lisa que uma moeda quicaria nela, a gravata bem presa. No havia um fio de cabelo fora do lugar. Os olhos estavam claros e alertas. 
Depois da noite tumultuada que Hammond tinha tido, virando de um lado para outro na cama, estava com raiva da aparncia e da pose inabalvel de Smilow.
         claro que voc resolve - disse ele educadamente. - Essa investigao  sua.
        Isso mesmo,  minha.
        Mas, como cortesia...
        Voc no demonstrou muita cortesia comigo quando marcou essa reunio sem me consultar primeiro. Diz que a investigao  minha, mas parece que  sua. Como 
sempre, seus atos contradizem suas palavras, Hammond.
Podia contar com Smilow para provocar uma briga numa manh em que ele mesmo sentia vontade de morder algum.
        Olha, eu sa da cidade no dia em que Pettijohn foi assassinado, por isso estou correndo atrs. Li as reportagens nos jornais, mas sei que voc no revela 
todas as suas descobertas para a mdia. S estou pedindo para me informar dos detalhes.
        Quando chegar a hora certa.
        O que h de errado com agora?
        Tudo bem, rapazes, tempo! - Steffi colocou-se entre os dois, formando uma cruz com os dedos indicadores. - No importa quem marcou essa reunio, importa? 
Na verdade, Hammond, Smilow j havia chamado o cabo Endicott quando consegui falar com ela ontem  noite - a policial rechonchuda e matrona confirmou balanando 
a cabea. - Por isso, tecnicamente, Smilow teve a ideia primeiro, como devia, j que o caso  dele at ele passar para ns. Certo?
"E, Smilow, se Hammond tambm pensou no retrato falado, isso s significa que grandes cabeas pensam da mesma forma, e esse caso precisa mesmo de todas as mentes 
brilhantes que puder reunir. Por isso vamos tratar de comear e no prender essas pessoas aqui por mais tempo do que ser necessrio. O sr. Daniels est com uma 
certa pressa, e todos ns temos mais o que fazer. Falando por mim, eu no me importaria de ouvir essa histria mais uma vez." Smilow assentiu movendo um pouco a 
cabea. Daniels contou outra vez sua experincia de sbado  tarde. Quando terminou, Hammond perguntou se ele tinha certeza de no ter visto mais algum.
        O senhor quer dizer no quinto andar? No, senhor.
        Tem certeza?
        S aquela senhora e eu estvamos no corredor. Mas eu s fiquei no corredor cerca de... humm... digamos, vinte, trinta segundos, desde a hora que sa do 
elevador.
        Tinha algum no elevador com o senhor?
        No, senhor.
        Obrigado, sr. Daniels. Grato por ter repetido sua histria para mim.
Ignorando a expresso de "eu no disse?", de Smilow, Hammond deixou Daniels a cargo de Mary Endicott. Smilow pediu licena para dar alguns telefonemas. Steffi ficou 
espiando por cima do ombro da artista e acompanhou as perguntas que ela fazia para Daniels. Hammond levou sua xcara de caf morno at a janela e observou o dia 
ensolarado demais para o seu humor. Depois de um tempo, Steffi se aproximou dele.
        Voc est quieto demais.
        A noite foi curta. No consegui pegar no sono.
        Algum motivo especial para a sua insnia?
Entendendo o significado por trs daquela pergunta, ele virou a cabea e olhou para ela.
        S inquietao.
        Voc  cruel, Hammond.
        Como assim?
        O mnimo que voc devia ter feito era tomar um porre a noite passada e mudar de ideia quanto a terminar comigo.
Ele sorriu, mas o tom de voz era srio:
        Era a nica deciso para ns, Steffi. Sabe to bem disso quanto eu.
        Especialmente depois da deciso de Mason.
        A deciso foi dele, no minha.
        Mas eu nunca tive mesmo chance de conseguir esse caso. Mason favorece voc, e no esconde isso de ningum. E vai favorecer sempre. E voc sabe disso to 
bem quanto eu.
        Eu estava aqui primeiro, Steffi.  uma questo de antiguidade.
        Est certo - o tom arrastado contradisse as palavras dela. Antes de Hammond poder responder, Smilow retornou:
        Isso  interessante. Um dos meus homens andou xeretando na vizinhana de Pettijohn para ver se algum tinha ouvido Lute discutindo com algum vendedor ou 
vizinho. No descobriu nada.
        Espero que tenha um mas - disse Steffi. Ele fez que sim com a cabea.
        Mas Sarah Birch estava no supermercado sbado  tarde. Ela pediu para o aougueiro preparar umas costeletas de porco que queria fazer para o jantar de domingo. 
Ele estava ocupado, por isso levou algum tempo para atend-la. Em vez de ficar l parada, esperando, ela foi comprar as outras coisas. O supermercado estava apinhado. 
S voltou ao aougue depois de quase uma hora, disse ele. O que significa que ela mentiu quando afirmou que ficou em casa a tarde toda com a sra. Pettijohn.
        Se ela  capaz de mentir sobre uma coisa to insignificante quanto ir ao supermercado, devemos supor que ela tambm seja capaz de pregar uma enorme mentira.
        S que essa mentira no  to insignificante - disse Smilow. Os horrios combinam. O aougueiro lembra de ter dado as costeletas para Sarah Birch logo antes 
de terminar o turno dele, s seis e meia.
        O que quer dizer que ela ficou na loja das, digamos, cinco at as seis e meia- concluiu Steffi em voz alta. - Na hora em que Pettijohn estava sendo eliminado. 
E o supermercado fica a dois quarteires do hotel! Droga! Ser que  to simples assim?
        No - disse Smilow com certa relutncia. - O sr. Daniels disse que a mulher que ele viu no corredor do hotel era branca. Sarah Birch no .
        Mas ela podia estar acobertando Davee.
-A mulher que ele viu tambm no era loura-relembrou Smilow.
        Davee Pettijohn, em qualquer descrio,  loura.
        Est brincando? Ela  a rainha do Clairol.
Hammond no se surpreendeu de saber que a leal empregada de Davee teria mentido por ela. Mas ficou abalado com o comentrio maldoso de Steffi e aflito de pensar 
que a amiga de infncia estava sendo seriamente considerada suspeita, com um libi que no era to perfeito como tinha dito.
        Davee no mataria Lute - os outros dois se viraram para ele. Que motivo ela poderia ter?
        Cime e dinheiro.
Ele balanou a cabea, discordando.
        Ela tem os prprios amantes, Steffi. Por que teria cime de Lute? E tem o prprio dinheiro. Provavelmente mais do que Lute.
        Bem, ainda no estou preparada para tir-la da lista. Deixando os outros dois com suas especulaes, Hammond foi
para perto da cama. Havia um bloco de desenho no colo de Daniels com o que parecia uma variedade infinita de formatos de olhos. Hammond deu uma olhada no desenho 
de Endicott, mas at ali ela ainda estava trabalhando para conseguir acertar a forma do rosto.
        Talvez um pouco mais fino aqui - disse o sr. Daniels, passando a mo no prprio queixo. A artista fez a correo sugerida. - , era mais
assim.
Quando passaram para as sobrancelhas e os olhos, Hammond voltou para o lado de Steffi e Smilow.
        E quanto a antigos scios de negcios? - perguntou ele para o detetive.
        Naturalmente esto sendo interrogados - respondeu Smilow com calma e educao. - Isto , aqueles que no tm o libi de estarem na priso.
Exceto os casos que tinham sido passados para a jurisdio federal, Hammond havia ajudado a pr alguns daqueles criminosos de colarinho branco atrs das grades. 
Lute Pettijohn tinha burlado bastante as leis e muitas vezes chegava perto demais de delitos criminais. Flertava com eles, mas nunca cruzava a fronteira.
        Uma das empreitadas mais recentes de Lute envolve uma ilha no mar - disse Smilow para os dois.
Steffi bufou com desprezo.
        Isso  alguma novidade?
        Essa  diferente. A ilha Speckle fica a cerca de uma milha e meia do continente, e  uma das poucas que escapou do progresso.
        Isso basta para Pettijohn ter ereo - observou Steffi. Smilow assentiu com a cabea.
        Ele ps as coisas para funcionar. O nome dele no consta de nenhum documento da sociedade. Pelo menos no nos documentos que encontramos. Mas podem estar 
certos de que estamos verificando
        olhando para Hammond, ele acrescentou: - Minuciosamente.
O corao de Hammond afundou como uma bola de chumbo no peito dele. Smilow no estava dizendo nada sobre o empreendimento na ilha Speckle que ele j no soubesse. 
Sabia muito mais, muito mais do que queria saber.
Cerca de seis meses antes, o procurador-geral da Carolina do Sul tinha pedido para ele fazer uma investigao sigilosa da tentativa de Pettijohn de lotear a ilha. 
As descobertas que fez foram alarmantes, mas nenhuma to sria quanto encontrar o nome do prprio pai na lista de investidores. At saber qual a ligao da ilha 
Speckle com o assassinato de Pettijohn, se  que havia alguma, ele manteria segredo dessa informao. Assim como o detetive tinha dito para ele com grosseria, ele 
daria esses detalhes para o detetive quando chegasse o momento certo.
        Um daqueles antigos scios podia ter tanta raiva dele - disse Steffi - que acabou cometendo o crime.
         uma possibilidade vivel - disse Smilow. - O problema  que Lute operava num crculo de pessoas influentes, que inclua funcionrios do governo de todos 
os nveis. Os amigos dele eram homens que tinham poder de uma forma ou de outra. Isso complica a minha capacidade de manobra, mas no me impede de continuar cavando.
Se Smilow estava cavando, ento Hammond sabia que o nome de Preston Cross estava l como um tesouro enterrado,  espera para ser desenterrado. Era apenas uma questo 
de tempo para a aliana do seu pai com Pettijohn ser descoberta.
Mentalmente Hammond xingou o pai por deix-lo naquela posio comprometedora. Logo ele talvez fosse forado a escolher entre o dever e a lealdade para com a famlia. 
No mnimo o negcio sujo de Preston custaria para Hammond o caso Pettijohn. Se chegasse a isso, Hammond jamais o perdoaria.
Olhou para a cama do hospital onde a desenhista parecia estar fazendo progresso.
        O cabelo. Era curto ou comprido?
        Era por aqui - disse Daniels, indicando o ombro.
        Franja?
        Na testa? No.
        Liso ou crespo?
        Acho que era encaracolado. Fofo - ele usou novamente as mos para ilustrar.
        Estava de cabelo solto, ento?
        , acho. No entendo muito de penteados.
        D uma olhada nessa revista. Veja se h algum cabelo parecido com o dela.
Daniels franziu a testa e olhou nervoso para o relgio, mas obedeceu e comeou a virar aflito as pginas da revista de penteados.
        De que cor era? - perguntou a artista.
        Meio vermelho.
        Ela era ruiva?
   Hammond se sentiu atrado pelas palavras de Daniels, como se elas segurassem uma corda que o puxava inexoravelmente.
        No era cabea de cenoura.
        Ruivo-escuro, ento?
        No. Acho que eu diria apenas castanho, mas com muito vermelho.
        Castanho-avermelhado?
         isso a - disse ele, estalando os dedos. - Sabia que tinha um nome, s que no me lembrava. Castanho-avermelhado.
Hammond tomou um gole de caf que subitamente ficou amargo na boca. Chegou mais perto da cama do hospital com a insegurana de um acrfobo que se aproxima da beirada 
do Grand Canyon. O cabo Endicott riscava rapidamente com o lpis na sua prancheta. Risca, risca, risca.
        Que tal isso? - disse ela, mostrando o desenho para Daniels.
        Ei, est muito bom. Faltam apenas as mechas em volta do rosto, sabe como ? Hammond avanou mais alguns passos.
        Assim?
Daniels disse para Endicott que o cabelo estava perfeito.
        timo. Agora s falta a boca - disse ela. Deixando de lado a revista, a artista abriu o bloco de desenho em outra folha. - O senhor lembra de alguma coisa 
especfica sobre a boca, sr. Daniels?
        Ela estava de batom - murmurou ele, estudando os inmeros desenhos de lbios.
        Ento, o senhor notou os lbios dela?
Ele levantou a cabea, olhou aflito para a porta, como se temesse que a sra. Daniels estivesse l ouvindo tudo.
        A boca era parecida com essa - ele apontou para um dos desenhos. - S que o lbio inferior era mais cheio.
Endicott consultou o desenho e copiou no outro que estava fazendo.
Enquanto observava, Daniels acrescentou:
        Quando olhou para mim, ela deu um sorriso.
        Deu para ver os dentes?
        No. Um sorriso educado. Sabe, como as pessoas fazem quando entram no elevador, ou qualquer coisa assim.
Como quando os olhos se encontram atravs de uma pista de dana.
Hammond no tinha coragem suficiente para espiar o esboo de Endicott, mas mentalmente ele viu um sorriso de boca fechada muito atraente, que tinha ficado profundamente 
marcado em sua memria.
        Algo parecido com isso? - Endicott virou o desenho para Daniels para ele poder ver melhor.
        Ora, macacos me mordam! - disse ele atnito. -  ela! E bastou uma rpida olhada para Hammond confirmar que era mesmo. Era ela.
Smilow e Steffi estavam entretidos numa conversa. Quando ouviram a exclamao de Daniels, correram para o lado da cama. Hammond deixou Steffi ocupar seu lugar porque 
ele no precisava mais ver nada.
        No  exato - disse Daniels -, mas est muito bom.
        Alguma marca especial ou cicatriz? Uma pinta.
Acho que ela tinha uma espcie de sinal - disse Daniels. - No era feio. Parecia mais uma pinta. Embaixo do olho.
        O senhor lembra... - comeou Steffi a dizer.
        Que olho? - perguntou Smilow, completando a pergunta dela. O direito.
        Bem, deixa eu ver, eu estava de frente para ela... ento isso quer dizer que era... o esquerdo. No, espere, era o direito. Definitivamente, o direito - 
disse Daniels, feliz de poder ser to til e fornecer esse detalhe.
        O senhor estava suficientemente perto para ver a cor dos olhos dela?
        No. Infelizmente, no.
Verdes, salpicados de castanho. Bem afastados um do outro. Clios escuros.
        Qual a altura dela, sr. Daniels? Um metro e sessenta e cinco.
        Mais alta que a senhora - disse ele para Steffi. - Porm, mais baixa que o sr. Smilow.
        Eu tenho um metro e setenta e cinco - disse ele.
        Ento ela tem entre um e sessenta e cinco e um e setenta? Perguntou Steffi, calculando mentalmente.
        Por a, acho.
        Peso? Cinquenta e cinco.
        No muito.
        Sessenta? - arriscou Smilow.
        Menos, acho.
        O senhor lembra da roupa que ela usava? - quis saber Steffi. Cala comprida? Short? Um vestido? Saia.
        Era um short ou uma saia. Sei porque dava para ver as pernas dela. - Daniels se contorceu. - E um tipo de blusa justa. No me lembro da cor, nem de mais 
nada.
Saia, branca. Blusa de malha marrom e casaco combinando. Sandlia de couro marrom. Sem meias. Suti bege de renda com fecho na frente. Calcinha fazendo conjunto. 
Endicott comeou a recolher seu material e a guardar na mochila preta cheia demais. Smilow pegou o desenho da mo dela e apertou a mo do sr. Daniels.
        Temos o nmero do seu telefone em Macon, se for necessrio entrar em contato com o senhor. Esperamos que isso seja suficiente. Muito obrigado.
        Tambm agradeo - disse Steffi, sorrindo para o homem antes de acompanhar Smilow at a porta.
Sem voz, Hammond simplesmente se despediu do sr. Daniels com um movimento de cabea. No corredor, Smilow e Steffi agradeceram muito  artista antes que ela entrasse 
no elevador. Eles ficaram para estudar o desenho e parabenizar um ao outro.
        Ento essa  a nossa mulher misteriosa-observou Smilow. - Ela no parece uma assassina, parece?
        Que cara tem uma assassina?
        Bem pensado, Steffi. Ela deu uma risadinha.
        Agora entendo por que o sr. Daniels no queria a mulher por perto quando descrevesse a nossa suspeita. Apesar do aperto na barriga, acho que no fundo ele 
deu bola para ela mesmo. Ele se lembra de cada detalhe, at a pinta embaixo do olho direito da moa.
        Mas voc tem de admitir que  um rosto memorvel.
        Que no quer dizer nada quando se fala de culpa ou inocncia. As mulheres bonitas podem matar com tanta alacridade quanto as feias. Certo, Hammond? - Steffi 
se virou para ele. - Nossa, o que h com voc?
Ele devia estar parecendo to nauseado quanto se sentia.
        O caf caiu mal - disse ele, amassando a xcara de isopor que segurava com fora.
        Bem, Smilow, v peg-la - Steffi bateu no desenho com a ponta da unha. - Temos o rosto.
        Ajudaria se soubssemos seu nome. Dra. Alex Ladd.
A sede temporria do frum ficava ao norte da cidade de Charleston. Era um prdio sem graa, de dois andares, situado num bairro industrial. Os vizinhos mais prximos 
eram uma loja de convenincia e uma padaria que acabara de abrir. Esse local fora de mo ia servir at que uma extensa reforma do imponente velho prdio no Centro 
da cidade terminasse. Ele j precisava de ateno quando o furaco Hugo tornou o prdio perigoso e impraticvel, forando a mudana. Era uma viagem de carro de dez 
minutos do Centro. Hammond no se lembrava de ter ido para l aquela manh. Ele estacionou o carro e entrou. Respondeu automaticamente para o guarda que operava 
o detector de metais na entrada. Virou  esquerda e entrou na sala do procurador municipal, passando pela mesa da recepcionista sem diminuir o passo. Pediu bruscamente 
para ela segurar todas as ligaes.
        O senhor j tem...
        Cuidarei de tudo mais tarde.
Bateu a porta da sua sala depois que entrou. Jogou o palet e a pasta sobre a papelada que o esperava em cima da mesa, caiu na cadeira de couro preto de espaldar 
alto e apertou a palma das mos nos olhos. Simplesmente no podia ser. Aquilo tinha de ser um sonho. Em breve ele ia acordar assustado e alarmado, ofegante, os lenis 
molhados de suor. Depois de se localizar e reconhecer o ambiente familiar, ele ia descobrir, aliviado, que tinha dormido profundamente e que aquele pesadelo no 
era a realidade. Mas era. Ele no estava sonhando, estava vivendo aquilo. Por incrvel que parecesse, a artista tinha desenhado a dra. Alex Ladd, que dividira a 
cama com Hammond horas depois de ser vista no local de um assassinato. Coincidncia? Pouco provvel. Ela devia ter alguma ligao com Lute Pettijohn. Hammond no 
tinha certeza se queria saber que ligao era aquela. Na verdade, tinha certeza absoluta de que no queria saber. Passou a mo no rosto, apoiou os cotovelos na mesa 
e olhou para o vazio, tentando arrumar seus pensamentos caticos de uma forma que ao menos parecesse ordenada. Primeiro, sem dvida nenhuma, o cabo Endicott havia 
desenhado o rosto da mulher com quem tinha dormido na noite de sbado. Mesmo se no tivesse visto a mulher to pouco tempo atrs, como na noite anterior, ele no 
esqueceria seu rosto to cedo. Tinha se sentido atrado por ele logo no incio. E passara horas na noite de sbado e na madrugada de domingo estudando, admirando, 
acariciando e beijando aquele rosto.
        De onde veio isso?- ele tocou num ponto embaixo do olho direito dela.
        Minha mancha?
         uma linda pinta.
        Obrigada.
        No tem de qu.
        Quando eu era menina, detestava isso. Agora devo admitir que passei a gostar muito dela.
        Entendo muito bem isso. Eu tambm posso passar a gostar muito. Ele beijou a pinta uma vez, depois outra, encostando a ponta da lngua de leve.
        Humm.  uma pena.
        O qu?
        Eu no ter mais pintas.
Ele ficou conhecendo o rosto dela intimamente. O desenho da artista era bidimensional, em preto e branco. Dadas essas limitaes, no podia de jeito nenhum captar 
a essncia da mulher por trs daquele rosto, mas era uma representao to aproximada que no havia dvida de que a dra. Ladd tinha estado perto do quarto da vtima 
logo antes de se pr no caminho de um funcionrio da procuradoria municipal, especificamente um tal de Hammond Cross, que tambm tinha estado com Pettijohn aquela 
tarde.
        Cristo.
   Hammond passou os dedos no cabelo, segurou a cabea com as mos e quase se rendeu  incredulidade e desespero que se apossaram dele. Que diabos ia fazer? Bem, 
no podia desmoronar por dentro, que era o que tinha vontade de fazer. Que luxo seria esgueirar-se do escritrio, sair de Charleston, deixar o estado, fugir e se 
esconder, deixar toda a confuso estourar sozinha e se poupar de ter de enfrentar o fluxo de lava incendiria do escndalo que inevitavelmente aconteceria. Mas ele 
era mais resistente que isso. Tinha nascido com um indmito senso de responsabilidade, e seus pais tinham alimentado essa caracterstica todos os dias da sua vida. 
Pensar em fugir daquilo tudo era o mesmo que imaginar que estava criando asas. Por isso ele se forou a encarar um segundo ponto que parecia indiscutvel. Esconder 
o nome dele no era o toque de charme sedutor em que tinha pensado. Eles ficaram juntos na feira pelo menos uma hora antes de Hammond pensar em perguntar o nome 
dela. Deram risadas porque levaram tanto tempo para o que costumava ser a primeira coisa a fazer quando duas pessoas se conheciam e se apresentavam.
-Nomes no so importantes, no acha? No quando o encontro  to amigvel assim.
Ele concordou.
        , o que  um nome?
E ele citou o que conseguiu lembrar de uma passagem de Romeu e Julieta.
        Muito bom! Voc j pensou em escrever isso?
        Na verdade escrevi, mas sei que no faria o menor sucesso. Dali em diante o assunto virou uma brincadeira constante. Ele perguntava o nome dela, ela se 
recusava a dizer. Como um idiota, ele pensou que estavam vivendo a fantasia de fazer amor com um estranho annimo. No ter nome passou a ser um estmulo, parte da 
aventura, um atrativo. Ele no viu mal nenhum naquilo.
O que era inquietante, mas bem provvel, era que Alex Ladd devia saber o nome dele o tempo todo. O encontro no tinha sido casual. No foi  toa que ela chegou ao 
pavilho de dana logo depois dele. O encontro dos dois foi planejado. O resto da noite foi orquestrado para constrang-lo ou compromet-lo totalmente e/ou a procuradoria 
municipal. At que ponto ele ainda ia ver. Mas mesmo um pouco s poderia ser uma calamidade para a sua carreira que desmanchava. At uma ameaa de escndalo seria 
uma pedra no caminho. E um escndalo daquelas propores certamente provocaria danos, se no destrusse de vez todas as suas esperanas de ocupar o lugar de Monroe 
Mason e de se destacar como o sumo mantenedor da lei do municpio de Charleston. Inclinado sobre a mesa, Hammond cobriu novamente o rosto com as mos. Bom demais 
para ser verdade. Um adgio banal mas verdadeiro. Nos tempos da faculdade de direito, ele e os amigos frequentavam um bar chamado Tanstaafl, acrnimo para "There 
ain't no such thing as a free lunch" [No existe almoo grtis]. A fantasia dele de passar uma noite com a mulher mais excitante que tinha conhecido vinha acompanhada 
de pauzinhos e cordinhas, e provavelmente essas cordinhas formariam um lao que ia acabar enforcando-o. Que idiota tinha sido de no reconhecer a armadilha e a isca 
to bem elaboradas. Ironicamente, ele no considerava culpada a pessoa, ou as pessoas - se ela estivesse mancomunada com Pettijohn - que lhe armara a armadilha. 
O maior culpado era ele, por ter sido to imaturo. Com os dois olhos bem abertos, Hammond tinha cado no mais antigo conto do vigrio que a humanidade conhece. Sexo 
era um mtodo seguro para comprometer um homem. Inmeras vezes em toda a histria tinha provado que era oportuno, confivel e eficiente. Ele no pensava que era 
to ingnuo, mas obviamente era. Ingenuidade era perdovel. Obstruo da justia, no. Por que no tinha admitido imediatamente para Smilow e Steffi que reconheceu 
a mulher do desenho? Porque ela podia no ter culpa nenhuma. Aquele Daniels podia ter se enganado. Se ele realmente tinha visto Alex Ladd no hotel, a hora exata 
desse encontro poderia ser crtica. Hammond sabia quase o minuto em que ela aparecera no pavilho de dana. Dada  distncia que ela teria de ter percorrido em seu 
carro para chegar l, levando em considerao o congestionamento de trnsito, ela no teria conseguido se sasse do hotel... Ele fez um clculo rpido. Digamos, 
s cinco e meia. Se o mdico-legista determinasse a hora da morte depois disso, ela no poderia ser a assassina. bom argumento, Hammond. A posteriori. Uma racionalizao 
sensacional. Mas o fato era que nunca tinha passado pela cabea dele identificar Alex Ladd. Desde o momento em que seu corao parou quando viu o desenho e soube 
com absoluta certeza quem era a pessoa retratada, ele sabia, com a mesma certeza, que no ia revelar o nome dela. Quando ele viu o rosto no bloco de desenho da artista 
e se lembrou do rosto que tinha visto to de perto no seu travesseiro, ele nem pesou as opes, no deliberou sobre os prs e os contras de ficar calado. Seu segredo 
foi selado imediatamente. Pelo menos por enquanto ele ia proteger a identidade dela. Desse modo estava quebrando todas as regras da tica que advogava. O silncio 
dele era uma violao deliberada da lei que tinha jurado manter, e uma tentativa intencional de prejudicar uma investigao de homicdio. Nem imaginava a severidade 
das consequncias que teria de pagar. Mesmo assim, no ia entreg-la para Smilow e Steffi. A forte batida soou um milsimo de segundo antes da porta se abrir. Ele 
j ia repreender a secretria por incomod-lo, depois de ter pedido expressamente para no ser incomodado, mas no chegou a dizer aquelas palavras duras.
        Bom-dia, Hammond. Merda! Isso  tudo de que preciso.
Como sempre acontecia quando estava na presena do pai, Hammond fazia uma espcie de inspeo pr-vo. Como- estava? Todos os sistemas e partes estavam em perfeitas 
condies de funcionamento? Havia qualquer defeito que necessitasse de correo imediata? Ele ia passar no teste? Esperava que seu pai no o examinasse muito de 
perto aquela manh.
O libi_Sandra Brown_II
        Oi, pai.
Hammond ficou em p e eles apertaram as mos formalmente por cima da mesa. Se o pai algum dia lhe dera um abrao, Hammond devia ser jovem demais para se lembrar.
Ele pegou o palet e pendurou-o num cabide de parede, ps a pasta no cho e convidou o pai para se sentar na nica cadeira vaga na sala sem espao para mais nada. 
Preston Cross era consideravelmente mais corpulento e mais baixo que o filho. Mas a altura de menos no reduzia o impacto que ele provocava nas pessoas, no meio 
de uma multido ou frente a frente. A pele corada estava sempre bronzeada por causa das atividades ao ar livre que praticava, e que incluam tnis, golfe e vela. 
Como se tivesse obedecido uma ordem, o cabelo dele tinha ficado precocemente branco quando ele completou cinquenta anos. Usava o cabelo branco como um acessrio 
para garantir que recebesse o devido respeito.
Nunca ficou um s dia doente e, na verdade, desprezava a pouca sade como um sinal de fraqueza. Tinha parado de fumar havia dez anos, mas fumava charuto. No bebia 
menos que trs doses de usque por dia. Considerava um sacrilgio jantar sem beber vinho. Sempre tomava um clice de conhaque antes de dormir. Apesar desses vcios, 
ele vendia sade. Com sessenta e cinco anos, Preston era mais robusto e estava em melhor forma do que a maioria dos homens com a metade da sua idade. Mas no era 
apenas seu fsico imponente que criava aquela aura to poderosa. Era tambm sua personalidade dinmica. Considerava sua boa aparncia como um direito. Intimidava 
os homens que costumavam ser sempre seguros. As mulheres o adoravam. Tanto na vida profissional quanto na pessoal, raramente era superado e jamais algum o contradizia. 
Trinta anos antes, ele havia combinado diversas pequenas firmas de seguro mdico e transformado numa grande que, sob a liderana dele, tinha ficado enorme e agora 
possua vinte e uma filiais em todo o estado. Oficialmente, ele era parcialmente aposentado. No entanto, continuava sendo diretorexecutivo da companhia e era mais 
que uma posio passiva. Ele monitorava tudo, at o preo dos lpis no atacado. Nada escapava  sua observao. Servia a diversas diretorias e comits. Ele e a sra. 
Cross constavam de todas as listas de convites que tinham alguma importncia. Ele conhecia todos que eram algum no Sudeste dos Estados Unidos. Preston Cross era 
muito bem relacionado.Hammond desejava amar, admirar e respeitar o pai, mas sabia que Preston tinha tirado vantagem das qualidades concedidas por Deus para fazer 
coisas perversas. Preston iniciou sua visita inesperada.
        Vim assim que soube.
Essas palavras em geral serviam de prefcio para condolncias. Hammond se encheu de medo. Como  que o pai podia ter descoberto to cedo sua indiscrio com Alex 
Ladd?
        O que voc soube?
        Que voc vai ser o promotor do caso do assassinato de Lute Pettijohn.
Hammond procurou esconder o alvio que sentiu.
        Isso mesmo.
        Teria sido bom ouvir essa boa notcia de voc, Hammond.
        No tive a inteno de adiar nada, pai. S conversei com Mason a noite passada.
Ignorando a explicao de Hammond, Preston continuou:
        Em vez disso, tive de ouvir isso de um amigo que esteve com Mason hoje, num caf da manh de orao. Quando ele mencionou casualmente para mim, mais tarde 
no clube, naturalmente supunha que eu j soubesse. Fiquei constrangido de no saber.
        Fui para a cabana no sbado. Fiquei sabendo sobre a morte de Pettijohn logo que cheguei, ontem  noite. Desde ento as coisas tm acontecido to depressa 
que nem tive chance de absorv-las todas.
Um exemplo perfeito de atenuao dos fatos.
Preston tirou um fiapo invisvel da dobra bem passada da cala.
        Tenho certeza que sabe que essa  uma oportunidade incrvel para voc.
        Sei, sim.
        O julgamento vai atrair muita publicidade.
        Estou sabendo...
        Que voc deve explorar, Hammond - com o zelo de um evanglico fantico, Preston levantou a mo e fechou o punho como se segurasse um monte de ondas de rdio. 
- Use a mdia. Faa seu nome circular sempre. Deixe os eleitores saberem quem voc . Autopromoo. Esse  o segredo.
        O segredo  conseguir a condenao - retrucou Hammond. Espero que o meu desempenho na corte fale por si, e que eu no precise contar com o apoio da mdia.
Preston Cross abanou a mo num gesto de impacincia e pouco caso.
        As pessoas no se importam com sua forma de cuidar do caso, Hammond. Quem est se lixando se o assassino pega priso perptua, pena de morte ou se sai impune?
        Eu me importo - disse ele com convico. - E os cidados deviam se importar tambm.
        Talvez um dia tivessem prestado mais ateno no desempenho dos funcionrios pblicos. Agora todo mundo s se importa com o desempenho deles na televiso. 
- Preston deu uma risada. - Se fizessem uma enquete, duvido que a maioria das pessoas soubesse o que um promotor pblico faz.
        No entanto, essas mesmas pessoas ficam indignadas com as estatsticas do crime.
        Isso  bom. Apele para isso! - exclamou Preston. - Fale bonito e o pblico ser aplacado - ele se recostou na cadeira. - Adule os reprteres, Hammond, e 
consiga a simpatia deles. Sempre que pedirem, d uma declarao para eles. Mesmo se for besteira, ficar surpreso de ver at onde chega o benefcio de uma coisa 
to pequena. Eles comeam a dar tempo grtis no ar para voc - ele parou de falar para piscar um olho. - Trate de se eleger primeiro, depois pode fazer a cruzada 
que satisfaz seu corao.
        E se eu no conseguir ser eleito?
        O que vai impedi-lo?
        A ilha Speckle.
Hammond tinha deixado cair uma bomba, mas Preston nem se mexeu.
        O que  isso?
Hammond nem tentou esconder seu desprezo.
        Voc  bom, pai. Muito bom. Negue o quanto quiser, mas sei que est mentindo.
        Olha essa lngua comigo, Hammond.
        Olhar a lngua? - Hammond levantou-se zangado da cadeira e enfiou as mos nos bolsos. - No sou criana, pai. Sou promotor municipal. E voc  um escroque.
O sangue misturado com usque subiu para os capilares do rosto de Preston.
        Muito bem, ento voc  muito esperto. O que pensa que sabe? 169
        Sei que se o detetive Smilow ou qualquer outra pessoa descobrir que o seu nome est associado ao projeto da ilha Speckle, isso pode lhe custar uma multa 
pesadssima, talvez at um tempo na priso, e significar o fim da minha carreira. A no ser que eu processe meu prprio pai. De qualquer maneira, a sua aliana com 
Pettijohn me colocou numa situao indefensvel.
        Relaxe, Hammond! No tem nada com o que se preocupar. Estou fora da ilha Speckle.
Hammond no sabia se acreditava nele ou no. O semblante do pai era calmo, implacvel, no dava nenhum sinal aparente de desonestidade. Ele tinha esse talento.
        Desde quando? - perguntou Hammond.
        Semanas atrs.
        Pettijohn no sabia disso.
        Claro que sabia. Ele tentou me dissuadir de sair. Eu sa de qualquer maneira e levei meu dinheiro comigo. Ele ficou muito irritado.
Hammond sentiu o rosto esquentar de vergonha. Pettijohn tinha dito para ele no sbado  tarde que Preston estava metido at o pescoo na ilha Speckle. Tinha mostrado 
documentos assinados em que a assinatura do pai era prontamente reconhecida. Ser que Pettijohn estava jogando com ele?
        Um de vocs est mentindo.
        Quando foi que voc andou trocando confidncias com Lute?
        Preston quis saber.
Hammond ignorou a pergunta.
        Quando voc saiu, vendeu a sua parte com lucro?
        No seria um bom negcio se eu no fizesse isso. Havia um comprador que queria entrar no negcio e que estava disposto a pagar o meu preo pela minha parte.
O caf amargo no estmago de Hammond ficou indigesto.
        No importa se voc est ou no fora agora. Se j esteve ligado a esse projeto, est marcado. E por associao, eu tambm estou.
        Voc est dando importncia demais para isso, Hammond.
        Se isso se tornar pblico...
        No vai.
        Mas pode.
Preston deu de ombros.
        Ento eu direi a verdade.
        Que verdade?
        Que eu no sabia o que Lute estava fazendo l. Quando descobri, fui contra e pulei fora.
        Voc j cercou de todos os lados.
        Isso mesmo. Sempre cerco.
Hammond olhou furioso para o pai. Preston estava praticamente desafiando o filho a transformar aquilo num caso... literalmente. Mas Hammond sabia que seria intil 
fazer isso. Provavelmente at Lute Pettijohn sabia que Preston teria todos os seus patos enfileirados. Tinha usado a associao temporria de Preston no projeto 
da ilha Speckle para manipular Hammond.
        O meu conselho, Hammond,  que voc aprenda uma valiosa lio com isso. Voc pode se safar com quase qualquer coisa, desde que mantenha sempre aberta uma 
rota de fuga segura.
        Esse  o seu conselho para seu nico filho? Que se dane a integridade?
        No fui eu que criei as regras - retrucou ele. - E voc pode no gostar delas - ele chegou o corpo para a frente e sublinhou suas palavras cortando o ar 
com o dedo indicador em riste. - Mas voc tem de seguilas, seno aqueles que no so to escrupulosos vo deix-lo para trs, comendo a poeira deles.
Aquele territrio era bem familiar. Os dois tinham pisado nele milhares de vezes. Quando Hammond tinha idade suficiente para questionar a infalibilidade do pai e 
para ir contra alguns dos seus princpios, logo ficou claro que eles eram diferentes. Uma linha foi traada na areia. Aquelas eram discusses que nenhum dos dois 
podia vencer porque nenhum dos dois se dispunha a ceder nem um milmetro sequer. Agora que Hammond tinha visto provas por escrito do envolvimento do pai em um dos 
esquemas mais nefandos de Pettijohn, ele compreendia a imensa diferena entre seus pontos de vista. No acreditava, nem por um segundo, que Preston no soubesse 
o que estava acontecendo naquela ilha no meio do mar. A conscincia no teve papel nenhum na sua deciso de sair do negcio na hora que ele saiu. Simplesmente esperou 
uma oportunidade de lucrar com o prprio investimento. Hammond percebeu que o abismo entre os dois estava se aprofundando. No via como super-lo.
        Tenho uma reunio em cinco minutos - mentiu ele, chegando at a ponta da mesa. - Diga oi para a mame. Vou tentar telefonar para ela hoje, mais tarde.
        Ela e umas amigas vo visitar a Davee esta tarde.
        Estou certo de que Davee vai gostar - disse Hammond, lembrando como Davee tinha demonstrado desprezar aquela ideia de receber visitas que iam  casa dela 
mais por curiosidade do que para prestar condolncias.
 porta, Preston parou e se virou para ele.
        No fiz segredo nenhum do que achei quando voc deixou a firma de advocacia.
        No, no fez mesmo. Deixou perfeitamente claro que achava que era a escolha errada - disse Hammond, tenso. - Mas mantenho a minha deciso. Gosto do meu 
trabalho aqui, deste lado da lei. Alm do mais, sou bom nisso.
        Voc est se saindo bem sob a tutela de Monroe Mason. Excepcionalmente bem.
        Obrigado.
O cumprimento no suavizou o que Hammond sentia, porque ele no dava mais valor  opinio do pai. Alm disso, o elogio de Preston sempre vinha acompanhado de um 
qualificativo.
        Gostei de todos esses A 's, Hammond. Mas aquele B-plus em qumica  inaceitvel.
        Os corredores que voc rebateu naquele triplo ganharam o jogo. Pena que no conseguiu fazer um grand slam. Isso sim teria sido o mximo!
        Segundo lugar da sua turma de direito? Isso  maravilhoso, filho. Claro que no to bom quanto o primeiro lugar.
Era sempre assim, desde a infncia dele. E o pai no quebrou a tradio aquela manh.
        Voc agora tem a chance de validar a sua deciso, Hammond. Abandonou a promessa de sociedade numa firma de advocacia com muito prestgio e ingressou no 
servio pblico. Isso teria muito mais sentido se voc fosse o patro. com falsa afetao, ele ps a mo no ombro de Hammond como um saco de cimento. J tinha esquecido, 
ou resolvera desconsiderar a discusso recente dos dois.
        Esse  o caso que pode lhe valer a fama, filho. O caso do assassinato de Pettijohn  um convite de portas abertas para o cargo de procurador-geral.
        E se as suas trapaas anularem minhas chances, pai?
        Isso no vai acontecer - respondeu ele, exibindo impacincia.
        Mas se acontecer, levando em conta o que voc ambiciona para mim, no seria uma ironia cruel? A dra. Alex Ladd no atendia pacientes s segundas-feiras.
Ela usava esse dia para atualizar sua papelada e negcios pessoais. Aquela era uma segunda-feira especial. Ia saldar sua dvida com Bobby Trimble e livrar-se dele, 
se possvel para sempre. Aquele tinha sido o trato que os dois fizeram na noite anterior. Ela daria o que ele tinha exigido, e ele desapareceria. Mas ela j tinha 
aprendido com experincias concretas que as promessas de Bobby no valiam nada. Enquanto destrancava a porta do consultrio, imaginava quantas vezes no futuro seria 
forada a abrir o cofre para tirar dinheiro em espcie. Pelo resto da vida? Essa era uma perspectiva desanimadora, mas vlida. Agora que Bobby a tinha encontrado 
de novo, no era provvel que a deixasse em paz. O consultrio bem decorado fazia lembrar tudo que tinha a perder se Bobby a entregasse. Com o conforto dos pacientes 
em mente, ela havia escolhido uma moblia discreta mas cara. Como os outros cmodos da casa, era uma mistura do estilo tradicional com algumas poucas peas de antiqurio 
dando um toque pessoal. O tapete oriental abafou seus passos. O sol entrava pelas janelas que davam para a varanda do primeiro andar e, mais adiante, para o jardim 
murado, que ela mantinha muito bem cuidado nas quatro estaes. As plantas e flores que cresciam no clima semi tropical de Charleston estavam no mximo de sua exuberncia. 
Curtindo a umidade, elas criavam retalhos de cores vibrantes nos seus canteiros cultivados. Teve sorte de encontrar a casa j reformada e renovada com convenincias 
modernas. S precisou dar alguns toques pessoais para torn-la dela. Um tempo atrs aquele cmodo do canto, na frente, tinha sido a nica sala formal da casa. O 
cmodo idntico contguo a ela, originalmente a sala de jantar, agora funcionava como sala de estar. Quando recebia convidados, ela os levava para o jardim. As refeies 
em casa eram feitas na cozinha, o cmodo dos fundos no primeiro andar. L em cima havia duas grandes sutes. Cada cmodo da casa se abria para uma das duas piazzas 
sombreadas. O muro coberto de jasmim que cercava o jardim garantia a privacidade. Alex puxou para o lado o quadro que escondia seu cofre de parede. Com habilidade, 
ela girou o mostrador com a combinao da tranca e, quando ouviu as linguetas encaixando, abaixou a alavanca e abriu a porta pesada. Dentro havia vrias pilhas de 
dinheiro, presos com elstico de acordo com o valor. Talvez por ter conhecido a necessidade, at a fome, quando era pequena, jamais ficava sem dinheiro vivo  mo. 
O hbito era infantil e irracional, mas se dava esse direito, levando em conta a origem dele. No era seguro, economicamente, manter o dinheiro num cofre, onde no 
rendia juros. Mas dava uma sensao de segurana saber que estava l,  disposio se surgisse alguma emergncia. Como agora. Ela contou a quantia que tinha combinado 
pagar e ps o dinheiro numa sacola com zper. Devido ao que representava, a sacola parecia extraordinariamente pesada na mo dela. O dio que sentia por Bobby Trimble 
era to intenso que ela ficava at com medo. No lamentava ter de dar aquele dinheiro para ele. Ficaria feliz de dar at mais se significasse que nunca mais teria 
de v-lo. No era da quantia que ela no gostava, mas da intromisso na vida que ela havia construdo para ela. Duas semanas antes, ele tinha se materializado na 
sua frente, sado do nada. Sem imaginar o que havia  sua espera, ela atendeu alegremente  campainha da porta e o encontrou l. Por um momento no o reconheceu. 
As mudanas eram surpreendentes. As roupas vulgares e baratas tinham sido substitudas por uma moda mais cara e chamativa. Havia um pouco de branco no cabelo das 
tmporas, que faria qualquer outro homem parecer distinto. Bob, contudo, s parecia mais sinistro, como se a maldade da juventude tivesse amadurecido e virado puro 
mal. Mas o sorriso sarcstico era familiar demais. Era um sorriso triunfante, cheio de volpia e sugestivo, que ela passara anos tentando erradicar da memria. Quando 
inmeras sesses de terapia e mares de lgrimas no lograram livr-la dele, ela implorou a Deus para faz-lo desaparecer. Agora, apenas em raras ocasies, ele reaparecia 
num pesadelo, do qual ela despertava banhada em suor e tremendo de pavor. Porque aquele sorriso representava o controle que ele havia exercido sobre ela.
        Bobby - a voz dela tinha o tom oco do dobre do sino da morte. O retorno dele, sem aviso, para a vida dela s podia significar
desastre, especialmente porque as mudanas sutis pelas quais tinha passado atenuavam a ameaa que ele representava.
        Voc no parece muito contente de me ver.
        Como foi que me encontrou?
        Bem, no foi fcil - a voz dele tambm tinha mudado. Estava mais suave, mais refinada, no era mais fanhosa. - Se no conhecesse voc, acharia que estava 
se escondendo de mim todos estes anos. Acontece que foi por acaso que vim parar na sua porta. Um golpe do destino.
Ela no sabia se acreditava nele ou no. O destino podia ter pregado essa pea cruel nela. Por outro lado, Bobby era cheio de recursos. Ele podia estar atrs dela 
estes anos todos. De qualquer modo, no importava mais. Ele estava l, exumando suas piores lembranas e medos mais sinistros dos lugares profundos da alma em que 
ela os havia enterrado.
        No quero nada com voc.
Ele ps as mos sobre o corao e fingiu que o que ela dizia o estava magoando.
        Depois de tudo que representamos um para o outro? -Justamente por tudo que representamos um para o outro. Ele achou que ela estava muito mais equilibrada 
e segura do que
quando era mais jovem, e fez uma careta de raiva.
        Voc realmente quer comear a comparar as nossas experincias passadas? Quer comparar o que aconteceu com quem? Lembre que fui eu que...
        O que voc quer? Fora dinheiro. Sei que voc quer dinheiro.
        No tire concluses precipitadas, dr. Lad. Voc no foi a nica que melhorou de vida. Desde a ltima vez que nos encontramos, tambm prosperei.
Ele se gabou da carreira como relaes pblicas de uma boate. Quando ela ouviu tudo que era capaz de suportar sobre os dias de glria dele no Cock'n'Bull, ela disse:
        Tenho um paciente daqui a quinze minutos.
Ela esperava com isso dar um fim rpido  reunio. Mas Bobby estava se animando para a grande revelao. Como se jogasse o s da vitria, ele orgulhosamente explicou 
o esquema que o tinha levado para Charleston.
Sem dvida ele estava completa e absolutamente louco, e ela disse isso para ele.
        Tenha cuidado, Alex - disse ele, com uma suavidade apavorante. - No sou mais to bonzinho como costumava ser. E estou muito mais esperto.
Tentando controlar o medo, ela disse:
        Ento voc no precisa de mim. Mas o plano dele inclua Alex.
        Na verdade, voc  a chave para o sucesso do plano. Quando ele contou o que queria que ela fizesse, ela disse:
        Voc est delirando, Bobby. Se pensa que eu lhe daria um minuto do meu tempo est redondamente enganado! V embora e no volte mais!
Mas ele voltou. No dia seguinte. E no outro tambm. Ele persistiu uma semana inteira, aparecendo nas mais diversas horas, interrompendo as sesses de Alex com seus 
pacientes, deixando repetidos recados na secretria eletrnica, que ficavam cada vez mais ameaadores. Ele tinha voltado a se incorporar  vida dela, como bom parasita 
que era.
Finalmente ela concordou em se encontrar com ele. Achando que Alex tinha capitulado, o prazer dele se transformou em fria quando ela se recusou a participar.
        Voc pode ter mais verniz, Bobby. Estar mais refinado. Mas voc no mudou.  o mesmo daquele tempo em que trabalhvamos na rua para conseguir uns trocados. 
 s arranhar a superfcie desse verniz fino que voc continua sendo ral por baixo.
Furioso por saber que o que ouvia era verdade, ele tirou um dos diplomas dela da parede do consultrio e jogou no cho, quebrando a moldura e estilhaando o vidro.
        Escute bem o que vou dizer: - sua voz parecia mais a voz que ela lembrava -  melhor voc pensar bem e fazer esse pequeno favor para mim. Seno vou estragar 
sua vida pra valer. Pra valer!
Ela compreendeu ento que ele no era mais um vagabundo de rua. Alm de poder prejudic-la, ele podia destru-la. Por isso ela concordou em desempenhar seu pequeno 
papel naquele plano ridculo, mas s porque j tinha pensado numa maneira de sabot-lo.
Mas como acontecia com todas as trapaas de Bobby, deu errado. Terrivelmente errado.
Ela no conseguiu implementar o prprio plano. Agora era fundamental que ela se dissociasse de Bobby. Se isso significava pagar o que ele exigia, era um sacrifcio 
pequeno se comparado  enormidade do que podia perder se a aliana dos dois fosse revelada. Achando que essa deciso era vlida, ela fechou o cofre de parede, ps 
o quadro de volta no lugar e saiu do consultrio, tendo o cuidado de trancar a porta. Como se fosse uma deixa, a campainha tocou no mesmo instante. Bobby tinha chegado 
bem na hora. Ela escondeu a sacola atrs de um vaso na mesa da entrada, foi para a varanda e abriu a porta da rua. Mas no era Bobby. Dois policiais uniformizados 
acompanhavam um homem de olhos claros e lbios finos, muito srios. O corao de Alex disparou, pois ela j sabia o que eles estavam fazendo ali na sua casa. Mais 
uma vez sua vida estava prestes a mergulhar no caos. Para disfarar sua ansiedade, ela deu um sorriso simptico.
        Posso ajud-los?
        Dra. Ladd?
        Sim.
        Sou o sargento Rory Smilow, detetive da seo de homicdios do departamento de polcia de Charleston. Gostaria de conversar com a senhora sobre o assassinato 
de Lute Pettijohn.
        Lute Pettijohn? Eu no sei...
        A senhora foi vista do lado de fora da sute de cobertura dele na tarde em que foi assassinado, dra. Ladd. Por isso faa o favor de no desperdiar meu 
tempo fingindo que no sabe do que estou falando.
   Ela e o detetive Smilow ficaram olhando um para o outro, medindo foras. Foi Alex que acabou cedendo. Ela chegou para um lado.
        Entrem.
        Na verdade, eu esperava que a senhora viesse conosco. Ela engoliu em seco, apesar da boca estar seca.
        Eu gostaria de telefonar para o meu advogado.
        No  necessrio. A senhora no est sendo presa. Ela olhou bem para os dois policiais ao lado dele.
Os lbios de Smilow subiram um pouco e formaram o que poderia passar como um sorriso triste.
        Ser interrogada voluntariamente sem a presena de um advogado pode representar muito para me convencer de que a senhora  inocente, que no fez nada de 
errado.
        No acredito nem um pouco nisso, detetive Smilow - ela marcou um ponto. A franqueza dela pareceu pegar Smilow de surpresa. - Terei prazer de acompanh-los 
assim que avisar o meu advogado.
Smilow estava sentado na quina de sua mesa. Diferente de todas as outras mesas da Diviso de Investigao Criminal, a dele no tinha papis empilhados. Os arquivos 
e a papelada estavam arrumados. Graas ao trabalho do engraxate Smitty aquela manh, os sapatos de amarrar refletiam as luzes do teto. Ele continuava de palet. 
Alex Ladd estava sentada, com as mos calmamente postas no colo, as pernas discretamente cruzadas. Smilow achou que ela estava extraordinariamente composta para 
algum que, pelo menos no que dizia respeito  aparncia, parecia totalmente deslocada na sala de um detetive da Homicdios. Havia meia hora esperavam o advogado 
que tinha combinado encontr-la na delegacia. Se ela se sentia incomodada com o silncio prolongado e com o exame minucioso que Smilow fazia dela, no dava nenhum 
sinal. No demonstrava medo ou insegurana, apenas uma tolerncia a contragosto com aquela inconvenincia. O advogado Frank Perkins chegou afobado, apressado e se 
desculpando. Usava roupa de golfe, fora os sapatos.
        Sinto muito, Alex. Eu estava no dcimo buraco quando recebi seu recado. Vim o mais depressa possvel. Do que se trata, Smilow?
Perkins tinha uma reputao muito slida e um desempenho excelente. O que era mais raro ainda, tinha fama de ser um ser humano decente, possuidor de uma integridade 
inabalvel. Smilow ficou imaginando de que forma o advogado tinha servido a Alex Ladd antes, por isso perguntou.
         uma pergunta grosseira - respondeu Perkins -, mas no me importo de responder, se Alex no se importar.
        Por favor - disse ela.
        At esse momento temos sido apenas amigos, socialmente. Ns nos conhecemos h uns dois anos, quando ela e Maggie, a minha mulher, trabalharam juntas num 
comit do Spoleto - explicou ele, referindo-se ao famoso festival de artes de Charleston, que acontecia no ms de maio.
        Ento, at onde sabe, a dra. Ladd nunca enfrentou nenhum processo criminal antes?
        V logo ao assunto, Smilow - o tom de Perkins demonstrava por que os promotores o consideravam um adversrio duro no tribunal.
        Quero interrogar a dra. Ladd a respeito do assassinato de Lute Pettijohn.
O queixo de Perkins caiu. Ele olhou para eles boquiaberto, como se esperasse o fim da piada.
        Vocs devem estar brincando.
        No, infelizmente ele no est brincando - disse Alex. Obrigada por vir, Frank. Sinto muito ter interrompido a sua partida de golfe. Voc estava ganhando?
        ... estava, estava - respondeu ele, distrado, ainda tentando digerir o que Smilow acabara de dizer.
        Ento sinto mais ainda - olhando para Smilow, ela disse: - Isso tudo  ridculo demais.  uma perda de tempo. Eu s quero terminar logo com isso e sair 
daqui.
Como se estivesse dando permisso para ele continuar, Alex mexeu a cabea olhando para ele. Ele se inclinou sobre a mesa, ligou um gravador, declarou os nomes deles, 
a hora e a data.
        Dra. Ladd, o funcionrio de um estacionamento pblico na rua East Bay identificou a senhora em um retrato falado. Como o estacionamento no tem um sistema 
automtico de emisso de tquetes, ele mantm um registro, por escrito, de cada carro, com o nmero da placa e a hora que entrou.
Infelizmente para Smilow no havia nenhum registro da hora em que o carro sara do estacionamento. A cobrana era feita de acordo com o horrio de entrada. Qualquer 
perodo inferior a duas horas custava cinco dlares. As taxas adicionais s comeavam a ser cobradas depois daqueles primeiros cento e vinte minutos. O preo era 
anotado, mas no a hora exata da sada.
        Ns a encontramos pelo bilhete do seu carro. No sbado  tarde a senhora deixou o carro naquele estacionamento quase duas horas.
Perkins, que ouvia atentamente, deu uma risada e disse:
        Essa foi a sua descoberta trepidante? Esse  o seu enorme progresso neste caso?
         um comeo.
        Um comeo danado de lento. Como  que o negcio do estacionamento associa a dra. Ladd ao assassinato?
        Eu dei uma gorjeta...
Perkins levantou a mo, mas Alex o fez abaixar.
        Tudo bem, Frank. Dei para o rapaz do estacionamento uma nota de dez dlares, a menor que eu tinha. E isso representou uma gorjeta de cinco dlares. Tenho 
certeza de que foi por isso que ele lembrou to bem de mim, a ponto de poder me descrever para o retratista.
        No foi ele que nos deu a descrio - disse Smilow. - Foi o sr. Daniels, de Macon, Gergia. O quarto dele no Charles Towne Plaza ficava no mesmo corredor 
da sute de cobertura ocupada por Lute Pettijohn aquele sbado  tarde. A senhora o conhecia?
        Voc no precisa responder, Alex - disse o advogado. - Na verdade, recomendo que no diga mais nada at termos a chance de conversar s ns dois.
        Tudo bem - repetiu ela, dessa vez rindo um pouco. Olhando de novo para Smilow, ela disse: - Nunca ouvi falar do sr. Daniels, de Macon, Gergia.
Alm de calma, ela era inteligente, pensou Smilow.
        Estava me referindo ao sr. Pettijohn. A senhora o conhecia?
        Todo mundo em Charleston j ouviu falar de Lute Pettijohn. O nome dele est sempre no noticirio.
        A senhora sabia que ele tinha sido assassinado?
        Claro que sim.
        Viu na televiso?
        Estive fora da cidade uma parte do fim de semana. Mas quando voltei, ouvi no noticirio.
        No conhecia Pettijohn pessoalmente?
        No.
        Ento o que estava fazendo na frente da porta do quarto dele no hotel, na hora em que foi assassinado?
        Eu no estava l.
        Alex, por favor, no diga mais nada - ele ps a mo sob o cotovelo dela e indicou a porta. - Ns vamos embora.
        No vai ficar bem para mim.
        Detetive, no fica bem para voc. Voc deve um pedido de desculpas para a dra. Ladd.
        No me importo de responder s perguntas, Frank, se isso ajudar a acabar com essa loucura de uma vez por todas - disse ela.
Perkins ficou olhando para ela um longo tempo. Ele obviamente discordava disso, mas virou-se para Smilow:
        Insisto em ter uma conversa com a minha cliente antes de isso prosseguir.
        Muito bem. Darei alguns minutos para os dois.
        No se esquea de desligar o microfone antes de sair.
        Pode acreditar, Frank, que quero que isso seja feito de acordo com as regras. No quero que um assassino saia impune por causa de uma tecnicalidade - olhando 
bem para Alex, ele desligou o gravador e deixou-a sozinha com o advogado.
        No d para acreditar - Steffi Mundell estava do lado de fora, no estreito corredor, espiando pela janela de espelho da sala particular do detetive Smilow. 
- O retrato falado estava perfeito. Como  que ela ?
        Voc no tem outros casos, Steffi? Pensei que todos vocs, assistentes da promotoria, vivessem sobrecarregados e mal pagos. Pelo menos  nisso que vocs 
fazem todo mundo acreditar.
        com a sano de Mason, aliviei minha cota de casos para poder me concentrar neste. Ele quer que eu ajude Hammond em tudo que puder.
        Onde est o garoto prodgio?
Smilow viu Alex Ladd balanar a cabea inexoravelmente para uma pergunta que Frank Perkins fez.
        Entrincheirado em seu escritrio. No o vejo desde que samos do hospital esta manh. Deixei-lhe um recado dizendo que eu vinha para c para dar uma espiada 
na nossa suspeita. Por falar nisso, um bom trabalho de captura.
        Sopa no mel. Hammond vir nos encontrar?
        Voc se importa? Smilow deu de ombros.
        Gostaria de avaliar a reao dele. -dra. Ladd?
        Talvez seja interessante ver se o santo Hammond consegue pedir a pena de morte para uma bela mulher.
Steffi reagiu com espanto.
        Voc acha que ela  bonita?
Antes de Smilow poder responder, Frank Perkins abriu a porta, cumprimentou Steffi com aspereza e fez um gesto para eles entrarem. Bobby Trimble respirou fundo para 
tentar fazer seu corao voltar a bater normalmente. Estava acelerado desde que vira Alex conversando com policiais na frente da casa dela. Isso era ruim. Muito 
ruim. Ser que a polcia j sabia do seu esquema Pettijohn? Ser que Alex os tinha chamado com a inteno de entreg-lo para se salvar? Ele tinha passado de carro 
pela frente da casa dela devagar, com uma indiferena ensaiada. Mas o que ele viu com o canto do olho foi alarmante. Dois uniformizados, um  paisana e uma mulher 
vingativa que no disfarava o desprezo que sentia por ele. Uma receita perfeita para o desastre. Havia, no entanto, um sinal positivo. Alex no apontou para ele. 
No apontou para ele gritando "Peguem-no!". Mas ele no tinha certeza do que isso significava, em que p estava. Podia significar apenas que ela no o tinha visto 
passar. Pensando no seu prximo passo, ele dirigiu o conversvel sem rumo pelo trnsito do meio-dia no Centro de Charleston. Na noite anterior ele pensou que tinha 
conseguido. Depois de muitas ameaas, Alex tinha concordado em dar o dinheiro que ele exigia.
        Se voc pensa que pode roubar a minha ideia e us-la em benefcio prprio, est muito enganada, senhorita! - Quando ele ficava agitado o sotaque voltava. 
Ele detestava aquele som anasalado e parou de falar para modular a voz. - Nem pense em tentar me ludibriar, Alex - disse ele em tom mais suave, mas no menos ameaador. 
- Aquele dinheiro me pertence e eu o quero!
Alex tambm tinha dado a volta por cima. Falava melhor. Vestia-se melhor. Vivia bem. Mas apesar de toda aquela pose esnobe e metida a besta, no tinha mudado realmente. 
No mais que ele. Assim como Alex conhecia sua verdadeira natureza, ele conhecia a dela. Ser que ela pensava que ele tinha nascido ontem? Ele sabia o que estava 
acontecendo. Ela aproveitara a sua ideia brilhante e estava tentando ficar com a metade que pertencia a ele.
Quando ele a acusou disso, ela retrucou:
        Pela ltima vez, Bobby, no tenho dinheiro nenhum para dar para voc. Deixe-me em paz!
        Isso simplesmente no vai acontecer, Alex. Farei parte da sua vida at conseguir o que vim buscar. Se quiser que eu desaparea, vai ter de pagar!
O suspiro cansado de Alex foi to bom quanto uma bandeira branca hasteada.
        Esteja na minha casa amanh, ao meio-dia.
Ento ele foi para a casa dela ao meio-dia, e o que aconteceu? Ela estava recebendo a visita da polcia. J podiam at ter expedido um mandado de priso para ele. 
Mas talvez no, ele pensou, esforando-se para ficar calmo. Se ela e a polcia estavam armando uma armadilha para ele, por que a radiopatrulha estava estacionada 
bem  vista? E como  que ela podia acuslo sem se encrencar tambm? De qualquer forma, at ter certeza do que estava acontecendo, seria mais sensato Bobby Trimble 
se esconder. Uma chatice. Ele parou num sinal vermelho, cruzou as mos em cima da direo e contemplou seu futuro imediato. Com o canto do olho ele notou um outro 
conversvel parando ao lado do dele. Virou a cabea. Os dois rostos que olhavam para ele estavam parcialmente escondidos atrs de culos escuros com lentes amarelas. 
As estudantes eram jovens e atraentes. Seus sorrisos eram convidativos e ousados. Filhinhas mimadas de papai rico  procura de encrenca numa tarde quente de vero. 
Ou seja, presas fceis. O sinal ficou verde, e cantando pneus o carro delas saiu em disparada. Viraram  direita na rua seguinte. Bobby trocou de pista e foi atrs 
delas. As meninas, olhando por cima dos ombros nus, sabiam que ele as seguia. Ele as viu dando risadas. O BMW conversvel entrou no estacionamento de um restaurante 
da moda. Bobby tambm entrou. Viu as duas indo para a porta de entrada. Elas usavam shorts bem curtos que exibiam uma polegada das ndegas e o que pareciam quilmetros 
de pernas bronzeadas. As blusas deixavam pouca coisa a cargo da imaginao. Elas eram uma lembrana ambulante, risonha e paqueradora do que Bobby fazia melhor. Ele 
abriu caminho pelo restaurante apinhado e avistou as duas sentadas a uma mesa no ptio,  sombra de um guarda-sol, fazendo o pedido de bebidas para uma garonete. 
Quando a garonete se afastou, Bobby sentou-se numa cadeira vazia  mesa delas. Os lbios delas brilhavam e emolduravam dentes muito brancos e perfeitos. Diamantes 
brilhavam em suas orelhas. Elas cheiravam a perfumes caros.
        Sou policial - disse ele com a voz arrastada e sensual. - As jovens senhoritas tm idade para beber? Elas riram.
        No se preocupe conosco, policial.
        J passamos da maioridade.
        Maioridade para fazer o qu? - perguntou ele.
        Estamos de frias, por isso topamos praticamente qualquer coisa.
        Qualquer coisa mesmo.
Ele deu um sorriso cheio de ms intenes.
         mesmo? E eu pensei que vocs eram missionrias em viagem. Mais uma rodada de risos. A garonete chegou com dois drinques.
Bobby recostou-se na cadeira.
        O que estamos bebendo, senhoritas? O jogo estava ganho.
A intrpida recepcionista finalmente quebrou a barreira invisvel e entrou na sala de Hammond.
        Sabe aquela suspeita do retrato falado? Foi identificada como dra. Alex Ladd. Neste exato momento ela est na sala do detetive Smilow, sendo interrogada.
Hammond comeou a suar frio na palma das mos.
        Ele a prendeu?
        Ela veio voluntariamente, foi o que a srta. Mundell disse. Mas est com o advogado dela. O senhor vai para l ou no?
        Talvez mais tarde. A recepcionista saiu.
As ramificaes dessa notcia ricochetearam rapidamente, como ecos. Hammond foi atacado por elas. As tticas de interrogatrio de Smilow eram capazes de arrancar 
uma confisso da madre Teresa. Hammond no tinha como saber de que forma Alex Ladd ia reagir a elas. Seria hostil ou ia cooperar? Teria alguma coisa para confessar? 
Quando ela o visse novamente, o que poderia revelar? O que ele poderia revelar?
Por precauo, ele queria adiar o inevitvel encontro cara a cara at quando pudesse. At saber mais sobre Alex Ladd e conhecer a natureza e a extenso do seu envolvimento 
com Pettijohn, era melhor para ele manter distncia do caso. Normalmente isso seria vivel. A no ser em raras excees, a promotoria no se envolvia diretamente 
at os detetives descobrirem provas suficientes para fazer acusaes formais, ou para Hammond ter um caso para apresentar ao grande jri. Diferentemente de Steffi, 
que no sabia o que queria dizer sutileza, ele deixava a polcia fazer seu trabalho at a hora de ele assumir o controle da situao. Mas era uma daquelas raras 
excees. Seu envolvimento era necessrio, mesmo que o nico motivo fosse a poltica. Funcionrios municipais e estaduais, alguns que tinham sido inimigos declarados 
de Pettijohn, outros seus aliados, estavam usando aquele assassinato como plataforma poltica. Pela mdia, eles exigiam a rpida priso e julgamento do assassino. 
Alimentando o interesse pblico, um editorial no jornal daquela manh emitia um chamado para despertar os leitores para a triste verdade de que ningum, nem um indivduo 
aparentemente invulnervel como Lute Pettijohn, estava a salvo da violncia. Na edio de meio-dia do noticirio, um reprter fazia uma enquete na rua, perguntando 
para os transeuntes se confiavam que o assassino de Pettijohn seria capturado e justamente punido. O caso estava criando o frenesi da mdia que o pai dele tanto 
queria. O que Hammond queria,era evitar entrar na refrega o mximo de tempo possvel. Visando isso, ele passou mais meia hora inventando trabalho para ele mesmo.
Monroe Mason apareceu assim que ele chegou do almoo.
        Ouvi dizer,que Smilow j tem uma suspeita.
A voz retumbante ecoou pelas paredes da sala de Hammond como uma bola de tnis.
        As notcias se espalham rpido.
        Ento  verdade?
        Acabei de receber o recado alguns minutos atrs.
        D-me a verso resumida.
Ele explicou quem era Daniels e contou do retrato falado.
        Fizeram circular um cartaz com o desenho de Endicott e uma descrio por escrito na regio do Charles Towne Plaza. A dra. Ladd foi identificada por um funcionrio 
de um estacionamento.
        Soube que ela  uma psicloga famosa.
         o que dizem.
        J tinha ouvido falar dela?
        No.
        Eu tambm no. Minha mulher provavelmente j. Ela conhece todo mundo. Voc acha que Pettijohn era paciente dela?
        A essa altura, Monroe, sei tanto quanto voc.
        Veja o que consegue descobrir.
        vou mant-lo informado  medida que o caso for progredindo.
        No, eu quis dizer esta tarde. Agora.
-Agora? Smilow no gosta quando ns xeretamos - argumentou Hammond. - E ele no gosta especialmente quando eu me meto. A Steffi j est l. Se eu for para l tambm, 
ele vai detestar. Vai parecer que estamos querendo control-lo.
        Se ele se enfurecer, Steffi pode aplac-lo. Preciso de alguma coisa para dizer aos reprteres que esto ligando para c.
        No se pode divulgar que a dra. Ladd  suspeita, Monroe. No sabemos se ela  mesmo. Est apenas sendo interrogada, pelo amor de Deus!
        Ela ficou to preocupada que levou Frank Perkins junto.
        Frank  o advogado dela?
Hammond conhecia bem Perkins, e o respeitava. Era sempre um desafio argumentar num caso contra ele no tribunal. Ela no poderia ter escolhido advogado mais capaz.
        Qualquer pessoa sensata levaria o advogado junto para ser interrogada na delegacia.
Mason no desanimou.
        Trate de me dizer o que ela andou aprontando.
Com um at logo ribombante, Monroe saiu e levou embora com ele qualquer opo que Hammond pudesse ter.
Assim que chegou  delegacia de polcia, ele foi para o segundo andar e apertou a campainha da porta dupla trancada da Diviso de Investigao Criminal. Quem a abriu 
foi uma mulher policial. Sabendo por que ele estava ali, ela disse:
        Esto na sala de Smilow.
        Por que no na sala de interrogatrio?
        Acho que estava ocupada. Alm do mais, a procuradora Mundell queria observar pelo vidro.
Hammond ficou quase feliz de Alex no estar sendo interrogada naquele cubculo sem janelas que fedia a caf velho e a suor de culpa. No podia imagin-la na mesma 
sala em que tinha visto pedfilos, estupradores, bandidos, cafetes e assassinos serem completamente desmantelados sob a presso dos tenazes interrogatrios. Ele 
entrou no corredor curto onde ficavam as salas dos detetives da Homicdios. Esperava que j tivessem acabado e que Alex j tivesse ido embora quando chegou. Mas 
no teve tanta sorte. Steffi e Smilow estavam espiando pela janela-espelho, parecendo abutres  espera do ltimo suspiro da vtima. Ele ouviu Steffi dizer para Smilow:
        Ela est mentindo.
        Claro que est mentindo - disse Smilow. - S no sei que parte  mentira.
No notaram a presena de Hammond at ele falar.
        O que est havendo?
Steffi deu meia-volta e parecia muito aborrecida.
        Ora, at que enfim. Voc no recebeu meus recados? 188
        No pude sair antes. O que a faz pensar que ela est mentindo?
        ele apontou com o queixo para a pequena janela, at ali sem coragem de espiar.
        Normalmente a pessoa inocente fica nervosa e irritada - disse Smilow.
        A nossa doutora mal pisca - disse Steffi para ele. - No hesita. No pigarreia. No fica mexendo as mos. Ela responde diretamente a todas as perguntas.
        Estou surpreso de Frank estar deixando que ela responda a qualquer pergunta - comentou Hammond.
        Ele no queria. Mas ela insistiu. Tem opinio prpria. Seguindo o olhar pensativo de Smilow, Hammond finalmente virou a cabea. S dava para ver uma parte 
do perfil, mas mesmo isso teve um efeito profundo nele. Seu primeiro impulso foi afastar a mecha de cabelo cacheado que pendia no rosto dela. O segundo foi agarr-la 
e sacudi-la com raiva, exigindo saber o que ela andou aprontando e por que o tinha arrastado para o meio daquela confuso.
        O que sabemos sobre ela? - perguntou ele.
At Smilow parecia impressionado ao citar uma longa lista de credenciais.
        Alm de ter estudos seus publicados duas vezes na Psychology Today, foi muitas vezes convidada para dar aulas, especificamente sobre a pesquisa que fez 
sobre ataques de pnico.  considerada uma especialista no assunto. Alguns meses atrs ela convenceu um homem a sair do parapeito de uma janela.
        Lembro-me disso - disse Hammond.
        Chegou aos jornais. A mulher do homem diz que a dra. Ladd salvou a vida dele - consultando seu bloco de notas, Smilow acrescentou: -A vida pessoal dela 
 pessoal. S sabemos que  solteira, no tem filhos. Frank est furioso. Diz que pegamos a pessoa errada.
        O que mais ele poderia dizer? - comentou Steffi com malcia. Procurando parecer fleumtico, Hammond disse:
        Ela parece uma mulher muito segura de si.
-Ah, ela  segura mesmo - disse Steffi. - No d para derreter gelo no rabo dela. Depois que voc conversar com ela, vai ver o que quero dizer. Ela  to fria que 
praticamente no tem sangue nas veias.
Voc no sabe de nada, Steffi.
        Prontos para a prxima rodada? Steffi e Smilow se aproximaram da porta. Hammond ficou parado.
        Vocs querem que eu entre a? Os dois viraram para ele surpresos.
        Pensei que voc estaria louco para ter seu primeiro contato com a assassina - disse Steffi.
        Ainda no sabemos se ela  ou no uma assassina - disse ele, irritado. - Mas a questo no  essa. A questo  que j que voc est aqui, ns somos em maior 
nmero do que Smilow. No quero que ele pense que estamos monitorando o trabalho dele.
        Voc pode falar comigo diretamente - disse Smilow.
        Muito bem - disse Hammond, olhando para o detetive. - Para deixar as coisas bem claras aqui, a minha vinda para c foi ideia do Mason, no minha.
        Ouvi o mesmo sermo sobre coexistncia pacfica do chefe Grane. Posso toler-lo se voc conseguir me tolerar.
         justo.
Steffi soltou o ar, bufando, aliviada.
-Assim termina o primeiro round da droga da disputa. Agora ser que podemos, por favor, voltar ao trabalho?
Smilow segurou a porta aberta para eles. Hammond deixou Steffi seguir na frente. Smilow entrou atrs dele e fechou a porta, espremendo gente demais num espao pequeno 
demais. No havia quase espao para Smilow passar por Hammond para chegar  sua mesa.
        Tem certeza de que no quer nada para beber, dra. Ladd?
        No, obrigada, detetive.
Para Hammond, ouvir a voz dela era to perturbador quanto ser tocado por ela. Ele quase podia sentir a respirao dela na sua orelha. O corao dele batia forte 
nas costelas. Mal conseguia respirar. E, maldio, quase no podia controlar o desejo de toc-la.
Smilow fez as apresentaes suprfluas.
        Dra. Ladd, este  o assistente da procuradoria municipal, Hammond Cross. sr. Cross, a dra. Alex Ladd.
Ela virou a cabea. Hammond prendeu a respirao.
        O assistente do procurador-geral, sr. Cross, pode dizer onde eu estava e o que estava fazendo sbado  noite, no pode, sr. Cross, assistente do procurador-geral?
        No matei ningum no sbado, mas, se tivesse matado, teria sido em defesa prpria. Sabe, detetive Smilow, o promotor Cross me atraiu para sua cabana na 
floresta e l ele me estuprou vrias vezes.
        Procurador Cross, que prazer v-lo novamente. Quanto tempo faz? Ah, eu me lembro. Foi nesse ltimo sbado  noite que trepamos sem parar, no foi?
Alex Ladd no disse nada disso. Nem nenhuma das outras coisas pavorosas que Hammond tinha imaginado que ela pudesse dizer. Ela no comeou a berrar acusaes, nem 
o denunciou na frente dos seus colegas, nem piscou o olho sugestivamente, tampouco deu algum outro sinal de reconhecimento. Mas quando ela virou para ele e os olhos 
dos dois se encontraram, tudo o mais em volta dele desapareceu, e ele s conseguia se concentrar nela. Eles ficaram se olhando por apenas um segundo ou dois, mas 
se aquela troca tivesse durado uma eternidade no poderia ser mais poderosa ou significativa. Ele queria perguntar, O que voc fez comigo? Em todos os sentidos. 
Tinha sido atingido por um raio no sbado  noite. Tinha pensado e at esperado que, ao v-la de novo, sob aquela luz fluorescente muito forte e num ambiente bem 
menos romntico, o impacto seria menor. Mas aconteceu exatamente o oposto. O desejo de encostar nela era uma necessidade fsica. Tudo isso passou pela cabea dele 
em menos tempo do que levou para piscar. Torcendo para no ser trado pela voz, ele disse:
        Dra. Ladd.
        Como vai?
Ento ela virou para o outro lado. Aquele reconhecimento destruiu a esperana desesperada de Hammond de que ele de fato tivesse sido um perfeito desconhecido para 
ela no sbado, e que o encontro dos dois na feira tivesse sido puramente acidental. Se esse fosse o caso, ao serem apresentados agora ela arregalaria os olhos e 
diria algo como "Ora, ol! No esperava v-lo aqui". Mas ela no demonstrou surpresa alguma. Quando virou a cabea para cumpriment-lo, ela sabia exatamente com 
quem estaria falando. Na verdade, parecia que ela havia se preparado para aquela apresentao, assim como ele. Ela quase exagerou no ar de indiferena, virou o rosto 
quase rpido demais, beirando a m educao.
No havia mais dvida. O encontro deles tinha sido planejado e, por motivos que ainda no estavam claros, o tempo que passaram juntos era comprometedor para ela 
e para ele tambm. Frank Perkins falou primeiro:
        Hammond, isso  um desperdcio completo do tempo da minha cliente.
        Deve ser mesmo, Frank, mas gostaria de ser eu quem determina isso. Parece que o detetive Smilow acha que o que a dra. Ladd pode nos dizer merece a minha 
ateno.
O advogado consultou sua cliente:
        Voc se importa de passar por tudo isso de novo, Alex?
        No, se isso significar que irei para casa mais cedo, e no mais tarde.
        Veremos.
Esse comentrio partiu de Steffi, e Hammond sentiu vontade de dar um tapa nela. Deixando o interrogatrio a cargo de Smilow, ele se encostou na porta fechada, de 
onde tinha uma viso desimpedida do perfil de Alex.
Smilow ligou o gravador e acrescentou o nome de Hammond ao de todos ali presentes.
        A senhora conhecia Lute Pettijohn, dra. Ladd?
Ela suspirou como se j tivesse respondido quela pergunta milhares de vezes.
        No, detetive, no conhecia.
        O que a senhora estava fazendo no Centro, sbado  tarde? 192
        Eu poderia dizer que moro no Centro, mas, respondendo  sua pergunta, tinha ido olhar as vitrines.
        A senhora comprou alguma coisa?
        No.
        Entrou em alguma loja?
        No.
        A senhora no entrou em loja nenhuma, nem conversou com alguma vendedora que pudesse confirmar que a senhora estava l fazendo compras?
        Infelizmente, no. No vi nada que me interessasse.
        A senhora simplesmente estacionou o carro e andou por l?
        Isso mesmo.
        No estava meio quente para um passeio?
        Para mim, no. Gosto do calor.
Ela olhou rapidamente para Hammond, mas ele no precisou desse olhar para lembrar.
        Agora, que o sol se ps no est mais to quente.
Ela sorriu para ele, com as luzes do carrossel que rodava refletidas nos olhos.
        Para dizer a verdade, eu gosto do calor. Hammond piscou e focalizou Smilow novamente.
        A senhora foi ao Charles Towne Plaza?
        Fui. Mais ou menos s cinco horas. Para beber alguma coisa. Um refrigerante. Tenho certeza de que foi l que o sr. Daniels me viu. Foi a nica hora e lugar 
em que ele podia ter me visto, porque nunca estive no quinto andar, diante da porta do quarto do sr. Pettijohn.
        Ele nos deu uma descrio muito precisa da senhora fazendo exatamente isso s cinco horas.
        Ele se enganou.
        A senhora bebeu o refrigerante no bar.
        Perto do saguo, sim. Ch gelado sem acar.
Steffi inclinou a cabea para o lado de Hammond e sussurrou:
        A garonete confirma isso. Mas isso s quer dizer que pelo menos duas pessoas a viram no hotel.
Ele concordou, balanando a cabea, mas no disse nada porque Smilow j estava fazendo outra pergunta, e ele queria ouvir a resposta de Alex.
        O que a senhora fez quando terminou seu ch?
        Voltei para o estacionamento onde tinha deixado meu carro.
        Que horas eram?
        Cinco e quinze. No mximo cinco e meia.
Os joelhos de Hammond quase cederam de alvio. O clculo inicial de John Madison tinha estabelecido que a hora da morte tinha sido depois disso. Ento o silncio 
dele estava justificado. Quase. Se ela era totalmente inocente, vtima de um erro cometido por um homem que sofria de intoxicao alimentar, por que no reagiu quando 
ele entrou na sala? Por que fingiu que no se conheciam? Ele tinha seus motivos para manter o encontro deles em segredo. E era bvio que ela tambm tinha.
        Dei dez dlares para o atendente do estacionamento, a menor nota que eu tinha - disse ela.
         uma gorjeta muito generosa.
        Achei que pedir o troco ia parecer mesquinharia. O estacionamento estava lotado e ele muito ocupado, mas foi muito gentil e educado.
        O que a senhora fez depois de pegar seu carro?
        Sa de Charleston.
        E foi para onde?
        Para a ilha Hilton Head.
Hammond engoliu em seco. Por falar em dizer a verdade, por que ela estava mentindo? Para proteg-lo? Ou para se proteger?
        Hilton Head. -.
        Parou em algum lugar no trajeto?
        Parei para abastecer.
Ela baixou os olhos, mas s um instante, e provavelmente s Hammond notou. O corao dele batia muito forte. Aquele beijo. O beijo. O beijo que ele lembraria pelo 
resto da vida. Nenhum tinha sido to bom, nem parecido to perfeito, nem to errado. Aquele beijo podia acabar modificando a vida dele, arruinar sua carreira, conden-lo.
        A senhora se lembra do nome do posto?
        No.
        Texaco? Exon?
194
Ela deu de ombros e balanou a cabea. ?-?* j -Localizao? - Em algum ponto da estrada - respondeu ela com impacincia.
        No era numa cidade. Era auto-servio. Pagamento no guich. H dzias deles naquela estrada. O caixa estava assistindo a uma luta na televiso.  tudo que 
eu lembro.
        A senhora pagou com carto de crdito?
        Dinheiro vivo.
        Compreendo. Com uma daquelas notas grandes. Hammond entendeu a armadilha e torceu para ela ter percebido tambm. A maioria dos postos de auto-servio e 
lojas de convenincia no aceitava notas maiores do que de vinte, especialmente  noite.
        com uma de vinte, sr. Smilow - disse ela, sorrindo para ele. Pus vinte dlares de gasolina. No recebi troco.
        Muito, muito conveniente.
Steffi tinha falado bem baixinho, mas Alex ouviu. Ela virou e olhou primeiro para Steffi, depois para Hammond, e ele lembrou nitidamente de segurar o rosto dela 
com as duas mos e de puxar a boca para perto da dele.
        No diga no. No diga no.
A prxima pergunta de Smilow fez Alex prestar ateno nele outra vez. Hammond soltou o ar sem deixar transparecer que estava prendendo a respirao.
        A que horas a senhora chegou em Hilton Head?
        Isso  que era maravilhoso aquele dia. Eu no tinha planos. No tinha horrio. No estava contando as horas nem peguei um caminho direto, por isso no me 
lembro que horas eram quando cheguei l.
        Aproximadamente. -Aproximadamente... nove horas.
s nove horas, aproximadamente, eles estavam comendo milho cozido e os lbios dela estavam cheios de manteiga derretida. Tinham rido comentando a sujeira que estavam 
fazendo e resolveram esquecer os bons modos e lamber os dedos sem culpa.
        O que fez em Hilton Head?
        Atravessei toda a ilha e fui para Harbour Town. Andei um pouco por l e me diverti ouvindo a msica dos vrios bares ao ar livre.
Ouvi o rapaz fazendo teatro para as crianas embaixo do grande carvalho. Basicamente, caminhei pela marina e fui at o per.
        Conversou com algum?
        No.
        Comeu em algum restaurante?
        No.
        No estava com fome?
        Aparentemente, no.
        Isso  ridculo! - protestou Frank Perkins. -A dra. Ladd admitiu ter estado no hotel no sbado, mas havia centenas de pessoas l. Ela  uma mulher atraente. 
Ela chama a ateno dos homens, e esse Daniels no  nenhuma exceo, mesmo no meio de uma multido.
Hammond continuava olhando para ela, por isso quando ela olhou para ele foi uma repetio daquele primeiro olhar atravs da pista de dana, no pavilho. Ele sentiu 
uma ligao instantnea, uma sbita fisgada nas vsceras. Perkins ainda estava argumentando.
-Alex disse que no esteve nem perto da sute de Pettijohn. Vocs no tm nada que a ponha naquele lugar. Isso no passa de um tiro no escuro, porque vocs no tm 
mais nada. Simpatizo com a sua habilidade de apresentar um suspeito vivel, mas no vou permitir que a minha cliente sofra as consequncias.
        S mais algumas perguntas, Frank - disse Smilow. - Faa-me essa gentileza.
        Que sejam breves - disse o advogado, mal-humorado. Smilow olhou para a psicloga muito srio.
        Eu gostaria de saber onde a dra. Ladd passou a noite.
        Em casa.
Ele pareceu surpreso com a resposta.
        Na sua casa?
        Eu me censurei por no ter feito uma reserva no Hilton Head. Quando cheguei, pensei em passar a noite l. Eu gostaria, mas estive em diversos lugares e 
estavam todos lotados. Por isso voltei para Charleston e passei a noite na minha prpria cama.
        Sozinha?
        No tenho medo de dirigir  noite.
        A senhora dormiu sozinha, dra. Ladd?
Ela olhou friamente para ele.
        Diga para ele ir  merda, Alex - disse Frank Perkins. - Se voc no disser, eu mesmo digo.
        O senhor ouviu o conselho do meu advogado, detetive. A boca de Smilow subiu nos cantos formando o que deveria passar
por um sorriso.
        Enquanto estava em Harbour Town, a senhora no conversou com ningum?
        Entrei em uma das galerias de arte, mas no falei com ningum. Tambm comprei um sorvete de casquinha na base do farol, mas estava muito movimentado. No 
consegui ver bem a moa que me serviu. Ela estava atendendo a tanta gente aquela noite que duvido de que tambm se lembre de mim.
        Ento no h ningum para confirmar que a senhora esteve l?
        Acho que no.
        De l a senhora foi para casa. Sem paradas? -.
        A que hora chegou em casa?
        De madrugada. No notei. Eu estava muito cansada e com sono.
        A minha gentileza termina por aqui - Frank Perkins ajudou educadamente Alex a levantar-se da cadeira, mas de uma forma que no permitia protestos, nem dela, 
nem de Smilow. - A dra. Ladd merece um pedido de desculpas por isso. E se vocs suspirarem o nome dela para a mdia, associado a esse caso, no tero de cuidar apenas 
de um caso de assassinato, mas tambm de um processo desconcertante.
Ele foi conduzindo Alex para a porta mas, antes de os outros poderem mudar de posio para abrir caminho para os dois sarem, outro detetive abriu a porta. Tinha 
uma pasta na mo estendida.
        Voc pediu isso assim que ficasse pronto.
        Obrigado - disse Smilow, estendendo o brao para pegar a pasta. - Como foi?
        Madison  meticuloso. Ele pediu desculpas pelo tempo que levou.
        Desde que tenha includo tudo.
        Est tudo aqui.
O detetive foi embora. Smilow explicou para os outros.
        Aquele detetive assistiu  autpsia. Este  o relatrio de Madison.
Steffi ficou bem ao lado de Smilow quando ele tirou os documentos de dentro do envelope. Ela os leu junto com ele. Sem tirar os olhos do relatrio, Smilow perguntou:
        Dra. Ladd, a senhora possui uma arma?
        Muitas coisas poderiam ser usadas como arma, no ?
        Estou perguntando porque... - disse Smilow, levantando a cabea para olhar para ela - ... porque foi exatamente como ns pensamos. Lute Pettijohn no morreu 
por causa da pancada na cabea. O que o matou foi um tiro.
        Pettijohn foi baleado!
        Acho que foi verdadeira.
Steffi espremeu limo na bebida que tinham acabado de trazer para a mesa deles.
        Ora vamos, Hammond. Cai na real.
        Foi a primeira e nica vez que ela demonstrou qualquer emoo ou espontaneidade - persistiu ele. - Acho que a surpresa dela foi autntica. At aquele momento 
ela nem sabia como Pettijohn tinha morrido.
        Fiquei surpresa quando li que ele teve um derrame.
Aquele tinha sido um fato surpreendente que resultou da autpsia. Lute Pettijohn teve um derrame. No o matou, mas John Madison deduziu que o derrame tinha sido 
suficientemente extenso para provocar a queda dele, que resultou no ferimento na cabea. Ele tambm determinou que se Pettijohn tivesse sobrevivido poderia ficar 
paraltico e sofrer de outras deficincias. S depois que Frank Perkins acompanhou Alex Ladd para fora da sala de Smilow, eles leram o relatrio com mais ateno 
e acrescentaram essa nova informao ao mistrio cada vez mais complexo.
        Voc acha que o derrame foi provocado por algum acontecimento? - imaginou Steffi. - Ou ser que foi um problema de sade que ele no sabia que tinha?
        Vamos ter de descobrir se ele tomava algum remdio contra alguma doena-disse Smilow, pondo um guardanapo embaixo do seucopo de club soda. - No que faa 
alguma diferena. O derrame no foi fatal, mas os tiros, sim. Foi assim que ele morreu.
        Alex Ladd no sabia disso - afirmou Hammond. - No at ns dizermos para ela.
Steffi bebericava seu gim-tnica pensativa. Ela balanou vigorosamente a cabea e deu um sorriso zombeteiro para Hammond.
        Nada disso. Ela fingiu estar surpresa. As mulheres so boas nessas encenaes porque estamos sempre tendo de fingir orgasmos.
A inteno daquela observao era ofend-lo. Mas no ofendeu. S que ele ficou irritado.
        Mulheres com inveja do pnis.
        Ah, essa foi uma resposta muito boa, Hammond - disse ela, levantando o copo numa imitao de brinde. - com um pouco de prtica voc pode acabar se transformando 
num verdadeiro idiota.
Smilow, que ouvia aquela discusso sem prestar muita ateno, disse:
        Por mais que me doa, devo concordar com Hammond.
        Voc acha que tenho inveja do pnis? Ele nem tentou sorrir.
        Concordo com ele que o choque de Ladd foi verdadeiro.
        Voc tem a mesma opinio de Hammond? Isso  quase to chocante quanto vocs estarem sentados  mesma mesa - disse ela.
O bar do saguo do Charles Towne Plaza estava apinhado com a multido da happy hour. O hotel e a delegacia de polcia ficavam em extremos opostos do Centro da cidade, 
mas acharam que era um lugar apropriado para discutir o interrogatrio de Alex. Turistas, registrados ou no como hspedes, faziam compras nas lojas que se enfileiravam 
no saguo do hotel. Fotografavam a escadaria imponente e o candelabro que ela rodeava. Tiravam fotografias uns dos outros. Duas mulheres descalas, de roupes de 
banho do hotel, com toalhas enroladas na cabea, riam enquanto evitavam sair em alguma foto. Acompanhando o olhar vazio de Hammond, Steffi disse:
         ridculo andar por a desse jeito por causa de um tratamento de beleza. D para imaginar como Pettijohn ficaria marchando por aqui assim?
        Hein?
        Onde  que voc est, Hammond, perdido no espao? Perguntou ela, irritada.
        Desculpe. Estava apenas pensando.
Ele no tinha notado as mulheres de roupo. Mal tinha notado qualquer coisa desde que sara da sala de Smilow. Estava pensando nela. Em Alex Ladd e na reao dela 
quando soube como Pettijohn tinha morrido. Ela parecia genuinamente espantada, e Hammond ficou esperanoso de ela ter razo quanto ao sr. Daniels quando concluiu 
que ele a tinha visto no hotel, mas que tinha se enganado quanto ao lugar e a hora. Esperanoso de ter Smilow como aliado, ele se inclinou sobre a mesa, apoiado 
nos antebraos.
        Voc disse que concorda comigo. Como? O que voc acha? -Acho que ela  suficientemente esperta para fingir estar surpresa e fazer parecer real. Mas no 
sei por qu, tenho dvidas. Ainda. Mas no  a reao de surpresa dela que me preocupa tanto, e sim a histria que ela contou.
        Estamos ouvindo - disse Steffi.
        Se ela tivesse matado Pettijohn, no teria sado imediatamente do hotel para tentar estabelecer um libi?
Fazendo fora para parecer indiferente, Hammond pegou seu copo de usque com gua.
        Ideia interessante. D para desenvolver?
        Eles podem determinar a hora da morte com uma preciso incrvel. At os minutos, para dizer a verdade.
        Entre cinco e quarenta e cinco e seis horas - disse Hammond.
Quando viu isso no relatrio da autpsia, ele ficou tremendamente aliviado. Alex no podia ser a assassina porque no podia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
        A dra. Ladd disse que saiu de l no mximo s cinco e meia.
        Perto demais para livrar a cara dela - disse Smilow. - Um bom promotor como voc poderia manipular essa margem de tempo, transformando numa margem de erro. 
Mas j que no sabemos exatamente a que hora ela tirou o carro do estacionamento, Frank Perkins poderia cortar essa linha de tempo como um salame e us-la para estabelecer 
uma dvida razovel. Mas s funcionaria se...
        Entendo onde voc quer chegar... - interrompeu Steffi.
        Se a dra. Ladd tivesse um excelente...
        libi.
Enquanto Steffi e Smilow ficavam completando as frases um do outro, Hammond pediu outro drinque. O usque queimou a garganta dele.
        Faz sentido - disse ele com voz rouca. Smilow franziu a testa.
        O problema com a histria dela  que ela no tinha um libi. Ela disse que foi para Hilton Head e que no falou com ningum que pudesse confirmar isso.
        Estou confusa - disse Steffi. - Voc est achando que por no ter um libi ela parece mais inocente do que se tivesse um?
O detetive olhou para ela.
        No exatamente. Mas fico pensando se ela est esperando para ver at onde isso vai, para s depois jogar um libi na nossa cara.
        Como se guardasse um de reserva para o caso de precisar?
        Alguma coisa assim.
Hammond, que estava prestando ateno enquanto os dois, sem saber, cogitavam sobre o seu maior medo, resolveu participar da especulao:
        Por que voc acha que ela guardou esse libi de reserva?
        Voc tambm acha? - perguntou Steffi.
        No - respondeu ele, irritado com ela porque queria saber o que Smilow estava pensando. - Voc ia dizer...?
        Eu ia dizer o que disse desde o comeo - explicou Smilow. - Ela no est nervosa. Desde o momento em que ela abriu a porta e me viu junto com aqueles policiais 
na casa dela, at o momento em que Frank a acompanhou para fora da minha sala meia hora atrs, ela esteve calma demais para ser completamente inocente.
-As pessoas inocentes mal podem esperar para convencer algum de que so inocentes - continuou ele. - Elas falam muito, nervosas. Elaboram e expandem suas histrias 
cada vez que as contam. Dizem mais do que voc quer saber. Os que mentem bem se restringem ao bsico, e em geral so os mais calmos.
         uma teoria consistente - disse Hammond. - Mas no a toda prova. Sendo psicloga, a dra. Ladd no teria um controle maior das prprias emoes do que as 
pessoas comuns? Ela deve ouvir coisas chocantes quando est tratando seus pacientes. Ela no devia saber resguardar suas reaes?
        Pode ser - disse Smilow. Hammond no gostou do sorriso do detetive, e segundos depois ficou sabendo por que ele parecia to complacente. - Mas a dra. Ladd 
est mentindo. Sei disso porque  um fato.
        Que fato? - perguntou Steffi, inclinando o corpo por cima da mesa e quase derrubando seu drinque.
Smilow se abaixou e tirou um jornal da sua pasta.
        Ela deve ter ignorado esse item nas notcias desta manh. Smilow tinha usado um marcador vermelho para circular a
histria. No era comprida, mas para Hammond eram quatro pargrafos devastadores.
        Harbour Town evacuada - leu Steffi em voz alta. Smilow resumiu a notcia: -No ltimo sbado  noite houve um incndio a bordo de um dos iates ancorados 
no porto. O vento estava forte. Fagulhas voaram para as rvores e toldos da marina. Como precauo de segurana, o corpo de bombeiros evacuou toda a rea. At as 
pessoas embarcadas em outros barcos e as que estavam nos apartamentos tiveram de sair.
"Apagaram o fogo antes de isso provocar muitos danos. Mas aquela rea tem as propriedades mais caras do pas. Os bombeiros no quiseram arriscar nada. Interditaram 
a estrada do Farol para quem ia para l de carro e verificaram muito bem a rea toda. Harbour Town mesmo ficou isolada durante horas."
        De que hora at que hora?
        Das nove horas em diante. Os restaurantes e bares acharam que no valia a pena reabrir quando liberaram tudo depois da meia-noite. Permaneceram fechados 
at domingo de manh.
        Ela no foi para l - sussurrou Steffi.
        Se tivesse ido, teria mencionado isso.
        bom trabalho - Steffi levantou o copo para Smilow.
        Acho que  meio cedo para fazer brindes - disse Hammond, zangado. - Talvez ela tenha alguma explicao lgica.
        E talvez o papa seja batista.
Ele ignorou a resposta atrevida de Steffi.
        Smilow, por que no confrontou a dra. Ladd com isso durante o interrogatrio?
        Eu queria saber at onde ela iria.
        Voc estava dando corda para ela se enforcar.
        O meu trabalho fica mais fcil quando um suspeito faz isso por mim.
Hammond vasculhou a mente em busca de uma nova abordagem.
        Tudo bem, ento ela no esteve em Harbour Town. O que isso prova? Nada, s que ela deseja proteger sua privacidade. Ela no quer que saibam onde esteve.
        Ou com quem.
Ele olhou friamente para Steffi, depois continuou conversando com Smilow.
        Voc ainda no tem nada contra ela, nada que a ponha dentro da sute de Pettijohn, nem mesmo perto. Quando voc perguntou se ela possua uma arma, ela disse 
que no.
        Mas  claro que ela diria que no - argumentou Steffi. - E ns temos o testemunho de Daniels.
Hammond no tinha esgotado seus argumentos:
        Segundo o relatrio de Madison, as balas tiradas do corpo de Pettijohn eram calibre 38. As balas mais comuns da pistola mais comum. H centenas de 38 s 
nesta cidade. At no seu depsito de provas, Smilow.
        O que quer dizer com isso? - Steffi quis saber.
        Quero dizer que, se no encontrarmos a arma com o assassino, ser praticamente impossvel descobri-la - disse Smilow, acompanhando o raciocnio de Hammond.
        Quanto a Daniels - continuou Hammond no mesmo embalo -, Frank Perkins faria picadinho dele no banco das testemunhas.
        Voc provavelmente tambm tem razo quanto a isso - disse Smilow.
        O que sobra, ento? - perguntou Hammond. - Nada.
        Pedi para a DCLCS fazer alguns testes em provas coletadas na cena do crime.
        Foram levadas pessoalmente para Columbia?
        Exatamente.
A Diviso de Cumprimento da Lei da Carolina do Sul ficava na capital do estado. Provas coletadas, ensacadas e etiquetadas pela UCC em geral eram entregues em mos 
para a DCLCS por algum investigador da polcia para evitar discrepncias na srie de provas.
        Vamos ver o que vai aparecer - disse Smilow com ar inabalvel, que s reafirmava para Hammond o prprio temperamento expansivo. - No conseguimos grande 
coisa naqueles cmodos da sute, mas pegamos algumas fibras, fios de cabelo, partculas. Tomara que alguma coisa...
        Tomara? - zombou Hammond. - Voc est se baseando em esperana? Ter de fazer melhor do que isso para pegar um assassino, Smilow.
        No se preocupe comigo - disse ele, e o humor dele comeou a ficar to refratrio quanto o de Hammond. - Voc trate de fazer o seu trabalho, que eu fao 
o meu.
        S no quero encarar o grande jri sem nada, com o meu pinto na mo.
        Duvido que voc consiga encontrar o seu pinto com a mo. Mas vou descobrir o elo entre Alex Ladd e Pettijohn.
        E se no descobrir - disse Hammond, elevando a voz -, sempre pode inventar um.
Smilow levantou-se da cadeira to depressa que ela arranhou o cho. Hammond tambm ficou de p num segundo. Steffi levantou-se tambm.
        Rapazes - disse ela baixinho -, todo mundo est olhando. Hammond percebeu que de fato eles estavam atraindo a ateno
de todos no bar. As conversas em volta deles silenciaram.
        Preciso ir - ele colocou uma nota de cinco dlares na mesa para pagar sua bebida. - At amanh.
Ele no tirou os olhos de Smilow at dar meia-volta, e comeara abrir caminho entre as pessoas para sair do bar. Ouviu Steffi dizer para Smilow pedir outro drinque 
para ela, que voltaria logo, e ento ela foi atrs dele. Ele no queria falar com ela, mas quando chegaram l fora ela segurou seu brao e o fez virar-se.
        Voc quer companhia?
        No - disse ele, com mais aspereza do que pretendia. Depois ele passou a mo no cabelo, respirou fundo e soltou o ar lentamente. -
Sinto muito, Steffi.  uma daquelas segundas-feiras. Meu pai veio me ver esta manh. Esse caso vai ser complicado. Smilow  um filho-dame.
        Tem certeza de que  isso que o incomoda?
Ele baixou a mo e olhou bem para ela, com medo de ter se trado. Mas o olhar dela no era desconfiado, nem o acusava de nada. Os olhos dela estavam lmpidos, suaves 
e convidativos. Ele relaxou.
        , tenho certeza.
        S pensei que talvez... - ela parou de falar e levantou um pouco os ombros. - Talvez voc estivesse achando que devamos ter conversado antes de voc resolver 
terminar nosso relacionamento - ela ps a mo no peito dele. - Se quiser descarregar um pouco, lembro-me de uma coisa que costumava funcionar muito bem.
        Tambm me lembro - ele deu um sorriso gentil e torceu para que satisfizesse o ego dela. Mas tirou a mo dela do peito, apertando-a de leve antes de soltar. 
-  melhor voc voltar l para dentro. Smilow est  sua espera com o seu drinque.
        Ele pode ir para o inferno!
        Quanto a isso, provavelmente no vai se decepcionar. Vejo voc amanh.
Ele deu meia-volta e foi andando, mas ela o chamou:
        Hammond? - e quando ele ficou de frente para ela novamente, ela perguntou - O que voc achou dela?
        Quem, a dra. Ladd? - ele fingiu um ar pensativo. -Articulada. Tranquila sob presso. Mas, diferente de Smilow, ainda no estou pronto para...
        Quis dizer dela. O que voc achou dela?
        O que h para achar? - disse ele, com uma risada forada. - Ela  maravilhosa e, obviamente, muito inteligente.
Ento, com um aceno jovial, ele foi embora. Como no tinha a capacidade de Alex Ladd para mentir, achou que seria melhor ater-se  verdade. A Cidadela, respeitada 
como uma das melhores instituies de ensino superior da Amrica, ficava apenas a alguns quarteires do Shady Rest Lounge. Fora essa proximidade, o bar e a academia 
militar no tinham nada em comum, em todos os aspectos. Diferentemente da famosa academia com seu porto bem guardado e terreno muito bem cuidado, o Shady Rest no 
se orgulhava de uma bela fachada. No tinha janelas, apenas blocos de concreto onde antigamente havia janelas. A entrada era uma porta de metal na qual um vndalo 
tinha escavado uma obscenidade. Depois de cometida a infrao, tinham tentado cobrir a palavra com desleixo, uma fina camada de tinta vagabunda que, infelizmente, 
no combinava com a cor original nem apagava o rabisco. O resultado era que o palavro agora chamava mais ateno do que antes. A nica coisa que indicava a natureza 
do estabelecimento era um letreiro de non em cima da porta com o nome do bar. O letreiro zumbia ruidosamente e s funcionava esporadicamente. Apesar do vizinho 
importante e das prprias deficincias, o Shady Rest Lounge estava perfeitamente  vontade no seu ambiente, um bairro com ruas em que a pobreza e o crime imperavam, 
onde as janelas tinham grades e sinais visveis de prosperidade representavam um alvo. Pensando em se proteger, Hammond tinha trocado seu terno por uma cala jeans 
e camiseta, um bon de beisebol e tnis. Tudo que tinha visto dias melhores... dcadas melhores. Mas apenas trocar de roupa no bastava. Naquela rea da cidade era 
preciso adotar um certo tipo de comportamento para sobreviver. Quando abriu a porta desfigurada para entrar no bar, ele no se afastou educadamente para dar passagem 
para os dois homens que saam. Em vez disso, abriu caminho entre eles com os ombros, procurando ser bastante bruto, mas esperando no ser agressivo demais para deflagrar 
um confronto em que certamente perderia. Escapou com apenas um resmungo dirigido a ele e  sua me. Dentro do bar, levou alguns segundos para seus olhos se habituarem 
 escurido. Negcios escusos eram transados no Shady Rest. Ele nunca estivera naquele bar, mas soube na mesma hora que tipo de lugar era aquele. Toda cidade tinha 
lugares assim, e Charleston no era exceo. Ele tambm sabia e temia que no duraria muito se qualquer outro cliente descobrisse que ele representava a procuradoria 
de justia do municpio. Seus olhos se acostumaram, ele examinou bem o lugar e encontrou quem procurava. Ela estava sentada na ponta do bar, olhando fixo para um 
copo alto. Fingindo no se importar com os olhares hostis e desconfiados que lanavam para ele, Hammond foi at ela. O cabelo de Loretta Boothe estava mais grisalho 
do que da ltima vez que ele a vira, e parecia que fazia algum tempo que no era lavado. Tinha tentado se maquiar, mas no fez um bom trabalho, ou, ento, fazia 
alguns dias que usava a mesma maquiagem. Havia rmel ressecado no rosto dela e o risco de lpis nas sobrancelhas estava borrado. O batom tinha escorrido pelas rugas 
finas que se irradiavam da boca, mas no havia mais cor nenhuma nos lbios. Uma ma do rosto estava rosada com blush, a outra emaciada e descorada. Era um rosto 
pattico.
        Oi, Loretta.
Ela se virou e focalizou nele olhos remelentos. Apesar do bon de beisebol, ela o reconheceu na mesma hora, e era bvio o prazer que sentia de v-lo. As plpebras, 
cadas e flcidas demais para a sua idade, se enrugaram quando ela deu um sorriso largo, revelando um dente da frente que precisava muito dos cuidados de um dentista.
        Deus do cu, Hammond - ela olhou em volta dele, como se esperasse uma comitiva. - Voc  a ltima pessoa no mundo inteiro que eu imaginaria ver numa espelunca 
como esta. Est visitando a favela esta noite?
        Eu vim ver voc.
         a mesma coisa - disse ela, e bufou uma risada sem alegria. Achei que voc no estava mais falando comigo.
        E no estava mesmo.
        Voc tinha todo o direito de ficar furioso.
        E ainda estou.
        Ento, o que provocou esse esprito de perdoar?
        Uma emergncia - ele olhou para o copo dela, quase vazio. Posso pagar um drinque para voc?
        J me viu algum dia recusar um?
Desejando a privacidade de um cubculo, Hammond ajudou Loretta galantemente a descer do banco do bar. Se ele no tivesse dado a mo para ela, seus joelhos podiam 
ter cedido quando ela ficou em p. O drinque que ela havia deixado no bar no era o primeiro, nem o segundo. Enquanto Loretta arrastava os ps ao lado dele, Hammond 
reconheceu que havia a grande probabilidade de lamentar profundamente estar fazendo aquilo. Mas, conforme havia dito para ela, era uma emergncia. Ele a escondeu 
num cubculo e depois voltou para o bar para pedir dois Jack Daniel's black, um puro, o outro com gelo e gua. Deu o primeiro para Loretta quando se instalou no 
banco do cubculo.
        Sade - ela levantou o copo para ele antes de tomar um gole caprichado. Fortalecida pelo usque, ela concentrou sua ateno em Hammond. - Voc est timo.
        Obrigado.
        Falo srio. Voc sempre teve uma aparncia tima,  claro, mas agora  que isso est amadurecendo em voc. Entranhado nos seus ossos. Seja l o que vocs, 
homens, fazem para ficar mais atraentes com a idade, enquanto as mulheres ficam para semente muito rpido.
Ele sorriu, desejando poder trocar cumprimentos com ela. Loretta mal havia completado cinquenta anos, mas parecia muito mais velha.
        Voc  mais bonito que o seu pai - observou ela. - E eu sempre achei Preston Cross um homem muito bonito.
        Obrigado de novo.
        Parte do seu problema com ele...
        Eu no tenho problema com ele.
Ela franziu a testa, desfazendo a negativa dele.
        Parte do seu problema com ele  que ele tem inveja de voc. Hammond fez pouco do que ela dizia.
         verdade - declarou Loretta com o ar superior dos bbados e dos sbios. - O seu pai tem medo de voc ultrapass-lo. De realizar mais que ele. De se tornar 
mais poderoso do que ele. Merecer mais respeito. Ele no suportaria isso.
Hammond olhou para a sua bebida, que no queria. Tinha ficado meio nauseado com o que tomara algumas horas antes com Smilow e Steffi. Talvez tivesse sido o assunto 
que havia revirado seu estmago. De qualquer modo, no estava com vontade de bebericar o usque do Tennessee.
        No vim aqui para falar do meu pai, Loretta.
        Certo, certo. Uma emergncia - ela deu mais um gole. - Como me encontrou?
        Telefonei para o ltimo nmero que eu tinha.
         a minha filha que mora l agora.
        O apartamento  seu.
        Mas a Bev est pagando o aluguel, e h meses. Ela me disse que se eu no andar na linha ela vai me expulsar de l - ela deu de ombros.
        Aqui estou.
De repente ele compreendeu por que ela parecia to desarrumada e suja, e essa compreenso s fez piorar as nuseas.
        Onde voc est morando agora, Loretta?
        No se preocupe comigo, figuro. Posso me cuidar sozinha. Hammond concedeu um resqucio de orgulho para Loretta no
perguntando logo se ela estava vivendo na rua ou num abrigo para os sem-tetos.
        Quando falei com a Bev, ela me disse que esse bar tinha virado um dos seus programas preferidos.
        Bev  enfermeira de CTI - ela se vangloriou.
        Isso  timo. Ela est bem.
        Apesar de mim.
No existia argumento contra isso, por isso Hammond no disse nada. Constrangido e sem jeito por ela, ele estudou a placa que dizia NO FUNCIONA presa ao seletor 
de discos da mesa deles. O aviso estava l havia muito tempo. O papel e a fita adesiva j estavam amarelados. A juke-box no canto do salo estava apagada e silenciosa, 
como se tivesse sucumbido ao desalento que dominava o Shady Rest.
        Tenho orgulho dela - disse Loretta, ainda falando da filha.
        E deve ter mesmo.
        Mas ela no suporta a minha presena.
        Duvido.
        No, ela me detesta, e no posso dizer que a culpo. Eu a decepcionei, Hammond - os olhos dela se encheram de lgrimas de remorso e de desespero. - Eu decepciono 
todo mundo. Especialmente voc.
        Ns finalmente pegamos o cara, Loretta. Trs meses depois...
        Depois que eu estraguei tudo.
Mais uma vez a verdade era indiscutvel. Loretta Boothe tinha trabalhado no Departamento de Polcia de Charleston at o alcoolismo tornar-se to grave que ela teve 
de ser demitida. A dependncia cada vez maior era atribuda  morte do marido. Ele tinha morrido instantaneamente e todo ensanguentado quando sua Harley se espatifou 
contra o pilar de uma ponte. Consideraram a morte dele acidental, mas numa conversa confidencial, regada a lcool, Loretta tinha confessado seus pecados. Ser que 
o marido tinha preferido se suicidar em vez de viver com ela? Essa pergunta a perseguia. Naquela mesma poca ela foi ficando cada vez mais desanimada com o Departamento 
de Polcia de Charleston. Ou talvez o desencanto tenha sido provocado pela deteriorao da sua vida pessoal. De qualquer modo, ela criava problemas para ela mesma 
no trabalho, e acabou ficando sem emprego. Tirou uma licena de investigador particular e por um tempo trabalhou regularmente. Hammond sempre gostou dela. Quando 
ele entrou para a famosa firma de advocacia, logo que saiu da faculdade de direito, ela foi a primeira pessoa que passou a cham-lo de "procurador". Era uma coisa 
pequena, mas ele nunca se esqueceu da considerao que ela teve, estimulando sua autoconfiana. Quando ele passou para a procuradoria municipal, sempre pedia para 
ela fazer as investigaes para ele, apesar de ter investigadores na equipe. Mesmo quando a competncia dela perdeu a constncia, ele continuou a us-la por um sentido 
de lealdade e de piedade. Ento ela meteu os ps pelas mos de uma vez por todas e as consequncias foram desastrosas. O acusado no caso era um jovem incorrigvel 
e cheio de raiva que quase matou a me de pancada com uma chave de roda. Ele era uma ameaa para a sociedade e continuaria sendo at ser posto na priso por um longo 
tempo. Para conseguir a condenao, Hammond precisava desesperadamente do depoimento do primo em segundo grau do acusado, que, alm de relutar em testemunhar contra 
um membro da famlia, tambm tinha medo do cara e temia uma retaliao. Apesar da intimao para depor, ele desapareceu da cidade. Diziam os boatos que tinha ido 
se esconder com outros parentes em Memphis. Como os investigadores da equipe da procuradoria de justia j estavam ocupados com outros casos, Hammond chamou Loretta. 
Adiantou-lhe dinheiro para cobrir as despesas e a despachou para Memphis para encontrar o tal primo. No foi s a testemunha que sumiu do mapa. Loretta tambm. Hammond 
soube mais tarde que ela gastara o dinheiro das despesas com bebida. O juiz que presidia o julgamento, e que no simpatizava com o problema de Hammond, negou o pedido 
dele de um adiamento e ordenou que continuasse com o que tinha, que era o testemunho da me espancada. Temendo tambm o revide do filho violento, ela mudou sua histria 
no banco das testemunhas e afirmou que tinha se machucado ao cair da varanda dos fundos da casa. O jri votou pela absolvio. Trs meses depois, o mesmo cara atacou 
o vizinho de forma parecida. A vtima no morreu, mas sofreu danos cerebrais severos e irreparveis. Dessa vez o criminoso foi condenado a cumprir anos atrs das 
grades. Mas foi Steffi Mundell a promotora do caso. Em todos aqueles meses, Hammond no tinha perdoado Loretta por trair a confiana que depositava nela, especialmente 
porque ningum mais queria contrat-la. Ela o abandonou quando mais precisava dela e por causa disso ele acabou fazendo papel de bobo no tribunal. O pior de tudo 
foi que a negligncia dela tinha feito um homem sofrer um espancamento brutal que o deixou mental e fisicamente deficiente para o resto da vida. Quando estava sbria, 
Loretta Boothe era a melhor no que fazia. Tinha os instintos de um co de caa e uma extraordinria habilidade para obter informaes. Parecia que possua um sexto 
sentido que dizia aonde devia ir e a quem procurar. Suas fraquezas humanas eram to bvias que as pessoas se sentiam desarmadas, ela inspirava confiana. Todos baixavam 
a guarda e conversavam candidamente com ela. Tambm era suficientemente inteligente para distinguir as informaes importantes das irrelevantes. Apesar desse talento 
todo, v-la naquele estado lamentvel aquela noite fazia com que Hammond questionasse a convenincia de contrat-la novamente. S uma pessoa desesperada procuraria 
ajuda de uma bbada contumaz que j havia provado sua irresponsabilidade. Mas, ento, ele pensou em Alex Ladd e compreendeu que estava exatamente desesperado assim.
        Tenho um trabalho para voc, Loretta.
        O que  isso, brincadeira de primeiro de abril?
        No, mas devo ser um idiota mesmo de confiar qualquer coisa a voc.
As feies dela se contorceram de emoo.
        Seria melhor voc ir embora agora, Hammond. Eu agarraria com unhas e dentes uma oportunidade de compensar o que fiz na ltima vez, mas voc seria louco 
de contar comigo de novo.
Ele deu um sorriso triste.
        bom, j fui chamado de louco antes.
Os olhos de Loretta se encheram de lgrimas, mas ela pigarreou e endireitou os ombros.
        O que... o que voc tem em mente?
        Voc j soube do Lute Pettijohn. Ela ficou boquiaberta.
        Voc quer que eu trabalhe numa coisa to importante assim?
        Indiretamente - ele se mexeu meio constrangido no banco duro do cubculo. - O que quero que voc faa no  nada oficial para o escritrio da procuradoria. 
 estritamente confidencial. Entre mim e voc. Ningum mais pode saber. Combinado?
        Sou uma desgraada, Hammond. J demonstrei isso. Mas sempre gostei de voc. Admiro voc. Voc  um dos mocinhos, e me agrada pensar que  meu amigo. Voc 
foi bom para mim quando as pessoas viravam a cara para no falar comigo. Posso decepcion-lo, e provavelmente farei isso, mas tero de cortar fora a minha lngua 
antes que eu traia a sua confiana.
-Acredito nisso - ele olhou bem fundo nos olhos dela. - Voc est muito bbada? 212
        Estou ouvindo um zumbido, mas lembrarei disso amanh.
        Muito bem - ele fez uma pausa e respirou fundo. - Quero que voc descubra tudo que puder sobre... Ser que devo explicar isso por escrito?
        Voc quer que isso um dia volte para voc? Ele pensou um pouco.
        No.
        Ento no escreva. Se no for tangvel, no h provas.
        Provas? Uau, Loretta! - disse ele, levantando as duas mos. - O que quero que voc faa  confidencial. Vai alm da tica. Mas no  ilegal. S quero aplainar 
o terreno para um suspeito.
Loretta inclinou a cabea e olhou para ele curiosa.
        Devo estar mais bbada do que pensava. Voc acabou de dizer...
        Voc ouviu muito bem.
        Voc quer dar uma colher de ch para um suspeito do caso Pettijohn?
        De certa forma.
        Como?
        Voc no est suficientemente bbada para eu poder explicar isso.
A risada dela foi como um estertor sado do peito.
        Est bem - disse ela, ainda desconfiada. - Quem  o suspeito?
        Alex Ladd.
        Ele est em Charleston?
         ela.
Ela piscou vrias vezes e depois olhou para ele, muito sria.
         ela.
Hammond fingiu no notar a pergunta bvia das sobrancelhas levantadas de Loretta.
        Ela  psicloga aqui em Charleston. Descubra tudo que puder sobre ela. Histria, famlia, educao, qualquer coisa. Tudo. Mas especificamente alguma possvel 
ligao que ela pode ter tido com Lute Pettijohn.
        Assim como namorada?
        E - resmungou ele -, essas coisas.
        Tive a impresso de que era Stefifi Mundell a promotora do caso Pettijohn.
-Porqu?
Ela ento contou que viu Steffi e Rory Smilow na emergncia do hospital na noite em que Pettijohn foi assassinado.
        Eu tinha ido ver Bev. Na verdade eu estava l para pedir dinheiro para ela. De qualquer maneira, a metida da Steffi e o Smilow, que nunca sorri, chegaram 
l afobados, como uma tropa invasora. Como se isso adiantasse alguma coisa. O doutorzinho insignificante peitou os dois. No conseguiram nada com ele. Achei timo 
- ela parou e deu uma risadinha, depois ficou sria de novo e olhou para Hammond. Voc ainda est dormindo com ela?
Ele no conseguiu disfarar a surpresa, mas no perguntou como  que ela sabia do seu caso secreto com Steffi. O fato de saber provava que ela era realmente boa 
no que fazia.
        No.
Loretta examinou Hammond algum tempo, como se tentasse se convencer de que ele dizia a verdade.
        timo. Porque eu detestaria falar mal da mulher com quem voc est transando.
        Voc no gosta da Steffi?
        Do mesmo jeito que no gosto de cobras venenosas.
        Ela no  to ruim assim.
        No,  pior.  uma vbora. Ficou de olho em voc desde que ps os ps em Charleston. E no era s para tirar suas calas. Ela quer vestilas tambm.
        Se est querendo dizer que estamos disputando o mesmo emprego de novo, sei muito bem disso.
        Mas voc j pensou bem? Steffi podia estar usando seu pinto como alavanca para i-la para o cargo de procuradora.
        Voc est sugerindo que ela foi para a cama comigo s para impulsionar a carreira dela? Nossa, muito obrigado, Loretta! Voc est fazendo um bem enorme 
para o meu ego.
Ela revirou os olhos.
        Tinha medo de que voc pudesse ter ignorado essa possibilidade. Os homens raramente pensam que o pinto deles pode ser alguma coisa alm de uma varinha mgica 
com a qual enfeitiam mulheres agradecidas.  por isso que um pinto ereto  to fcil de explorar.
Alex Ladd surgiu na mesma hora na mente de Hammond. Se Loretta soubesse como ele tinha sido ingnuo naquele ltimo sbado  noite, seria capaz de dar-lhe uma surra.
        Steffi Mundell transaria com um rottweiller se achasse que ele a levaria para onde quer ir - ela estava dizendo.
        D uma colher de ch para ela.  verdade que  muito ambiciosa. Mas teve de ralar para conquistar tudo o que realizou. Tinha um pai dominador, que calculava 
o valor de todo mundo com um medidor de testosterona. Esperava que Steffi cozinhasse, limpasse e servisse aos homens, primeiro seus irmos e seu pai, depois seu 
marido. Devotada famlia grega ortodoxa. Alm de no ser devotada, ela no tinha... no tem f em nada. No teve ajuda nem estmulo enquanto fazia a faculdade de 
direito. E quando se formou como primeira da turma, o pai dela disse: "Agora talvez voc pare com essa besteira e se case."
        Por favor, meu corao est partido! - disse Loretta sarcasticamente.
        Olha, sei que ela pode ser muito irritante. Mas tem qualidades que compensam os defeitos. J sou bem grandinho. Sei quem  a Steffi.
        , bem... - resmungou ela, sem se convencer -... e h o Smilow. Ela pegou o copo de usque, mas Hammond estendeu o brao por
cima da mesa e tirou-o com gentileza da mo dela.
        No posso nem terminar esse? - choramingou ela. -  um desperdcio de um bom usque.
        A partir de agora voc est nos trilhos. Duzentos dlares por dia e sobriedade. Esses so os termos deste contrato.
        Voc  duro na queda, procurador Cross.
        Tambm cubro as suas despesas, e receber um bnus substancial quando terminar o trabalho.
        No estava me referindo ao pagamento. Esse  generoso. Mais do que eu mereo - ela passou as costas da mo na boca. -  a clusula de no beber que est 
me desanimando.
        A regra  essa, Loretta. Se voc tomar um nico drinque e eu descobrir, o trato est desfeito.
        Tudo bem, entendi - disse ela, irritada. - vou ter de aguentar. Preciso do dinheiro para pagar o que devo a Bev. Se no fosse isso, diria para voc enfiar 
seus "termos" onde o sol no alcana.
Ele sorriu, sabendo que a valentia dela no passava disso. Estava muito animada de poder trabalhar de novo.
        O que voc ia dizer sobre o Smilow?
        Aquele filho-da-me - zombou ela. - Foi por causa dele que fui demitida. Ele me deu uma tarefa impossvel. Dick Tracy no teria conseguido no prazo que 
Smilow estipulou. 
Quando viu que eu no conseguia, ele culpou a bebida e no seu prazo impossvel. "Ele foi dizer para o chefe que me tirar da investigao criminal no era suficiente. 
Ele queria que eu sasse da polcia, ponto final. Disse que eu era uma desgraa, uma praga para o departamento, um ponto fraco. Ele at ameaou se demitir se eles 
no me despedissem. Depois de dar um ultimato desses, quem voc acha que os poderosos iam escolher? Uma policial mulher, com um pequeno problema de bebida, ou um 
timo detetive da Homicdios?" Ele podia argumentar que tudo que Smilow tinha alegado era verdade, e que o problema de bebida de Loretta era mais que "pequeno", 
e que Smilow tinha simplesmente forado seus superiores a fazerem o que eles tinham de fazer, s que temiam um processo de discriminao sexual ou algo igualmente 
desagradvel. Por mais triste que tenha sido para Loretta, o ultimato de Smilow talvez tivesse evitado uma catstrofe. Nos meses que antecederam sua demisso, Loretta 
estava sempre bbada. No devia estar trabalhando como polcia feminina armada, investigando assaltos e crimes contra as pessoas, um perigo nas melhores circunstncias. 
Mas Hammond compreendia que ela precisava desabafar.
        Smilow no  muito tolerante com as fraquezas humanas.
        E ele tem as dele.
        Por exemplo?
        O amor pela irm dele e o dio por Lute Pettijohn. Hammond lembrou da histria resumida que Davee tinha contado para ele na vspera.
        O que sabe sobre isso?
        O que todo mundo sabe. Margaret Smilow era muito doente. Esquizofrnica, acho. Smilow era um irmo mais velho muito protetor. Quando ela se apaixonou por 
Lute Pettijohn, Rory no gostou da ideia desde o incio. Talvez tivesse cime do novo protetor da vida dela, ou talvez, simplesmente, enxergasse Pettijohn como ele 
realmente era, enquanto todos permaneciam cegos. Por qualquer motivo, Rory no aprovava o casamento.
        Soube que eles tinham discusses violentas. Loretta bufou com desprezo.
        Uma noite, Rory e eu estvamos investigando um assalto seguido de assassinato numa loja de convenincia. Ele recebeu um recado para ligar para a irm imediatamente. 
Margaret estava histrica e implorou para ele ir ao seu encontro naquele momento. Ele ficou muito aborrecido, ns passamos a cena do crime para a nossa equipe de 
apoio e dei carona para ele no meu carro.
"Hammond - disse ela balanando a cabea, incrdula -, quando chegamos l ela havia destrudo a casa toda. O furaco Hugo no provocou tantos estragos. No havia 
uma pea de vidro que no estivesse quebrada. Nenhuma almofada ou travesseiro que no tivesse sido rasgada. No tinha nada em nenhuma estante. No dava para andar 
de tanta coisa no cho. "Aparentemente ela havia descoberto que Pettijohn tinha uma amante. Quando chegamos l Margaret estava no banheiro, segurando uma navalha 
sobre o pulso e ameaava se matar. Smilow conversou com ela e a convenceu a largar a navalha. Ele chamou o mdico dela, que fez a gentileza de ir at l para medic-la. 
Ento Smilow pediu para eu lev-lo at o apartamento de Pettijohn. "Para encurtar a histria... ele invadiu o apartamento e pegou a moa sentada na cara de Lute. 
Ele e Pettijohn deram alguns bons socos um no outro antes de eu poder separ-los. Tive de segurar Smilow porque nada que eu dizia funcionava. Sinceramente, acredito 
que, se no estivesse l para cont-lo  fora, ele teria matado Pettijohn aquela noite. Nunca vi um homem... ou uma mulher... to possesso assim." Ela semicerrou 
os olhos e tamborilou na frmica feia com uma unha torta e suja.
        E acho que  isso que Rory Smilow tem contra mim, e ter at o dia que eu morrer. Para o mundo, ele revela seu lado sem corao. Faz o papel de um cara 
insensvel. Frio. Impassvel. Mas eu testemunhei seu lado humano. Mais humano que os outros. Ele perdeu o controle. Por isso no suportava a minha presena para 
lembr-lo disso.
Hammond no questionou a veracidade daquela histria. Apesar de todos os defeitos de Loretta, nunca a vira mentir, nem aumentar uma histria.
        Por que me contou isso?
        Estou apenas me desfazendo de algumas possibilidades.
        Possibilidades? Voc acha que Smilow matou Pettijohn? :
        S estou dizendo que poderia ter matado. No sei quanto  oportunidade, mas ele certamente tinha uma motivao. Nunca perdoou Lute pelo suicdio de Margaret. 
E esses tambm no so apenas delrios de uma velha bbada. A sua amiga Steffi pensou a mesma coisa. Ouvi quando ela tocou no assunto aquela noite no hospital. Ela 
comentou que Smilow gostaria muito de ver Pettijohn morto.
        O que Smilow disse?
        Ele no confessou, mas tambm no negou - ela deu uma risadinha. - Pelo menos no literalmente. Pelo que me lembro, ele virou a mesa e passou a bola para 
Steffi.
        Para Steffi?
        Ele sugeriu a ideia de que Pettijohn podia estar pavimentando o caminho dela para o cargo de Mason quando ele se aposentar.
Hammond deu uma risada.
        Smilow devia estar tendo uma noite daquelas. Se Lute estava fazendo um favor para algum, por que esse algum o mataria?
        Foi esse o argumento de Steffi, e a conversa morreu ali. Alm do mais, ele estava s provocando, porque Steffi achava que Davee tinha livrado o mundo de 
Pettijohn.
        Davee foi a primeira suspeita de Steffi. Mas agora ela tem outra pessoa na sua teia.
        Essa dra. Ladd?
Assentindo com a cabea, Hammond entregou para Loretta um envelope com algum dinheiro de adiantamento.
        Se voc beber esse...
        No vou beber. Juro!
        Descubra o que puder sobre Alex Ladd. Quero o relatrio o mais rpido possvel.
        Isso pode parecer presuno...
        E tenho certeza que .
Loretta ignorou Hammond e continuou:
        Ela foi presa?
        Ainda no.
        Mas aparentemente voc acha que Smilow e companhia esto enganados.
        No tenho certeza - ele fez um resumo dos acontecimentos do dia para ela, comeando com a histria de Daniels e terminando com Alex negando que conhecia 
Pettijohn. - Eles no descobriram nenhuma ligao. Falando como promotor, o caso dele  fraco.
        E falando de outro jeito?
        No h outro jeito.
        Ah - Loretta olhava para Hammond como se no acreditasse nele, mas resolveu deixar para l. - Bem, Deus ajude essa dra. Ladd se ela no matou Pettijohn.
        Voc no quer dizer "Deus a ajude se ela matou Pettijohn"?
        No, o que quis dizer era isso mesmo.
        No estou entendendo - disse Hammond, confuso.
        Se a dra. Ladd esteve na cena do crime, mas no o matou, ela pode ser uma testemunha.
        Testemunha? Ela no teria dito isso para ns?
        No se estivesse com medo.
        O que ela poderia temer mais que ser acusada de assassinato?
        O assassino - respondeu Loretta.
Alex dirigia com um olho no espelho retrovisor. Reconhecia que os sintomas eram de parania, mas achava que tinha o direito depois de ter passado a maior parte do 
dia sendo interrogada sobre um homicdio. Com Hammond Cross na sala. Sabendo que ela estava mentindo.  claro que ele tambm mentiu, por omisso. Mas por qu? Curiosidade? 
Talvez ele quisesse ver at onde ela iria com suas mentiras sobre onde estava sbado  noite. Mas quando ela contou sua histria falsa sobre Hilton Head, esperava 
que ele a denunciasse e a chamasse de mentirosa. Ele no fez isso. E isso indicava que ele estava protegendo a prpria reputao. Ele no quis que sua colega, a 
srta. Mundell, e o ameaador detetive Smilow soubessem que tinha passado a noite com a nica suspeita que tinham do assassinato de Pettijohn, exatamente no dia em 
que o mataram. E hoje, pelo menos, ele estava mais interessado em manter segredo do encontro deles do que em consider-la suspeita. Mas isso podia mudar. E por isso 
ela estava vulnervel. At saber como Hammond pretendia levar isso adiante, precisava fazer de tudo para se proteger das acusaes. Podia no chegar a tanto mas, 
se chegasse, tinha de estar preparada. Ela chegou ao seu destino mas evitou aporte cochre e os valetes e parou no estacionamento pblico. Bobby tinha subido na 
vida. Quando o conheceu, no era nenhum estranho nos albergues noturnos. Agora ele estava registrado num hotel perto do Centro da cidade. Ela no telefonou antes 
para avisar que estava a caminho. Surpreend-lo talvez representasse uma pequena vantagem para ela no que, sem dvida, seria um confronto desagradvel. No elevador, 
ela fechou os olhos e rodou a cabea na direo dos ombros. Estava exausta. E apavorada. Desejou poder fazer o relgio voltar e refazer o dia em que Bobby Trimble 
entrou novamente na sua vida depois de vinte anos livre dele. Desejou poder apagar aquele dia e todos os dias subsequentes. Mas isso significaria apagar tambm a 
noite que passou com Hammond Cross. No tinha sido muito feliz na vida. Mesmo quando criana. Especialmente quando criana. O Natal era apenas mais um dia no calendrio. 
Nunca teve um bolo de aniversrio, jamais ganhou ovinhos de Pscoa ou uma fantasia no Dia das Bruxas. Foi s no fim da adolescncia que ela descobriu que pessoas 
comuns, no s as pessoas das revistas e da televiso, tambm podiam participar das celebraes dos feriados. Ela passou a juventude desfazendo os danos do passado 
e criando um indivduo novo. Tinha muita gana de absorver tudo que lhe tinham negado. Na universidade, ela se aplicava nos estudos com tamanha diligncia que sobrava 
pouco tempo para namorar. Quando finalmente montou seu consultrio, tinha aplicado toda a sua energia nisso. Por intermdio do seu trabalho voluntrio e de caridade, 
ela conheceu bons partidos. Com alguns construiu amizade, mas romance nunca foi um elemento desses relacionamentos, e isso por opo dela. Tinha decidido que ia 
se contentar com as suas realizaes e com a satisfao que obtinha ao ajudar as pessoas a tratar dos seus problemas e viver seu potencial. A verdadeira felicidade, 
o tipo animado e efervescente de alegria que tinha experimentado com Hammond aquela noite, ela nunca tivera. Era uma desconhecida indefinvel para ela, por isso 
at aquele momento no tinha se dado conta de que possua o poder de viciar. E tampouco dos perigos em potencial. E ela pensou: ser que a felicidade sempre custava 
tanto assim? Assim que as portas do elevador se abriram, ela ouviu msica e achou que devia ser do quarto de Bobby. E estava certa. Aproximou-se da porta e bateu, 
esperou um pouco e bateu de novo, com mais fora dessa vez. A msica parou.
        Quem ? - Bobby, preciso falar com voc.
Alguns segundos depois ele abriu a porta. Estava nu, apenas com uma toalha na cintura.
        Se voc est me dedurando para os tiras, que Deus me livre, mas eu...
        No seja absurdo! A ltima coisa que quero  que a polcia saiba que j tive qualquer ligao com voc.
Ele examinou o corredor. Finalmente se convenceu de que ela estava sozinha.
        Fico aliviado de ouvir isso, Alex. Por um momento tive medo de que voc estivesse me traindo novamente.
        Eu...
Um movimento atrs dele atraiu o olhar dela para alm do ombro de Bobby. Apareceu primeiro uma menina, depois outra. Bobby olhou para trs, sorriu quando viu as 
meninas e as puxou para a frente, segurando as duas pela cintura. Se alguma delas tinha dezoito anos, eram recm-feitos. Uma usava uma calcinha de couro e nada em 
cima. A outra estava enrolada num lenol que Alex concluiu que tinha sido tirado da cama.
-Alex, esta ...
        No me importo - interrompeu ela. - Preciso conversar com voc - disse com impacincia.
        Est bem - suspirou ele. - Mas voc sabe o que dizem sobre s trabalho e nenhum divertimento.
Ele mandou as meninas de volta para o quarto com tapinhas nos seus traseiros, e pediu alguns minutos sozinho com Alex.
        Temos de tratar de negcios. Depois a festa vai comear de verdade. Tudo bem? Ento, vo.
Elas pediram para ele no demorar muito, Bobby saiu do quarto e fechou a porta.
        Voc est chapado, no est? - perguntou Alex.
        E no tenho o direito de estar? Ver a polcia na sua porta no era exatamente o que eu pretendia quando fui procur-la hoje.
        Onde voc comprou a droga?
        No tive de comprar. Sei como escolher minhas amigas.
        Suas vtimas.
Ele deu um grande sorriso, sem se ofender.
        Essas meninas estavam bem supridas. Material de primeira. Por que voc no experimenta um pouco? - ele estendeu o brao e apertou o n que havia no ombro 
dela. - Voc est toda tensa, Alex. Que tal um estimulante?
Ela afastou o brao dele.
        Voc  que sabe - disse ele afvel, dando de ombros. - Onde est o meu dinheiro?
        No est comigo.
O sorriso dele se desfez um pouco.
        Voc est querendo brincar comigo, no ?
        Voc viu a polcia na minha casa, Bobby. Como  que eu podia trazer aquele dinheiro para voc agora? Eu vim aqui te avisar para no se aproximar de mim 
novamente. No quero mais ver voc. No quero que passe de carro na frente da minha casa. No quero saber de voc.
        Espere a um minutinho. Ns concordamos, lembra? - ele moveu a mo entre o peito dele e o dela. - Fizemos um trato.
        O trato j era. A situao mudou. Eles me interrogaram sobre o assassinato de Lute Pettijohn.
        Isso no  culpa minha, Alex. No pode me culpar por ter estragado tudo.
        Eu disse para voc a noite passada...
        Sei o que voc disse. No quer dizer que acreditei.
Era intil discutir com ele. No tinha acreditado nela ontem, e no ia acreditar agora. No que se importasse com o que ele acreditava. S queria livrar-se dele.
        Conforme combinamos, vou te dar os cem mil.
        Esta noite.
Ela balanou a cabea.
        Daqui a algumas semanas. Assim que esclarecer isso tudo. Seria loucura dar o dinheiro para voc agora que a polcia est me vigiando.
Ele ps as mos nos quadris estreitos e inclinou o corpo para ficar com o rosto bem perto do dela.
        Eu te avisei para tomar cuidado. No avisei?
        , voc avisou.
        Ento como foi que virou alvo deles?
Ela no ia ficar ali no corredor de um hotel com um homem quase nu discutindo seu interrogatrio na polcia. Alm do mais, ele no se importava de que modo a polcia 
a tinha associado a Pettijohn. S se importava com uma coisa.
        Voc vai receber o seu dinheiro - disse ela. - Entro em contato com voc quando achar que  seguro, que podemos nos encontrar. At l, fique longe de mim. 
Seno, estar dando um tiro no prprio p.
Parecia que o efeito da droga estava acabando, porque a expresso dele no era mais to tranquila e simptica, estava ficando beligerante.
        Voc deve achar que sou muito burro. Acredita sinceramente que pode se livrar de mim s porque quer, Alex?
Ele estalou os dedos a poucos centmetros do nariz dela.
        Raciocine. At eu conseguir a minha parte daquele dinheiro, serei sua sombra. Voc me deve isso.
        Bobby - disse ela com calma -, para pagar o que voc merece eu teria de mat-lo.
        Ameaas, Alex? - disse ele com voz macia. - Acho que no. Ento ele a surpreendeu empurrando-a com fora com o indicador no peito dela e ela recuou alguns 
passos.
-Voc no est em condies de me ameaar.  voc que tem mais a perder. Lembre-se disso. Agora vou dizer isso pela ltima vez: traga aquele dinheiro para mim.
        Voc no entende que eu no posso? No agora.
        No pode uma ova! Voc tem uma sopa de letrinhas pendurada no seu nome. Tem toda a inteligncia que precisa para resolver isso - ele semicerrou os olhos 
at virarem fendas cheias de maldade. - Traga aquele dinheiro para mim.  o nico jeito de eu desaparecer.
O dio queimou como brasa dentro dela.
        Aquelas meninas sabem que vo acordar amanh sem as jias e o dinheiro delas?
        Elas vo receber o que querem em troca - ele piscou um olho.
        E mais alguma coisa.
Enojada, Alex deu meia-volta e foi para o elevador.
        Fique longe de mim at eu avisar.
        Sua sombra, Alex - ele falou bem baixinho para ela. - Olhe em volta. Eu estarei l.
Hammond acendeu o abajur da mesa-de-cabeceira e banhou as paredes com listras de cores pastel com um brilho aconchegante. Olhou em volta e teve de tirar o chapu 
para Lute Pettijohn. Ele havia contratado um bom decorador para o seu Charles Towne Plaza, e no economizou no conforto. Pelo menos no na sute da cobertura. O 
quarto era espaoso e tinha sido desenhado para ser funcional. Atrs das portas do armrio francs havia uma televiso de vinte e sete polegadas, maior que as dos 
hotis e motis comuns, equipada com um videocassete. Dentro desse armrio tambm havia um CD player e uma seleo de Cds, um exemplar do TV Guia da semana anterior 
e um controle remoto para a televiso. Nada mais. Ele foi at o banheiro. As toalhas pareciam intactas desde que a camareira as tinha posto nos porta-toalhas decorativos. 
Ainda havia vidros de xampu e outros cosmticos num pequeno cesto prateado que ficava em cima da penteadeira, alm de um kit de costura, uma flanela para lustrar 
sapatos e uma touca de banho. Ele apagou a luz e voltou para o quarto, os passos abafados pelo carpete felpudo. O quarto tinha um minibar alm do que havia na saleta. 
O contedo j havia sido inventariado pela UCC. Mesmo assim, ele enrolou um leno na mo e abriu a geladeira. Uma verificao rpida do menu impresso dos itens revelou 
que no faltava nada. Quando ele fechou a porta, o motor religou e comeou a ronronar. Ele gostou do som. A sute, apesar da decorao luxuosa e do conforto em todos 
os detalhes, era agora a cena de um crime. O silncio fantasmagrico cercava Hammond por todos os lados. Tinha sado do Shady Rest Lounge com a inteno de ir para 
casa e dar por terminada aquela segunda-feira terrvel. Mas, em vez disso, ele se sentiu atrado para aquele lugar. No precisava adivinhar o motivo daquela compulso. 
O ltimo comentrio de Loretta tinha fincado p na mente dele e no saa mais de l. Ser que Alex Ladd tinha estado ali naquele sbado? Ser que tinha testemunhado 
alguma coisa que no quisesse revelar porque podia representar um risco para a vida dela? Ele preferia acreditar nisso do que ficar imaginando que ela era a assassina, 
apesar de nenhuma opo ser muito animadora. Em seu subconsciente, ele tinha ido at l com a esperana de encontrar alguma coisa que no tivessem visto antes, algo 
que pudesse isentar Alex Ladd e possivelmente incriminar outra pessoa. Irracionalmente, ele era levado a proteger uma mulher que tinha provado ser uma mentirosa 
detalhista e inescrupulosa. No tinha sido fcil voltar para aquela sute onde, no ltimo sbado, ele tinha encontrado Lute e trocado palavras duras. Ele no tinha 
passado da sala de estar, na verdade no tinha se afastado muito da porta. Tinha dito o que queria dizer assim que ps os ps no apartamento. Lute estava sentado 
no sof, bebendo seu drinque, a imagem da complacncia enquanto avisava para Hammond que, se ele tinha a inteno de criar uma investigao do grande jri sobre 
ele, que devia estar preparado para processar o pai dele tambm.
         claro - Lute tinha dito ainda, sorrindo - que h uma maneira de evitar toda essa sujeira. Se voc concordar com o meu modo de fazer as coisas, todo mundo 
consegue o que quer e volta para casa feliz.
A proposta dele era que Hammond vendesse sua alma ao diabo. Ele tinha recusado a oferta. E  desnecessrio dizer que Pettijohn no reagiu bem a essa recusa. Perturbado 
com a lembrana, Hammond entrou no closet, a nica rea do quarto que no tinha examinado. Atrs das portas espelhadas de correr havia um cofre vazio e cabides de 
roupas sem roupas. Havia um roupo branco pendurado, com o cinto ainda amarrado. Os chinelos tambm atoalhados ainda estavam lacrados dentro do saco de celofane. 
Parecia que nada tinha sido tocado. Ele fechou as portas e foi ento que viu uma imagem refletida no espelho.
        Est procurando alguma coisa? Hammond virou para trs.
        Eu no sabia que havia mais algum aqui.
        Isso  bvio - disse Smilow. - Voc deu um pulo como se tivesse levado um tiro. - Olhando para as manchas de sangue no tapete na sala de estar, ele acrescentou: 
- Perdoe a m escolha das palavras.
        Ora, ora, Rory - disse Hammond, usando o sarcasmo para esconder a mgoa de ter sido pego bisbilhotando. - Voc nunca foi dado a rodeios com as palavras.
        Certo. Nunca mesmo. Ento que porra voc est fazendo aqui?
        No  da porra da sua conta! - Hammond disparou no mesmo tom de raiva do detetive.
        O adesivo em volta da porta  para manter as pessoas fora.
        Eu tenho o direito de visitar a cena do crime que vou levar a julgamento.
        Mas o protocolo exige que voc notifique o meu departamento e que algum venha junto com voc.
        Conheo o protocolo.
        E ento?
        Eu estava na rua-disse Hammond com aspereza. Smilow tinha razo, mas ele no queria dar o brao a torcer. - J era tarde. No vi necessidade de arrastar 
um policial at aqui. No toquei em nada - ele abanou o leno que ainda segurava. - No tirei nada. Alm do mais, pensei que voc j tinha terminado aqui.
        E j terminamos.
        Ento, o que est fazendo aqui? Procurando provas? Ou plantando algumas? Os dois se encararam com dio no olhar. Smilow foi o primeiro a controlar a fria.
        Eu vim at aqui para pensar em alguns elementos que a autpsia revelou.
Apesar de no querer, Hammond ficou interessado:
        Como o qu?
Smilow voltou para a sala e Hammond foi atrs dele. O detetive parou em cima das manchas de sangue no cho.
        Os ferimentos.  difcil determinar a trajetria das balas porque elas danificaram muito os tecidos, mas Madison aposta que miraram a pistola nele de cima 
para baixo, a uma distncia de trinta a, no mximo, sessenta centmetros.
        O assassino no podia errar.
        Ele providenciou tudo para no errar.
        Mas apareceu sem saber que Lute tinha sofrido um derrame.
        Ele veio para mat-lo de qualquer jeito.
         queima-roupa.
        O que indica que Petijohn conhecia seu matador.
Os dois contemplaram a mancha feia e escura no tapete por algum tempo.
        Uma coisa est me incomodando - disse Hammond depois. S agora descobri o que . Barulho. Como  que se apaga algum com um 38 sem que ningum oua?
        Havia poucos hspedes nos quartos. O servio que ia abrir as camas s comeava depois das seis. As camareiras ainda no estavam no corredor. O atirador 
podia ter usado um silenciador de algum tipo, at um improvisado e malfeito. Madison no encontrou nada na rea ou nos ferimentos que indicasse isso. O meu palpite 
 que os quartos, praticamente  prova de som, que Pettijohn costumava se gabar de ter, no eram falsos com seu sistema de vdeo de segurana de ltima gerao.
        E acabei de pensar em outra coisa: - Smilow olhou para ele e fez sinal para Hammond continuar - quem apagou Lute, alm de conhec-lo bem tambm conhecia 
muito bem este hotel. Como se o assassino estudasse tudo que Pettijohn fazia. Como se fosse obcecado por ele - ele examinou os olhos frios de Smilow. - Est entendendo 
onde quero chegar?
Smilow sustentou o olhar de Hammond at contar dez, mas no quis ceder  provocao e apontou com o queixo para a porta da sute.
        O doutor promotor primeiro.
O testamento de Lute Pettijohn estipulava que ele fosse cremado. Assim que o sr. John Madison liberou o corpo segunda-feira  tarde ele foi transportado para a casa 
funerria. A viva j tinha acertado tudo e cuidado da papelada necessria. Ela no quis ver o corpo antes de ser levado para o crematrio. Uma cerimnia memorial 
foi marcada para a manh de tera-feira, que algumas pessoas acharam inadequada, cedo demais, especialmente  luz das circunstncias da morte de Pettijohn. Mas levando 
em considerao a conduta habitualmente imprpria da viva, ningum se surpreendeu quando ela atropelou os horrios sempre respeitados do ritual. A manh estava 
nevoenta e quente. s dez horas, a igreja episcopal de so Felipe j estava lotada de gente. Os famosos e infames estavam l, assim como os que tinham ido admirar 
os famosos e os infames, inclusive o venervel senador dos Estados Unidos na Carolina do Sul e uma estrela de cinema que morava em Beaufort. Alguns nunca tinham 
conhecido Pettijohn, mas se consideravam suficientemente importantes para comparecer ao funeral de um homem importante. Praticamente todos que estavam l tinham 
depreciado o falecido quando ele era vivo. No entanto, se enfileiravam na igreja, balanando a cabea e lamentando sua morte trgica e prematura. O altar ficou pequeno 
para acomodar a imensa variedade de arranjos de flores. Pontualmente s dez horas, a viva foi escoltada ao plpito principal. Estava de preto da cabea aos ps, 
sem absolutamente nada de outra cor, a no ser o colar de prolas que era sua marca registrada. O cabelo estava puxado para trs num rabo-de-cavalo, sem enfeite 
algum, sobre o qual usava um chapu de palha de aba larga que cobria seu rosto. Durante toda a cerimnia ela no tirou os culos escuros e opacos.
        Ela est escondendo os olhos porque esto inchados de tanto chorar? Ou porque no esto? Steffi Mundell estava sentada ao lado de Smilow. A pergunta dela 
fez o detetive franzir a testa. Ele estava de cabea baixa e parecia realmente ouvir a prece inicial.
        Desculpe - sussurrou ela. - No sabia que voc tinha esse lado religioso.
Ela permaneceu respeitosamente em silncio todo o resto do servio, apesar de no ter religio. Estava mais interessada nesta vida do que na outra. Queria realizar 
suas ambies aqui mesmo na Terra. Estrelas numa coroa celestial no eram sua imagem de realizao.
Por isso ela se desligou das leituras das Escrituras e dos panegricos e aproveitou aquela hora para meditar sobre os aspectos pertinentes ao caso, especificamente 
sobre como podia tirar proveito deles. Hammond tinha sido designado para cuidar do caso, mas era ela, e no ele, que tinha ligado para o procurador Mason na vspera. 
Tinha se desculpado por interromper o jantar dele, mas quando contou sobre a mentira de Alex Ladd em relao ao seu paradeiro sbado  noite, ele agradeceu por mant-lo 
informado. Ela ficou satisfeita porque ganhou alguns pontos com aquele telefonema. Dando mais um passo, ela garantiu para o patro deles que Hammond provavelmente 
daria as ltimas notcias, mais tarde aquele dia... quando ele tivesse tempo... insinuando que, para Hammond, aquilo no era prioritrio. Depois do que pareceu ser 
uma eternidade, o ministro fez sua louvao e concluiu o servio.
        Ora, isso no  comovente? - perguntou Steffi quando eles se levantaram.
Entre todas as pessoas reunidas em volta de Davee Pettijohn para dar os psames, ela notou Hammond. A viva abraou-o carinhosamente. Ele beijou o rosto dela.
        Amizade antiga de famlia - observou Smilow.
        Quanta amizade?
        Por qu?
        Parece que ele est relutando em consider-la uma possvel suspeita.
Os dois continuaram observando enquanto a sra. E o sr. Preston Cross tambm abraavam Davee. Steffi tinha encontrado o casal apenas uma vez num torneio de golfe. 
Hammond no tinha apresentado Steffi para os pais como sua namorada, e sim como colega de trabalho. Ela admirou Preston, vendo nele uma personalidade forte e imponente. 
Amlia Cross, me de Hammond, era exatamente o oposto do marido, uma dama sulista doce e mida, que provavelmente nunca tinha expressado qualquer opinio prpria 
em toda a sua vida. Ela provavelmente nunca tivera nenhuma opinio prpria na vida.
        Est vendo? - disse Smilow. - Os Cross so a famlia substituta de Davee, j que ela no tem mais ningum aqui.
        Suponho que sejam.
Por causa da multido, eles levaram alguns minutos para conseguir sair da igreja.
        O que voc tem contra a Davee? - perguntou Smilow quando caminhavam para o carro dele. -Agora que ela no est mais na sua lista de suspeitos.
        Quem disse isso? - Steffi abriu a porta do carona e entrou no carro.
Smilow se instalou no banco do motorista.
        Pensei que Alex Ladd fosse a sua suspeita preferida.
        E . Mas tambm no estou excluindo a viva alegre. Ser que pode ligar o ar-condicionado, por favor? - pediu ela, abanando o rosto.
        Voc j confrontou Davee com a mentira da empregada dela?
        Um dos meus homens fez isso. Parece que as duas tinham esquecido completamente da ida de Sarah Birch ao supermercado naquele dia.
Com sinceridade exagerada, Steffi disse:
        Ah, tenho certeza de que isso  verdade.
Rodaram vrios quarteires antes de Smilow surpreend-la, dizendo baixinho:
        Encontramos um fio de cabelo humano.
        Na sute?
        Na manga do palet de Pettijohn - ele olhou para ela e riu da expresso que Steffi fez. - No se anime muito. Ele poderia ter grudado nele de algum mvel. 
Podia pertencer a qualquer pessoa que tivesse estado antes naquele quarto, ou a qualquer camareira, garom de servio de quarto. Qualquer pessoa.
        Mas se for igual ao de Alex Ladd...
        Estou vendo que voc voltou para ela.
        Se for igual ao cabelo dela...
        Ainda no sabemos.
        Ns sabemos que ela mentiu! - exclamou Steffi.
        Pode haver uma dzia de motivos para isso.
        Agora voc est falando como Hammond.
        O detetive amador.
Steffi ouviu com ateno enquanto Smilow contava que tinha encontrado Hammond na sute do hotel na noite anterior.
        O que ele estava fazendo l?
        Dando uma espiada.
        Em qu?
        Em tudo, acho. Uma insinuao maliciosa de que eu devia ter ignorado alguma coisa.
        E o que voc estava fazendo l?
        Eu podia ter deixado alguma coisa passar - disse ele meio encabulado.
        Testosterona! - zombou ela. - E o que ela faz com o Homo sapiens que costuma ser sensato. - Depois de uma breve pausa, ela acrescentou: - Por exemplo, olha 
s como d cores vivas  sua opinio a respeito de Alex Ladd.
        O que quer dizer?
        Se Alex Ladd no fosse uma psicloga notvel com uma longa lista de credenciais, se no fosse to bem educada, atraente e articulada, se no fosse to elegante, 
se em vez disso ela fosse uma mulher sem frescuras, de cabelo eriado e tatuagens nos seios, vocs dois hesitariam tanto em pression-la mais?
        Nem vou me dar ao trabalho de responder a essa pergunta.
        Ento por que est to devagar?
        Porque no posso fazer uma priso baseado apenas numa mentira sobre ter ido para a ilha Hilton Head. Preciso ter mais que isso, Steffi, e voc sabe disso. 
Tenho de especificamente p-la dentro daquele quarto. Preciso de provas concretas.
        Como uma arma.
        Estou trabalhando nisso. - Ela continuou a estudar seu perfil, e abriu um sorriso.
        Ora, vamos, Smilow, qual ? Voc est com cara de gato que comeu canrio, praticamente com penas amarelas espetadas na boca.
        Voc vai saber das ltimas descobertas junto com todo mundo.
        E quando  que vai ser?
        Esta tarde. Pedi para a dra. Ladd comparecer para responder a mais algumas perguntas. E contrariando o conselho do advogado dela, ela concordou.
        Sem perceber que est caindo numa armadilha muito bem elaborada - animada novamente, Steffi deu uma risada. - Quando voc a pegar, mal posso esperar para 
ver a expresso dela.
A expresso dela traduziu a mais completa surpresa, e a de Hammond tambm.
O que aconteceu foi uma loucura. Hammond, Steffi, Smilow e Frank Perkins estavam reunidos do lado de fora da sala de Smilow  espera de Alex. Steffi reclamou de 
ter deixado uma pasta no balco do sargento-recepcionista. Sentindo claustrofobia, Hammond logo se ofereceu para ir l embaixo pegar a pasta para ela. Ele saiu da 
Diviso de Investigao Criminal no segundo andar e caminhou at os elevadores. As portas se abriram. A nica ocupante era Alex, obviamente a caminho da sala de 
Smilow. Ficaram olhando um para o outro, atordoados um segundo, ento Hammond entrou no elevador e apertou o boto do primeiro andar. As portas se fecharam, confinando 
os dois naquele pequeno espao. Ele sentiu o perfume dela. Notou tudo ao mesmo tempo, cabelo, rosto, corpo. O penteado meio desalinhado, a maquiagem suave e o corpo 
compacto davam um toque de feminilidade ao conjunto de mulher de negcios que ela estava usando. Uma blusa sem mangas. A pele parecia muito macia e lisa. A pele 
dela era macia e lisa. Os braos. Os seios. Atrs dos joelhos. Toda ela. Os olhos de Alex estavam to ocupados quanto os dele, tocando cada detalhe do rosto, exatamente 
como tinham feito no posto de gasolina segundos antes de Hammond beij-la. Fazia parte da sensualidade dela, aquela absoro aparentemente total de qualquer coisa 
em que punha os olhos. A intensidade com que ela olhava para ele fez Hammond sentir que seu rosto era o mais cativante do mundo.
        Sbado  noite... - comeou ele a dizer.
        Por favor, no me pergunte...
        Por que voc mentiu quando disse onde esteve?
        Voc preferia que eu tivesse dito a verdade?
        E qual  a verdade? Aquele homem viu voc diante da porta da sute de Lute Pettijohn no hotel? ""
        No posso comentar isso com voc.
        No pode uma ova!
As portas se abriram no primeiro andar. No havia ningum  espera do elevador. Hammond saiu, mas ficou com a mo na proteo de borracha para evitar que a porta 
se fechasse.
        Sargento, a srta. Mundell deixou uma pasta aqui?
        Pasta? Eu no vi nada, sr. Cross - disse ele. - Se eu vir, mando l para cima.
        Obrigado.
Hammond entrou no elevador e apertou o boto para subir. As portas se fecharam.
        Uma ova que no pode - repetiu ele num sussurro spero.
        Temos alguns segundos preciosos.  sobre isso que voc quer conversar?
        No. Claro que no - ele deu um passo para perto dela e rosnou baixinho. - Quero acariciar voc toda.
Ela ps a mo na base do pescoo.
        No consigo respirar.
        Foi isso que voc disse na segunda vez que gozou. Ou foi na terceira?
        Pare. Por favor, pare.
        Isso foi uma coisa que voc no disse. Nem uma vez, a noite inteira. Ento, por que fugiu de mim?
        Pelo mesmo motivo que me levou a mentir sobre ter estado com voc.
        Pettijohn? Sei que no o matou. A hora no combina. Mas de alguma forma voc  culpada.
        Tive de deix-lo aquela manh. E no podemos ser pegos conversando sozinhos agora.
        Se voc no estivesse envolvida de alguma forma - disse ele, dando mais um passo para perto dela -, por que precisaria estabelecer um libi, passando a 
noite toda transando comigo?
A raiva cintilou nos olhos dela. Seus lbios se abriram como se ela fosse refutar o que ele tinha dito. O elevador parou. As portas se abriram. Steffi Mundell estava 
 espera do elevador.
        Oh! - exclamou ela baixinho quando viu os dois juntos. Olhou bem para Alex, depois para Hammond. - Bem, eu j ia chamar voc. Encontrei a pasta - disse 
ela, levantando a mo com o arquivo que tinha pedido para ele buscar, por engano. - Sinto muito.
        No tem importncia.
        com licena - disse Alex, e ficou no meio dos dois para sair do elevador.
        O dr. Perkins j est aqui, dra. Ladd - avisou Steffi quando Alex passou por ela.
Alex agradeceu a informao muito sria e continuou pelo corredor at a porta dupla fechada.
        Onde vocs se encontraram?
A pergunta de Steffi fez Hammond cerrar os dentes, mas ele procurou no demonstrar nada.
        Ela estava l embaixo, esperando o elevador - mentiu ele.
        Ah. Ora, acho que agora est todo mundo aqui, por isso podemos comear.
        Pea para eles esperarem s mais alguns minutos. Preciso ir ao banheiro.
Hammond foi at o banheiro e ficou feliz de ver que no havia ningum l. Na pia, ele se abaixou e jogou gua fria no rosto, depois apoiou as mos na porcelana fria 
e abaixou a cabea, deixando a gua pingar do rosto na pia. Respirou fundo vrias vezes e soltava o ar rogando pragas baixinho. Tinha pedido alguns minutos, mas 
ia demorar mais que isso para se recuperar. Na verdade, ele provavelmente nunca mais se livraria do aperto da culpa no peito, que o impedia de respirar. O que ele 
podia fazer? Naquela hora, na semana anterior, nunca tinha ouvido falar daquela mulher. Agora, Alex Ladd era o olho de um furaco que ameaava sug-lo e afog-lo. 
.No via sada. No havia cometido apenas uma concusso. Tinha tornado mais grave e continuava fazendo isso. Se tivesse falado assim que viu o desenho do rosto dela, 
talvez tivesse podido se redimir.
        Smilow, Steffi, vocs no vo acreditar! Passei a noite com essa mulher no sbado. Agora vocs esto me dizendo que ela apagou Lute Pettijohn antes de me 
levar para a cama?
Ele poderia ter amainado a tempestade se tivesse admitido a sua culpa mais cedo. Afinal de contas, quando a levou para a sua cabana, ele no sabia que mais tarde 
ela estaria envolvida num crime. Tinha sido a vtima inocente de uma seduo cuidadosamente planejada. Poderiam t-lo ridicularizado por ter levado uma completa 
desconhecida para a cama. Ele poderia ser censurado por ter sido indiscreto. Seu pai o teria acusado de ser simplesmente burro. Ento ele no tinha lhe ensinado 
que no devia ter relao sexual com uma mulher que no conhecesse? No o tinha avisado de todas as calamidades que podiam ocorrer com um homem nas mos de uma mulher 
desonesta? Teria sido embaraoso para ele, para sua famlia e para a procuradoria. Ele seria o assunto mais picante das fofocas e o alvo de milhares de piadas obscenas, 
mas teria sobrevivido. Mas isso era discutvel. No tinha revelado a identidade dela e no havia exposto Alex quando ela mentiu sobre uma viagem inexistente at 
Hilton Head. Tinha ficado l parado, equilibrando o dever e o desejo, e o desejo venceu. Tinha consciente e deliberadamente omitido uma informao que podia ser 
o elemento-chave num caso de homicdio, assim como tinha omitido revelar para Monroe Mason seu encontro com Pettijohn sbado  tarde. De acordo com qualquer regulamento 
de promotor, a conduta dele nos ltimos dias era imperdovel. E o que era ainda pior, dada a oportunidade de repensar essas decises, ele temia fazer as mesmas escolhas 
erradas. Alex ficou desconfiada da maneira educada com que Smilow puxou uma cadeira para ela sentar. Ele quis saber se ela estava confortvel, se gostaria de beber 
alguma coisa.
        Sr. Smilow, por favor, pare de se comportar como se isso fosse uma visita social. S estou aqui porque o senhor pediu, e achei que era o meu dever cvico 
atender ao seu pedido.
        Muito louvvel.
        Vamos tratar de dispensar as amabilidades e ir direto ao assunto, est bem? - disse Frank Perkins.
        timo.
Smilow retomou sua posio da vspera, sentado no canto da mesa, um ponto vantajoso, distinto e calculado, porque obrigava Alex a olhar para cima para v-lo. Quando 
ouviu a porta abrir atrs dela, ela soube que Hammond tinha chegado. A vitalidade dele movimentou o ar de uma forma especial. Ela no tinha se recuperado totalmente 
daquele novo encontro com ele. Aqueles momentos no elevador tinham sido curtos, mas o impacto que causaram foi muito profundo. A reao dela foi fsica e aparentemente 
visvel, porque, quando encontrou Frank Perkins, ele comentou que o rosto dela estava afogueado e perguntou se estava se sentindo bem. Ela culpou o calor do lado 
de fora. Mas o clima no tinha deixado sua face vermelha nem provocado o formigamento nas partes ergenas do seu corpo. Aquela turbulncia emocional e sexual se 
juntavam  sensao de culpa que alimentava por ter injustamente colocado Hammond no meio daquele dilema. Ela o comprometera deliberadamente. No incio, Alex enfatizou 
para a sua conscincia. S no incio. Ento a biologia assumiu o controle. E ela sentia aquela pontada agora que ele estava na sala. Ela domou o impulso de se virar 
para trs e olhar para ele, com medo de Steffi Mundell detectar que alguma coisa estava acontecendo. O promotor tinha parecido avidamente inquisitivo quando ela 
os viu juntos no elevador. Alex tentara parecer tranquila quando desceu no andar, mas sentiu o olhar de Steffi como ferro de marcar entre suas omoplatas, quando 
caminhava pelo corredor. Se algum pudesse notar os sinais que Hammond e ela tinham dado sem querer, essa pessoa seria Steffi Mundell. No s porque tinha a fama 
de ser afiada como uma navalha, mas tambm porque, em geral, as mulheres so mais sintonizadas com as frequncias romnticas do que os homens. Alex voltou a prestar 
ateno quando Smilow ligou o gravador e disse o dia e a hora junto com os nomes de todos ali presentes. Ento, ele entregou para ela um recorte de jornal.
        Gostaria que a senhora lesse isso, dra. Ladd. Curiosa, ela passou os olhos pelo ttulo curto. No teve de ler mais nada para entender que tinha feito uma 
estupidez terrvel e que ia custar-lhe muito caro.
        Por que no l em voz alta? - sugeriu Smilow. - Gostaria que o dr. Perkins tambm ouvisse.
Sabendo que o detetive estava querendo humilh-la, ela manteve a voz neutra e sem emoo enquanto lia a histria sobre a evacuao e o fechamento de Harbour Town 
em Hilton Head, na hora exata que ela declarara estar l, curtindo as atraes. Quando terminou de ler, fez-se um pesado silncio na sala. Finalmente, com a voz 
muito baixa, Perkins pediu para ver o recorte. Ela o entregou para ele, mas ficou encarando Smilow, sem querer se submeter ao seu olhar acusador.
        E ento?
        E ento o qu, detetive?
        A senhora mentiu para ns, no mentiu, dra. Ladd?
        Voc no precisa responder - disse Frank Perkins para ela.
        Onde a senhora estava no fim da tarde e na noite de sbado?
        No responda, Alex - o advogado dela a instruiu novamente.
        Mas eu gostaria de responder, Frank.
        Insisto para que no diga nada.
        A resposta no vai me prejudicar - sem atender ao pedido dele, ela disse: - Eu tinha planejado ir para Hilton Head, mas no ltimo minuto mudei de ideia.
        Por qu?
        Um capricho. Fui para uma feira na periferia de Beaufort.
        Uma feira?
        Sim, isto pode ser facilmente verificado, sr. Smilow. Tenho certeza de que foi divulgado. Fui para l depois que sa de Charleston.
        Algum pode confirmar isso?
        Duvido. Havia centenas de pessoas l.  pouco provvel que algum se lembre de mim.
        Como aquela vendedora de sorvete em Hilton Head. Smilow no gostou mais da observao de Steffi Mundell do que
Alex. Os dois olharam zangados para ela antes de Smilow continuar.
        Se a senhora viu anncios da feira, poderia estar inventando isso, no poderia?
        Suponho que sim, mas no estou.
        Por que devemos acreditar nisso se j a pegamos em uma mentira?
        No faz diferena nenhuma onde eu estava. Eu j disse que nem conhecia Lute Pettijohn. E certamente no sei nada do assassinato dele.
        Ela nem sabia de que forma ele morreu - intercedeu Frank Perkins.
        , ns todos lembramos da reao de espanto da sua cliente quando soube que Pettijohn levou um tiro.
Alex estava queimando sob o olhar sarcstico de Smilow, mas manteve a pose.
        Eu sa de Charleston com a inteno de ir para Hilton Head. Quando passei pela feira, tomei uma deciso naquele segundo de parar ali.
        Se foi to inocente, por que mentiu ento?
Primeiro para me proteger. E depois para proteger Hammond Cross. Se eles queriam a verdade, era essa. Mas a obrigao de Hammond Cross de dizer a verdade era mais 
comprometedora do que a dela, e ele continuava em silncio. Aborrecida depois do encontro que teve com Bobby na noite anterior, ela ficou acordada, pensando naquela 
situao desagradvel. Depois de deliberaes torturantes, ela concluiu que, se conseguisse manter Bobby a uma certa distncia, ficaria bem. No podiam encontrar 
nenhuma ligao dela com Lute Pettijohn. Desde que Hammond acreditasse na sua inocncia, seu paradeiro no sbado  noite continuaria sendo um segredo deles dois, 
porque ele consideraria isso irrelevante. Mas se ele se convencesse de que ela era culpada, seria obrigao dele, como promotor... Ela no quis pensar nisso. Por 
enquanto ia continuar a cooperar com Smilow at ele desistir de achar que ela estava envolvida e redirecionar sua investigao.
        Foi bobagem minha mentir, sr. Smilow. Acho que pensei que aquela viagem para Hilton Head era mais convincente do que uma parada numa feira rural.
        Por que sentiu necessidade de nos convencer?
Frank Perkins levantou a mo, mas Alex disse: -
Porque no tenho o hbito de ser interrogada pela polcia. Eu estava nervosa.
        Perdoe-me, dra. Ladd - disse Smilow. - Mas a senhora  a pessoa menos nervosa que j interroguei. Todos ns comentamos isso. A srta. Mundell, o dr. Cross 
e eu, todos concordamos que a senhora estava incrivelmente tranquila para algum sob suspeita de ter cometido um assassinato.
Sem saber ao certo se ele pretendia com isso insult-la ou se era um cumprimento, Alex no respondeu. Ficou aflita de saber que eles tinham conversado sobre ela. 
Quais teriam sido os "comentrios" de Hammond a seu respeito? Ela imaginou. Ela certamente lhe deu muito assunto para comentar...
        Voc  uma fraude, sabe?
        Como ?
Fingindo estar ofendida, ela segurou dois tufos de cabelo dele e tentou levantar sua cabea. Mas ele no deixou.
        Voc d a impresso de ser uma mulher calmssima, tranquila e reservada.
A barba por fazer no queixo dele arranhou de leve a barriga dela. -Foi o que pensei quando a salvei dos fuzileiros navais. Uma gatinha na dela. Ela deu uma risada.
        Entre uma fraude e uma gatinha, no tenho certeza do que  mais ofensivo.
        Mas na cama - continuou ele, inabalvel no seu discurso e na sua inteno - a sua participao  tudo menos contida.
         duro...
        Claro que  - gemeu ele. - Mas pode esperar. Manter a pose quando...
        Quando?
        Quando...
Ento ele encostou a lngua nela, e a pose se desfez.
        A senhora foi sozinha para essa feira?
        O qu?
Por um momento, apavorada, ela pensou que tinha gemido em voz alta, ecoando seu orgasmo. O mais terrvel  que tinha se virado sem perceber e estava olhando para 
Hammond. Os olhos dele expressavam excitao, como se tivesse acompanhado os seus pensamentos. Uma veia saltada latejava na tmpora dele. Ela virou a cabea rapidamente 
e encarou Smilow, que repetiu a pergunta:
        Foi sozinha para essa feira?
        Fui. Fui sozinha. Isso mesmo.
        E ficou sozinha a noite toda?
Olhando direto para os olhos implacveis de Rory Smilow, era difcil mentir.
        Fiquei.
        No encontrou nenhuma amiga l? No encontrou ningum?
        Como eu disse, sr. Smilow, sozinha. Ele fez uma breve pausa.
        Que horas eram quando saiu de l? Sozinha.
        Quando as atraes comearam a fechar. No me lembro da hora exata.
        Para onde foi ento?
        Irrelevante - disse Frank Perkins. - Todo esse interrogatrio  irrelevante e imprprio. No existe base para isso, portanto no importa onde Alex estava, 
nem se estava ou no sozinha. Ela no precisa dar conta do seu paradeiro na noite de sbado, como voc tambm no precisa, porque no pode coloc-la dentro da sute 
de Pettijohn no hotel. Ela j disse que nem o conhecia.
" um absurdo algum com sua impecvel reputao e posio respeitada na comunidade estar sujeita a esse interrogatrio. Um cara de Macon afirma que a viu num momento 
em que os intestinos dele estavam prestes a explodir. Voc acha sinceramente que ele  uma testemunha confivel, Smilow? Se acha, ento reduziu seus padres rgidos 
de investigao criminal. De qualquer maneira, voc j a incomodou em tudo que tinha para incomodar." O advogado fez um sinal para Alex se levantar.
        Foi um bom discurso, Frank, mas ainda no terminamos. As minhas investigaes pegaram a dra. Ladd em outra mentira que diz respeito  arma do crime. Irritado, 
mas ressabiado, Frank Perkins recuou.
         melhor ser bem consistente.
        E  - Smilow virou-se para Alex. - Dra. Ladd, a senhora nos disse ontem que no possui uma arma.
         verdade.
De uma pasta de arquivo ele tirou um formulrio de registro de posse de arma, que Alex reconheceu. Ela leu rapidamente e passou para Frank examinar.
        Comprei uma pistola para me proteger. Como o senhor pode ver pela data, foi anos atrs. No tenho mais essa arma.
        O que aconteceu com ela?
        Alex? - Frank Perkins inclinou-se para a frente, questionando Alex com os olhos.
        Est tudo bem - ela o tranquilizou. - Fora algumas aulas rudimentares, eu nunca disparei aquela pistola. Eu a guardava num coldre embaixo do banco do motorista 
do meu carro e raramente me lembrava dela. At esqueci disso quando troquei o carro por um modelo mais novo.
"Semanas depois da troca, lembrei que o revlver tinha ficado embaixo do banco. Telefonei para a revendedora e expliquei para o gerente o que tinha acontecido. Ele 
se ofereceu para procur-la. Ningum sabia dela. Supus que algum limpando o carro, ou at quem o comprou depois, tenha encontrado a arma, e pensado: Achei,  minha, 
e nunca devolveu."
         um revlver cujas balas tm o mesmo calibre das que mataram Lute Pettijohn.
         um 38, sim. No chega a ser pea de colecionador, sr. Smilow. Ele deu o sorriso frio que ela j associava a ele.
        Evidente - ele esfregou a testa como se estivesse preocupado. Mas aqui temos a prova de que a senhora possui uma arma, e uma histria, sem provas, de como 
a perdeu. A senhora foi vista na cena do crime mais ou menos na hora em que o sr. Pettijohn morreu. Ns a pegamos numa mentira sobre onde esteve aquela noite. E 
a senhora no tem um libi - ele sacudiu os ombros. - Veja do meu ponto de vista. Todos esses elementos circunstanciais esto comeando a se
encaixar.

        Para qu? 
        Para a senhora ser a nossa assassina. Alex abriu a boca para protestar, mas ficou atnita ao descobrir que no conseguia falar. Frank Perkins falou por 
ela.
        Est preparado para autu-la, Smilow?
O detetive ficou olhando um longo tempo para ela.
        Ainda no.
        Ento ns vamos embora.
Dessa vez o advogado no deixou espao para discusso. No que Alex estivesse disposta a discutir. Ela estava assustada, mas procurava no demonstrar o medo que 
sentia. Uma parte importante do seu trabalho era ler as expresses dos seus pacientes e interpretar sua linguagem corporal para poder avaliar o que eles estavam 
pensando, o que muitas vezes diferia do que estavam dizendo. Como ficavam em p, ou sentados, os movimentos frequentes contradiziam suas declaraes verbais. Alm 
disso, quando falavam, as frases que usavam e a inflexo s vezes revelavam mais que as prprias palavras. Ela aplicou a sua especialidade para entender Smilow naquele 
momento. O rosto dele podia ter sido esculpido em mrmore. Sem nenhuma concesso  diplomacia, ele olhou diretamente para ela, olhos nos olhos, e a acusou de assassinato. 
S algum com a mais absoluta confiana no que estava fazendo podia ser to resoluto e frio. Steffi Mundell, por outro lado, parecia pronta para dar pulinhos e bater 
palmas de alegria. Baseada na sua experincia de analisar as pessoas, Alex podia dizer, com certeza, que os policiais achavam que a situao estava definitivamente 
a favor deles. Mas as reaes deles no eram to importantes para ela quanto a de Hammond Cross. Num misto de antecipao e de medo, ela virou para a porta e olhou 
para ele. Um ombro estava encostado na parede. Tornozelos cruzados. Braos cruzados sobre o peito. A sobrancelha mais reta estava bem baixa, numa expresso quase 
de zanga. Para o olho destreinado, ele podia parecer confortvel, tranquilo, at despreocupado. Mas Alex percebeu na mesma hora as emoes que borbulhavam perigosamente 
perto da superfcie. Ele no estava nem um pouco relaxado como queria parecer. As sobrancelhas baixas, o maxilar contrado, eram sinais evidentes. Os braos e os 
tornozelos cruzados no eram componentes de uma pose indolente. Na verdade pareciam essenciais para Hammond manter o controle. Ele era o sonho dos diretores de elenco 
para o papel de nerd. A comear pelo nome dele, Harvey Knuckle. [Mocot, dobradia.] Era um convite explcito para o ridculo. Cabea de Knuckle. O que comeu no 
almoo hoje, Harvey, sanduche de Knuckle? Colegas de turma e depois de trabalho criaram uma variedade de trocadilhos assim e nunca tiveram piedade dele. Alm do 
nome, Harvey Knuckle tinha o physique du role. Tudo nele combinava com o esteretipo. As lentes dos culos eram grossas. Ele era branquelo e magricelo e tinha coriza 
nasal crnica. Usava gravata-borboleta todos os dias. Quando o clima ficava frio em Charleston, ele usava suteres com desenhos de losangos e gola em V por baixo 
dos palets de tweed. No vero, eram substitudos por camisas de mangas curtas e palets de algodo listrado. A nica coisa que o salvava, e que ironicamente tambm 
combinava com o esteretipo, era que Harvey era um gnio do computador. Exatamente as pessoas da prefeitura que mais faziam pouco dele ficavam  sua merc quando 
os computadores delas "bugavam". O refro mais comum era "Chame o Knuckle. Traga-o aqui." Na noite de tera-feira ele entrou no Shady Rest Lounge sacudindo seu guarda-chuva 
ensopado e examinando apreensivamente o lugar cheio de fumaa de cigarro, com olhar mope. Loretta Boothe, que o esperava, sentiu pena dele. Harvey era um bobo 
desagradvel, mas era um peixe fora d'gua no Shady Rest. Ele s relaxou um pouco quando a viu caminhando na sua direo.
        Pensei que tivesse anotado o endereo errado. Que lugar horrvel! At o nome parece o de um cemitrio!
        Obrigada por ter vindo, Harvey.  bom ver voc.
Antes que ele pudesse escapar, o que parecia que estava prestes a fazer, Loretta segurou o brao dele e o arrastou para um cubculo.
        Bem-vindo ao meu escritrio.
Ainda arisco, ele ps o guarda-chuva embaixo da mesa, ajeitou as lapelas do palet e arrumou os culos no nariz comprido e fino. Agora que seus olhos tinham se acostumado 
 escurido, e que tinha examinado melhor os outros fregueses, ele estremeceu.
        Voc no tem medo de vir aqui sozinha? A clientela parece a escria da sociedade.
        Harvey, eu sou a clientela.
Desconcertado, ele comeou a gaguejar um pedido de desculpas. Loretta deu uma risada.
        Isso no me ofende. Relaxe. Voc est precisando de um drinque.
Ela fez um sinal para o atendente do bar. Harvey pousou as mos delicadamente na mesa.
        , seria bom, obrigado. Uma dose pequena. No posso ficar muito tempo. Sou alrgico  fumaa do cigarro dos outros.
Ela pediu para ele um usque sauer e para ela uma club soda. Notou que ele ficou surpreso, e disse:
        Estou na lei seca.
         mesmo? Ouvi dizer que voc... Ouvi dizer que no estava.
        Eu me converti recentemente.
        Ora, bom para voc.
        No to bom, Harvey. Parar assim a seco  terrvel. Eu detesto. A sinceridade dela fez Harvey rir.
        Voc sempre foi muito direta, Loretta, e no mudou nada. Senti sua falta. Voc sente saudade da polcia?
        s vezes. No das pessoas. Do trabalho. Sinto falta do trabalho.
        Ainda est fazendo alguma investigao particular?
        Estou. Trabalhando como autnoma - ela hesitou um pouco.
        Foi por isso que telefonei e pedi para voc vir me encontrar aqui.
Ele gemeu.
        Eu sabia. Pensei, Harvey, voc vai se arrepender de aceitar esse convite.
        Mas no resistiu  curiosidade, no foi? - ela o provocou. - Isso, e a lembrana da minha inteligncia gil.
        Loretta, no v me pedir um favor.
        Harvey, no seja um maldito hipcrita.
Oficialmente ele era funcionrio do municpio, mas o acesso no computador tambm permitia que ele entrasse nos registros da prefeitura e do estado. Tambm tinha 
muita informao  sua disposio, era frequentemente procurado por pessoas dispostas a pagar muito bem para saber o salrio dos colegas, coisas assim. Mas Harvey 
se recusava a tomar parte de qualquer coisa antitica ou ilegal. Ele era irritantemente inflexvel em suas recusas para qualquer um que se aproximasse querendo um 
favor. Por isso, a afirmao crua de Loretta foi um choque para ele. Ele piscou rapidamente por trs das lentes grossas dos culos.
        Voc no  o menino bonzinho que quer que todo mundo acredite.
         muito grosseiro voc me lembrar da minha pequena e nica indiscrio.
        A nica da qual fiquei sabendo - disse ela intuitivamente. Ainda acho que voc puxou o tapete, por assim dizer, daquele cretino que o assediou na festa 
de Natal. Ora, vamos, Harvey, confesse. Voc no se vingou embaralhando todos os programas dele?
Ele fez um muxoxo.
        Deixa pra l - riu ela. - No o culpo por no confessar, mas seu segredo ficaria seguro comigo. Na verdade, gosto mais de voc ainda por demonstrar uma 
fraqueza. Eu me identifico com a fragilidade humana - ela apontou o dedo para ele. - Voc adora a emoo que sente quando desobedece as regras s vezes.  assim 
que se excita.
        Que terminologia horrvel! Alm do mais, no  verdade. Apesar da imagem pblica de ser abstmio, ele emborcou seu
drinque e no reclamou quando ela pediu mais uma rodada.
Quando era policial e trabalhava horas extras nos registros municipais, certa noite Loretta tinha encontrado Harvey Knuckle na sala do superior dele, examinando 
seus arquivos de finanas pessoais e bebericando da sua garrafa secreta de conhaque. O homenzinho ficou mortificado por ser pego em flagrante, fazendo exatamente 
o que jurava que nunca faria para outra pessoa. Loretta quase no conseguiu controlar o riso, e garantiu para ele que no tinha inteno nenhuma de dar com a lngua 
nos dentes, e desejou boa sorte na sua caa ao tesouro. Quando mais tarde ela foi pedir um favor para ele, Harvey a atendeu sem hesitar. A partir daquela noite, 
sempre que ela precisava de uma informao, procurava Harvey. E ele sempre colaborava. Ela passou a usar esse recurso valioso desde ento.
        Sei que posso contar com voc, Harvey.
        No vou prometer nada - disse ele com afetao. - Voc no est mais no departamento de polcia. Isso muda muito as coisas.
        Isso  muito importante - ela chegou para a frente e cochichou no ouvido dele: - Estou trabalhando no caso do assassinato de Pettijohn.
Ele ficou boquiaberto, agradeceu distrado o atendente do bar que ps a bebida dele na mesa, e deu um gole rpido.
        No me diga.
         muito sigiloso. Voc no pode mencionar uma palavra sobre isso para ningum.
        Voc sabe que pode confiar em mim - sussurrou ele para ela. Para quem est trabalhando?
        No posso dizer.
        Eles ainda no prenderam ningum, no ? E vo prender logo?
        Sinto muito, Harvey. No posso comentar nada. Violaria a confiana do meu cliente se fizesse isso.
        Compreendo que isso tem de ser confidencial.
Ele no ficou muito desapontado. A intriga alimentava seu insacivel senso de aventura. Fazer parte de um segredo, em qualquer medida, significava participar de 
um crculo interno, quando ele era excludo da maioria. A conscincia de Loretta ficava um pouco estremecida ao manipul-lo daquela maneira, mas ela se dispunha 
a fazer praticamente qualquer coisa para agradar a Hammond e, assim, compensar seu erro do passado.
        Estou precisando que voc descubra tudo que puder sobre uma dra. Alex Ladd. Inicial do meio E. Tambm tenho o nmero do seguro social dela, nmero da carteira 
de motorista etc. E tal. Ela  uma psicloga com consultrio aqui em Charleston.
        Uma analista?  essa a ligao dela com Pettijohn?
        No posso dizer.
        Loretta - choramingou ele.
        Porque no sei. Juro! At agora tudo que sei sobre ela so esses dados comuns. Restituies de imposto de renda, extratos bancrios, cartes de crdito. 
Nada fora de esquadro em nenhum deles. A casa em que mora  prpria, no tem dvidas maiores. Ningum a est processando. No recebeu nenhuma multa de trnsito. 
As transcries da faculdade e ps-graduao so impressionantes. Foi uma excelente aluna e recebeu convites para trabalhar em diversas clnicas. Mas ela preferiu 
montar seu prprio consultrio.
        Em comeo de carreira? Ela deve ter dinheiro.
        Ela herdou uma bolada dos pais adotivos, um tal de dr. Marion Ladd, clnico-geral em Nashville. A mulher dele, Cynthia, era professora e virou dona de casa. 
No tinham outros filhos. Morreram alguns anos atrs numa queda de avio numa viagem para esquiar em Utah.
        Suspeitaram de jogo sujo?
Loretta escondeu o sorriso bebendo um gole da sua club soda. Harvey estava pegando o esprito do projeto.
        No.
        Humm. Est me parecendo que voc j tem muita coisa. Loretta balanou a cabea.
        No sei nada sobre a vida dela antes disso. Ela s foi adotada quando tinha quinze anos.
        Tudo isso?
        Estranhamente, parece que foi a que a vida dela comeou. As circunstncias da adoo e da vida dela antes so um buraco negro. No existe informao e 
no tive sorte quando procurei saber de alguma coisa.
        Ah - disse Harvey, tomando mais um rpido gole do usque.
        Ela fez o segundo grau numa escola particular. As pessoas com quem falei l, e percorri toda a cadeia de comando, foram simpticas e educadas, mas lacnicas. 
Nem se comprometeram a mandar um anurio do ano em que ela se formou. Muito preocupadas em proteger a privacidade dos Ladd, no quiseram comentar nada sobre eles.
"De acordo com tudo que li sobre eles, eram muito respeitados e irrepreensveis. Cynthia Ladd recebeu o prmio de Professora do Ano antes de largar a profisso. 
Os pacientes do dr. Ladd lamentaram muito sua morte. Ele era dicono da igreja. Ela... Ah, deixa pra l, voc j entendeu. Nenhum escndalo, nem nada parecido."
        Ento, o que posso fazer?
        Entrar nos registros do juizado de menores. Ele gemeu teatralmente mais uma vez.
        Temia que voc dissesse isso.
        No deve haver nada l. S quero que voc d uma espiada.
        Uma espiada pode significar a minha demisso. Voc sabe como  o Servio de Proteo do Menor - choramingou ele. - Eles guardam aqueles registros como se 
fossem relquias sagradas.  perigoso mexer com eles.
        No para um gnio que no vai ser pego. Preciso dos registros do Tennessee tambm.
        Pode esquecer!
        Sei que voc pode - disse ela, estendendo o brao por cima da mesa para dar um tapinha na mo dele.
        Se o Servio de Proteo do Menor descobrir o que estou fazendo, posso ter muitos problemas.
        Tenho toda confiana em voc, Harvey.
Ele no parava de morder o lbio, mas Loretta percebeu que sentia-se atrado pelo desafio que a misso representava.
        Concordo em tentar, mas s isso. Vou tentar. Alm do mais, uma coisa to delicada assim no pode ser feita s pressas.
        Eu entendo. Leve o tempo que quiser. Mas apresse-se - ela terminou sua club soda e arrotou baixinho. - E Harvey, enquanto estiver fazendo isso...
Ele fez uma careta.
        Ai, ai, ai.
        Quero que voc verifique uma outra coisa para mim.
        Smilow.
-Voc tem de falar mais alto - disse Stefi para ele. - Estou no meu celular.
        E eu tambm. Um cara do laboratrio acabou de ligar. - Boa notcia?
        Para todo mundo, menos para a dra. Ladd.
        O que ? O que ? Diga logo!
        Lembra da partcula no identificada que John Madison tirou do Pettijohn?
        Voc me falou disso.
        Cravo.
        O tempero?
        Quando foi a ltima vez que voc viu um cravo?
        Na Pscoa. No presunto que a minha me fez.
        Vi alguns ontem de manh, quando estive na casa de Alex Ladd. Havia um pote de vidro com laranjas na mesa da entrada. Com cravos espetados nelas.
        Ns a pegamos!
        Ainda no, mas estamos chegando mais perto.
        E quanto ao fio de cabelo?
         humano, no  de Pettijohn. Mas no temos outro para comparar.
        Ainda no.
Ele deu uma risadinha.
        Durma bem, Steffi.
        Espere a, voc vai ligar para o Hammond para atualiz-lo?
        Voc vai?
        At amanh - disse ela depois de uma pausa.
Hammond pensou seriamente em no atender o telefone. Mudou de ideia segundos antes de a secretria eletrnica atender. E lamentou na mesma hora.
        Estava comeando a pensar que voc no ia responder.
O tom de voz do pai dele transformou a frase numa reprimenda.
        Eu estava no chuveiro - mentiu Hammond. - O que houve?
        Estou no meu carro, voltando para casa. Acabei de deixar sua me no jogo de bridge. No quis que ela dirigisse com essa chuva.
Os pais dele tinham um casamento  moda antiga. Os papis eram tradicionais, claramente definidos, e as fronteiras sempre ntidas. O pai sempre tomava as decises 
mais importantes sozinho. Jamais passou pela cabea de Amlia Cross desafiar esse esquema. Hammond no conseguia entender a devoo cega que a me tinha por um sistema 
arcaico que a privava de sua individualidade, mas ela parecia perfeitamente satisfeita com isso. Ele nunca provocaria o pai ou magoaria a me apontando as iniquidades 
do relacionamento deles. Alm disso, sua opinio no tinha importncia. Aquilo j funcionava para eles havia mais de quarenta anos.
        Como vo as coisas no caso Pettijohn?
        Bem - respondeu Hammond. Preston deu uma risadinha.
        Ser que d para elaborar um pouco?
        Por qu?
        Estou curioso. Joguei nove partidas de golfe com o seu patro esta tarde antes de comear a chover. Ele disse que Smilow interrogou uma mulher suspeita 
duas vezes, e que voc estava presente nas duas.
O pai dele estava mais que simplesmente curioso. Ele queria saber se o filho estava sendo competente.
        Prefiro no tratar disso num celular.
        No seja bobo. Quero saber o que est acontecendo.
Sem querer parecer que estava na defensiva, Hammond contou os pontos altos do interrogatrio de Alex.
        O advogado dela...
        Frank Perkins. Um bom homem.
Preston estava bem-informado dos detalhes. Hammond sabia que no ia violar sigilo nenhum porque j tinha sido violado. A amizade de Preston com Monroe Mason datava 
dos tempos da escola primria. Se tinham acertado nove buracos de golfe hoje, Mason j podia ter divulgado os detalhes, e sobraria pouca coisa para Hammond revelar.
        Perkins acha que no temos nada contra ela.
        O que voc acha?
Hammond escolheu as palavras com todo o cuidado, sem saber quando alguma coisa que dissesse poderia voltar para assombr-lo ou compromet-lo. Diferentemente de Alex, 
ele no era um bom mentiroso. No tinha o hbito de mentir, e desprezava at a menor lorota. No entanto, j tinha cometido duas baitas mentiras por omisso. Ele 
descobriu que podia mentir para o pai com relativa facilidade.
        Ela foi pega em duas mentiras, mas nas mos hbeis de Frank elas provavelmente sero ignoradas.
        Por qu?
        Porque o nosso lado deixou de apresentar provas concretas para associ-la ao crime.
        Mason disse que ela mentiu sobre onde estava aquela noite.
        Mason no esqueceu de nada, no ? - sussurrou Hammond.
        O qu?
        Nada.
        Por que ela mentiria se no tivesse nada para esconder? Hammond disse, com vileza e arrogncia:
        Talvez ela tivesse um encontro secreto aquela noite e teve de mentir para proteger o homem com que estava.
        Pode ser. De qualquer maneira, ela mentiu, e Smilow descobriu no ato. Sei que voc no gosta dele, mas tem de admitir que  um excelente detetive.
        No posso negar isso.
        Ele  formado em direito, sabia?
Hammond reconheceu que era uma daquelas declaraes que seu pai acertava rpido na cara. Servia para distrair voc do direto no queixo que vinha em seguida.
        Espero que ele nunca resolva mudar do departamento de polcia para a procuradoria municipal. Voc pode ficar sem emprego, filho.
Hammond cerrou os dentes para evitar dizer as trs palavras que lhe vieram  cabea.
        Eu disse para a sua me...
        Voc comentou o caso com a mame?
        E por que no?
        Porque... porque no  justo.
        Para quem?
        Para todo mundo envolvido nisso. Para a polcia, a procuradoria, a suspeita. E se essa mulher for inocente, pai? A reputao dela ser prejudicada por nada.
        Por que voc est to irritado, Hammond?
        Espero que mame no espalhe no seu clube de bridge todos os detalhes picantes do caso.
        Voc est exagerando.
Talvez estivesse, mas quanto mais tempo durava aquela conversa ao telefone mais ele ficava irritado. Principalmente porque no queria que seu pai o monitorasse a 
cada passo daquele caso. Um julgamento de assassinato daquela magnitude consumia a vida de um advogado. As horas viravam dias, os dias, semanas, s vezes, meses. 
Ele daria conta. Ia adorar cuidar do caso. Mas no aceitava ser criticado no fim de cada dia. Isso seria uma desmoralizao e ele comearia a modificar todas as 
estratgias.
        Pai, sei o que estou fazendo.
        Ningum nunca questionou...
        Besteira. Voc questiona a minha capacidade toda vez que consulta Mason e pede um relatrio para ele. Se ele no estivesse satisfeito com o trabalho que 
tenho feito, no teria me designado para este caso. Ele certamente no me trataria como sucessor dele.
        Tudo que voc disse  verdade - disse Preston com um controle de enlouquecer qualquer um. - E mais um motivo para eu temer que voc possa estragar tudo.
        E por que acha que eu posso estragar tudo?
        Soube que a suspeita  uma bela mulher.
Hammond no tinha previsto essa. Se fosse um direto no queixo de verdade, seria um nocaute e ele estaria na lona. Cambaleou com o impacto. Cem por cento do tempo 
o pai parecia saber onde bater, onde ele sentiria mais.
        Essa foi a coisa mais ofensiva que voc j me disse.
        Oua, Hammond, eu...
        No, voc  que vai me ouvir. Eu farei o meu trabalho. Se esse caso merecer a pena de morte,  isso que vou pedir.
        Vai mesmo?
        Claro que vou. Assim como vou indici-lo se a minha investigao mandar.
Depois de uma breve pausa, Preston disse em voz baixa:
        No blefe comigo, Hammond.
        Pague para ver, pai. Veja se estou blefando.
        Ento faa isso. Mas no deixe de examinar seus motivos primeiro.
        O que quer dizer?
        Quero dizer que voc precisa ter certeza de ter provas concretas, e no apenas uma implicncia medocre. No cause perda de tempo, de energia nem constrangimento 
para ns dois s porque est furioso comigo, porque sou duro com voc. Eu nunca seria condenado. Com esse seu despeito por mim voc s estaria prejudicando a voc 
mesmo.
Os dedos de Hammond tinham ficado brancos e doam de tanto apertar o telefone.
        Seu telefone est falhando. Adeus.
Ignorando a chuva, Alex resolveu sair para dar uma corrida. Sob o temporal, suas pernas corriam num ritmo constante. O respeito ao regime de exerccio parecia essencial 
numa hora em que o resto da sua vida havia se precipitado no caos. Alm disso, depois de atender pacientes com novas consultas marcadas at tarde da noite, era uma 
vlvula de escape para a sobrecarga cerebral. Clareava sua cabea e permitia que a sua mente vagasse livremente. Ela se preocupava com seus pacientes. Se e quando 
viesse a pblico que era suspeita num caso de assassinato, o que aconteceria com eles? O que eles pensariam dela? Mudaria a opinio que tinham? Naturalmente que 
sim. No seria nada realista esperar que eles ignorassem seu envolvimento numa investigao de assassinato.
Talvez devesse comear, j no dia seguinte, a tentar distribu-los entre os terapeutas interinos, para os tratamentos no terem de ser interrompidos se ela fosse 
presa. Por outro lado, podia nem ter o problema de encontrar substitutos. Quando os pacientes descobrissem que a psicloga deles tinha sido acusada de assassinato, 
provavelmente abandonariam a terapia aos bandos. Ela passou por um carro estacionado a meio quarteiro da casa dela e notou que as janelas estavam embaadas, o que 
indicava que havia algum l dentro. O motor estava ligado, mas as lanternas apagadas e os limpadores de pra-brisa desligados. Ela correu mais uns vinte metros 
antes de olhar para trs. Agora as luzes do carro estavam acesas. Ele estava entrando numa rua lateral.
Provavelmente no era nada, pensou ela. Estava apenas sendo paranica. Mas a apreenso persistiu. Ser que algum a vigiava? A polcia, por exemplo. Smilow podia 
ter mandado vigi-la. No seria um procedimento padro? Ou ento Bobby poderia estar observando seus movimentos para garantir que ela no fugisse com o dinheiro 
"dele". O carro que tinha visto no era o conversvel dele, mas Bobby era engenhoso. Havia outra possibilidade. Algo muito mais perigoso. Uma possibilidade que ela 
no queria nem imaginar, mas sabia que seria tolice no lev-la em conta. Tinha descoberto que poderia ser alvo de interesse do assassino de Lute Pettijohn. Se a 
notcia de que ela tinha sido identificada na cena do crime se espalhasse, o matador teria medo de que ela pudesse ter testemunhado o homicdio. Aquela ideia fez 
Alex estremecer, e no s por temer o assassino. A vida dela no momento estava fora de controle. Era isso que ela mais temia, essa perda de controle. De certa forma, 
era uma morte mais real do que a prpria morte. Estar viva mas no ter opes nem livrearbtrio podia ser ainda pior do que estar morta. Vinte anos atrs ela havia 
determinado que sua vida nunca mais seria administrada por outra pessoa. Tinha levado quase esse tempo todo para se convencer de que finalmente estava livre dos 
grilhes que a prendiam, que seria a nica responsvel pelo seu destino.
Ento Bobby reapareceu e tudo mudou. Agora parecia que todos  sua volta interferiam na sua vida e que ela era impotente para resolver qualquer coisa. Depois de 
correr meia hora ela entrou em casa pela porta do ptio. Tirou a roupa encharcada na lavanderia e se enrolou numa toalha para andar pela casa. Tinha morado sozinha 
toda sua vida adulta, por isso quando estava em casa sem ningum nunca sentia medo. A solido era mais assustadora para ela do que a ameaa de um intruso. No sentia 
necessidade de se proteger de ladres, mas procurava se defender do vazio que sentia nos feriados, quando at a companhia de bons amigos no compensava a falta de 
uma famlia. A solido no era aconchegante nem quando estava sentada diante da lareira numa noite fria. Quando despertava assustada no meio da noite, no era por 
causa de rudos imaginrios, e sim por causa do silncio concreto demais de viver sozinha. O nico medo que ela sentia por viver sozinha era de ficar sozinha pelo 
resto da vida. Mas aquela noite ela se sentiu meio ressabiada quando acendeu as luzes do andar trreo e comeou a subir a escada. As tbuas rangiam sob seus ps. 
Estava acostumada com os protestos da madeira velha. Em geral era um som simptico, mas aquela noite parecia ameaador. No segundo andar, ela parou para espiar a 
escada escura. O vestbulo e as salas l embaixo estavam vazios e silenciosos, exatamente como os tinha deixado quando saiu de casa para correr. Prosseguiu at seu 
quarto, culpando a chuva pelo nervosismo. Depois de dias de calor abafado, era um alvio, mas chegava a ser demais. Caa a cntaros, batia com fora no vidro das 
janelas e martelava o telhado. Escorria pelas calhas e jorrava das biqueiras. Abriu a porta da varamda do segundo andar e saiu para arrastar um vaso de gardnias 
para baixo da proteo da projeo do telhado. L embaixo, no centro do jardim murado, a fonte de concreto estava transbordando. Ptalas de flores tinham sido arrancadas 
e a vegetao parecia nua e desamparada. Voltou para dentro da casa, trancou a porta e foi de janela em janela para fechar as venezianas. O temporal era suficiente 
para deixar qualquer um nervoso. A Battery estava deserta aquela noite. Sem os habituais corredores, ciclistas e pessoas passeando com seus ces, ela se sentira 
isolada e vulnervel. As enormes rvores dos jardins White Point tinham parecido sombrias e ameaadoras, e normalmente ela considerava seus galhos baixos e grossos 
uma espcie de proteo. No banheiro, ela estendeu a toalha na barra de bronze e se abaixou ao lado da banheira para abrir as torneiras. A gua quente levou algum 
tempo para percorrer os canos, por isso ela aproveitou esse tempo para escovar os dentes. Quando endireitou o corpo diante da pia, viu um reflexo no espelho do armarinho 
de remdios e deu meia-volta. Era seu roupo pendurado num gancho atrs da porta. Com os joelhos bambos, ela se apoiou na pia e pensou que tinha de parar com aquela 
bobagem. Ela no era assim, de ficar assustada com sombras. O que estava acontecendo com ela? Bobby, para citar uma coisa. Maldito. Maldito!Tolice ou no, ela se 
permitiu as mesmas fraquezas que teria aconselhado um paciente a permitir. Quando o mundo que construmos com tanto cuidado comea a desmoronar, temos o direito 
de ter algumas reaes naturais, inclusive raiva e amargura, at fria, e certamente um medo infantil. Ela lembrava de ter sentido medo quando criana. O bicho-papo 
no chegava aos ps de Bobby Trimble. Ele tinha a capacidade de destruir vidas. Tinha quase destrudo a dela uma vez, e estava ameaando destru-la novamente. Era 
por isso que tinha medo dele, agora mais que antes. Era por isso que se assustava com roupes, era por isso que mentia, por isso que fazia coisas irresponsveis 
como envolver um homem decente como Hammond Cross em algo sujo. Mas s no incio, Hammond. S no comeo. Ela entrou na banheira e fechou a cortina. Ficou bastante 
tempo parada embaixo do chuveiro, com a cabea abaixada, deixando a gua quente tamborilar no seu crnio enquanto o vapor subia  sua volta. Uma noite de sbado 
em Harbour Town tinha parecido uma mentira bem segura. Era uma distncia de Charleston que dava para acreditar com facilidade, num lugar apinhado de gente em que 
seria plausvel ningum se lembrar de t-la visto. Que azar! O que tinha dito para eles sobre o revlver era verdade, mas havia pouca chance de acreditarem naquela 
histria agora. Por ter sido pega em uma mentira, tudo que dissesse depois pareceria falso. Steffi Mundell queria que ela fosse culpada. A promotora odiava as outras 
mulheres. Alex tinha descoberto isso quando se viram pela primeira vez. Seus estudos incluam personalidades como a de Mundell. Era ambiciosa, astuta e competitiva 
ao extremo. Indivduos como Steffi raramente eram felizes porque nunca se satisfaziam com os outros, mas especialmente com eles mesmos. As expectativas nunca eram 
realizadas porque eles estavam sempre elevando as barreiras. A satisfao era inatingvel. Steffi Mundell era megalomanaca ao extremo e em detrimento dela mesma. 
Era mais difcil compreender Rory Smilow. Ele era frio, e Alex no tinha dvida de que podia ser cruel. Mas tambm detectava nele um demnio particular com quem 
ele estava sempre lutando. O homem no conhecia um minuto de paz interior. Sua vlvula de escape era atormentar os outros para sofrerem tanto quanto ele. Esse centro 
de descontentamento deixava Smilow vulnervel, mas ele o combatia violentamente e isso o tornava perigoso para os seus inimigos, como os suspeitos de assassinato. 
Entre os dois seria difcil escolher quem ela mais temia. E havia o Hammond. Os outros achavam que ela era uma assassina. A opinio que ele tinha dela devia ser 
bem mais baixa que isso. Mas no podia ficar pensando nele, seno acabaria paralisada pelo desalento e pelo remorso. No tinha nem tempo nem energia de sobra para 
se dedicar a lamentar o que poderia ter sido se tivessem se conhecido em outro lugar, numa outra hora. Se existia um homem com chance de toc-la... tocar sua mente 
e seu corao, aquele nicho do esprito onde vivia a verdadeira Alex Ladd... podia ser ele. Ele podia ser o homem que acabaria com a solido e o isolamento que Alex 
impunha a ela mesma, que preencheria o vazio, povoaria o silncio, compartilharia a vida com ela. Mas ideias romnticas eram um luxo que ela no podia ter. Sua prioridade 
devia ser superar aquela provao com o seu trabalho, sua reputao e sua vida intactas. Ela espremeu um gel perfumado numa esponja de banho e usou a espuma por 
todo o corpo. Raspou as pernas. Lavou o cabelo. Ficou enxaguando o xampu um longo tempo, deixando a gua quente amaciar seus msculos, mesmo sem aliviar sua angstia. 
Depois fechou as torneiras e passou as mos pelo corpo para tirar o excesso de gua, e abriu a cortina. Alex nunca gritava, mas ento ela gritou. Bobby estava de 
volta no jogo. Considerava apenas um revs temporrio ainda no ter recebido o dinheiro de Alex. Ela ia pagar. Tinha muito a perder. Mas nesse nterim ele no estava 
desprovido de fundos. Graas s duas estudantes com quem tinha passado a noite, estava algumas centenas de dlares mais rico. Enquanto as duas jaziam roncando na 
cama dele, Bobby juntou suas coisas e saiu de fininho. A experincia devia servir de lio para elas. Ele se sentia quase altrusta. Encontrar novas acomodaes 
era uma inconvenincia menor comparada com a recompensa. Assim que se instalou em outro hotel do outro lado da cidade, num quarto com vista para o rio, ele pediu 
um enorme caf da manh com ovos, presunto, cereais e molho tasso, uma pequena pilha de panquecas e uma poro extra de bolinhos de chocolate, que no estava com 
muita vontade de comer mas que tinha pedido por estar muito animado. A prxima coisa na agenda dele foi sair para fazer compras. Roupas novas no eram extravagncia 
nenhuma. Eram despesas de negcios. Se pagasse imposto de renda, poderia contar seu guarda-roupa como uma deduo. Na sua linha de trabalho, precisava estar bem-vestido. 
Havia passado o resto da tarde  beira da piscina do hotel, cuidando do seu bronzeado. E agora, com seu novo terno de linho cor creme e uma camisa de seda azul-rei 
por baixo, ele entrou num bar muito bem recomendado pelo motorista de txi.
        Onde encontro ao por aqui?
        Ao? - o motorista avaliou Bobby pelo espelho retrovisor e disse, com a fala arrastada: - Est  procura de garotas, no , camarada?
Lisonjeado, Bobby deu um sorriso.
        Conheo o lugar perfeito.
No instante em que Bobby entrou no bar, ele percebeu que o motorista conhecia bem o riscado. Era um lugar para escolhas de primeira. A msica era altssima. As luzes 
piscavam. Os danarinos transpiravam. As garonetes se afobavam para atender os pedidos de bebida das pessoas numa busca desesperada de divertimento. Muitas mulheres 
sozinhas. Jogo limpo. Ele precisou de duas doses de bebida com gua antes de avistar seu alvo. Ela estava sentada a uma mesa, sozinha. Ningum a chamava para danar. 
Ela sorria muito, para qualquer um que passasse por perto, prova de que estava insegura, sabia que estava se expondo porque precisava de algum com quem conversar. 
O melhor de tudo  que tinha olhado para ele diversas vezes, enquanto ele fingia no notar. Ento, ele agraciou-a caridosamente retribuindo o sorriso. Nervosa, ela 
desviou o olhar. Levou a mo  garganta e ficou mexendo nas contas prateadas da gola da blusa.
        Bingo! - disse Bobby para si mesmo enquanto pagava sua conta no bar.
Ele chegou por trs dela, por isso ela no o viu at ele falar.
        com licena. Tem algum sentado aqui?
Ela virou a cabea de estalo. Revelou o prprio prazer arregalando os olhos e depois tentou disfarar, jogando charme.
        Agora tem.
Ele sorriu e sentou com ela  pequena mesa, batendo o joelho no dela, de propsito, e depois pedindo desculpas. Perguntou se podia lhe oferecer um drinque e ela 
disse que seria muita gentileza dele. O nome dela era Ellen Rogers. Era de Indiana, e aquela era a primeira vez que visitava o Sul Profundo. Estava adorando tudo, 
menos o calor, mas at o clima tinha um certo charme. A comida era divina. Ela reclamou que tinha engordado dois quilos desde que chegara em Charleston. Ela poderia 
muito bem perder uns oito, mas Bobby disse galantemente:
        Voc certamente no precisa se preocupar com o peso. Quero dizer, est com um corpo timo.
Ela deu um tapinha na mo dele e retrucou:
        Fao muito exerccio no meu trabalho.
        Voc  professora de aerbica? Treinadora pessoal?
        Eu? Deus do cu, no! Sou professora primria. Dou aulas de gramtica e de leitura. Devo caminhar uns vinte quilmetros por dia de um lado para outro naqueles 
corredores.
Ele era do Sul, ela observou corretamente. Dava para perceber pelo sotaque arrastado e pelo desenho meldico do seu jeito de falar. E os sulistas so to simpticos...
Sorrindo, ele inclinou o corpo para perto dela.
        Ns procuramos ser, madame.
Ele provou isso convidando-a para danar. Depois de rodopiar com ela algumas msicas, o DJ ps uma msica lenta. Bobby puxoua para junto dele e se desculpou por 
estar todo suado. Ela disse que no se importava. Suor era masculino. No fim daquela dana, a mo dele alisava a bunda dela e a srta. Ellen Rogers no tinha dvida 
nenhuma de que ele estava excitado. Quando ele a soltou, Ellen tinha as mas do rosto esfogueadas e estava muito excitada.
        Eu sinto muito... - gaguejou ele. - ... Deus, isso  embaraoso. Eu no tenho uma mulher nos braos desde... Se quiser que eu a deixe em paz, eu...
        Voc no precisa se desculpar - disse a srta. Rogers gentilmente.
         natural. No d para controlar muito bem.
        No, eu no poderia. No segurando seu corpo junto ao meu daquele jeito.
Ela segurou a mo dele e levou-o de volta para a mesa. Foi ela que pediu outra rodada de drinques. Enquanto bebiam, Bobby contou sua vida para ela.
        Ela morreu de cncer. H dois anos, em outubro. Ela ficou com os olhos cheios de lgrimas.
        Oh, que terrvel para voc!
S recentemente ele tinha comeado a sair e a curtir a vida de novo, Bobby contou para ela.
        No incio eu achava bom no termos filhos. Agora gostaria de ter tido.  muito solitrio, sabe, no ter ningum no mundo. As pessoas no foram feitas para 
viver sozinhas.  contra a nossa natureza.
Ela esticou a mo por baixo da mesa, apertou com simpatia a coxa dele e deixou a mo l.
Cristo, eu sou bom mesmo!, pensou Bobby.
Hammond estava parado do outro lado da cortina da banheira.
        Que susto voc me deu! - exclamou Alex, ofegante. - O que est fazendo aqui? Como foi que entrou? H quanto tempo est a?
        Voc tambm me assustou.
        Eu? Como?
        Descobri por que voc est mentindo. Est com medo do assassino de Pettijohn.
        Ocorreu-me que posso estar correndo perigo, sim.
        Eu queria avisar voc e no confio no telefone. Ela olhou para o quarto.
        Grampeado?
        Acho que Smilow seria capaz disso. Mesmo sem uma ordem judicial.
        Acho que ele pode estar me vigiando.
        Se est, eu no estou sabendo nada. De qualquer maneira, escalei o muro dos fundos. No seria bom se me vissem na sua casa, no ? Fiquei batendo na porta 
da cozinha uns cinco minutos. Dava para ver a luz acesa no segundo andar, mas como voc no atendeu, minha imaginao funcionou  toda. Achei que talvez fosse tarde 
demais, que alguma coisa terrvel... - ele parou de falar. - Voc est tremendo!
        Estou com frio.
Ele pegou uma toalha, enrolou-a nela, fechou-a na frente mas no a soltou.
        Por que acha que esto vigiando voc?
        Vi um carro suspeito enquanto estava correndo. Motor ligado. Faris apagados.
        Voc foi correr agora  noite? Com esse tempo? Sozinha?
        Estou sempre sozinha. Mas sempre tomo cuidado. Ele sorriu um pouco.
        Desculpe t-la assustado.
        Eu j estava apavorada.
        Eu no podia tocar a campainha na sua porta da frente, podia? 265
        Acho que no.
        Voc me deixaria entrar?
        Eu no sei - e depois ela disse, mais calma: - Deixaria.
Ele ficou olhando para uma gotinha de gua que brilhava na pequena depresso na base do pescoo de Alex. Largou a toalha que a envolvia e se afastou dela, um movimento 
que merecia uma medalha de honra ao mrito.
        Precisamos conversar - disse ele com a voz rouca de desejo contido.
        Saio j.
Como um boneco, ele andou pelo quarto, sem ver nada, mas observando a marca de Alex em tudo. Cada item no quarto era um reflexo dela. Quando Alex saiu do banheiro, 
estava de roupo, do tipo antiquado e prtico, cruzado na frente e com uma faixa na cintura, opaco como um avental de chumbo, mas mesmo assim muito sexy, porque 
ela estava nua e molhada por baixo.
        A sua mo est sangrando.
Ele olhou para o corte no polegar, que no havia notado at o momento.
        Acho que me machuquei quando arrombei sua fechadura.
        Precisa de um curativo?
        No, tudo bem.
A ltima coisa que ele queria era conversar. Desejava tocar nela. Queria abrir o roupo e apertar o rosto na maciez dela, saborear sua pele, respirar seu perfume. 
Todo o corpo dele pulsava com desejo fsico, mas ele resistiu. No era responsvel pelo sbado  noite. Mas sim por tudo que tinha acontecido depois.
        Voc sabia meu nome o tempo todo, no sabia? Sabia quem eu era.
        Sabia.
Ele balanou a cabea bem devagar, assimilando o que j sabia mas no queria aceitar.
        Eu no quero ter essa conversa.
        Por qu...?
        Porque sei que vai mentir para mim. E vou ficar furioso. No quero me zangar com voc.
        Eu tambm no quero que voc fique zangado comigo. Ento talvez seja melhor no conversarmos mesmo.
        Mas tem uma coisa que gostaria de ouvir voc dizer. Mesmo que seja mentira.
        O que ?
        Gostaria de ouvir voc dizer que sbado  noite... que nunca foi assim para voc antes.
Ela inclinou um pouco a cabea.
        No s a paixo - acrescentou ele. - O... Tudo que aconteceu. Ele viu Alex engolir em seco, desalojando a gota de gua que havia
notado antes. Ela escorreu por dentro da gola do roupo. A voz dela estava rouca de emoo.
        Nunca foi assim para mim antes.
Era isso que ele esperava ouvir, mas se a expresso dele mudou foi para ficar mais triste.
        Querendo ou no, ns temos de conversar.
        No temos, no.
        Temos, sim. Quando voc e eu chegamos ao pavilho de dana mais ou menos ao mesmo tempo, no foi por acaso, foi?
Ela hesitou alguns segundos, depois balanou a cabea indicando que no.
        Como, em nome de Deus, voc sabia que eu ia para l? Nem eu mesmo sabia.
        Por favor, no faa mais perguntas.
        Voc esteve com Lute Pettijohn mais cedo aquela tarde?
        No posso falar sobre isso com voc.
        Droga, responda.
        No posso.
         uma pergunta simples.
Com uma risada sem graa, ela balanou a cabea.
        No  nada simples.
        Ento responda com uma explicao.
        Se eu fizesse isso, ia ficar vulnervel demais.
        Vulnervel  uma palavra estranha que voc est usando, pois parece que sou eu que estou boiando.
        Voc no  suspeito de ter cometido um assassinato.
        No, mas voc no concorda que eu  que estou numa situao constrangedora? Estou processando um caso de assassinato do cidado mais conhecido da nossa 
cidade, que acontece que tambm era casado com a minha melhor amiga.
        Sua melhor amiga?
        Davee Burton, agora viva de Lute Pettijohn. Somos amigos a nossa vida toda. Ela fez campanha para eu ser designado para esse caso. Muita gente est contando 
comigo, pessoas que no gostaria de decepcionar. Voc tem alguma ideia do que aconteceria com a minha reputao, minha carreira, meu futuro, se algum descobrisse 
que eu estive aqui com voc esta noite?
        Foi por isso que fui embora domingo de manh. - Inquieta, ela comeou a andar pelo quarto. - Eu queria continuar annima. No queria que voc ficasse dividido, 
do jeito que est agora.
        Domingo de manh era tarde demais para preocupao ou circunspeco. Se estava to preocupada em preservar a minha reputao, no devia ter me escolhido, 
para comear.
Ela virou-se e olhou para ele com incredulidade estampada no rosto.
        Perdoe-me, mas a sua memria est um pouco fora de esquadro. Foi voc que me escolheu.
        , est certo - resmungou ele.
        Quem tentou ir embora? Duas vezes. Tentei ir embora duas vezes e nas duas vezes voc veio atrs de mim, implorando para eu ficar com voc mais um pouco. 
Quem seguiu quem depois da feira? Quem parou e...
        Est bem - disse ele, cortando o ar com as mos - Mas aquela histria de mulher difcil  a maior isca que existe, e as mulheres conhecem essa ttica desde 
a criao do mundo. Voc sabia exatamente o que estava fazendo.
        , sabia - exclamou ela elevando a voz. Ento juntou as mos na frente do corpo e examinou o rosto dele com lgrimas nos olhos. , eu sabia o que estava 
fazendo. E voc tem toda a razo. No incio eu s queria... fazer contato com voc.
        Por qu?
        Segurana.
        Em outras palavras, para estabelecer um libi.
Ela baixou os olhos.
        Eu no sabia que ia gostar de voc - disse ela baixinho. - No tinha contado com a qumica entre ns. Comecei a me sentir mal de o estar usando. Por isso 
tentei fugir de voc. No queria que voc se comprometesse por causa de uma associao, mesmo breve, comigo.
"Mas voc me procurou. Voc me beijou. Depois disso... - ela ergueu os olhos para ele. - Depois daquele beijo, meus motivos iniciais para conhec-lo perderam a importncia. 
Naquele ponto eu s queria ficar com voc. Pode acreditar ou no.
        Por que voc precisava de um libi?
        Voc sabe que eu no matei Pettijohn. Voc disse isso no elevador.
        Certo. E eu repito, por que precisava de um libi?
        No me pergunte, por favor.
        Pode dizer.
        No posso.
        Por que no?
        Porque no quero que voc pense... - ela parou de falar e respirou fundo. - Simplesmente no posso,  s isso.
        Tem alguma coisa a ver com o homem?
Ela se assustou com a pergunta. Piscou rpido.
        Que homem?
        Eu segui voc at aqui domingo  noite. Vi voc com um homem num Mercedes conversvel, mais ou menos doze horas depois de sair da minha cama.
        Oh. Domingo  noite? Aquele era... um velho amigo. Da faculdade. Ele veio a Charleston a negcios. Ele telefonou e me convidou para tomar um drinque.
        Voc est mentindo.
        Por que voc no acredita em mim?
        Porque parte do meu trabalho  detectar mentiras e mentirosos, e voc est mentindo! Ela endireitou o corpo e cruzou os braos.
        Ns devamos deixar isso ser o fim. Agora. Esta noite. Essa situao  impossvel. A sua carreira est em jogo, no quero a responsabilidade de destru-la. 
E com certeza no quero ficar com algum que acha que sou uma mentirosa.
        Quem... era... ele?
        O que importa quem era o meu amigo, se os seus amigos, Steffi e Smilow, esto loucos para me acusar de assassinato?
        Por que se admira de eu no acreditar em voc se continua a no querer responder s perguntas mais simples?
        No so perguntas simples - gritou ela. - Voc no tem ideia de como so difceis. Elas desenterram coisas que eu prefiro esquecer, que tentei esquecer, 
que tm assombrado... - Ela parou, percebendo que ia revelar coisas demais. -Voc no confia em mim.  mais um motivo para sair agora e nunca mais voltar. Nunca 
mais.
        timo.
        Enquanto estvamos na cama...
        Foi maravilhoso.
        Mas se voc no confia em mim...
        Eu confio.
        Ento...
        Voc transou com Pettijohn? As feies dela despencaram.
        O qu?
        Vocs eram amantes?
Hammond avanou para cima dela e a encurralou contra a parede. Era aquilo que realmente o incomodava. Era aquilo que o tinha feito agir como se tivesse perdido o 
juzo, dizer loucuras, delirar e se comportar com total desprezo pela sua carreira e tudo o mais que antes achava importante. O desejo de conhecer a resposta para 
essa pergunta era to imperativo que o cauteloso, cuidadoso e controlado Hammond Cross vociferava feito um luntico.
        Voc foi amante de Lute Pettijohn?
        No! - e a voz dela diminuiu, de um berro para um sussurro. Eu juro.
        Voc o matou? - Ele apertou os ombros dela com as mos e chegou o rosto a poucos centmetros do dela. - Diga a verdade dessa vez e eu perdoo todas as outras 
mentiras. Voc matou Lute Pettijohn?
Ela balanou a cabea.
        No. No matei.
Ele socou a parede atrs dela com os punhos e deixou-os l. Inclinou a cabea para a frente e encostou o rosto no dela. A respirao dele estava spera e ruidosa, 
soando mais forte que a chuva que continuava a aoitar as janelas.
        Eu quero acreditar em voc.
        Pode acreditar nisso. - Ela virou a cabea e falou olhando para o perfil dele. - No me pergunte mais nada porque no posso dizer mais nada.
        Por qu? Diga por qu.
        Porque as respostas so muito dolorosas para mim.
        Como dolorosas?
        No me faa passar por isso, por favor. Se continuar vai partir meu corao.
        Voc est partindo o meu com as suas mentiras.
        Eu imploro, se tiver alguma considerao por mim, poupe-me de ter de decepcionar voc! Prefiro nunca mais v-lo de novo do que voc ficar sabendo...
        O qu? Conte para mim!
Ela balanou a cabea com determinao, e ele entendeu que era intil pression-la mais. Desde que o tormento pessoal dela no tivesse nada a ver com o caso Pettijohn, 
ele devia respeitar seu desejo de privacidade.
        Isso no  tudo - continuou ela. - Vamos estar em lados opostos de uma crise que est se criando.
        Ento tudo isso tem relao com o caso - disse ele, desanimado.
        Eu sabia que o nosso encontro ia resultar numa confuso, mas mesmo assim o provoquei. Eu queria que acontecesse. At no posto de gasolina eu poderia ter 
dito no para voc. Mas no disse.
Ele levantou a cabea e inclinou-se para trs para ver melhor o rosto dela.
        Sabendo o que voc sabe agora, se tivesse de fazer tudo de novo...
        Isso  injusto.
        Voc faria tudo de novo?
A resposta dela foi olhar fixo para ele um longo tempo enquanto uma lgrima escorria pelo rosto. Hammond gemeu.
        Que Deus me ajude, eu tambm faria.
Um segundo depois Hammond j estava abraando e beijando Alex. A gua pingava do cabelo dela na camisa dele. Os lbios de Alex eram quentes, a lngua macia, sua 
boca doce. Quando finalmente se separaram, disseram o nome um do outro pela primeira vez, riram deles mesmos e depois se beijaram de novo, se possvel com mais paixo 
do que antes. Ele desamarrou a faixa na cintura dela, enfiou a mo no roupo e acariciou a pele macia do ventre, provocando gemidos suaves de Alex quando passou 
a ponta dos dedos no monte-de-vnus. O sangue de Hammond latejava em seus ouvidos com a fora da chuva que batia no telhado. Abafou todos os outros rudos. Os murmrios 
de aviso do bom senso e da conscincia no tinham a mnima chance contra aquele turbilho. Ele a segurou no colo e levou-a para a cama. Ento, num frenesi de impacincia, 
tirou a roupa. Quando deitou em cima dela, ele deu um suspiro que era ao mesmo tempo desejo e desespero. Alex abriu as pernas e ele logo foi envolvido pelo seu calor. 
Indo mais fundo, ele praguejou baixinho, com a voz entrecortada de emoo.
        Eu no fui para a cama com voc porque precisava de um libi, Hammond.
Com as mos nos lados da cabea dela, ele olhou bem para ela e comeou a se mexer.
        Por que, ento?
Ela arqueou as costas para acompanhar as investidas dele.
        Por isso.
Ele afundou o rosto no pescoo dela. As sensaes eram incrveis. Eram tremores que subiam pelo seu pnis, percorriam sua barriga e se espalhavam pelo peito at 
as extremidades, provocando um formigamento. Ele deixou que tudo o mais escapasse da conscincia para poder saborear o fato de estar dentro dela. Mas o clmax estava 
crescendo rpido demais dentro dele, por isso parou de se mexer e sussurrou com urgncia:
        No quero gozar ainda. No sem voc.
        Toque em mim.
Ela guiou a mo dele entre seus corpos e a ps onde se uniam. Ele moveu os dedos de leve, massageando por dentro e por fora ao mesmo tempo. Ela segurou um seio e 
o levantou at a boca dele. Ele lambeu o mamilo. O som que ela fez foi quase um soluo. Eles gozaram juntos. Os dois se cobriram. Alex chegou mais para perto e aninhou 
o traseiro no colo de Hammond. Foi ento que ele se deu conta de que no tinha usado proteo nenhuma. Mas no se preocupou demais com isso. De que adiantaria? Agora 
no tinha mais jeito. Ele s queria abra-la. Sentir seu cheiro. Estar perto dela e sentir o calor do seu corpo. Contentava-se em olhar para o rosto dela sobre 
o seu brao. Pensou que Alex estava dormindo porque os olhos dela estavam fechados, mas notou que seus lbios formavam um sorriso. Ele beijou uma plpebra.
        Um tosto por eles.
Ela riu baixinho e olhou para ele. Traou o formato dos lbios de Hammond com a unha.
        Eu estava pensando como seria sair com voc. Ir jantar fora. A um cinema. Sair em pblico para todo mundo ver.
        Quem sabe. Um dia, talvez.
        Talvez - murmurou ela, parecendo mais otimista que ele.
        Eu adoraria desfilar com voc em Charleston, exibi-la para todos os meus amigos.
        Verdade?
        Voc parece surpresa.
        E estou mesmo, um pouquinho. Para um caso clandestino...
        No  isso, Alex.
        No ? -No.
        De certo modo sou uma recm-chegada, mas j aprendi como as coisas funcionam aqui.
        Que coisas?
        Os crculos sociais.
        Eu no me importo com essa besteira.
        Mas a maioria dos charlestonianos se importa. Eu no tenho pedigree. A sua famlia praticamente inventou esse conceito.
        Citando um famoso charlestoniano, apesar de fictcio, "Francamente, minha querida, eu no dou a mnima". Mas mesmo se me importasse, eu preferiria voc 
a qualquer outra mulher desta cidade. Eu j escolhi voc no lugar de qualquer outra.
        No lugar de Steffi Mundell. - A expresso dele fez Alex rir. Voc precisava ver a sua cara.
        Como soube?
        Intuio feminina. Antipatizei com ela  primeira vista. O sentimento foi mtuo e no teve nada a ver com o fato de eu ser uma suspeita e ela a promotora. 
Foi mais essencial do que isso. Hoje, quando ela nos pegou juntos no elevador, eu percebi. Vocs eram amantes, no eram?
        "Eram"  a palavra operante e importante aqui. Durou quase um ano.
        Faz quanto tempo que vocs terminaram?
        Dois dias.
Foi a vez de Alex demonstrar desnimo:
        Domingo? - Ele fez que sim com a cabea. - Por causa de sbado?
        No. Para mim j tinha acabado h muito tempo. Mas depois de estar com voc eu tive a mais absoluta certeza de que, como um casal, Steffi e eu ramos uma 
causa perdida. - Ele passou os dedos no cabelo dela. - Apesar da sua tendncia de mentir, voc  a mulher mais desejvel que j conheci. Em todos os sentidos. Vai 
alm do fsico.
Satisfeita, ela sorriu.
        Por exemplo?
        Voc  inteligente.
        Bondosa com os animais e com os idosos.
        Voc  engraada.
        Temperamento equilibrado. A maior parte do tempo.
        Voc  frugal, corajosa, limpa e reverente.
        Eu sabia que voc era um escoteiro.
        Um escoteiro guia. Onde  que eu estava? Ah, seus seios so perfeitos.
        O que houve com ir alm do fsico?
Dispensando as frivolidades, ele a beijou com empenho. Quando finalmente afastou o rosto, a expresso confusa de Alex foi um susto.
        O que foi?
        Tenha cuidado, Hammond.
        Ningum vai saber que eu estive aqui. Ela balanou a cabea.
        No  isso.
        Ento, o qu?
        Voc pode ter de me levar a julgamento. Por favor, no faa com que eu me apaixone por voc antes.
        Obrigada por me receber.
O procurador Monroe Mason ofereceu uma cadeira para Steffi na sala dele.
        S tenho um minuto. O que h?
         o caso Pettijohn.
        J imaginava. Alguma coisa especfica?
A hesitao de Steffi era planejada e ensaiada. Como se estivesse constrangida, ela disse:
        Detesto incomod-lo com o que pode parecer poltica medocre de trabalho.
         a respeito do Hammond e do detetive Smilow? Eles esto se comportando como briges rivais em vez de profissionais?
        Eles tiveram alguns duelos verbais, com troca de insultos. Posso cuidar disso.  outra coisa.
Ele olhou para o relgio em cima da mesa.
        Vai ter de me desculpar, Steffi. Tenho uma reunio em dez minutos.
         a atitude de Hammond - revelou ela. Mason franziu a testa.
        A atitude dele? Em relao a qu?
        Ele parece... eu no sei bem... - Ela ficou mordendo o lbio como se procurasse a palavra certa, e finalmente disse: - Indiferente.
Mason recostou-se na cadeira e ficou olhando atentamente para ela com o queixo apoiado nas mos postas.
        Acho difcil acreditar. Esse caso  bem do estilo do Hammond.
        Foi isso que pensei tambm. Normalmente ele estaria muito animado. Perseguindo Smilow para obter provas suficientes para levar o caso ao grande jri. Ele 
estaria aflito para comear a se preparar para o julgamento. Esse caso tem todos os ingredientes que, em geral, o fazem ficar com gua na boca.
" por isso que estou perdida - continuou ela. - Ele parece no se importar com a soluo do mistrio. Passei para ele tudo que soube do Smilow. Mantive Hammond 
informado das pistas quentes e das que esfriaram. Ele reage a cada informao com o mesmo grau de desinteresse." Mason coou o rosto, pensativo.
        O que voc acha que ?
        No sei o que pensar - disse ela, com a mistura certa de exasperao e confuso. - Por isso vim falar com voc. Pedir sua orientao. Estou no segundo lugar 
nesse caso, e no quero extrapolar o meu limite. Por favor, diga o que devo fazer quanto a isso.
Monroe Mason estava chegando ao seu septuagsimo aniversrio. J estava cansado daquela amolao que era ser funcionrio pblico. Nos ltimos dois anos tinha delegado 
grande parte da responsabilidade para os assistentes de promotores mais jovens e vidos, dando conselhos quando era necessrio, mas em geral cedendo autonomia para 
eles operarem como lhes aprouvesse. Estava louco para se aposentar para poder jogar golfe e pescar o quanto quisesse e no ter de lidar com os aspectos polticos 
do cargo. Mas no foi por acaso que servira como procurador municipal aqueles ltimos vinte e quatro anos. Era um operador muito astuto quando assumiu a posio 
de procurador, e no tinha perdido nem um pouco dessa qualidade. Seus instintos eram to aguados quanto antes. Ainda podia sentir quando algum no estava sendo 
totalmente sincero com ele. Steffi tinha contado com a intuio do chefe quando planejou aquela reunio.
-Tem certeza de que no sabe o que est incomodando Hammond?
        perguntou ele para ela, baixando a voz retumbante at soar como um rugido abafado.
Fingindo ansiedade, Steff esticou o lbio inferior.
        Fiquei meio sem sada, no ?
        Voc no quer falar mal de um colega.
         por a.
        Entendo o constrangimento da sua situao. Admiro a sua lealdade com o Hammond. Mas esse caso  importante demais para ficar  merc de sensibilidades. 
Se ele est se furtando das suas obrigaes..
        Oh, eu no quis dizer isso - ela se apressou em explicar. - Ele nunca deixa a peteca cair. S que no acho que ele est inteiro nisso. O corao dele no 
est.
        E voc sabe por qu?
        Toda vez que abordo o assunto, ele reage como se eu tivesse pisado num calo dele. Fica todo nervoso e irritado. - Ela fez uma pausa como se raciocinasse 
a respeito do comportamento de Hammond. Mas se me pedisse para especular sobre o que deve estar incomodando Hammond...
        Eu pedi.
Ela fingiu pensar com muito cuidado antes de finalmente falar.
        Neste momento o nosso suspeito  uma mulher. Alex Ladd  uma mulher inteligente e bem-sucedida.  refinada, articulada e alguns talvez a considerem atraente.
Mason deu uma risada.
        Voc acha que Hammond est a fim dela? StefH riu com ele.
        Claro que no.
        Mas est dizendo que o fato de ser uma mulher est influenciando o modo que ele trata do caso.
        Estou dizendo que  uma possibilidade. Mas o sentido disso  meio truncado. Voc conhece Hammond melhor do que eu. Voc o conhece a vida toda. Sabe como 
ele foi criado.
        Num lar com valores muito tradicionais.
        E certamente com papis bem definidos - acrescentou ela. - Ele nasceu em Charleston,  sulista at os ossos. Ele cresceu bebendo usque com menta e aprendeu 
cavalheirismo.
Mason pensou no que ela estava dizendo.
        Est com medo que ele possa amolecer se tiver de pedir a pena de morte para uma mulher como a dra. Ladd.
         s um palpite.
Ela baixou os olhos como se estivesse aliviada de ter cumprido aquela terrvel misso. Disfaradamente, ela observou seu chefe puxar, pensativo, o lbio inferior. 
Alguns segundos se passaram. A teoria dela, e o jeito relutante de verbaliz-la, tinham sido perfeitos. Ela no contara para ele que Hammond tinha ido at a cena 
do crime na noite anterior. Mason podia considerar isso um bom sinal. Steffi no sabia bem o que achava daquela atitude. Em geral Hammond costumava deixar os detetives 
fazerem seu trabalho sem interferir, por isso tinha achado estranha aquela reviravolta. Devia pensar nisso, porm mais tarde. Naquele momento ela estava ansiosa 
para ouvir a reao de Mason ao que tinha dito para ele. Dizer qualquer outra coisa ia parecer exagero, por isso ela ficou calada e deu-lhe bastante tempo para meditar.
        Eu discordo.
        O qu?
Ela levantou a cabea de estalo. Estava to segura de ter transmitido muito bem a sua ideia que a discordncia dele foi totalmente inesperada.
        Tudo que voc disse sobre a criao de Hammond est correto. Os Cross entalharam uma boa educao naquele menino. Tenho certeza de que esse aprendizado 
incluiu um cdigo de comportamento com as mulheres, todas as mulheres, que remonta aos dias dos cavaleiros de armadura. Mas os pais dele, especialmente Preston, 
tambm instilaram nele um sentido inabalvel de responsabilidade. Creio que este se sobrepe ao outro.
        Ento como voc explica o tdio dele? Mason deu de ombros.
        Outros casos. Um calendrio lotado no tribunal. Uma dor de dente. Alguma coisa na vida particular dele. H muitos motivos para essa distrao. Mas estamos 
apenas a alguns dias do assassinato. A investigao ainda est no estgio preliminar. Smilow admite que no tem provas suficientes para efetuar uma priso. - Ele 
sorriu e recuperou o nimo. - Tenho certeza de que quando Smilow acusar de fato a dra. Ladd, ou seja l quem for, de ter praticado este crime, Hammond pisar na 
base, com o taco de beisebol na mo e, se o conheo bem, bater um home run.
Steffi estava com vontade de rilhar os dentes, mas em vez disso ela deu um suspiro de alvio.
         bom saber que voc acha isso. Fiquei indecisa se devia ou no comentar esse assunto.
        Estou aqui para isso.
Ele deixou claro que a conversa tinha acabado, levantou-se e pegou seu palet num cabide de p.
Steffi seguiu atrs dele at a porta da sala, e insistiu. Tinha de dizer outras coisas para ele.
        Tinha medo que voc ficasse insatisfeito com o desempenho de Hammond e passasse o caso para outra pessoa. Ento eu tambm no estaria mais trabalhando nele 
e detestaria isso, porque estou achando o caso fascinante. Estou ansiosa para a polcia nos dar logo um suspeito. Mas posso esperar para cravar os dentes na preparao 
do julgamento.
Achando graa no entusiasmo dela, Mason deu uma risadinha.
        Ento ficar contente de saber o que Smilow andou fazendo esta manh.
        Minha hora est quase acabando...
Um gemido de protesto se ouviu entre os alunos de medicina que tinham lotado o auditrio  capacidade de apenas lugares em p para ouvir a aula de Alex.
        Obrigada - disse ela, sorrindo. -Agradeo a sua ateno. Antes de sermos forados a terminar a aula, quero comentar como  vital que o paciente que sofre 
de ataques de pnico no seja ignorado como um hipocondraco. Infelizmente isso acontece muito. Os familiares podem, e  compreensvel, no tolerar mais as reclamaes 
crnicas do paciente.
"Os sintomas s vezes so to bizarros que parecem ridculos e, em geral, so considerados imaginrios. Por isso, mesmo se o paciente estiver recebendo tratamento 
e aprendendo tticas para enfrentar o distrbio de ansiedade aguda, sua famlia tambm deve ser instruda para saber como lidar com esse fenmeno. "Agora eu realmente 
tenho de dispensar vocs, seno seus outros instrutores vo querer a minha cabea. Obrigada pela sua ateno." Eles a aplaudiram com entusiasmo e depois comearam 
a sair. Vrios alunos foram falar com ela, apertar sua mo, dizer que a palestra tinha sido muito interessante e informativa. Um deles at apresentou uma cpia de 
um artigo que Alex havia escrito e pediu para ela autografar. O anfitrio de Alex no se adiantou at o ltimo aluno partir. O dr. Douglas Mann lecionava na Universidade 
de Medicina da Carolina do Sul. Ele e Alex tinham se conhecido na faculdade e tornaram-se amigos desde ento. Ele era alto e magro, careca como uma bola de bilhar 
e excelente jogador de basquete, solteiro convicto por motivos que no tinha revelado para Alex.
        Talvez eu deva organizar um f-clube - observou ele quando a encontrou.
        S estou aliviada de ter conseguido mant-los atentos.
        Voc est brincando? Eles se agarravam a cada palavra que voc dizia. Voc me transformou no heri da hora - disse ele com um sorriso largo. - Adoro ter 
amigos famosos.
Ela riu do que considerava um cumprimento no merecido.
        Eles eram tranquilos. Uma boa plateia. Ns ramos to inteligentes assim quando tnhamos a idade deles?
        Quem pode saber? Vivamos chapados!
        Voc vivia chapado.
        Ah,  - ele sacudiu os ombros ossudos. - Isso mesmo, voc no era nada divertida. S queria saber de trabalho, nada de diverso.
        com licena, dra. Ladd?
Alex virou e deu de cara com Bobby Trimble. O corao dela deu um pulo.
Ele segurou sua mo e apertou-a com entusiasmo.
        Dr. Robert Trimble. Montgomery, Alabama. Estou de frias aqui em Charleston, mas vi um aviso sobre a sua palestra esta manh e no pude deixar de vir encontr-la.
Doug, sem perceber o mal-estar de Alex, apresentou-se e apertou a mo de Bobby.
        Colegas so sempre bem-vindos nas nossas palestras.
        Obrigado. - Olhando para Alex, Bobby disse: - Os seus estudos sobre a ansiedade tm sido particularmente interessantes para mim. Estou curioso de saber 
o que a fez se concentrar nessa sndrome especfica. Alguma experincia pessoal, talvez? - Ele piscou um olho. Com medo de que os pecados do passado a alcancem?
        Ter de me desculpar, dr. Trimble - disse ela com a voz gelada. Tenho consultas marcadas.
        Desculpe tomar seu tempo. Foi um prazer.
Virando abruptamente, ela se dirigiu  sada. Doug resmungou uma despedida apressada para Bobby e correu para alcan-la.
        Um f ardente em excesso, hein? Voc est bem?
        Claro que estou - respondeu ela alegremente.
Mas no estava nada bem. Estava qualquer coisa, menos bem. A apario inesperada de Bobby era seu jeito de informar que ele podia se intrometer a qualquer momento. 
Com facilidade. No havia uma rea da vida dela que ele no pudesse invadir se quisesse.
        Alex? - Doug perguntou se ela queria tomar caf da manh com ele. - Como agradecimento, o mnimo que posso fazer  comprar um prato de camaro e cereais.
        Parece delicioso, Doug, mas fica para a prxima - ela no conseguiria engolir uma garfada de comida se a sua vida dependesse disso. Ver Bobby no que considerava 
um territrio seguro a deixara muito abalada e contrariada, o que certamente era a inteno dele - Tenho uma consulta marcada para daqui a quinze minutos. Mal vai 
dar para chegar na hora se eu for para l direto.
        Estamos indo.
Doug tinha insistido em peg-la aquela manh e dar uma carona at o Centro Mdico da UMCS porque as vagas para estacionar perto do enorme complexo eram raras. A 
caminho do Centro da cidade, ele agradeceu mais uma vez.
        No tem de qu. Eu gostei muito. - At Bobby aparecer, pensou ela.
        Qualquer coisa que eu puder fazer para retribuir o favor, estou devendo um para voc - disse ele sinceramente.
        vou me lembrar disso.
Ela procurava esconder sua aflio mantendo a conversa superficial. Trocaram fofocas sobre amigos e colegas que tinham em comum. Ela perguntou sobre a pesquisa de 
AIDS em que ele estava trabalhando. Ele perguntou se havia alguma coisa nova e excitante acontecendo na vida dela. Se dissesse, ele no acreditaria. Ou talvez acreditasse, 
ela se corrigiu quando eles entraram na rua dela.
        Que diabos foi isso? - perguntou Doug, - Sua casa deve ter sido assaltada! Alex soube na mesma hora, com uma sensao pesada de apreenso, que o carro de 
polcia parado na frente de sua casa no tinha nada a ver com assalto. Dois policiais uniformizados ladeavam a porta da frente como sentinelas. Outro,  paisana, 
espiava pelas janelas da frente. Smilow conversava com a paciente dela que aparentemente tinha chegado cedo para a sua consulta.
Doug parou o carro e j ia descer quando Alex o impediu:
        No se envolva nisso, Doug.
        Envolver em qu? Que diabos est acontecendo?
        Mais tarde eu explico.
        Mas...
        Por favor! Eu telefono!
Ela apertou o brao dele, saiu do carro, passou pelo porto e subiu quase correndo o caminho at a casa, notando que a cena na sua porta da frente tinha atrado 
a ateno de vrios transeuntes. Um turista tirava fotografias da casa, o que no era nada incomum. A rua era includa em todos os passeios tursticos. Apesar de 
semelhantes na planta, cada casa naquele quarteiro apresentava pelo menos uma faceta distinta de significado histrico. Aquela manh, a casa dela se destacava das 
outras por causa do carro da polcia estacionado em frente.
        Dra. Ladd! - a paciente correu na direo dela. - O que est acontecendo? Eu cheguei bem na hora em que esses policiais chegaram.
Alex olhou furiosa para Smilow por cima do ombro da mulher aflita.
        Sinto muito, Evelyn, mas terei de marcar sua consulta para outra hora.
Alex ps as mos nos ombros da mulher, fez com que ela desse meia-volta e andou com ela at o carro. Levou alguns minutos para garantir-lhe que estava tudo bem e 
que sua consulta seria marcada o mais cedo possvel.
        Voc est bem? - perguntou Alex gentilmente.
        Voc est, dra. Ladd?
        Eu estou tima. Juro. Telefono para voc mais tarde, ainda hoje. No se preocupe. ......
S depois que o carro se afastou, Alex virou para trs. Dessa vez, enquanto seguia para a porta, no tirava os olhos de Smilow.
        Que diabos est fazendo aqui? Eu tinha uma paciente e...
        E eu tenho um mandado de busca.
Ele tirou o documento do bolso no peito do palet. Alex olhou para os trs outros policiais flanando na porta da casa dela, e de novo para Smilow.
        Atendo ao meu ltimo paciente s trs horas. Isso no pode esperar at a sesso terminar?
        Temo que no.
        vou ligar para Frank Perkins.
        Esteja  vontade. Mas no precisamos da permisso dele para entrar. No precisamos nem da sua.
Sem dizer mais nada, ele acenou para seus homens entrarem. O que Alex achou mais ofensivo talvez tenham sido as luvas que eles calaram antes de entrar, como se 
a casa e ela estivessem contaminadas e eles precisassem de proteo. Primeiro ela chorou. Despertar e se encontrar no pior pesadelo que uma mulher solteira pode 
imaginar - pelo menos para uma professora solteira de um subrbio de Indianpolis. - Ellen Rogers sentou-se na cama, apertou o lenol na garganta e chorou convulsivamente. 
De ressaca. Nua. Violentada. Abandonada. Revivendo os acontecimentos da noite anterior, primeiro teve a impresso de que tinha mergulhado em uma das suas fantasias, 
em que um belo desconhecido a tinha escolhido em vez das meninas mais jovens, mais bonitas e mais magras da boate. Ele tinha tomado a iniciativa. Ele a tinha escolhido 
para danar e para pagar os drinques. A atrao foi instantnea e mtua, como sempre imaginou que seria quando "aquilo" finalmente acontecesse com ela. Alm disso, 
ele no era inspido nem superficial. Tinha uma histria. A histria dele era de amor e perda e tinha partido o corao dela. Tinha amado demais a mulher. Quando 
ela adoeceu, ele se dedicou inteiramente a cuidar dela, at ela morrer. Apesar dos sacrifcios que isso representou na vida dele e nos seus negcios, ele cozinhava, 
limpava a casa e lavava a roupa. Cumpriu tarefas pessoais para a esposa, mesmo as mais desagradveis. Nas raras ocasies em que ela podia sair, era ele que fazia 
sua maquiagem. Tanto sacrifcio! O amor era exatamente isso. Valia a pena conhecer aquele homem. Era um homem que merecia todo o amor que Ellen acumulava havia anos, 
e desejava desesperadamente partilhar. Ele tambm tinha sido um amante fantstico. Mesmo com a experincia dela limitada a um primo mais velho, que um dia a forara 
a fazer sexo oral com ele, um namorado que falou de amor entre duas trepadas mal dadas no carro antes de acabar o namoro com ela, e um professor casado com quem 
ela teve um excitante mas no consumado flerte at ele ser transferido para outra escola, ela soube reconhecer que Eddie - esse era o nome dele - era excepcional 
na cama. Tinha feito coisas com ela que s tinha lido a respeito nos romances que colecionava em caixas etiquetadas no poro. Ele a exauriu com a sua paixo. Mas 
agora o brilho cor-de-rosa do romance era apagado pelo terror negro que acompanha esses programas de uma noite com um completo desconhecido. Gravidez. (Ei, podia 
acontecer com mulheres de mais de quarenta.) DST. AIDS. Qualquer consequncia dessas arrasaria seu sonho de um dia se casar. Sua chance de chegar ao matrimnio ficava 
menor a cada ano que passava, mas a indiscrio da vspera tinha realmente tornado impossvel esse sonho. Que homem ia quer-la agora? Um homem decente, no. No 
agora que tinha um passado. A situao dela no podia piorar muito. Mas piorou. Ela foi roubada tambm. Descobriu isso quando finalmente saiu da cama para ir ao 
banheiro e avaliar os danos. Viu que a sua bolsa no estava na cadeira onde a tinha deixado na noite anterior. Lembrava-se muito bem. No era algo que ia esquecer 
porque aquela tinha sido a primeira vez que um homem chegara por trs, apertando seu... sabe o qu... ne!a. Ele a abraou, enfiou a mo no vestido e acariciou seus 
seios. Com os ossos praticamente derretendo, ela deixou a bolsa cair na cadeira. Tinha certeza disso, Mesmo assim, deu uma busca frentica no quarto, e se censurou 
por no ter dado ouvidos aos comerciais da televiso que avisavam para nunca sair de casa sem traveler's checks. Pode ter sido por causa daquela auto-incriminao 
dolorosa, ou por lembrar da facilidade com que o falastro do Eddie a convencera de todas aquelas mentiras, mas Ellen Rogers de repente parou sua busca intil da 
bolsa e ficou perfeitamente imvel no meio do quarto de hotel. Ainda nua, ps as mos nos quadris, desvencilhou-se da sua personalidade decorosa e xingou feito um 
marinheiro. No sentia mais pena dela mesma. Estava furiosa. Era quase meio-dia quando Hammond chegou ao frum. Ao passar pela mesa da recepcionista, pediu para 
ela levar uma xcara de caf para ele. No ficou feliz de ver Steffi  sua espera, dentro da sua sala. Para deix-lo ainda mais aborrecido, ela olhou para ele e 
disse:
        Noite dura?
Hammond s tinha voltado para casa quase ao amanhecer. Quando adormeceu, dormiu profundamente algumas horas. Ao acordar, maldisse a hora que viu no relgio de cabeceira. 
No precisava da acusao de Steffi de que estava iniciando o dia de trabalho com muito atraso.
        O que aconteceu com o seu polegar?
Tinham sido necessrios dois Band-Aids para cobrir o corte.
        Eu me cortei quando fazia a barba.
        Polegares peludos?
        O que h, Steffi?
        Smilow enviou mais provas para o laboratrio. Espera que encontrem semelhana nos fios de cabelo.
Ele ocultou sua reao espontnea interior, tratando calmamente dos seus afazeres - deixou a pasta na mesa, tirou e pendurou o palet, folheou uma pilha de correspondncia 
e recados telefnicos. Leu um, distrado, e perguntou:
        De que caso?
Extremamente perturbada, Steffi cruzou os braos.
        O caso do assassinato de Lute Pettijohn, Hammond.
Ele sentou-se  mesa dele e agradeceu  recepcionista quando ela lhe deu uma xcara de caf.
        Quer um, Steffi?
        No, obrigada - sem muita gentileza, ela fechou a porta depois que a recepcionista saiu. - Agora que voc j se instalou e est tomando o seu caf, ser 
que podemos, por favor, conversar sobre essa ltima revelao?
        Smilow encontrou um cabelo na sute do hotel de Pettijohn?
        Correto.
        E est mandando compar-lo com...?
        com o que ele tirou da escova de cabelo de Alex Ladd esta manh, durante a busca.
Isso perturbou Hammond.
        Busca?
        Ele conseguiu um mandado bem cedo. J fizeram a busca.
        Eu nem sabia que ele ia pedir um mandado. Voc sabia?
        No at agora h pouco.
        Por que no ligou para mim?
        No achei necessrio, at termos alguma coisa.
        O caso  meu, Steffi.
        Bem, voc evidentemente no est agindo como se fosse - disse ela, levantando a voz.
        Como  que estou agindo?
        Trate de descobrir sozinho. Para comeo de conversa, pode se perguntar por que est chegando aqui to tarde. No fique zangado comigo por no estar aqui 
quando as coisas comearam a acontecer.
Ficaram se encarando, cada um de um lado da mesa. Ele estava zangado por ser excludo do elo apertado que ela havia formado com Smilow. Estavam praticamente unidos 
pela cintura naquele caso. Mas por mais que detestasse admitir, os argumentos dela eram vlidos. Ele estava zangado com ele mesmo e com a situao, e descontava 
nela.
        Mais alguma coisa? - perguntou ele num tom mais civilizado.
        Ele tem os cravos tambm.
        Cravos? De que diabos voc est falando?
        Lembra do pedacinho de alguma coisa que foi tirado da manga de Pettijohn?
        Vagamente.
Ela explicou que identificaram a lasquinha como cravo-da-ndia e que Alex Ladd tinha laranjas com cravos num pote na entrada da casa dela.
        A laranja com cravo perfuma o ambiente como um pot-pourri natural. Alm disso, eles encontraram uma bolada de dinheiro no cofre da casa dela. Milhares de 
dlares.
        Que supostamente prova o qu?
        Ainda no sei o que isso prova, Hammond. Mas voc tem de admitir que no  muito ortodoxo e bastante suspeito algum manter essa quantidade de dinheiro 
num cofre domstico.
Com um n na garganta, Hammond perguntou:
        E a arma?
        Infelizmente no apareceu.
O telefone dele tocou e a recepcionista informou que era o detetive Smilow na linha.
        Ele deve estar ligando para mim - disse Steffi e pegou o fone. Eu disse para ele que estaria aqui no seu escritrio.
Ela ficou ouvindo um pouco, verificou seu relgio de pulso e depois disse alegremente:
        Estamos a caminho.
        Estamos a caminho de onde? - perguntou Hammond quando ela desligou.
-Acho que a dra. Ladd entendeu que est no meio da maior "voc sabe o qu". Est vindo para ser interrogada de novo.
Apesar de ter a mesa cheia de papis intocados, minutas, memorandos e recados no respondidos, ele nem cogitou em mandar Steffi no seu lugar. Precisava estar l 
para ouvir o que Alex tinha para dizer, mesmo se fosse alguma coisa que ele no quisesse ouvir. O pesadelo ao vivo continuava. O horror aumentava. Smilow era irreprimvel, 
mas o homem no podia ser acusado de fazer o seu trabalho e faz-lo bem. Alex... droga, ele no sabia o que pensar de Alex. Ela havia admitido t-lo comprometido 
deliberadamente, indo para a cama com ele, mas se recusava a explicar por qu. Que outro motivo haveria seno algo ligado a Pettijohn e/ou ao seu assassinato? Com 
medo do desconhecido, Hammond se movia como se tivesse de se arrastar em areia movedia quando saram do prdio. O sol parecia um maarico. O ar estava pesado e 
parado. Nem o ar-condicionado do carro de Steffi dava conta. Ele estava transpirando quando subiram os degraus da entrada da sede da polcia. Dessa vez ele subiu 
no elevador com Stef para o territrio de Smilow. Steffi bateu uma vez na porta da sala antes de entrar.
        Perdemos alguma coisa?
Smilow, que tinha comeado sem eles, continuou falando ao microfone do gravador.
        Os assistentes do promotor pblico, Mundell e Cross, acabaram de chegar - ele disse a hora e o dia.
Alex virou-se para Hammond. Ele estava atrs de Steffi.
Quando Hammond se abaixara ao lado da cama aquela manh para dar um beijo de despedida, Alex tinha posto a mo na nuca dele e levantado o rosto para beij-lo demorada 
e profundamente. Quando o beijo finalmente terminou e ele gemeu por ter de deix-la, ela sorriu para ele sonolenta, sensual, com olhos de sono e plpebras pesadas. 
Agora Hammond lia naqueles olhos uma apreenso igual  dele.
Liquidadas as formalidades, Frank Perkins disse:
        Antes de comear, Smilow, a minha cliente gostaria de corrigir algumas de suas afirmaes anteriores.
Steffi deu um sorriso afetado. Smilow no demonstrou reao alguma e fez sinal para Alex falar. A voz firme dela ocupou o silncio da expectativa.
        Menti para os senhores antes, quanto a ter estado na sute de cobertura do sr. Pettjohn. Estive l no sbado  tarde. Enquanto esperava que ele abrisse 
a porta, vi o homem de Macon entrando no quarto dele, conforme ele relatou.
Por que mentiu sobre isso?
        Para proteger um dos meus pacientes.
Steffi bufou incrdula, mas Smilow a inibiu com um olhar muito srio.
        Por favor, continue, dra. Ladd.
        Fui encontrar o sr. Pettijohn a pedido de um paciente.
        Para qu?
        Para dar um recado verbal. No posso revelar mais que isso.
        Sigilo profissional  um escudo muito conveniente. Ela concordou movendo um pouco a cabea.
        No entanto, era isso que eu estava fazendo l.
        Por que no nos contou isso antes?
        Tive medo que vocs acabassem me fazendo revelar o nome do paciente. Os interesses desse indivduo estavam acima dos meus.
-At agora.
        A situao ficou insustentvel. Mais ainda do que eu j previa. Fui forada a contar o que pretendia manter em segredo pelo bem do meu paciente.
-Asenhora costuma fazer tais sacrifcios pelos seus pacientes? Dar recados e coisas assim?
        Em geral, no. Mas teria sido muito perturbador para esse paciente encontrar-se cara a cara com o sr. Pettijohn. Foi um pequeno favor que fiz.
        Ento a senhora viu o sr. Pettijohn? - Ela fez que sim com a cabea. - Quanto tempo ficou na sute com ele?
        Alguns minutos.
        Menos de cinco? Mais de dez?
        Menos de cinco.
        A sute de um hotel no  um lugar estranho para esse tipo de encontro?
        Eu achei que era, mas foi a pedido do sr. Pettijohn que nos encontramos l. Ele disse que o hotel seria mais conveniente para ele, j que teria um encontro 
com algum l mais tarde.
        Quem?
        Eu no sei. Em todo o caso, no me importei de ir at l, porque, como j disse, tinha o resto do dia livre. No tinha mais nenhum compromisso. Dei uma 
espiada nas vitrines na rea do Charles Towne e depois sa da cidade.
        E foi para a feira.
        . Confirmo todo o resto que eu disse.
        Qual verso?
Frank Perkins franziu o cenho para a piadinha de mau gosto de Steffi.
        No precisa ser sarcstica, srta. Mundell. Agora ficou claro por que a dra. Ladd relutou em contar seu breve encontro com Pettijohn. Ela estava protegendo 
a privacidade de um paciente.
        Um gesto muito nobre da parte dela.
Antes de o advogado poder chamar a ateno de Steffi de novo, Smilow continuou:
        Como lhe pareceu o sr. Pettijohn, dra. Ladd?
        Como me pareceu?
        Como estava o humor dele?
        Eu no o conhecia, por isso no tenho nada para comparar com o humor dele aquela tarde.
        Bem, ele estava jovial ou rabugento? Alegre ou triste? Tranquilo ou irritado?
        Nenhum desses extremos.
        Qual era o teor da mensagem que a senhora transmitiu?
        No posso dizer.
        Era provocante?
        O senhor quer dizer se ele ficou zangado?
        Ficou?
        Se ficou ele no demonstrou.
        No foi um aborrecimento que pudesse provocar um ataque?
        No. De jeito nenhum.
        Ele parecia nervoso? Ela sorriu.
        O sr. Pettijohn no me pareceu uma pessoa que fica nervosa com facilidade. Nada que li a respeito dele sugere que fosse uma pessoa tmida.
        Ele foi basicamente simptico com a senhora?
        Educado. No chego a ponto de dizer simptico. No nos conhecamos.
        Educado - Smilow ponderou a informao. - Ele bancou o anfitrio? Por exemplo, ofereceu uma cadeira para a senhora sentar?
        Ofereceu, mas eu fiquei em p.
        Por qu?
        Porque sabia que no ia ficar muito tempo e preferi ficar em p do que sentar.
        Ele lhe ofereceu algo para beber? -No.
        Sexo?
Todos na sala reagiram  pergunta inesperada, mas ningum com mais violncia que Hammond. Ele deu um pulo como se tivesse levado uma mordida da parede onde estava 
encostado.
        Que diabos?! - exclamou ele. - De onde saiu isso? Smilow desligou o microfone, depois virou-se para Hammond.
        No se meta. Esse interrogatrio  meu.
        A pergunta foi imprpria, e voc sabe muito bem disso.
        Concordo plenamente - disse Frank Perkins, e a raiva dele era quase to intensa quanto a de Hammond. - A sua investigao no revelou nada que pudesse indicar 
que Pettijohn teve um encontro sexual aquela tarde.
        No na cama da sute do hotel. Isso no exclui todas as atividades sexuais. Sexo oral, por exemplo.
        Smilow...
        A senhora fez sexo oral com o sr. Pettijohn, dra. Ladd? Ou ele com a senhora? Hammond avanou na sala congestionada e deu um empurro forte em Smilow.
        Seu filho-da-puta!
        Tire suas mos de mim - disse Smilow, empurrando Hammond para trs.
        Hammond! Smilow! - Steffi tentou entrar no meio dos dois e levou um safano.
Frank Perkins estava enlouquecido.
        Isso  ultrajante!
        Isso foi um golpe baixo, Smilow! - berrou Hammond. - Mesmo voc nunca tinha se rebaixado tanto. Se vai comear a atirar s cegas desse jeito, pelo menos 
tenha a coragem de deixar o gravador ligado.
        No preciso que voc me explique como conduzir um interrogatrio!
        Isso no  um interrogatrio.  um assassinato moral. E sem um bom motivo.
        Ela  suspeita, Hammond - argumentou Steffi.
        No de uma trapaa sexual - vociferou ele para ela.
        E o cabelo, Smilow? - perguntou Steffi.
        J ia chegar l.
Smilow e Hammond continuaram se encarando como pit-bulls presos s coleiras. Smilow foi o primeiro a se recompor. Alisou o cabelo para trs e puxou os punhos da 
camisa. Voltou para a sua mesa e ligou de novo o gravador.
        Dra. Ladd, encontramos um fio de cabelo na sute do hotel. Acabei de saber do laboratrio estadual de Columbia que  igual aos fios tirados da sua escova 
de cabelo.
        E da, detetive? - Ela no parecia mais passiva diante do que estava acontecendo. Tinha manchas vermelhas no rosto e os olhos verdes cintilavam de raiva. 
-Admiti que estive na sute, e expliquei por que no disse a verdade antes. Devo ter perdido um fio de cabelo, que  uma ocorrncia biolgica natural. Tenho certeza 
de que o meu no foi o nico fio de cabelo que o senhor encontrou naquele quarto.
        No, no foi.
        Mas fui a escolhida para ser insultada.
Hammond queria gritar Bravo, Alex! Ela tinha todo o direito de estar indignada. Smilow tinha preparado aquela pergunta para deixla abalada, desconcertada, para 
interromper sua concentrao e poder peg-la numa mentira. Era um velho truque usado pelos profissionais, e normalmente funcionava. Mas no dessa vez. Smilow no 
tinha conseguido desestruturar Alex, s a deixara furiosa.
-A senhora pode explicar como um pedao de cravo-da-ndia foi parar na manga do sr. Pettijohn? A expresso de raiva de Alex relaxou um pouco, e ento ela riu.
        Sr. Smilow, h cravos em quase todas as cozinhas do mundo. Por que resolveu isolar o meu cravo? Tenho certeza de que h cravos na cozinha do Charles Towne 
Plaza. O sr. Pettijohn pode ter levado o cravo da cozinha da casa dele at o quarto do hotel.
Frank Perkins sorriu e Hammond sabia o que o advogado de defesa estava pensando. No tribunal, ele seguiria aquele mesmo raciocnio at os jurados comearem a rir 
da alegao da promotoria de que o cravo era o cravo da dra. Ladd.
        Acho que  melhor limitar suas perdas at este ponto, Smilow
        disse Perkins. - Contrariando o meu conselho, a dra. Ladd j cooperou totalmente. Ela tem sido terrivelmente prejudicada e os pacientes que tiveram de desmarcar 
consultas tambm. A casa dela foi virada de cabea para baixo e ela foi insultada de forma imperdovel. Voc deve a ela muitas desculpas.
Se Smilow ouviu o que o advogado disse, nem deu mostras. O olhar cristalino no desgrudou do rosto de Alex.
        Gostaria de saber sobre o dinheiro que encontramos no seu cofre.
        O que tem ele?
        Onde o conseguiu?
        Voc no precisa responder, Alex. Ela ignorou o conselho do advogado.
        Verifique minhas declaraes de renda, sr. Smilow.
        J verificamos.
Ela ergueu uma sobrancelha como se dissesse Ento que pergunta  essa?
        No seria mais seguro em termos financeiros manter seu dinheiro numa conta bancria que rendesse juros do que guard-lo num cofre de parede?
        As economias dela e a forma que as administra so totalmente irrelevantes - disse Perkins.
        Isso ainda vamos ver. - Antes de o advogado poder protestar de novo, Smilow levantou o dedo indicador. - Mais uma coisa, Frank, e termino.
        Isso no est levando a lugar nenhum.
        Quando foi que arrombaram sua casa, dra. Ladd? Hammond certamente no podia prever aquela pergunta. E
aparentemente nem Alex. Pela primeira vez a reao dela foi bem visvel e reveladora.
        A porta da cozinha?
Observando Alex bem de perto, Smilow disse:
        A que d para o ptio, sim.
        No me lembro exatamente. Acho que foi h alguns meses.
        Roubaram alguma coisa?
        No, acho que deve ter sido a garotada da vizinhana num ato de vandalismo.
        Humm. Est bem, obrigado.
Smilow desligou o gravador. Perkins puxou a cadeira para ela se levantar.
        Isso est ficando muito velho e muito rpido, Smilow.
        Nada de desculpas, Frank. Tenho de resolver um assassinato.
        Voc est latindo na rvore errada. Est assediando a dra. Ladd enquanto o rastro do culpado vai esfriando.
Ele empurrou sua cliente de leve para a porta. Hammond tentou no olhar para ela, mas no conseguiu. Ela deve ter sentido seu olhar porque olhou para ele ao passar. 
E assim eles olhavam um para o outro quando Smilow perguntou:
        Quem  seu namorado? Ela virou depressa para o detetive. - Namorado?
        Seu amante.
Dessa vez a farpa acertou o alvo. Alex perdeu o controle. No usou sua cautela habitual nem deu ouvidos aos pedidos insistentes do advogado para no dizer nada. 
Ela reagiu automaticamente:
        Eu no tenho amante.
        Ento o que nos diz dos lenis que encontramos no seu roupeiro, manchados de sangue e de smen?
        Aquela histria de proteger o paciente foi pura fico - Steffi deu uma risadinha de desdm. - Recomendo que a acuse sem demora.
Steffi, Smilow e Hammond tinham ficado na sala depois que Frank Perkins saiu furioso com sua cliente. Mas os dois no ouviam nada que Steffi estava dizendo. Estavam 
se encarando como gladiadores prestes a iniciar uma luta at a morte. O ltimo a morrer  o vencedor.
Hammond desferiu o primeiro golpe:
        De onde diabos voc...
        No dou a mnima para o que voc acha das minhas tticas. Farei isso do meu modo.
        Voc quer que ela saia impune? - disparou Hammond de volta.
        Se voc continuar com essa besteira sobre a vida pessoal dela, Frank Perkins vai fazer uma festa! Um lenol no roupeiro da casa dela? Cristo!
        disse ele, com um sorriso de desprezo.
        No esquea do roupo! - exclamou Steffi. Essa era a parte que ela achava mais divertida. - A srta. Santa do Pau Oco transa sem tirar o roupo.
Hammond olhou para ela soltando fascas dos olhos, mas Smilow chamou a ateno dele.
        Por que ela mentiu sobre o namorado?
        Como  que vou saber? - berrou Hammond. - E como  que voc sabe? Ela explicou que no momento no tem ningum. E basta.
        No basta, no - Steffi se intrometeu. -As manchas de smen...
        No tm nada a ver com o encontro que ela teve com Pettijohn na semana passada! 297
        Talvez no tenham - disse ela bruscamente. - Pode ser que ela tenha se cortado quando raspava a perna, conforme explicou. Tudo bem, isso resolve o sangue, 
apesar de eu achar que devia ser analisado. Mas esperma  esperma. Por que ela negaria ter um relacionamento pessoal com um homem se isso no tivesse alguma relao 
com Pettijohn?
        Ela poderia ter milhares de motivos.
        Cite um.
Hammond aproximou o rosto do rosto de Steffi.
        Tudo bem, aqui vai um. No  da sua conta com quem ela vai para a cama.
Os tendes no pescoo dele se esticaram. O rosto ficou vermelho e uma veia na testa comeou a latejar. Steffi o tinha visto furioso com policiais, juizes, jurados, 
com ela, com ele mesmo. Mas nunca tinha visto Hammond to furioso assim antes. Surgiram dvidas na mente dela, perguntas que ia ruminar quando estivesse sozinha 
e tivesse tempo para pensar com todo o cuidado.
        No entendo por que voc est to irritado - disse ela.
        Porque sei do que ele  capaz - ele apontou para Smilow. - Ele se vale de artifcios com as provas para montar seu caso.
        Ns reunimos essas provas numa busca legal - disse Smilow, soprando as palavras entre dentes cerrados.
Hammond riu com desprezo.
        No me admiraria se voc mesmo tivesse gozado naqueles lenis.
Smilow parecia que ia bater em Hammond. Com esforo, ele respirou pelas narinas que estavam quase fechadas de tanta raiva. Steffi achou mais prudente entrar na conversa:
        com que frequncia voc acha que a srta. Pureza Alex Ladd lava suas roupas?
        Pelo menos a cada trs ou quatro dias - disse Smilow muito tenso, olhando fixamente para Hammond.
        No estou acreditando nisso - Hammond recuou at a parede para se distanciar da conversa.
        Isso significa que nos ltimos trs ou quatro dias Alex Ladd fez sexo e depois mentiu sobre isso - disse Steffi. - Quando voc mencionou um amante ela no 
disse simplesmente que no queria identific-lo ou perguntou que relao sua vida amorosa poderia ter com a nossa investigao de assassinato, ou nos mandou catar 
coquinho. Ela ficou branca, mentiu e depois de pega na mentira tentou explic-la: "O que eu quis dizer  que no estou envolvida com ningum no momento." Os dois 
estavam ouvindo, ou pareciam estar. Mas como nenhum disse nada, ela continuou:
        Pode ser uma questo de semntica. Talvez ela esteja usando a sada poltica. No mentiu exatamente, mas tambm no disse exatamente a verdade. Talvez ela 
no tenha um amante fixo, mas goste de sexo recreativo, ocasional.
As sobrancelhas de Smilow se juntaram.
        Eu acho que no. No encontramos nenhum anticoncepcional oral no armrio de remdios. Nenhum diafragma, nem camisinhas. Nada que possa sugerir atividade 
sexual numa base mais ou menos rotineira. Consequentemente, foi por isso que fiquei francamente surpreso quando encontramos aqueles lenis manchados no roupeiro.
        Mas voc deve ter pensado nela com uma conotao sexual, Smilow. Seno, onde queria chegar com aquela pergunta sobre ter sexo com Pettijohn?
        A nenhum lugar em especial - admitiu ele. - A pergunta dizia mais respeito a Lute do que a ela.
        Foi uma tentativa torpe de passar uma rasteira nela. Steffi ignorou a observao mal-humorada de Hammond.
        Ento voc no acredita realmente que ela tenha se ajoelhado naquele quarto de hotel e dado uma chupada no Pettijohn?
Smilow sorriu de orelha a orelha.
        Talvez tenha sido isso que provocou o derrame. Hammond praticamente se jogou da parede.
        Essa conversa sobre a vida sexual da dra. Ladd  o motivo dessa reunio? Porque, se for, tenho trabalho de verdade para fazer.
Smilow acenou para a porta.
        Pode ir.
        O que mais h para conversar?
        O arrombamento da porta dos fundos da casa dela.
        Ela explicou isso.
Steffi estava ficando cada vez mais impaciente com a estupidez de Hammond.
        Voc no acreditou naquela explicao, acreditou?  claro que ela estava mentindo sobre aquilo tambm. Assim como esteve mentindo o tempo todo sobre tudo. 
O que h com voc? Voc costuma farejar uma mentira a um quilmetro de distncia.
        Ela diz que o arrombamento aconteceu h meses - disse Smilow.
        Mas a madeira quebrada no sofreu a ao do tempo. Estava fresca. E os arranhes no metal tambm. Alm desses sinais de um arrombamento recente, por mais 
meticulosa que ela seja na arrumao, e por mais imaculada que a casa esteja, no a vejo esperando meses para providenciar o conserto.
        Continua sendo uma conjetura - disse Hammond. - Tudo isso. A coisa toda.
        Mas ignorar isso seria absurdo - argumentou Steffi.
        No mais absurdo do que pegar um monte de palpites sem provas e sem relao um com o outro e consider-los fatos.
        Alguns so fatos.
        Por que voc quer tanto que ela seja culpada?
        E por que voc quer tanto que ela no seja?
O silncio foi to repentino e carregado de tenso que a batida na porta soou como um tiro de canho. Monroe Mason abriu a porta e enfiou a cabea na sala.
        Ouvi dizer que a dra. Ladd ia ser interrogada de novo e resolvi dar um pulo aqui para ver como estava indo. No muito bem, imagino. Ouvi a gritaria assim 
que passei pelas portas de segurana.
Todos resmungaram cumprimentos e ento ningum disse nada por uns trinta segundos.
Depois Mason dirigiu-se a Steffi:
        Voc no costuma ter papas na lngua. O que houve? O gato comeu sua lngua? O que foi que interrompi?
Ela olhou para Hammond e para Smilow e virou-se de novo para Mason.
        A busca na casa da dra. Ladd resultou em alguns itens interessantes. Hammond e eu estvamos avaliando a relevncia deles para o caso.  opinio de Smilow, 
e concordo, que constituem evidncias vlidas contra ela.
Mason olhou para Hammond:
         bvio que voc no tem a mesma opinio.
   Na minha opinio, ns no temos nada. Eles esto se contentando com isso, mas acontece que no so eles que tm de apresentar o caso para o grande jri.
Steffi percebeu que aqueles prximos minutos seriam a chave do seu futuro. Hammond era o protegido de Monroe Mason. Aquela manh mesmo, quando externara suas preocupaes 
com a aparente indiferena de Hammond quanto ao caso, Mason tinha pulado em defesa dele. Contradizer seu sagrado sucessor podia no ser a melhor coisa a fazer. Por 
outro lado, ela no podia deixar uma suspeita perfeita escapar s porque Hammond tinha ficado supersensvel. Se ela jogasse direito, Mason poderia ver uma fraqueza 
no seu herdeiro necessrio que no tinha visto antes. Podia notar um defeito de carter que prejudicaria a eficincia de um promotor duro.
-Acho que o que temos da dra. Ladd  forte o suficiente para um mandado de priso - declarou ela. - No sei o que estamos esperando.
        Provas - disse Hammond, asperamente. - Que tal esse conceito?
        Ns temos provas.
        Provas inconsistentes, circunstanciais, na melhor das hipteses. O pior advogado de defesa do estado da Carolina do Sul poderia facilmente dar a volta em 
tudo que ns juntamos. Longe de ser o pior, Frank Perkins  um dos melhores. Duvido que o grande jri chegasse a indici-la se eu chegasse l apenas com um fio de 
cabelo e um condimento.
        Condimento? - perguntou Mason.
        Cravo  um tempero - corrigiu Steffi, irritada.
        Seja l o que for! - gritou Hammond.
        Ele tem razo - a voz suave de Smilow silenciou os outros na mesma hora.
Steffi no podia acreditar que Smilow estava concordando com Hammond, e Hammond parecia to atnito quanto ela. Mason estava interessado no que Smilow tinha a dizer.
        Voc concorda com Hammond?
        Em tudo, no. Acho que a dra. Ladd est envolvida. De que forma e at que ponto eu ainda no sei. Ela esteve l com Pettijohn no sbado. Meu palpite  que 
no foi l com boas intenes. Seno, por que estaria pregando mentira em cima de mentira para esconder isso?
No entanto, do ponto de vista legal, Hammond tem razo. No temos a arma. E no temos...
        O motivo - completou Hammond.
        Exatamente - Smilow deu um sorriso azedo. - Se ela no tinha intimidade com Pettijohn, realmente no importa se vai para a cama com todos os outros homens 
de Charleston. O que nos importa se algum realmente arrombou a casa dela aparentemente sem motivo?  estranho, mas no ilegal, guardar milhares de dlares num cofre 
domstico se h diversos bancos bem prximos da casa dela.
"Pelo que pude perceber do carter dela, creio que se submeteria  pena de morte para no trair a confiana de um paciente, mesmo se esse paciente for sua nica 
defesa. No que eu acredite naquela histria de dar um recado de um paciente. No acredito. E tambm no acredito naquela bobagem de ir  feira e todo o resto.
"Mas - disse ele enfaticamente - o fato  que no estabeleci um motivo para ela matar Lute Pettijohn. Nem fiz nenhuma conexo entre os dois, em suas vidas pessoais, 
nem nas profissionais. Se ele era paciente dela, nunca assinou um cheque para ela. Se ela investia em um dos negcios imobilirios dele, no h registro. No posso 
nem sequer pr os dois juntos num jantar.
"Tenho um cara investigando no Tennessee, que  de onde ela vem, mas at agora ele no descobriu grande coisa, s o currculo escolar dela. Se Pettijohn j esteve 
alguma vez no estado do Tennessee, no deixou nenhum rastro por l."
        Ento - disse Mason - ou ela est dizendo a verdade ou tambm cobriu seu rastro muito bem.
        Acredito na segunda opo - disse o detetive. - Ela est escondendo alguma coisa. S no sei o que .
        Mas se voc tivesse... - disse Steffi.
        Ele no tem.
        Se voc tivesse um motivo...
        Mas ele no tem.
        Cale a boca, Hammond, e me deixa falar! - reclamou ela. - Por favor - ele abanou a mo, dando-lhe a vez. Ela dirigiu-se a Smilow: Se voc pudesse fazer 
essa ligao, descobrir um motivo, poderia avanar com as provas que temos?
Smilow olhou para Hammond:
        Isso cabe a ele.
Ammond olhou bem para Smilow e depois para Steffi. Ento virou-se Para Mason, que parecia ansioso para ouvir sua resposta. Finalmente ele disse:
Eu poderia trabalhar com o que temos. Mas teria de ser uma motivao danada de forte.
        Voc sabe, Davee, que isso  de muito mau gosto.
        Muito - Davee Pettijohn estava praticamente ronronando de satisfao enquanto trocava seu copo vazio pelo cheio que o garom tinha trazido para ela. - Como 
j disse antes, Hammond, eu me recuso a ser hipcrita.
        O enterro do seu marido foi ontem.
        Meu Deus, no precisa me lembrar. Que coisa mais lgubre foi aquela! Voc no ficou de saco cheio?
Hammond sorriu meio sem querer e agradeceu ao garom o drinque que tinha pedido.
        Vo ficar falando sobre isso anos e anos.
        Essa  a ideia, querido - disse Davee. - Essa festinha foi programada para ofender todas as vadias que vo fofocar a meu respeito, no importa o que eu 
faa. Por que no aproveitar at o fim?
A reunio no podia ser chamada de festinha. Os sales do primeiro andar da manso Pettijohn estavam abarrotados de amigos, conhecidos e agregados que tambm eram 
rebeldes e no davam a mnima se a viva promovia uma festa no dia seguinte ao funeral do marido ou no. No havia possibilidade de consider-la uma espcie de velrio. 
Era um bacanal fora de hora, tremendamente imprprio, mas essa era a ideia, claro.
        Isso no deixaria Lute furioso? Ele teria um ataque.
        Ele teve - observou Hammond.
        Ah, . J ia esquecendo disso.
        Ele teve algum aviso de um derrame iminente?
        Presso arterial ultrapassando os grficos.
        Ele no tomava remdio para a presso?
        Devia tomar. Mas deixava o pinto dele mole, por isso parou de tomar.
        E voc sabia disso? Ela deu uma risada.
        O que voc acha, Hammond? Que eu provoquei o ataque nele? Olha, foi culpa nica e exclusivamente dele. Ele disse que se tivesse de escolher entre trepar 
ou explodir, ele preferia explodir.
        O derrame no o matou, Davee.
        No. O filho-da-me levou um tiro. Nas costas. Um brinde a quem fez isso - ela levantou o copo.
Hammond no podia brindar a isso, e ficou constrangido com o fato de Davee poder. Concentrou sua ateno na festa. Eles estavam no balco do segundo andar, um ponto 
excelente para observar os convivas.
        No vejo ningum da velha guarda aqui.
        Eles no foram convidados - ela bebeu um gole do seu drinque e deu um sorriso malicioso. - Por que estragar o prazer deles de ficar especulando sobre todos 
os pecados e toda a iniquidade que acontece aqui?
A festa daria muito material para as fofocas. Os amplificadores da banda de rock estavam no mximo. A comida servida pelo buf era farta. O suprimento de bebidas 
era ainda mais abundante. Havia drogas  vontade tambm. Mais cedo Hammond tinha reconhecido um traficante famoso que escapara da priso inmeras vezes. Ele avistou 
um escritor de best-sellers que recentemente tinha sado do armrio. Para celebrar sua deciso libertadora, ele estava namorando descaradamente seu par daquela noite. 
O espetculo pblico, sem pejo, dos dois talvez chamasse ateno, se no fosse uma jovem deslumbrante que exibia seus seios recentemente aumentados para um grupo 
de admiradores vidos que eram convidados a tocar e experimentar.
        Ela pagou caro demais por eles - observou Davee, maldosa.
        Voc conhece um mdico de seios que d desconto?
        No, mas conheo um que teria feito um trabalho melhor Hammond olhou para ela de lado, e ela deu sua risada rouca e sensual.
        No, querido. Os meus so meus mesmo. Mas fui para a cama com ele.  um pssimo amante, mas quando se trata do trabalho dele,  o maior perfeccionista.
Hammond deu uma vista de olhos nela.
        Desde que cheguei aqui queria perguntar. -O qu? "'"f-
        Voc anda fazendo dana do ventre?
        No  divino?
Davee estendeu os braos e executou uma pirueta para exibir sua roupa. Feita de seda crua vermelha, consistia de uma cala justa no cs e um top cortado logo abaixo 
do busto. A cala tinha o cs perigosamente baixo. Na cintura, ela usava uma corrente de ouro bem fina. Em cada brao, pelo menos uma dzia de pulseiras de ouro.
Ela terminou o rodopio encostando o corpo com fora no dele. Hammond deu uma risada.
        Divino.
Ela abaixou os braos e franziu a testa.
        Grande vantagem para mim voc achar isso. Hammond, por que no somos amantes?
        Eu teria de pegar uma senha.
-V  merda-ele riu, mas Davee s franziu mais o cenho. - Como pode dizer algo to cruel se nem ao menos tenho um par na minha prpria festa?
        Onde est o massagista?
        Sandro. Tive de dispens-lo.
        Desde domingo? Esse foi rpido.
        Voc sabe como sou quando resolvo alguma coisa.
        Ele estava esfregando voc do lado errado?
Como resposta  piada de mau gosto, ela disse sarcasticamente:
        Ra, r.
        Dor de cotovelo?
        Minha nossa, no! Ele no era um corao palpitante, s uma plvis palpitante. O pnis dele  muito maior que o seu crebro.
        O homem da fantasia de toda mulher.
        Por algum tempo, talvez. Mas acabei me entediando.
        E o tdio  antema para voc.
        Positivamente. - Olhando para a multido l embaixo, ela suspirou. - E agora estou aqui - ela segurou a mo dele. - Venha comigo. Quero te mostrar uma coisa.
Davee o levou pelo corredor at o quarto dela. Com a porta fechada, obtiveram um alvio temporrio, mas abenoado, da msica. Ela se recostou na porta e fechou os 
olhos.
        Chega disso tudo. Eu estava comeando a ficar com uma terrvel dor de cabea.
        Voc no pode abandonar a sua festa, Davee.
        S um punhado daquelas pessoas me conhece. Estavam s procurando uma festa, e encontraram uma. No importa se eu fico ou no circulando e conversando com 
elas. Alm do mais, esto todas prestes a cair bbadas. Enquanto andava pelo quarto, ela tirou as sandlias de salto alto e deixou seu drinque na pequena mesa perto 
da espreguiadeira. - Quer outro?
        No, obrigado.
Ela tirou o copo molhado da mo dele e ps ao lado do dela. O que aconteceu em seguida pegou Hammond completamente de surpresa. Ela pegou a mo dele e ps na sua 
cintura nua, depois ficou na ponta dos ps e o beijou, e colou de novo o corpo no dele, sem o exagero da outra vez, mas com um movimento ainda mais sugestivo. Ele 
reagiu como se levasse um susto, jogando a cabea para cima e para trs.
        O que voc est fazendo?
        Precisa perguntar?
Ela passou os braos em volta do pescoo dele e tentou beij-lo de novo, e quando ele no reagiu, ela abaixou os calcanhares e olhou para ele evidentemente desapontada.
-No?
        No, Davee.
        S para se divertir? Se no pode trepar com uma velha amiga, vai trepar com qu?
        Vai trepar com quem.
Ela deu um sorriso largo e tentou beij-lo na boca novamente, mas ele inclinou a cabea para trs.
        No somos mais crianas, Davee. J passamos da idade das experincias.
        Seria bom - prometeu ela, sedutora. - Muito melhor que a primeira vez.
        No duvido - ele sorriu e apertou a cintura dela afetuosamente .antes de abaixar os braos e solt-la -, mas no posso.
        Voc quer dizer que no quer. - Quero dizer que no quero.
        Meu Deus! - ela gemeu, abaixou os braos, deslizando as mos pelo peito de Hammond at o cinto e ento se separou dele. - Diga que no  verdade.
        O qu?
        Voc se apaixonou por ela.
O corao dele praticamente parou de bater.
        Como foi que voc descobriu?
        Oh, pelo amor de Deus, Hammond! H meses correm boatos por a que voc est levando trabalho para casa.
        Steffi! - exclamou ele num desabafo de alvio. - Voc est falando da Steffi.
Davee inclinou a cabea, perplexa.
        De quem mais eu poderia estar falando?
Admitir o caso com Steffi era menos prejudicial do que responder  pergunta dela.
        Tive um relacionamento com StefE, mas j acabou.
        Jura? - ela semicerrou os olhos, desconfiada.
        Palavra de escoteiro.
        bom, nem sei dizer como fico feliz de ouvir isso. Domingo  noite, quando voc esteve aqui, eu lhe dei toda oportunidade para falar mal da srta. Mundell. 
Voc no disse nada, e conclu que os boatos eram verdadeiros. Fiquei arrasada. Quero dizer, Hammond, que atrao  essa? Ela no tem estilo, no tem senso de humor, 
no tem classe, e aposto que est to por fora que  capaz de usar sapato branco no inverno.
Hammond deu uma risada.
        Voc  uma grande fraude. No  to informal como deseja que todos pensem.
Ela assumiu um ar de arrogncia.
        Certas coisas simplesmente no se faz.
        E essa histria de sapato branco  puro tabu.
        Mas voc est interessado em algum, no est? - perguntou ela de repente. - E no me venha com aquela cara de "quem, eu?" para cima de mim, porque sei 
que estou certa.
Ele no admitiu, nem negou. Exasperada, ela ps os punhos fechados nos quadris. Eu joguei isso para voc - disse ela, referindo-se ao seu belo corpo. - Ofereci sem 
nenhum compromisso, sucesso sem preocupao, e voc me desprezou. Por isso, ou voc virou bicha ou est amarrado em outra mulher, ou ento perdi toda a minha atrao 
sexual e posso muito bem me matar esta noite. Qual vai ser?
        Bem, eu no virei bicha e voc no perdeu toda a sua atrao sexual.
Ela no proferiu nenhuma das exclamaes a que tinha direito. Nenhum "Eu sabia!", nada de "Voc no pode me enganar, Hammond Cross!". Nada disso.
Ao contrrio, ela reagiu  solenidade da resposta dele dizendo baixinho:
        Foi o que pensei. Quando a conheceu?
        Recentemente.
         uma aventura? Ou  especial?
Hammond ficou olhando para ela um tempo, resolvendo se devia tentar mentir ou no. Antes do caso com Steffi, tinha namorado muitas mulheres, mas nunca por muito 
tempo. Em Charleston, ele era conhecido como um bom partido, com dinheiro de famlia e muito promissor. Montes de mulheres solteiras disputavam atrevidamente a companhia 
dele. Sogras em potencial o consideravam uma presa excelente.
At a me dele estava sempre querendo apresentar filhas e sobrinhas das amigas dela.
        Ela  uma jovem adorvel, de uma famlia maravilhosa.
-A famlia dela  da Georgia. Do ramo de madeireiras. Talvez seja de pneus. Alguma coisa assim.
        Ela  simplesmente uma jia de menina. Acho que vocs dois devem ter muita coisa em comum.
Uma resposta irreverente provavelmente convenceria Davee de que o caso atual no passava disso. Mas Davee era sua amiga mais antiga, e ele estava farto de mentir 
e de mentiras. Abaixou-se ao lado da espreguiadeira e juntou as mos entre os joelhos afastados. Inclinou um pouco os ombros para a frente.
        Nossa! - disse ela, pegando seu drinque. -  to ruim assim? 309
        Ela no  uma aventura. Quanto a ser especial, eu no sei.
        Cedo demais para dizer?
        Complicado demais.
        Ela  casada?
        No.
        Ento, por que  complicado?
         mais que complicado.  impossvel.
        No estou entendendo.
        No posso falar sobre isso, Davee - ele disse isso com mais nfase do que pretendia, mas o tom dele deve t-la alertado para a seriedade do assunto.
De qualquer forma, ela recuou.
        Tudo bem. Mas se precisar de uma amiga...
        Obrigado - ele segurou a mo dela, empurrou as pulseiras e beijou-lhe a parte interna do pulso. Depois, distrado, passando o dedo no desenho gravado em 
uma das pulseiras, ele perguntou: - O que me traiu?
        Seu modo de agir. Ele largou a mo dela.
        Como  que estou agindo?
        Como se houvesse uma fila para castrao obrigatria e voc fosse o prximo - ela foi at um carrinho do outro lado do quarto e preparou um novo drinque. 
- No instante em que vi voc no funeral ontem, eu soube que alguma coisa estava errada. Em termos da sua carreira - em parte, graas a mim -, est tudo timo para 
voc. Por isso imaginei que devia estar sofrendo de algum problema do corao.
        Incomoda-me ser to transparente.
        Fique tranquilo. Provavelmente ningum mais notou. Alm de conhec-lo to bem, eu reconheo os sintomas. Aquele tipo especial de sofrimento s pode significar 
amor.
Ele ergueu as sobrancelhas.
        No acredito.
        Humm.
        Voc nunca me disse.
        Terminou mal. Eu estava comeando a me recuperar naquele vero em que fomos juntos ao casamento. Um casamento - ela bufou -, exatamente o ambiente que eu 
precisava para ficar completamente desesperada. Foi por isso que agi como uma cretina em todas as festas antes da cerimnia. E  por isso tambm que eu precisava 
de um amigo aquela noite. Um amigo muito ntimo - disse ela com um sorriso suave, que ele retribuiu. -A nossa pequena escapada na piscina recuperou a minha autoconfiana.
        Fico feliz de ter sido til.
        E foi mesmo.
Aos poucos o sorriso de Hammond se desfez.
        Eu nunca teria adivinhado, Davee. Voc disfarou muito bem. O que aconteceu?
        Ns nos conhecemos na universidade. Ele era filho de um pastor. Voc acredita nisso? Eu com um filho de pastor! Ele era um verdadeiro cavalheiro. Inteligente. 
Sensvel. No me tratava como vagabunda e, por mais incrvel que possa parecer, quando estava com ele eu no me comportava como uma.
Ela terminou seu drinque e serviu-se de outro.
        Mas tinha sido assim antes,  claro. Quando o conheci, j tinha dormido por todo o campus, um dormitrio inteiro, percorrendo os dois lados da rua das casas 
de fraternidades. Tive at uma aventura com um dos meus instrutores.
"Milagrosamente ele nem desconfiava da minha reputao. Alguns dos meus antigos parceiros acharam que seria muito engraado contar para ele."
Ela foi at a janela e ficou espiando atravs das venezianas.
        Ele era um excelente aluno. Na lista do reitor. Muito correto. No frequentava muitas festas. Por todos esses motivos, ningum gostava muito dele. Os rapazes 
gostavam de humilh-lo, achavam que ele  que provocava isso sendo to superior. No pouparam um nico detalhe. Tinham at algumas fotos de uma festa em que eu era 
uma das atraes.
"Quando ele veio confirmar comigo tudo que tinham contado para ele, fiquei arrasada por ele ter descoberto a verdade sobre o meu comportamento. Implorei para ele 
me perdoar. Para procurar entender. Para acreditar que eu tinha mudado quando o conheci. Mas ele nem quis ouvir - ela inclinou a cabea para a frente e encostou 
a testa nas venezianas. - Naquela mesma noite, para me humilhar, ele dormiu com outra. E ela ficou grvida."
   Ela ficou to imvel que nem as suas pulseiras tilintavam, - Do ponto de vista moral e religioso, um aborto estava fora de cogitao. E tampouco teria passado 
pela cabea dele fazer qualquer outra coisa seno a certa. Por isso ele se casou com ela. Por mais estranho que possa parecer, Hammond, foi a que eu o amei mais. 
Eu queria muito ter filhos com ele.
Hammond esperou at ter certeza de que ela terminara a histria, at ela se mexer de novo, e esse movimento foi para levar o copo aos lbios.
        Voc soube o que aconteceu com ele?
        Sim.
        Ele ainda est casado? -No.
        Voc o v de vez em quando?
Ela deu as costas para a janela e olhou para ele.
        Ontem. No funeral de Lute. Ele estava sentado atrs, com Steffi Mundell. At hoje muita gente no gosta dele.
Quando Hammond juntou todas as pistas, seu queixo caiu. Sem emitir nenhum som, os lbios dele formaram o nome.
        Rory Smilow?
Ela deu uma risada fria.
        H gosto para tudo, no ? Hammond passou a mo pelo cabelo.
        No admira que ele detestasse tanto o Lute. Primeiro pela irm dele. E depois voc.
        Bem, na verdade foi ao contrrio. O casamento de Lute com Margaret s aconteceu anos depois. Lembro quando Rory mudou-se para Charleston para aceitar o 
cargo no departamento de polcia. Li sobre isso no jornal. Queria falar com ele na poca, mas o orgulho no permitiu.
"A mulher com quem ele tinha se casado morrera de parto e o beb nasceu morto tambm. - Ela fez uma pausa para refletir a ironia daquilo tudo. - Os pais dele tambm 
j tinham morrido, por isso a responsabilidade pela Margaret era dele. Ela mudou-se para c com ele. Ela conseguiu um emprego de funcionria pblica no tribunal. 
Registros municipais, de terras, coisas assim. Foi l que ela conheceu Lute. No ficaria admirada se soubesse que o romance comeou depois de Margaret fazer algum 
favor para ele, como modificar o limite de alguma propriedade ou algo assim." A mim tambm no surpreenderia - observou Hammond. Ouvi dizer que aquele casamento 
era um pesadelo.
        Margaret era emocionalmente frgil. Certamente no era preo para um filho-da-me como o Lute - ela terminou seu drinque - De vez em quando eu me enchia 
de coragem, engolia meu orgulho e me punha no caminho de Rory fingindo ser um encontro acidental. Ele sempre me ignorava, como se nunca tivssemos nos conhecido. 
Aquilo doa, Hammond. E tambm me deixava furiosa.
"Por isso, depois do suicdio de Margaret, fui atrs de Lute e no parei de persegui-lo at ele se casar comigo. Rory tinha partido meu corao. Ento tentei partir 
o dele casando com o homem que ele mais desprezava - acrescentou ela com tristeza. - A vingana sempre acaba dando um chute no traseiro de quem se vinga, no ?"
        Eu sinto muito, Davee.
        Ora, no precisa - disse ela com uma leveza que Hammond sabia que era falsa. - Ainda tenho a minha beleza. Isso - disse ela, mostrando o copo alto - no 
destruiu a beleza da mame. Ela continua maravilhosa como sempre, por isso eu conto com bons genes para afastar os efeitos danosos do demnio do lcool. Tenho rios 
de dinheiro. Assim que o testamento de Lute for autenticado, terei mais ainda. Por falar nisso...
Ela foi at uma escrivaninha antiga e abriu a gaveta estreita da tampa.
        Essa merda de passeio pelas lembranas quase me fez esquecer. Encontrei isso quando estava mexendo nos papis da mesa de Lute. Est escrito com a letra 
dele - Ela entregou para Hammond um bilhete num papel verde-claro. - A data  do sbado passado, no ?
A viso de Hammond ficou embaada quando ele olhou para a anotao.
        Lute escreveu o seu nome e cinco horas. Parece um compromisso. E tenho certeza que voc prefere que ningum saiba disso.
Ele olhou para ela.
        No  o que voc est pensando.
Ela deu uma risada.
        Hammond, querido, seria mais fcil eu acreditar em cremes que reduzem a celulite do que acreditar que voc  capaz de cometer um assassinato. No sei o 
que isso significa, nem quero saber. S achei que devia ficar com voc.
Ele ficou olhando fixamente para a segunda anotao no pequeno quadrado de papel.
        Ele anotou aqui uma outra hora. Seis horas. Sem nome. Alguma ideia?
        Nenhuma. No h nada na agenda oficial dele sobre qualquer compromisso no sbado, nem com voc, nem com alguma outra pessoa.
Obviamente Lute pretendia se encontrar com mais algum aquela tarde, depois da hora marcada com ele. Quem?, ele imaginou. Pensativo, Hammond dobrou o pequeno pedao 
de papel e o guardou no bolso.
        O certo seria voc ter dado isso para Smilow.
-E quando foi que me viu fazer a coisa certa? - O sorriso malicioso dela ficou tristonho. - Aprendi da forma mais difcil que  perda de tempo tentar magoar Rory. 
Acho que ele nunca se magoa - ento o sorriso desapareceu por completo. - Mas tambm no me sinto obrigada a fazer nenhum favor para ele.
        Ele esteve aqui comigo a noite passada - Ellen Rogers tinha de gritar para se fazer ouvir com a msica alta. - Ns nos sentamos ali e ficamos vrias horas, 
pedimos vrias rodadas de bebida. Voc deve se lembrar.
O atendente do bar, um jovem corpulento, de rabo-de-cavalo e uma argola prateada na sobrancelha, olhou para ela de um jeito que dizia que ela era extraordinariamente 
fcil de esquecer.
        Eu vejo muita gente. Todas as noites. No me lembro de todos os rostos. Eles se embaralham na minha cabea, sabe como ?
Uma loura pernalta de vestido preto justo sentou-se sinuosa num banco ao lado. O atendente do bar estendeu o brao pela frente de Ellen para acender o cigarro dela.
        O que vai querer?
        O que tem de bom?
Ele apoiou os cotovelos no bar e chegou mais perto dela.
        Depende do que voc est procurando.
        com licena - Ellen interrompeu, e acabou tendo de dar um tapinha no ombro do barman para chamar a ateno dele. - Se ele voltar-o cara com quem eu estava 
ontem  noite -, telefona para mim. Est bem?
Com pouca esperana de que fosse adiantar alguma coisa, ela deu para ele um pedao de papel.
        Aqui est o nmero do meu hotel.
        Est bem.
Ela viu quando ele guardou o nmero do telefone no bolso, sabendo que a lavanderia provavelmente encontraria o papel l alguns dias depois. Tinha entrado no bar 
com passos determinados e orgulhosos de uma guerreira em cruzada. Era uma mulher encarregada de uma misso. Aquela manh, depois que o choque inicial diminuiu e 
ela teve tempo de se recompor, resolveu encontrar a pista do mentiroso filho-da-me e entreg-lo  polcia. Quando escureceu, ela partiu determinada a vasculhar 
cada boate em Charleston se fosse preciso, para denunci-lo. Aquele tipo tinha transformado suas trapaas em uma arte. Relembrando, ela compreendeu que ele estava 
calmo demais para ela ter sido sua primeira vtima. E tambm no seria a ltima. Impetuoso e confiante depois do sucesso da vspera, seu sedutor sairia para caar 
novamente aquela noite. Mas na sada do bar o nimo dela j estava reduzido. Reconheceu que era estupidez ficar andando por Charleston  procura de um ladro mentiroso 
que s conhecia como Eddie, que muito provavelmente era um nome falso. O sapato novo de couro que tinha comprado especialmente para aquela viagem de frias estava 
apertando seus dedos, transformando seus passos num cambalear. Ela estava com fome, mas toda vez que tentara comer ficava nauseada por causa do consumo de bebida 
da noite anterior e da auto-recriminao daquela manh. No que pudesse se dar ao luxo de comer em qualquer restaurante decente, lembrou ela com amargura. Tinha 
avisado s companhias de carto de crdito sobre o furto, mas levariam dias para mandar os novos cartes. Por sorte, tinha lembrado que pusera algum dinheiro num 
bolso de um blazer. Era apenas uma frao do que Eddie havia roubado, mas se economizasse ia dar.
Ento, por que simplesmente no reduzia seu prejuzo e voltava para casa? Charleston estava estragada para ela. O calor abafado que enfatizara o charme romntico 
da cidade agora provocava irritao e dor de cabea. Se ficasse o tempo que tinha planejado, no poderia pagar nenhum passeio ou programa. E menos noites significariam 
uma conta de hotel menor. O bom senso dizia que ela devia voltar para Indianpolis no dia seguinte. A companhia area ia cobrar para trocar sua passagem, mas valia 
a pena. Segura na sua casinha, com seus dois gatos e suas coisas, ela podia se retirar para lamber as feridas at o semestre do outono comear. Com o tempo, o trabalho 
e a rotina iam apagar o terrvel incidente da memria dela. Em todo o caso, andar mancando por Charleston  procura de Eddie era perda de tempo e desperdcio de 
energia. Por outro lado, naquele exato momento, enquanto ela mancava com seus sapatos de couro desconfortveis que provocavam bolhas, ele provavelmente estava seduzindo 
outra dama solitria que acordaria na manh seguinte sem seu talo de cheques e sem respeito prprio. O crime no seria registrado porque a vtima teria vergonha 
demais de revel-lo s autoridades. Era por isso que Eddie fazia aquilo com tal arrogncia, porque saa sempre impune. Bem, dessa vez ele no sairia impune.
        No se depender de mim - disse Ellen Rogers em voz alta. Com renovada determinao, ela entrou na boate seguinte.
Hammond deslizou no banco do cubculo de frente para Loretta.
        O que voc tem para mim?
        Nada de oi ou como vai ?
        No estou para amabilidades hoje.
        Voc est com uma cara pssima.
        Voc tambm no deve estar disposta a trocar amabilidades. Hammond deu um sorriso triste. - Para dizer a verdade,  a segunda vez hoje que algum observa 
que minha aparncia est pssima. Foi assim que meu dia comeou, alis.
        O que houve?
-Voc no tem esse tempo todo. Eu mesmo estou sem tempo; por isso, tem alguma coisa para mim ou no?
        Eu liguei para voc, no liguei? - retrucou ela.
Ele no a culpou por ficar ressentida. Ele estava agindo como um grosso. A visita a Davee o tinha deixado mais desconcertado do que antes. Quando entrou no carro 
e usou seu celular para verificar os recados, s ficou um pouco contente de ouvir a voz de Loretta pedindo para ir encontr-la assim que pudesse no Shady Rest Lounge. 
V-la significava alongar um dia que ele j queria encerrar. Por outro lado, ele estava ansioso para saber o que a investigao dela tinha revelado.
Ele balanou a cabea, suspirou profundamente e se desculpou:
        Estou com um humor de co, Loretta, mas no devia estar descontando em voc.
        Voc precisa de um drinque.
        A sua soluo para tudo.
        Para tudo, no. De jeito nenhum. Mas pode ser um curativo de Band-Aid para mau humor.
Ela pediu para ele usque com gua.
Em menos de um minuto Hammond j estava com seu drinque na mo e tomava um gole.
        Voc parece bem.
Ela deu uma risada bebendo club soda.
        Talvez, vista atravs do fundo de um copo alto.
Loretta tinha melhorado muito desde a noite de segunda-feira. Estava mais penteada, de roupas limpas e passadas. A maquiagem bem-feita suavizava as rugas do seu 
rosto. Os olhos estavam brilhantes e claros. Apesar de ter feito pouco do cumprimento dele, Hammond percebeu que se sentia lisonjeada.
        Eu fiz uma pequena faxina, s isso.
        Pintou o cabelo?
        Ideia da Bev.
        Boa ideia.
        Obrigada. - Meio constrangida, ela levantou a mo e deu uma batidinha no penteado rejuvenescedor. - Ela ficou feliz de saber que eu estava trabalhando. 
Eu disse que era apenas temporrio, mas mesmo assim ela ficou contente. Deixou eu voltar para o apartamento, sob uma condio, e ela adora condies, como voc, 
que eu no falte a uma nica reunio dos Aa.
        E como vai indo?
        Tenho a tremedeira matinal, mas estou me controlando.
        Isso  bom, Loretta. Muito bom - disse ele sinceramente. Ele fez uma pausa para marcar o fim daquele assunto antes de
abordar o motivo da reunio.
        O que voc tem para mim? Ela piscou o olho.
        O filo principal. Voc provavelmente vai me indicar para algum cargo na equipe do procurador pblico. Pode at pedir para eu ser me dos seus filhos.
        To bom assim?
Ele largou o copo. Aquela bebida no estava combinando bem com o que tinha bebido na festa de Davee. Alm disso ele teve a impresso de que o que ia ouvir seria 
perturbador, por isso era melhor manter a cabea limpa.
        Tenho um informante que permanecer annimo, um verdadeiro gnio do computador...
        Knuckle.
        Voc o conhece?
        Harvey  meu informante tambm. Ele  informante de todo mundo.
        Voc est me sacaneando? - perguntou ela, atnita, muito desconcertada e furiosa.
        Voc o livrou de um aperto, certo?
        Droga! - disse ela, dando um tapa na mesa. - No acredito que aquele pomposo filho-da-me fez-me sentir culpada de torcer o brao dele e de querer que ele 
comprometesse sua integridade.
        Ele  totalmente corrupto. Por isso no fui a ele diretamente. No  nada confivel.
Hammond no estava preocupado que a investigao de Harvey nos registros de Alex pudesse incrimin-lo. Acreditava em Loretta quando ela dizia que teriam de cortar 
sua lngua antes que ela trasse a confiana dele. Mas ficou pensando se mais algum tinha tentado apertar Knuckle com o mesmo objetivo.
        Quando voc falou com ele, Harvey sabia alguma coisa sobre o caso?
        No parecia saber, no. Mas agora estou desconfiada dele e dos meus instintos tambm. Por qu? Hammond ergueu o ombro.
        S estou curioso de saber se mais algum pediu para ele investigar a dra. Ladd.
        Como Steffi Mundell?
        Ou Smilow.
        Se Harvey  informante de todo mundo, acho que isso  possvel. Mas, sinceramente, Hammond, ele reagiu com surpresa e prazer quando soube que eu ia inclu-lo 
na minha investigao.
Ele balanou a cabea concordando, e apontou para o envelope embaixo da mo direita de Loretta.
        Vamos aos furos de reportagem.
Ela abriu o envelope e tirou algumas folhas de papel dobradas. Pelo que Hammond podia ver, o texto estava datilografado. quela altura Loretta j tinha repassado 
as informaes tantas vezes que havia praticamente decorado tudo. S se referia aos dados datilografados para verificar datas especficas.
        Impressionante - murmurou ele, quando ela enumerou as conquistas acadmicas de Alex Ladd, sendo que a maior parte j conhecia. Mas qualquer alvio que ele 
possa ter sentido durou pouco.
        Espere a. Eu ainda no cheguei na parte boa.
        Quando diz boa, voc na verdade quer dizer m?
        Ela no tem uma histria impressionante no Tennessee. - O que aconteceu l?
        O que no aconteceu?
Ela ento contou para ele o que Harvey Knuckle tinha desenterrado dos impenetrveis registros do juizado de menores. No era fcil ouvir aquilo. Quando Loretta terminou, 
meia hora tinha passado e Hammond estava desejando no ter bebido usque aquela noite. Tinha quase certeza de que ele ia ser reciclado. Agora compreendia o que Alex 
tinha querido dizer na noite anterior sobre ele se decepcionar, sobre explicaes dolorosas. Ela no quis contar nada, e agora ele sabia por qu.
Loretta guardou as folhas no envelope e entregou-o para ele com ar triunfante.
        No encontrei nenhuma ligao dela com Pettijohn. Isso continua sendo um mistrio.
        Eu acho... achava- corrigiu ele - que ela tinha classe demais para se associar com Lute. Parece que me enganei.
Ele guardou o envelope com seu contedo incriminador no bolso de dentro do palet. A depresso dele no passou despercebida.
        Voc no parece muito animado.
        Eu no podia querer uma cobertura mais detalhada. Voc deve estar se sentindo muito bem por ter se recuperado e correspondido ao que eu esperava de voc. 
Voc compensou com sobra seus erros do passado. Obrigado.
Hammond deslizou apressado no banco para sair do cubculo, mas Loretta estendeu o brao por cima da mesa e segurou a mo dele. O que h com voc, Hammond? No sei 
do 
O libi_Sandra Brown_III
que voc est falando. Pensei que ficaria nas nuvens.
         um bom material, sem dvida. - E s levei dois dias.
        Tambm no tenho o que reclamar da rapidez.
        D definitivamente algo com que trabalhar, no ? - Definitivamente.
        Ento por que voc parece to desanimado?
        Acho que estou envergonhado.
        com o qu?
        com isso - disse ele, dando um tapinha do lado de fora do bolso do palet. - Indica que sou pssimo para avaliar as pessoas. Sinceramente no pensei que 
ela fosse capaz de... - ele parou de falar e deixou a frase incompleta.
        Voc est falando de Alex Ladd? - ele concordou com a cabea.
        Voc acha que ela  inocente? Que Smilow est latindo na rvore errada? Ela apresentou algum libi?
         fraco. Ela diz que foi a uma feira rural em Beaufort. Ningum para comprovar - agora parecia que as mentiras vinham fceis, mesmo para amigos de confiana. 
- De qualquer modo,  luz dessa informao, um libi sem provas parece acadmico.
        Eu poderia...
        Desculpe-me, Loretta. Como disse antes, tive um dia duro e estou exausto.
Ele tentou sorrir, mas sabia que tinha falhado. O interior soturno do bar era sufocante para ele. A fumaa parecia mais densa. O cheiro de desespero mais forte. 
A cabea dele latejava e suas entranhas se reviravam. Os olhos de Loretta eram aguados como facas de aougueiro. Com medo de que eles vissem demais, Hammond evitava 
olhar diretamente para eles.
        Amanh mando o seu pagamento.
        Revirei todas as pedras que pude, Hammond.
        Voc fez um timo trabalho.
        Mas voc esperava mais.
Na verdade ele no esperava nada, mas certamente menos que aquilo.
        No, no. Com isso posso adiantar o caso. Pateticamente disposta a agrad-lo, Loretta apertou mais a mo
dele.
        Eu podia tentar ir mais fundo ainda.
        D-me algum tempo para assimilar isso primeiro. Tenho certeza de que vai bastar. Se no for suficiente, procuro voc de novo.
Sem ar puro, ele ia morrer. Livrou a mo da pegada mida de Loretta, disse para ela continuar sbria, agradeceu mais uma vez o trabalho bem-feito e deu um at logo 
apressado por cima do ombro. Fora do Shady Rest o ar no estava fresco nem revigorante. Estava estagnado, denso, e quando ele inspirava parecia algodo. Mesmo horas 
depois do pr-do-sol, a calada ainda emanava um calor que queimava seus ps atravs da sola dos sapatos. Sua pele estava pegajosa. E como quando era criana, nauseado. 
Depois que a febre cedia, a me dele trocava o pijama molhado e os lenis da cama, garantindo que a transpirao era um bom sinal. Queria dizer que ele estava melhorando. 
Mas ele no se sentia melhor. Preferia a secura da febre  umidade que saturava sua pele. A calada estava congestionada de gente que ia de porta em porta, mas sem 
ter para onde ir. Procuravam alguma coisa interessante para fazer, o que podia incluir, mas no se limitava a, embebedar-se em um dos bares, furtar algo de que precisavam, 
destruir ou vandalizar propriedades privadas s por diverso, ou derramar sangue para executar uma vingana.
Normalmente Hammond estaria atento ao potencial de perigo que aquela vizinhana representava para algum que obviamente no pertencia ao lugar. Tanto negros quanto 
brancos riam e zombavam dele com um preconceito muito palpvel e um dio bem cultivado. Ele era definitivamente algum com posses num bairro em que ningum possua 
nada, e o ressentimento imperava. Em qualquer outro momento ele ficaria olhando para trs o tempo todo enquanto voltava para o seu carro, esperando encontr-lo depenado. 
Aquela noite a preocupao gerava o descaso e a indiferena em relao aos olhares hostis que davam para ele. O relatrio que Loretta tinha feito sobre Alex fez 
Hammond mergulhar num lodaal moral. A informao que a incriminava era arrasadora o impacto emocional que provocava era severo. Tudo era to devastador que ele 
no conseguia distinguir os aspectos individuais. Quando Smilow soubesse da histria dela... e era s uma questo de tempo para um dos detetives descobrir... ele 
teria sonhos molhados. Steffi estouraria uma garrafa de champanhe. Mas para ele e para Alex, profissional e pessoalmente, a descoberta seria desastrosa. A revelao 
era como um peso morto pendurado num fio que se desenrolava bem em cima da cabea dele. Quando ia cair? Aquela noite? No dia seguinte? No outro? Quanto tempo ele 
ia suportar o suspense? Quanto tempo aguentaria lutar contra a prpria conscincia? Mesmo que a hora da morte eliminasse Alex como a verdadeira assassina, ela devia 
estar envolvida de alguma maneira. Esses pensamentos eram to sombrios, to absorventes, que eram quase paralisantes. Ele perdeu completamente a noo de onde estava. 
Pensava em interdio, no em desagregao. Quando chegou  ruela onde tinha deixado o carro, ele usou a tranca sem chave e abriu a porta sem nem olhar em volta 
para ver se era seguro. Assustado com o sbito movimento atrs dele, reagiu rpido. Deu meia-volta muito depressa, com o brao levantado, pronto para se proteger 
e se defender. Quase agrediu Alex antes de interromper o movimento com o brao.
        Que diabo! - ato reflexo, ele examinou a rea em volta e s ento se deu conta do ambiente escuro e ameaador. - O que  que voc est fazendo aqui nesse 
lugar?
        Eu a segui at aqui.
        Quem?
Os olhos verdes olharam zangados para ele.
        Quem voc acha, Hammond? A mulher que voc contratou para me seguir.
        Merda!
        Exatamente o que eu sinto - disse ela, furiosa. - Achei estranho que a mesma turista fosse duas vezes no mesmo dia  minha rua para tirar fotografias da 
minha casa. Primeiro esta manh, e outra vez logo depois que a tropa de Smilow foi embora. A caminho de casa, depois daquele interrogatrio humilhante esta tarde, 
parei no supermercado.
Ela estava l tambm, fingindo se interessar pelas melancias. Finalmente conclu que eu estava sob vigilncia.
        Vigilncia, no.
         verdade. Isso implicaria profissionalismo. O que acontecia era espionagem vulgar, cruel e sem classe.
-Alex...
        Por isso eu a enganei, dei o troco, virei a mesa e comecei a seguila. Pensei que o detetive Smilow estava por trs disso. Imagine s a minha surpresa quando 
voc apareceu para encontr-la aqui.
        No me compare com Smilow.
        Oh, voc  muito mais baixo que o sr. Smilow - disse ela, com a voz falhando de emoo crescente. - Voc  mais dissimulado. Mais desleal. Voc foi para 
a cama comigo primeiro.
        No  nada disso.
        Ah, ? Ento o que ? Qual parte est correta? Ela  uma policial?
        Investigadora particular.
        Pior ainda! Voc pagou para ela me vigiar.
        Tudo bem, voc me pegou - disse ele, e a raiva dele se equiparava  dela. - Voc  uma dama muito esperta, dra. Ladd.
        Vocs dois tiveram uma conversa agradvel sobre mim?
        No houve nada agradvel nisso, mas o que ela descobriu sobre voc foi muito interessante. Especialmente os registros do Tennessee.
Ela fechou os olhos e cambaleou um pouco. Mas recuperou-se rapidamente, abriu os olhos e mandou-o  merda. Ela se virou para ir embora, mas Hammond segurou-a pelo 
brao e puxou-a de frente para ele.
        O que ela desenterrou sobre voc no  culpa minha, Alex. Quando a contratei, achei que estava fazendo um favor para ns dois.
        Pelo amor de Deus, como?
        Eu esperava, foi burrice minha, que ela encontrasse alguma coisa que a desculpasse. Mas isso foi antes de voc comear a mentir para a polcia a cada palavra 
que dizia, e a se jogar em becos sem sada.
        Voc preferia que eu dissesse a verdade para eles? Alex tinha feito a mesma pergunta para ele quando se encontraram acidentalmente no elevador. Ele no 
teve resposta para isso. Mas desde ento Hammond tinha pensado muito nisso.
        No importa se passamos a noite de sbado juntos.
        Ento por que no contou para eles? Quando eu estava passando toda aquela humilhao no interrogatrio sobre a minha roupa,
literalmente, por que voc no disse nada? Por que no contou tudo para eles, inclusive quem invadiu a minha casa a noite passada e manchou meus lenis?
        Porque  irrelevante. Ela deu uma risada fria.
        Voc est delirando, promotor Cross. Mesmo com o seu brilhantismo, acho que teria muita dificuldade para convencer qualquer um dessa irrelevncia. E por 
falar nesse assunto, expliquei o sangue. Mas s existe uma explicao para o smen. Que no estaria l se voc tivesse usado proteo.
        Eu no pensei nisso - ele abaixou o rosto, ficando mais perto dela, e acrescentou num sussurro irritado: - E voc tambm no - ele soube que tinha marcado 
aquele ponto quando ela desviou o rosto. Alm do mais, uma coisa no tem nada a ver com a outra.
Ela olhou de novo para ele.
        Estou tendo dificuldade para seguir a sua lgica.
        O fato de termos dormido juntos no tem nada a ver com o caso
        se ele conseguisse convenc-la, talvez pudesse convencer outras pessoas. Podia at passar a acreditar nisso. - Andei pensando nisso. No sbado passado voc 
poderia ter matado Pettijohn antes de sair de Charleston.
Ela sugou o ar rapidamente e cruzou os braos como se sentisse uma sbita pontada de dor.
        Foi isso que voc andou pensando? Voc disse que a hora da morte no se encaixava.
        Porque eu no queria que se encaixasse.
        E agora quer?
        Voc o matou e depois forjou o nosso encontro para estabelecer um libi.
        Eu te disse ontem  noite que no matei Pettijohn.
        Certo, certo. Como tambm no trepou com ele.
Mais uma vez ela deu meia-volta para ir embora. Hammond estendeu o brao. Mas dessa vez ela resistiu:
        Vai se danar! Me larga!
Hammond virou Alex de frente para ele e prendeu-a no vo formado pela porta aberta do carro. Para escapar, ela teria de dar a volta ou passar atravs dele. Tinha 
resolvido que ela ia ouvir o que ele queria dizer primeiro.
        No quero pensar essas coisas, Alex.
        Minha nossa, obrigada. Fico muito feliz de saber que voc no quer pensar em mim como uma vagabunda e assassina.
        Em que devo acreditar?
        Acredite no que bem entender, mas deixe-me em paz.
        Esse tempo todo, mesmo quando fugia das raias da credibilidade, eu tenho lhe dado o benefcio da dvida. At esta noite.
Ele abriu o palet para Alex poder ver o envelope dentro do bolso de cima.
E, de repente, ela parou de lutar. Ficou olhando fixamente para o envelope um tempo, e ele viu os lbios dela torcidos numa expresso de remorso. Mas para dar-lhe 
crdito, quando Alex olhou bem nos olhos dele, sua expresso era de desafio e orgulho.
        Leitura picante?
        Prejudicial. Muito prejudicial. Essa  a munio que eles precisam para indici-la.
        Ento por que voc est aqui parado, conversando comigo?
        Smilow vai pegar isso e sair correndo.
        Ento liga para ele. D-lhe a informao secreta. Voc conseguiu o que queria, o que pagou para obter.
        Estou lhe dando uma chance de explicar.
        Imagino que isso dispense explicaes.
        Ento devo levar em conta o significado aparente?
        No dou a mnima para o que voc leva em conta.
        Est bem, vou interpretar do nico jeito que posso - ele encostou a parte de baixo do corpo nela - Significa que voc j rodou muito, nenm.
Ela perdeu a compostura e a altivez. Com as duas mos, empurrou o peito dele com fora.
        Afaste-se de mim! Ele no se mexeu.
        O que isso significa para mim  que aquela noite de sbado foi mais que uma simples seduo.
        Eu no seduzi voc.
        Uma ova que no, mas j falamos sobre isso antes. Voc est envolvida num crime grave, e me envolveu de propsito. Por qu, Alex? Voc criou intencionalmente 
um conflito de interesses para mim, como promotor. Voc me tornou parte disso... seja l o que isso for.
        No tem isso nenhum. Nunca teve. No at Lute Pettijohn aparecer morto.
        Ele tinha alguma coisa a ver?
        Voc no est ouvindo? - gritou ela.
        Eu era o alvo do ltimo golpe dele? Ele estava planejando me derrubar quando foi assassinado?
        Eu no sei. O fato de ele ter sido assassinado no teve nada a ver comigo.
        Gostaria de poder acreditar nisso. Nosso encontro no foi acidental, Alex. Voc j admitiu isso.
Ela tentou desviar dele, mas Hammond bloqueou o caminho e ps as mos nos ombros dela.
        Voc no vai sair daqui at eu chegar  verdade. Como sabia que eu ia estar naquela feira? Ela balanou a cabea.
        Como sabia?
Ela continuou obstinadamente muda.
        Conte para mim, Alex. Como soube que eu ia para l? No podia saber. A nica maneira de saber isso era...
Ele interrompeu a frase de repente. Olhou intensamente para ela e apertou seus ombros com mais fora.
Os olhos de Alex se manifestaram com eloquncia para ele.
        Voc me seguiu at l - disse ele calmamente.
Ela hesitou pelo que pareceu um tempo interminvel e ento meneou a cabea lentamente.
        Sim. Eu o segui desde o Charles Towne Plaza.
        Voc sabia o tempo todo que eu estava l?
        Sabia!
        com Pettijohn?
        Acertou de novo.
        E no disse nada? Por qu?
        Se dissesse agora para voc, no acreditaria em mim. Olhando direto para o palet dele, era como se Alex pudesse
enxergar atravs do tecido e ver o envelope dentro do bolso interno. Ela estava zangada. Mas tambm parecia profundamente triste.
        Esse relatrio  horrvel, mas no chega nem perto de como foi horrvel na realidade. Voc nem pode imaginar - ela olhou nos olhos dele de novo. - Serei 
julgada por um maldito relatrio, no pelo que sou agora.
        Eu no vou...
        Voc j fez isso - disse ela com veemncia. - Vejo isso no seu olhar e ouo nas suas insinuaes maldosas.  fcil julgar da sua posio elevada, no ? 
Voc, da famlia rica com pedigree. Voc j passou fome dias a fio, Hammond? J sentiu frio porque a conta da luz no tinha sido paga? J ficou sujo porque no tinha 
sabo para se lavar?
Ele tentou encostar a mo nela, mas ela afastou o brao dele.
        No, no tenha pena de mim. s vezes fico feliz porque isso me fez forte. Fez-me ser quem sou, uma pessoa melhor, que ajuda os outros. Porque nada que digam 
pode me chocar. Aceito as pessoas com suas aberraes, porque se voc no esteve onde a outra pessoa est ou esteve no tem o direito de julgar seu comportamento.
"Se voc no passou fome, no sofreu humilhaes, no odiou voc mesmo por fazer o que faz... se no passou a acreditar que voc  escria, que no ? merece o amor 
de ningum, o amor de um homem..." Ela parou de falar, engoliu ar rapidamente e seu peito estremeceu. Ento ela fungou e levantou a cabea, desafiando as lgrimas 
que escorriam pelo rosto.
        Boa leitura, Hammond.
Ela o empurrou para o lado e saiu com passos largos, virou a esquina para fora da ruela. Hammond ficou olhando Alex ir embora, sabendo que nada que dissesse agora 
poderia penetrar na raiva que ela sentia. Ele xingou, encostou o cotovelo na capota do carro e apoiou a cabea no brao. Mas a pausa durou apenas alguns segundos.
Um grito abafado fez com que ele levantasse e virasse a cabea.
Alex estava correndo de volta para o beco. Um homem a perseguia.
        Ele tem uma faca! - gritou ela.
O atacante agarrou-a pelo cabelo e a fez parar com um tranco. Ele levantou o brao e Hammond viu o brilho do ao. Sem nem pensar, ele se jogou contra o assaltante, 
bateu com o ombro nas costelas do homem, que perdeu o equilbrio. Para evitar a queda, o homem soltou Alex. Ela se afastou cambaleando. Hammond mal teve tempo de 
registrar que ela estava momentaneamente fora de perigo, quando viu um claro prateado chegando horizontalmente na altura da sua barriga. Num ato reflexo, ele protegeu 
a barriga com o brao. A lmina produziu um corte do cotovelo at o pulso. Desarmado, numa luta de faca, ele perderia. A nica defesa que conhecia tinha aprendido 
jogando futebol americano. Para agradar ao pai, Hammond tinha jogado com uma competitividade sedenta de sangue. Instintivamente ele recorreu a uma ttica de bloqueio 
que era eficiente se voc conseguisse se safar com ela e no provocar a bandeirada do juiz. Ele abaixou a cabea como se fosse dar uma chifrada na garganta do atacante, 
mas parou logo antes de encostar nele. O bandido reagiu como ele esperava, jogando a cabea para trs e deixando seu pomo-de-ado vulnervel ao golpe do brao de 
Hammond, que funcionou como um arete. Sabia que aquilo doa demais e que o assaltante ficaria inutilizado por alguns segundos preciosos.
        Entre no carro! - berrou ele para Alex.
Hammond deu um chute na direo da virilha do homem, mas errou o alvo e acertou a coxa dele. O pontap no causou nenhum dano concreto, mas garantiu mais meio segundo 
para correr de volta para o carro enquanto se esquivava dos golpes da faca. Alex tinha entrado pela porta aberta do lado do motorista e passado por cima do console. 
Hammond praticamente caiu no banco do motorista, inclinou o corpo para trs por cima do console e enfiou o calcanhar na barriga do camarada. O assaltante cambaleou 
para trs, mas ainda conseguiu dar mais um golpe com a lmina. Hammond ouviu o tecido da sua cala rasgar.
Estendendo o brao para a maaneta da porta, ele a fechou e trancou. O atacante, tendo recuperado rapidamente o equilbrio, socou a janela e a porta, berrando obscenidades 
e ameaas de morte. A mo direita de Hammond estava escorregadia, coberta de sangue, mas ele conseguiu enfiar a chave na ignio e ligou o motor. Ps o cmbio em 
drive e pisou no acelerador. Os pneus queimaram quando o carro saiu em disparada pelo beco e virou, derrapando de traseira na rua principal.
        Hammond, voc est ferido!
        E voc?
Ele desviou os olhos da rua tempo suficiente para olhar para Alex. Ela estava ajoelhada no banco, inclinada por cima do console para examinar o brao dele.
        Eu estou bem. Mas voc no est.
O que restava da manga direita do palet dele estava encharcada de sangue. O sangue pingava da mo dele, deixando o volante muito escorregadio, forando Hammond 
a dirigir com a mo esquerda. Mas isso no o impedia de correr demais. Ele avanou um sinal vermelho.
        Ele deve ter amigos. Eles vo nos assaltar e roubar o carro. Precisamos sair logo desse bairro!
        Ele no estava tentando roubar nada - disse ela com uma calma extraordinria. - Ele estava atrs de mim. Chamou o meu nome.
Hammond ficou boquiaberto olhando para ela. O carro derrapou e quase bateu num poste de telefone.
Hammond! - gritou ela. Depois que ele recuperou o controle, ela disse: - V direto para o pronto-socorro. Vai precisar de uns pontos a.
Ele soltou o volante para passar a manga do brao esquerdo na testa. Estava transpirando muito. Sentia o suor no rosto, no cabelo, escorrendo pelo peito at a virilha. 
Agora que a descarga de adrenalina tinha cessado, ele sentia o impacto do que havia acontecido e do que podia ter acontecido. Ele e Alex tinham sorte de ainda estarem 
vivos. Cristo, ela podia ter morrido! Pensar em como Alex tinha chegado perto de morrer deixava Hammond muito fraco e trmulo.
No primeiro grande cruzamento ele teve de parar no sinal vermelho. Respirava fundo para tentar clarear a cabea de um zumbido que parecia um milho de abelhas.
-A sua perna est sangrando tambm, mas estou preocupada com o seu brao - disse Alex. - Acha que o corte atravessou o msculo?
Sinal verde. Hammond apertou o acelerador com fora e o carro pulou para a frente como um cavalo xucro disparando. Em poucos segundos ele j ultrapassava o limite 
de velocidade. Dava para ver os prdios do hospital a alguns quarteires de distncia.
        Hammond, voc est bem?
A voz de Alex parecia chegar de muito longe.
        Estou bem.
        Consegue dirigir at l?
        Humm.
        Acho que no. Pare aqui. Deixa que eu dirijo.
Ele tentou insistir que estava bem, mas no conseguia separar as palavras, e elas saram enroladas e ininteligveis.
        Hammond? Hammond? Voc tem de virar aqui. A emergncia... -No.
        Voc est perdendo muito sangue.
        Voc  mdica - Deus, a lngua dele estava grossa.
        No do tipo que voc precisa! - exclamou ela. - Voc precisa de um hospital. De uma antitetnica. Talvez at de uma transfuso.
Ele balanou a cabea e resmungou:
        Minha casa.
        Por favor, seja sensato.
        Ns dois... - ele olhou para ela e balanou a cabea. - Estaramos ferrados.
Ela enfrentou a indeciso alguns segundos, mas aparentemente chegou  mesma concluso. Estendeu o brao por cima do console e assumiu o controle da direo, que 
estava grudenta com o sangue dele.
        Tudo bem, mas eu vou dirigindo.
Ela conseguiu encostar o carro no meio-fio e pr a marcha em ponto morto. Precisou fazer um certo esforo e insistir gentilmente, mas com firmeza, para Hammond trocar 
de lugar com ela. Desceu do carro, deu a volta e ajudou-o a sair. Ele estava com as pernas bambas. Ela o ps sentado no lado do carona e prendeu o cinto de segurana 
nele. Assim que ela se instalou na direo ele inclinou a cabea para trs e fechou os olhos.
Ela no podia deixar Hammond desmaiar.
        Hammond, qual  o seu endereo? - Ela pegou o celular dele e comeou a discar. - Hammond! Ele murmurou o endereo:
        Em frente  marina. Logo...
Ele virou o queixo na direo certa. Felizmente Alex conhecia a rua. Ficava a poucos quarteires de onde eles estavam. Ela o levaria para l em alguns minutos.
Convencer o dr. Douglas Mann a dar uma consulta em casa era outra histria.
Milagrosamente, Alex tinha decorado o nmero do telefone dele de casa. Ele atendeu no segundo toque.
        Doug,  Alex. Graas a Deus encontrei voc!
Ela explicou a situao enquanto dirigia o carro, mas no disse que no tinha sido um ataque ao acaso.
        Acho que ele precisa  de um hospital.
        Doug, por favor! Estou cobrando aquele favor!
Ainda relutante, ele pediu o endereo. Alex estava dando as coordenadas para ele enquanto estacionava o carro na rua da casa de Hammond.
        Chegamos. Venha o mais depressa possvel.
O controle remoto da porta da garagem da casa de Hammond estava preso no pra-sol. Ela abriu a porta da garagem e fechou-a assim que desligou o motor do carro.
Ela desceu e deu a volta pela frente do carro at a porta do passageiro. Hammond continuava de olhos fechados. Estava plido. Quando Alex tentou acord-lo, ele gemeu.
        No vai ser fcil, mas tenho de levar voc para dentro. Consegue pr suas pernas para fora? Ele se moveu como se pesasse mil quilos, mas conseguiu. Ela 
passou as mos por baixo dos braos dele.
        Fique em p, querido, e pode se apoiar em mim.
Ele fez isso. Mas o movimento machucou o brao direito, e ele gritou de dor.
        Desculpe! - disse ela, zelosa.
Era como carregar uma boneca de pano que pesava noventa quilos. Ele no tinha mais coordenao motora. Mas seguiu as instrues dela e assim ela conseguiu tir-lo 
do carro e p-lo em p. Ela o sustentou e foram se arrastando at a porta dos fundos.
        A porta est trancada? Vai disparar algum alarme? Ele balanou a cabea indicando que no.
Alex entrou com ele na cozinha.
        Onde fica o banheiro mais prximo?
Ele apontou com a mo esquerda. O toalete ficava num corredor curto entre a cozinha e o que ela pde ver que era a sala de estar. Alex ps Hammond sentado na tampa 
da privada e acendeu a luz. Pela primeira vez ela deu uma boa olhada nos ferimentos dele.
        Oh, meu Deus!
        Eu estou bem.
        No est, no.
A pele do brao estava toda aberta. Era difcil dizer a que profundidade ia o corte, porque o sangue escorria de toda a extenso do ferimento. Ela no perdeu mais 
tempo. Primeiro tirou o palet, depois rasgou a manga da camisa at a costura do ombro. Arrancou as toalhas dos penduradores decorativos, enrolou-as em volta do 
brao dele e as apertou bem para formar compressas que esperava poderem estancar o sangramento. Ajoelhada na frente dele, Alex tentou rasgar a perna da cala, mas 
o tecido era resistente demais, por isso ela ficou impaciente e acabou puxando at passar do joelho. O corte na canela no era to fundo quanto o do brao, mas tambm 
sangrava muito. A meia dele tinha absorvido muito sangue. Ela virou a lixeira vazia de cabea para baixo e apoiou o p dele em cima, depois enrolou toalhas na perna 
dele, como tinha feito com o brao.
Ela se levantou, passou a mo ensanguentada no cabelo e consultou seu relgio de pulso.
        Onde  que ele est? J devia estar aqui! Hammond segurou a mo dela.
        Alex?
Ela controlou o nervosismo e olhou para ele.
        Ele podia ter matado voc - disse ele com a voz rascante.
        Mas no matou. Estou aqui - ela apertou a mo dele.
        Por que no contou para eles?
        Que voc esteve com Pettijohn? Ele fez que sim com a cabea. - Porque da primeira vez que me interrogaram eu achava que voc o tinha matado.
Ele ficou um pouco mais plido.
        Voc pensou...
        No posso explicar tudo agora, Hammond.  muito confuso. No estado em que voc est, duvido que possa lembrar mais tarde. Basta dizer que primeiro eu menti 
para me proteger. Mas quando soube que Pettijohn tinha morrido com um tiro, continuei a mentir para proteger...
Ele piscou e olhou para ela sem entender.
        Voc.
Tocaram a campainha. Ela largou a mo dele.
        O mdico chegou.
Ele acordou assustado, com o nome dela nos lbios. Precisava dizer uma coisa para ela, uma coisa urgente sobre a qual tinham de conversar.
        Alex - sua voz era um coaxar, e Hammond ficou alarmado.
Fez um movimento para se levantar. A rigidez no brao trouxe a lembrana.
Ele abriu os olhos. Estava deitado na prpria cama. O quarto estava escuro, a no ser por uma pequena luz de segurana que tinha sido trazida do corredor e ligada 
numa tomada na parede do quarto.
        Estou aqui.
Ela se materializou ao lado da cama, inclinou-se sobre ele e ps a mo no seu ombro. Enquanto ele dormia Alex tinha tomado uma ducha e lavado o cabelo. No estava 
mais coberta de sangue e havia trocado a roupa que usava antes por uma das camisetas mais velhas e mais macias que ele tinha. Como na cabana.
         hora de mais um analgsico, se quiser.
        Eu estou bem.
        Quer gua? Ele disse que no.
        Ento volte a dormir.
Ela arrumou o lenol sobre o peito nu de Hammond, mas, quando ia se afastar, ele cobriu a mo dela com a dele e a segurou de encontro ao peito.
        Que horas so?
        Duas e pouco. Voc dormiu umas duas horas.
        Quem era o mdico?
        Um amigo meu. Um bom amigo. Podemos confiar nele.
        Tem certeza?
        Digamos que ns trocamos favores profissionais. Ele recomendou muito que eu o levasse a um pronto-socorro, mas eu o convenci do contrrio.
        Dizendo o qu?
        Que voc no queria enfrentar toda aquela confuso de registro de crime na polcia.
        E ele se convenceu?
        No, porque ele viu Smilow e a turma na minha casa esta manh. Ele sabe que alguma coisa est errada. Mas no dei espao para ele argumentar. Se seus ferimentos 
exigissem, eu seria a primeira em insistir no hospital, sem me importar com o que podia acontecer. Mas depois de limpos, eu me convenci de que ele podia trat-los 
aqui mesmo. E, na verdade, voc provavelmente foi melhor tratado aqui do que teria sido no hospital. E foi muito mais rpido tambm.
        No lembro dele com muita clareza.
        Ele deu uma injeo que mais ou menos apagou voc, por isso no me surpreende que no se lembre de muita coisa. Voc sofreu um grande trauma. Ficou exaurido 
e a perda de sangue o deixou fraco - sorrindo, ela alisou a testa dele. - Foi uma trabalheira danada subir a escada com voc. Devamos ter filmado em vdeo. Podamos 
mandar para Os mais engraados da Amrica. - vou ficar com o meu brao?
Aproveitando o humor dele, ela respondeu solenemente:
        O doutor queria lev-lo, mas eu no deixei. Joguei meu corpo em cima para proteg-lo.
        Obrigado.
        De nada. O ferimento foi apenas superficial. Atingiu vrias camadas da pele, mas no danificou nenhum msculo ou nervo, graas a Deus. A sua perna no precisou 
levar pontos. Ele disse que ia fechar sozinha em poucos dias. Ele lhe deu uma antitetnica e uma injeo enorme cheia de antibiticos. Sua bunda vai ficar doda. 
Ele deixou alguns comprimidos de antibitico e Darvocet contra a dor, que voc pode tomar a cada quatro horas.
O brao direito de Hammond, com o curativo, estava apoiado num travesseiro.
        Parece chumbo, mas no di.
        Est cheio de anestsico local. Quando o efeito passar voc vai sentir dor. Amanh ficar contente de ter os comprimidos analgsicos. Na semana que vem 
poder tirar os pontos. At l voc deve manter o brao numa tipia, elev-lo sempre que puder e evitar molh-lo.
        Estava coberto de sangue.
        Dei um banho em voc na cama.
        Que pena que perdi isso - ele deu um sorriso largo, mas era uma luta manter os olhos abertos.
        Tambm limpei seu carro e lavei o banheiro. Esto imaculados.
        Voc  um anjo de misericrdia.
        S at um certo ponto. Devia estar l embaixo agora, lavando as toalhas.
        Jogue-as fora.
        Imaginei que voc diria isso, e foi o que eu fiz. Alm do mais, preferi ficar aqui em cima, cuidando de voc - ela passou os dedos no cabelo dele com ternura.
Ele se mexeu um pouco, procurando uma posio mais confortvel. Mas at esse pequeno movimento provocou-lhe uma careta de dor.
        vou te dar mais um analgsico.
Dessa vez ele no reclamou. Estava quase dormindo de novo quando ela enfiou um comprimido na boca dele, apoiou sua cabea no brao e o fez levantar um pouco. Ela 
encostou um copo com gua nos lbios dele. Ele engoliu o comprimido.
Enquanto Alex abaixava a cabea dele no travesseiro, Hammond resistiu e encostou o rosto nos seios dela. Eram fartos e convidativos por baixo da malha macia da camiseta 
dele. Hammond fechou os lbios sobre um mamilo.
        Voc precisa dormir - sussurrou ela e empurrou delicadamente a cabea dele para o travesseiro.
Ele suspirou um protesto, mas fechou os olhos automaticamente. Sentiu o leve beijo que ela lhe deu na testa. E outra coisa tambm. Abriu os olhos de novo e viu as 
lgrimas. E enquanto espiava, mais uma caiu no rosto dele.
Cheio de remorso, ele disse:
        Voc salvou a minha vida. Voc se machucou por minha causa. Se eu no estivesse l...
        Psiu.
Ele passou o brao esquerdo por cima do corpo e encostou a mo no rosto dela. Ela agarrou a mo dele e a apertou no peito, e beijou sem parar os ns dos dedos.
        Eu tive tanto medo, Hammond - ela encostou os lbios na mo dele. Ele passou as costas da mo no rosto dela, que estava molhado de lgrimas. - Voc se machucou 
assim por minha causa. E vai continuar se machucando.
Ele lutava para ficar acordado porque aquilo era importante.
        Alex... eu te amo.
Ela soltou a mo dele como se queimasse a dela.
        O qu?
        Eu amo...
        No, no ama, Hammond! - exclamou ela, com suavidade mas irredutvel. - No diga isso. Voc nem me conhece.
        Eu conheo voc - ele fechou os olhos alguns segundos preciosos de descanso, e procurou reunir energia para dizer o que queria dizer: - Eu te amo desde... 
desde a noite que a conheci. Quando a vi do outro lado da pista de dana, eu a conheci imediatamente.
Ele pensou aquelas palavras, mas no sabia ao certo se as tinha pronunciado em voz alta. Ele abriu os olhos, focalizou o rosto dela e deu um sorriso triste.
        Por que tinha de ser essa merda de confuso?
Ela lambeu uma lgrima no canto da boca. Ia dizer alguma coisa mas no encontrava as palavras. Devia ser to confuso para ela como era para ele, que a primeira vez 
na vida que amava algum de verdade, a coisa toda no podia ser mais errada.
Ele deu um tapinha na cama ao seu lado.
Ela balanou a cabea e recusou.
        Eu poderia machuc-lo.
        Deite-se aqui.
Ela hesitou s mais um pouco, deu a volta na cama e deitou ao lado dele. No encostou o corpo no dele, apenas ps a mo no peito de Hammond.
        No posso chegar mais perto, seno bato na sua perna.
Ele queria dizer mais coisas e tinham muito que conversar, mas a droga estava fazendo efeito. T-la perto era um consolo. Ele queria aproveitar. Mas contra sua vontade, 
adormeceu. Algum tempo depois, ele acordou. Parcialmente. No completamente. No queria despertar completamente. No sentia dor. Na verdade, o estado dele era sublime. 
Muito bons esses analgsicos. Ao lado dele, Alex se mexeu. Ele sentiu que ela se sentou.
        Hammond, voc est acordado?
        Humm.
        Quer que eu traga alguma coisa?
Ele resmungou e ela provavelmente achou que era um no, porque ela deitou de novo. Mas alguns segundos depois ele murmurou alguma coisa que nem ele conseguia distinguir.
        O que disse? - ela levantou a cabea de novo. Pelo menos foi isso que ele achou que ela fez. Ainda no tinha aberto os olhos. Hammond? - Preocupada, Alex 
ps a mo no peito dele. - Est sentindo dor? Quer um pouco de gua?
Hammond cobriu a mo dela com a dele e puxou para baixo do lenol. Ento mergulhou num estado de semiconscincia que era melhor que o melhor sonho ertico. Como 
numa fantasia sexual, a participao dele era desnecessria. Tudo que tinha de fazer era abdicar do controle e submeter-se s sensaes. Deixar acontecer. Ir com 
a mar. Ficar boiando  deriva nas suaves ondas da sensibilidade. O crescendo era deliciosamente lento. No tinham horrio para nada, nenhum compromisso. No existia 
presso, nem recriminao. Felizmente os sonhos no tinham consequncias. Ele percebeu que ela mudou de posio, mas alguns delicados beijos preliminares no prepararam 
Hammond para o calor molhado que o cobriu. A massagem sensual era diferente de qualquer outra. Ele prendeu a respirao e deixou-se saturar pelas sensaes. Todo 
o seu corpo relaxou pesadamente sobre o colcho, como se estivesse numa banheira com gua quente, e se refestelou numa lassitude sexual. Instintivamente, ele mexeu 
a mo. Esticou o brao. Procurou. Encontrou. Maciez. Feito seda. Profundo mistrio. Centro do universo. Pulsao da humanidade. Caminho para a vida. Ele precisou 
mover os dedos s um pouco para provocar pequenos espasmos de excitao. Seu dedo polegar estava possudo por uma antiga sabedoria. Dotado de um toque especial que 
se alimentava dos suaves gemidos dela. No eram exatamente sons. Eram vibraes dentro da boca que se transmitiam de volta para ele. Esse sonho acordado, esse esquecimento, 
eram to doces, que ele no o deixou, nem depois de um clmax lento e ondulante que provocou a sensao de estar se dissolvendo.
Na fronteira da conscincia dele se esgueirava algo feio e ameaador, que ele se recusava a reconhecer. Agora no. Esta noite no. Amanh. O amanh de Hammond comeou 
trs horas depois, com um grito explosivo:
        Meu Deus!
Steffi continuou gritando enquanto subia a escada aos saltos. Chegou ao quarto de Hammond, entrou afobada e o encontrou sentado na cama, com as mos na cabea, parecendo 
prestes a sofrer uma parada cardaca.
        Pensei que voc tivesse sido assassinado! Eu vi as toalhas cheias de sangue...
        Que merda, Steffi! Voc quase me fez ter um ataque do corao!
        Voc? No, eu  que quase tive um! Voc est bem? Ele olhou aflito em volta do quarto como se procurasse alguma coisa.
        Que horas so? O que voc est fazendo aqui? Como entrou?
        Eu ainda tenho a chave. Mas deixa isso pra l. O que aconteceu com voc?
        Eu... - ele olhou para o brao enfaixado como se o visse pela primeira vez - Eu, ... fui atacado a noite passada. - Ele apontou para a cmoda. - Quer pegar 
uma cueca para mim?
        Atacado? Onde?
As cuecas dele ficavam na segunda gaveta de cima para baixo. Ela pegou uma para ele. Hammond girou as pernas para o lado da cama.
        A sua perna est machucada tambm?
        Est. No to grave quanto o brao.
Ele inclinou o corpo para a frente, vestiu a cueca e puxou-a at a coxa. Antes de levantar-se, ele olhou sugestivamente para ela.
        Ah, pelo amor de Deus, Hammond! Eu j o vi!
Ele afastou o lenol, ficou de p e puxou a cueca, depois pegou uma garrafa de gua que estava na mesa-de-cabeceira e bebeu tudo.
        Voc vai me contar o que aconteceu ou no vai?
        Eu j disse que fui...
        Atacado. Essa parte eu entendi. E o seu brao?
        Cortado. Minha perna tambm.
        Meu Deus, podiam t-lo matado! Onde  que voc estava? Quando ele explicou, ela disse: - Ento no  surpresa nenhuma. O que voc estava fazendo naquela 
parte da cidade?
        Lembra de Loretta Boothe?
        A bbada?
Ele franziu a testa, mas concordou.
        Ela est sbria e quer trabalhar em investigao particular de novo. Pediu para eu ir encontr-la em um dos bares que frequenta. Quando eu estava voltando 
para o meu carro, um cara pulou em cima de mim. Eu resisti. Ele ficou desferindo golpes de faca a torto e a direito. Consegui lutar com ele at fugir no meu carro. 
Vim para casa e chamei um mdico. Ele costurou meu brao.
        Voc notificou  polcia?
        Eu no queria ser coagido pela polcia quando prestasse depoimento. Mas, de qualquer forma, estou sendo coagido. Por voc.
        Por que no foi para um hospital?
        Pelo mesmo motivo - ele cambaleou at o banheiro, poupando a perna esquerda. - No foi to ruim assim.
        No foi to ruim? Hammond, tem um saco de lixo cheio de toalhas ensanguentadas l embaixo!
        Parece muito pior do que realmente . S precisei de dois analgsicos a noite toda. Quer me dar licena? - Steffi tinha seguido Hammond at o banheiro. 
Ela saiu e ele fechou a porta. Do lado de fora ela gritou:
        Eu tambm j vi voc mijar antes!
Ela voltou para a cama e se sentou onde ele tinha sentado. Junto com a garrafa de gua mineral vazia e um copo havia, na mesa-decabeceira, uma tipia comum de pano 
e um recipiente plstico com comprimidos. Era de farmcia de manipulao. No havia o nome do mdico no rtulo. Hammond saiu do banheiro, foi mancando at ela, afastou-a 
da cama e puxou o edredom por cima dos lenis.
        Desde quando voc ficou to fresco? - perguntou ela.
        E desde quando voc ficou to metida?
-Voc no acha que tenho o direito de ser um pouco intrometida? Hamond, a primeira coisa que vi quando entrei aqui foi um saco cheio de toalhas ensanguentadas. Pode 
me chamar de sentimental, mas fiquei imaginando se o meu colega, para no dizer ex-namorado, por quem ainda nutro afeto e zelo, estava nas garras do assassino do 
machado.
Ele levantou a sobrancelha, desconfiado.
        Que limpa tudo antes de ir embora?
        Alguns desses caras so compulsivos. Mas voc no est entendendo o que eu quero dizer.
        No, no estou, Steffi. Voc estava preocupada com o meu bem-estar. Se a situao fosse ao contrrio, eu teria reagido do mesmo jeito. Mas como pode ver, 
continuo respirando. Com hematomas, cortes e modo, mas respirando. Vou me sentir muito melhor depois de uma chuveirada quente e algumas xcaras de caf mais quente 
ainda.
         a minha deixa para ir embora?
        Agora voc est comeando a entender.
Ela olhou para a bandagem no brao direito dele.
        Quem foi o mdico?
        Voc no conhece. Velho amigo da faculdade. Devia um favor.
        Qual  o nome dele?
        Que diferena faz? Voc no o conhece.
        Humm.
        O que ?
        Nada.
        Pode perguntar.
        Por que no quis registrar queixa?
        No valeria o esforo. O assaltante no levou nada.
        Ele te atacou com uma arma.
Parecendo muito perturbado e falando como se ela fosse retardada, ele disse:
        No adiantaria nada registrar. Eu no poderia identificar o cara. Sinceramente nem sei se ele era branco ou negro, ou hispnico, alto ou baixo, magro ou 
gordo, cabeludo ou careca. Estava escuro. O incidente terminou num segundo, e tudo que eu realmente vi foi aquela lmina vindo para cima de mim. Foi isso que me 
impressionou, e por isso sa chispado de l.
"Seria perda de tempo contar para a polcia, porque tudo que eles poderiam fazer seria arquivar esse relatrio e ponto final. Eles tm coisa melhor para fazer, e 
eu tambm - Hammond fez uma careta e segurou o brao direito com o esquerdo. - Agora voc quer fazer o favor de ir embora para eu poder tomar um banho e me vestir?"
        Precisa de ajuda?
        Obrigado, mas posso me virar.
        Por que no tira o dia de folga? Eu posso vir para c por volta do meio-dia, fazer o almoo para voc e contar o que sabemos sobre
esse cara.
Hammond abriu a gaveta de camisetas. Ela costumava zombar da sua coleo de camisetas quase esfarrapadas, que ele adorava usar dentro de casa. Ele pegou a primeira 
camiseta da pilha. Devia ser a verdadeira preferida, ela pensou, porque ele sorriu e levantou a camiseta na frente do rosto para sentir o cheiro.
        Que cara?
        Eu no te contei! - ela deu um tapa na testa. - Quando o vi assim esqueci o que tinha vindo fazer aqui. Quando estava no meu carro, indo para o trabalho, 
Smilow ligou para o meu celular. Tem um cara preso na nossa delegacia municipal.
Ela no percebeu a fascinao de Hammond com a camiseta, mas ele continuava a mexer nela. Ele observou distrado:
        Tem um monte de caras presos na nossa delegacia municipal.
        Mas s um diz que  irmo de Alex Ladd.
Hammond virou para ela como um raio. Seu rosto ficou branco como giz. Steffi achou que a palidez era por causa da dor. Com a virada abrupta, ele tinha batido o cotovelo 
do brao ferido na quina da gaveta aberta. Ele estendeu o brao esquerdo para se equilibrar.
        Acho muita maluquice sua pensar em ir ao escritrio hoje, Hammond. Olha s para voc! Mal consegue ficar de p, e est branco como cera. O seu brao...
        Esquea a merda do meu brao!
        No grite comigo.
        Ento pare de bancar a minha me.
        Voc est ferido.
        Estou timo. Qual  a desse cara?
O nome dele  Bobby Turnbull. No, no  isso. Alguma coisa parecida.
        Por que ele est na cadeia?
        Smilow no chegou a explicar isso quando interrompi a ligao e vim direto para c.
O que ele...
        Hammond, sinceramente! E por falar em ser interrogado, s sei que esse Trimble...  isso. Bobby Trimble. Ele foi preso a noite passada e usou o nico telefonema 
para falar com Alex Ladd. Ela no estava em casa. Um dos policiais da deteno foi suficientemente esperto para ouvir o nome dela, sabia que ela estava ligada ao 
assassinato de Pettijohn, e notificou a Smilow.
Hammond recolocou a camiseta na gaveta e a fechou com fora.
        Pensando bem, no v embora. Vai ser difcil dirigir com meu brao na tipia, por isso vou pegar uma carona com voc. D-me alguns minutos.
Enquanto Hammond se aprontava, Steffi desceu para o primeiro andar para telefonar para Smilow e contar que ia se atrasar.
        Atacado?
        Foi isso que ele disse.
Depois de uma breve pausa, Smilow perguntou:
        Voc tem algum motivo para duvidar dele?
        No.  s que... - ela olhou pensativa para a porta do toalete, bloqueada por um saco de lixo grande cheio de toalhas ensanguentadas. - S no parece muito 
tpico do nosso dr. Crime e Castigo deixar passar um ataque com uma faca. Ele tentou minimizar seus ferimentos, mas parece que enfrentou quinze rounds de luta com 
um urso-pardo.
        Talvez ele s esteja envergonhado de ter sido to descuidado.
        Pode ser. De qualquer maneira, estaremos a em quinze minutos.
Ela no contou para Smilow a desculpa esfarrapada que Hammond deu para no ir para um hospital. O mdico "velho amigo da faculdade" era uma mentira deslavada. Hammond 
nunca foi bom em contar mentiras. Ele devia ter umas aulas com Alex Ladd. Parecia admirar a queda que a mulher tinha para... A mente de Steffi pisou firme no freio. 
Olhando para o espao prximo, com os olhos vidrados, a cabea dela foi assaltada por pensamentos impensveis que giravam pela sua conscincia com a velocidade da 
luz. Agarrar aqueles pensamentos era como tentar capturar cometas. Hammond desceu a escada mancando. Ela o encontrou na porta da frente, mas antes pegou uma das 
toalhas encharcadas de sangue do saco de lixo e a enfiou na bolsa. Bobby Trimble estava apavorado. Mas preferia morrer do que deixar que percebessem o medo que sentia. 
Policiais filhos-da-puta! Devia sua situao atual a uma professora solteirona, malvestida e gorda. Era um insulto para o orgulho dele uma galinha morta provocar 
sua derrocada. Ela no era desafio nenhum. Seduzi-la tinha sido uma rotina entediante. Tinha lutado para se manter acordado enquanto a levava no bico. Tinha cabeceado 
o tempo todo. Quem teria imaginado que aquele canho seria uma mulher fatal no mais puro sentido do termo? Na noite anterior ele estava quase conquistando uma viva 
de Denver que tinha diamantes do tamanho de holofotes nas orelhas e em anis nas duas mos. Eles teriam financiado um estilo de vida nababesco por um longo tempo. 
A mulher tinha revelado logo no incio possuir um senso de humor sexualmente explcito e esprito de aventura, por isso Bobby apelara para isso. Com a mo dentro 
da saia dela, ele descrevia a ereo que ela havia provocado, sem poupar nenhum detalhe anatmico, quando dois policiais o agarraram por baixo dos braos e o arrastaram 
para fora da boate. L fora eles o encostaram no capo de um carro e mandaram que afastasse as pernas e os braos, revistaram-no e algemaram-no como se fosse um criminoso 
comum e leram seus direitos. Com o canto do olho, ele avistou a professora pudica e antiquada de Indiana ali perto, com um par de sapatos de couro em uma das mos.
        Maldita vaca! - resmungou ele no presente, no momento em que a porta se abriu.
        O que foi, Bobby? Disse alguma coisa?
O cara parecia vagamente familiar, mas Bobby no conseguia se lembrar de onde o conhecia. No era alto, mas dava a impresso de ser quando entrou com passos largos 
na sala. Usava terno com colete, que Bobby considerou de boa qualidade. A gua-de-colnia tambm tinha cheiro de coisa cara. Ele apertou a mo do advogado que tinham 
indicado para Bobby, um cara chamado "Heinz, como o ketchup", que parecia um perdedor, e cujo conselho para Bobby at ali tinha sido para manter a boca fechada at 
descobrirem o que estava acontecendo. Ele ento se sentou  pequena mesa e cobriu educadamente seus bocejos com a mo. Mas o homem que acabava de entrar o fez se 
endireitar na cadeira e adotar uma postura alerta. Ele se sentou na cadeira de frente para Bobby e se apresentou como o detetive Rory Smilow. Bobby no confiava 
no sorriso dele, assim como no abriria o jogo para aquele afvel filho-da-me.
        Estou aqui para facilitar muito a sua vida, Bobby - disse ele. Bobby tambm no acreditou na promessa:
         mesmo? Ento pode comear ouvindo o meu lado dessa histria. Aquela vadia est mentindo.
        Ento no a estuprou?
Os msculos da face de Bobby amoleceram. Em compensao, o esfncter se contraiu.
        Estupro?
        Sr. Smilow, meu cliente e eu tivemos a impresso de que esse era um caso de furto. A queixa da srta. Rogers no menciona estupro observou Heinz, nervoso.
        Ela est conversando com uma policial - explicou Smilow. Ficou constrangida demais de discutir os detalhes do crime com os policiais que o prenderam.
        Se ela est alegando estupro, ento preciso ter mais uma conversa com o meu cliente.
Bobby, j recuperado do choque inicial, olhou com desprezo para o advogado.
-No temos nada que conversar. Eu no estuprei ningum. Tudo que ns fizemos foi de comum acordo.
Smilow abriu uma pasta e deu uma olhada rpida no relatrio.
        O senhor a conheceu numa boate. Segundo a srta. Rogers, minou sua resistncia com bebida alcolica e a embebedou intencionalmente.
        Tomamos alguns drinques. E  verdade, ela ficou meio alta. Mas nunca a forcei a beber nada.
        Acompanhou-a de volta ao quarto do hotel em que ela estava hospedada e fez sexo com ela - ele olhou para Bobby. - Isso  verdade?
Bobby no resistiu e enfrentou o desafio do olhar do detetive.
        Sim,  verdade. E ela adorou cada minuto. Heinz pigarreou meio constrangido.
        Sr. Trimble, recomendo que no diga mais nada. Qualquer coisa que disser poder ser usada contra o senhor. Lembre-se disso.
        Esto achando que vou deixar uma mulher gorda me acusar de estupro sem me defender?
         para isso que serve o julgamento.
        Que se foda o julgamento! E foda-se voc tambm! - Bobby virou-se novamente para Smilow: - Ela est mentindo descaradamente.
        No fez sexo com ela enquanto ela estava sob a influncia do lcool?
        Claro que fiz! A pedido dela.
Smilow parecia compadecido dele, deu um suspiro e coou a sobrancelha.
        Acredito, sr. Trimble. Acredito no senhor. Mas, do ponto de vista legal, o senhor est na corda bamba. As leis mudaram. As definies foram buriladas e 
ficaram bem mais precisas. Dada  crescente conscincia do pblico sobre o tratamento equivocado das vtimas de estupro, promotores e juizes adotaram uma linha dura. 
Eles no querem ser responsveis pela liberao de estupradores...
        Nunca tive de estuprar mulher nenhuma! - exclamou Bobby.
        Na verdade, sempre foi exatamente o contrrio.
        Compreendo - disse Smilow calmamente. - Mas se a srta. Rogers alega que estava mentalmente incapacitada pelo lcool que o senhor insistiu para ela beber, 
ento tcnica e legalmente, nas mos de um bom promotor pblico, existiria um caso de estupro.
Bobby cruzou os braos sobre o peito, em parte por ser uma pose despreocupada, mas principalmente porque ele estava  beira de uma crise de pnico. Quando tinha 
dezoito anos, tinha sido sentenciado  maldita priso. No gostou. Nem um pouco. Tinha jurado que nunca mais iria para l. Com medo de que sua voz trasse o medo 
que sentia, ele no disse nada.
        Portava drogas quando foi preso - continuou Smilow.
        Alguns cigarros. No dei nenhum para aquela Fulana. Smilow olhou muito srio para ele.
        No deu?
        No teria desperdiado um bom fumo com ela! Ela era fcil demais!
        Mesmo assim, ainda tem um problema. Em quem pensa que o jri ia acreditar? Numa dama simples e doce como ela? Ou num garanho malandro como voc?
Enquanto Bobby compunha uma resposta adequada, a porta abriu e uma mulher entrou. Ela era mida, cabelo escuro e curto, olhos pretos brilhantes. Boas pernas. Seios 
pequenos e pontudos. Mas a maior castradora que Bobby j tinha visto.
        Espero que o balde de merda ainda no tenha confessado - disse ela.
Smilow apresentou-a como Stefanie Mundell, do escritrio do procurador pblico municipal. Heinz ficou meio esverdeado, e engolia em seco convulsivamente. No era 
um bom sinal se o prprio advogado se engasgava diante da viso daquela vadia e desse a impresso de estar pronto para dar ao fora. Smilow ofereceu uma cadeira para 
ela, mas ela disse que preferia ficar de p.
        No vou demorar muito. S queria avisar ao sr. Trimble que casos de estupro so a minha especialidade, e que indico a castrao para rus primrios. E no 
 a castrao qumica - ela ps a palma das mos sobre a mesa e inclinou o corpo para a frente at ficar nariz com nariz com Bobby. - Pelo que fez com a pobre Ellen 
Rogers, mal posso esperar para pr seus culhes no cepo!
        Eu no a estuprei.
A negao sincera no afetou a srta. Mundell, que riu com desprezo e disse:
        Vejo-o no tribunal, Bobby.
Ela deu meia-volta com seus sapatos de salto alto e saiu, batendo a porta com fora.
Smilow massageava o queixo e balanava a cabea com ar de tristeza.
        Sinto por voc, Bobby. Se Steffi Mundell  a promotora, temo que voc se d muito mal.
        Talvez o sr. Trimble prefira declarar-se culpado para obter a pena mnima.
Bobby fuzilou Heinz, que tinha sugerido aquilo, com os olhos.
        Quem pediu a sua opinio? No vou me declarar culpado de nada, entendeu?
        Mas furto...
        Cavalheiros - disse Smilow, interrompendo. - Acaba de me ocorrer que j que a srta. Mundell est envolvida, pode haver uma maneira de contornar isso.
Aparentando uma falsa tranquilidade, Bobby perguntou:
        Qual  a sua ideia?
        Ela est trabalhando no caso do assassinato de Pettijohn. Alerta vermelho! De repente Bobby se lembrou onde tinha visto Smilow. Na televiso, na noite seguinte 
ao assassinato de Pettijohn. Era ele o detetive da Homicdios encarregado da investigao. Bobby recostou-se na cadeira e procurou fingir que no comeara subitamente 
a transpirar, como um caipira num milharal.
        O caso do assassinato de Pettijohn?
Smilow dirigiu um olhar demorado, duro e ameaador para Bobby. Depois suspirou e fechou a pasta.
        Pensei que poderamos ajudar um ao outro, Bobby. Mas se voc vai se fazer de bobo, no me resta outra opo, terei de deix-lo nas mos da srta. Mundell.
Smilow afastou sua cadeira para trs e saiu da sala sem dizer mais uma palavra, fechando firmemente a porta.
Bobby olhou para Heinz "Como o ketchup" e levantou os ombros.
        O que foi que eu fiz?
        Voc tentou enrolar Rory Smilow. Pssima ideia.
Smilow e Steffi ficaram meia hora se dando tapinhas nas costas pelo excelente trabalho que tinham feito manipulando Bobby Trimble. Os profusos parabns quase esgotaram 
a pacincia de Hammond.
        Dei mais de uma hora para ele pensar a respeito - disse Smilow para ele pela dcima vez.
        Voc j disse.
        Logo que voltamos para a sala, ele comeou a falar - disse Steffi alegremente.
        Voc deve ter feito muito bem o papel de policial m.
        Modstia  parte, sim - ela se vangloriou. - Bobby estava convencido de que ia enfrentar uma acusao de estupro.
Ellen Rogers jamais alegou ter sido violentada. Pelo contrrio, tinha reconhecido a prpria culpa pelo furto de seus cartes de crdito e seu dinheiro. Ela s queria 
que capturassem Bobby Trimble para p-lo fora de ao, poupando outras mulheres de experincia to humilhante. Tratou de providenciar sua volta para Indianpolis 
imediatamente, apesar de ter deixado claro que se dispunha a testemunhar contra Trimble no tribunal se o caso fosse a julgamento. Saiu da cidade sem saber que presente 
tinha dado para o Departamento de Polcia de Charleston.
        Mal posso esperar para ver a cara de Alex Ladd quando ela ouvir essa gravao! Hammond, voc no vai acreditar - disse Steffi, animada. - Voc queria um 
motivo e, meu irmo, conseguiu. Numa bandeja de prata.
Ele respirou pela boca para afastar as nuseas. Era uma ameaa desde que fora informado de que o meio-irmo de Alex estava sob a custdia da polcia. Steffi e Smilow 
estavam muito orgulhosos com aquela gravao. J salivavam, prevendo a reao de Hammond quando ouvisse, mas ele j conhecia o teor dela. Tinha ouvido Loretta Boothe 
contar a histria incriminadora na noite anterior. Os simples fatos, nus e crus, pintavam uma imagem nada lisonjeira de Alex. Quando Bobby Trimble terminou de incrementar 
a histria para atender aos prprios interesses, ela se transformou num assassinato de carter. Como Steffi havia observado, representava o motivo que faltava ao 
caso. Em bandeja de prata. Hammond tinha torcido para a investigao de Smilow no ser to completa e diligente como a de Loretta, para ele poder continuar atrasando 
o caso indefinidamente at determinar a natureza da conexo de Alex com Pettijohn e poder explicar para ela o encontro que ele teve com Lute. Ia sugerir que ambos 
jogassem limpo com Smilow. Ele devia ter contado imediatamente para o detetive seu encontro com Pettijohn. Mas era uma questo delicada e esperava poder evitar que 
qualquer outra pessoa ficasse sabendo. Tambm ia aconselhar Alex a informar Smilow do seu passado antes que ele tivesse a chance de descobrir por conta prpria e 
tirar concluses precipitadas sobre a relao que tinha com a investigao Pettijohn. Infelizmente tinham tirado aquela oportunidade dele. Quando Steffi invadiu 
a casa dele, Alex j tinha ido embora. Hammond deu graas de ela ter sado cedo, e achou que os dois tiveram muita sorte de no terem sido flagrados juntos na cama, 
o que teria prejudicado a credibilidade deles quando fizessem suas confisses independentes para Smilow. E agora isso. Bobby Trimble apareceu do nada, na pior hora 
possvel. Alex no tinha ideia da armadilha que estavam armando para ela. E Hammond no tinha como avis-la. A campainha de umpager tocou. Os trs verificaram seus 
bipes ao mesmo tempo.
         o meu - disse Hammond.
Smilow empurrou o telefone da mesa para perto de Hammond.
Hammond verificou o nmero no mostrador.
        vou usar meu celular, obrigado.
Ele pediu licena, saiu da sala e foi para o corredor, que oferecia alguma privacidade.
        Loretta, o que ?
        Ontem a nossa conversa terminou mal.
        O que quer dizer?
        Voc estava to desapontado quando saiu...
        No se preocupe com isso.
        Mas fiquei preocupada. Queria fazer alguma coisa por voc, por isso fui  prefeitura esta manh e peguei Harvey comprando um po de mel numa mquina.
        S tenho um minuto, Loretta.
        vou chegar l. Perguntei para ele se algum mais tinha pedido informaes sobre o caso Pettijohn.
        Especificamente Alex Ladd?
        No, eu s joguei a isca para ver se ele mordia. -E a?
        Ele suou frio. Quase deu para ouvir os joelhos dele batendo um no outro.
        Quem o procurou para obter informaes?
        O nerd no quis dizer.
        Loretta...
        Tentei tudo, Hammond. Pode acreditar. Ameacei denunci-lo, tortura e danos fsicos. Adulei, negociei e engabelei. Ofereci quantidades ilimitadas de bebida, 
drogas, sexo com a profissional que ele escolhesse. Nada funcionou. Quem quer que tenha procurado Harvey conseguiu assust-lo. Mudez total. Ele no vai falar.
        Tudo bem, obrigado.
Hammond ouviu um movimento atrs dele e virou-se para ver quem era. Frank Perkins acompanhava Alex pelo corredor.
        Tem mais alguma coisa que voc quer que eu faa? - perguntou Loretta.
        Por enquanto, no. Obrigado. Preciso ir.
Ele desligou o celular e virou-se na hora em que Perkins e Alex chegavam  porta da sala de Smilow. Quando o advogado viu Hamond, ele arregalou os olhos.
        O que aconteceu com voc?
        Fui atacado na rua.
        Minha nossa! Parece pior que os assaltos comuns.
        vou ficar bem - ele olhou para Alex. - Cuidaram bem de mim. Os olhos dos dois se encontraram por apenas um milsimo de
segundo. Hammond tentou telegrafar um aviso para ela, mas o advogado empurrou-a para dentro da sala.
        Bem, o que foi agora, detetive?
        Queremos que a sua cliente oua uma gravao.
        Gravao de qu?
        De um depoimento que tomamos hoje cedo de um homem que est preso aqui mesmo. Pode acreditar que as declaraes dele so relevantes para o caso Pettijohn.
Perkins ofereceu a nica cadeira para Alex. Os outros ficaram em p na pequena sala. Smilow se ofereceu para pedir que trouxessem uma cadeira para Hammond, mas ele 
no quis. Quando Alex se sentou, ela conseguiu dar uma olhada disfarada para ele, mas Hammond no tinha como prepar-la para o que a esperava.
Smilow resumiu a experincia de Ellen Rogers para Alex e para o advogado dela.
        Felizmente para ns, a srta. Rogers no era nenhuma violetinha frgil. Ela mesma seguiu o homem e informou  polcia.
        No estou vendo...
        O nome dele  Bobby Trimble.
Hammond estava observando atentamente o rosto de Alex. Logo que Smilow comeou a falar, ela percebeu o que tinha pela frente. Fechou os olhos rapidamente e respirou 
bem fundo para se fortalecer. Mas quando ele disse o nome de Trimble, ela no revelou reao alguma.
        Conhece o sr. Trimble, no , dra. Ladd? - disse Smilow.
        Gostaria de ter uma conversa com a minha cliente - disse Frank Perkins.
        Tudo bem, Frank - disse ela suavemente. - Infelizmente no posso negar que conheo Bobby Trimble.
Antes de Perkins poder dizer mais alguma coisa, Smilow falou: - A fita se explica sozinha, Frank. Ele apertou o boto play do gravador.
A voz de Smilow identificou as pessoas presentes no interrogatrio. Disse a hora, o lugar e a data, assim como as condies sob as quais Trimble estava fazendo a 
sua declarao. Ele havia confessado ter seduzido a srta. Ellen Rogers com o propsito de roub-la e, apesar de no ter garantida a clemncia, foi dito por Stefanie 
Mundell que a procuradoria pblica seria favorvel a qualquer um que desse voluntariamente informaes pertinentes ao caso do assassinato de Lute Pettijohn. Dito 
isso, Smilow fez sua primeira pergunta:
        Bobby... posso cham-lo de Bobby?
        No tenho vergonha do meu nome.
        Bobby, voc conhece a dra. Ladd?
-Alex  minha meia-irm. Mesma me. Pais diferentes. Mas nunca conheci nenhum dos dois.
        Trimble era o nome da sua me?
        Carreto.
        Voc e sua meia-irm foram criados juntos, no mesmo lar?
        Se quer dar esse nome  nossa casa... No era bem um lar. Nossa me no era nenhuma Manha Stewart, apesar de entreter muita gente.
        Que tipo de gente?
        Homens, detetive Smilow. Recebia homens em casa o tempo todo. E quando fazia isso, nos mandava para a rua. Se fazia calor l fora, pacincia. Se fazia frio, 
azar. Se estvamos com fome, que pena. s vezes conseguamos convencer a senhora negra que trabalhava na Dairy Queen a nos dar um hambrguer. Ela no gostava muito 
de mim, mas tinha um fraco pela Alex. Mas se o chefe dela estivesse por perto, nada feito. Continuvamos famintos.
        A sua me ainda est viva?
        Quem sabe? E quem se importa? Ela foi embora quando eu tinha... humm, catorze anos. E Alex doze, acho. Ela estava apaixonada por um cara e, quando ele partiu 
para Reno, foi atrs dele. No sei se ela o encontrou ou no. Foi a ltima vez que a vi ou que ouvi falar dela.
        Vocs no ficaram aos cuidados dos Servios de Proteo ao Menor depois disso?
        Prefiro ir para a cadeia a ter um bando de burocratas intrometidos respirando no meu cangote. Por isso disse para a Alex no contar para ningum que nossa 
me tinha ido embora. Fingimos que nada tinha acontecido. Continuamos indo  escola, fingindo que tudo estava normal.
        ele deu uma risadinha - tudo estava normal mesmo. Acho que nossa me nunca chegou perto da porta da escola. Para ela a APM (Associao de Pais e Mestres) 
era "Associao de Porra e de Meretrizes".
        No h necessidade disso - disse Smilow, irritado.
        Desculpe, madame. No tive a inteno de faltar com o respeito. Hammond imaginou que Bobby estivesse se desculpando com
Steffi. O pedido de desculpas no pareceu sincero. Alex deve ter achado isso tambm. Ela olhava fixamente para o gravador com cara de nojo.
        Os vizinhos no notaram que sua me no estava mais l? Perguntou Smilow.
-Alex e eu nos defendamos sozinhos havia tanto tempo que no era nada incomum v-la levando a roupa para a lavanderia automtica ou eu me oferecendo para fazer 
alguns bicos.
        Fazia bicos para sustentar vocs dois? Ele pigarreou.
        Por algum tempo. - Uma pausa. - Antes de continuar... s para deixar tudo bem claro... Eu j paguei minha dvida para com a sociedade pelo que aconteceu. 
Isso no vai cair em cima de mim outra vez, vai? Isso tudo aconteceu h muito tempo. No Tennessee. Agora estamos na Carolina do Sul. Estou livre e limpo neste estado.
        Diga o que sabe sobre o assassinato de Lute Pettijohn, Bobby, e sai livre daqui.
        Parece bom.
At aquele ponto Alex no tinha se mexido. Ento virou-se para Perkins:
        Ns precisamos ouvir isso?
O advogado pediu para Smilow desligar o gravador para ele poder conversar com Alex. Smilow atendeu educadamente ao pedido. Perkins sussurrou uma pergunta para ela. 
Ela respondeu baixinho. Ficaram falando assim por cerca de sessenta segundos.
        Vocs no podem levar a srio as declaraes deste homem disse Perkins. - Ele est barganhando pela retirada das acusaes contra ele.  bvio que ele disse 
o que vocs queriam ouvir.
        Se ele est mentindo - disse Smilow -, ento o que ele diz no importa para a dra, Ladd, no ?
        Importa  medida que pode ser constrangedor para ela.
   Sinto muito qualquer constrangimento. Mas acho que a dra. Ladd gostaria de ouvir o que est sendo dito sobre ela. Ela tem a liberdade de interromper e refutar 
qualquer coisa que ele diz, a qualquer momento. Perkins disse para Alex:
        Voc  que sabe.
Ela concordou com um breve movimento da cabea.
        Tudo bem, Smilow - disse ele. - Mas isso  uma encenao barata e voc sabe muito bem disso.
A reclamao no afetou Smilow. Ele ligou o gravador no ponto em que repetia a pergunta de como Trimble sustentava a irm e ele.
        Ns sobrevivemos um tempo com alguns servios que eu prestava respondeu ele. -Mas eu estava dando um duro danado para pr comida na mesa e para vestir a 
Alex. Ela estava crescendo, sabe, como qualquer adolescente. Florescendo.
O tom de voz de Trimble reduziu-se a um sussurro confidencial.
        Foi justamente quando vi Alex ganhando formas que tive a ideia pela primeira vez.
        Que ideia?
        vou chegar l - disse ele, incomodado com a impacincia de Smilow. - Comecei a notar que meus amigos olhavam de uma certa forma para a minha irmzinha. 
Sob uma luz completamente nova, pode-se dizer. Ouvi alguns comentrios. E foi ento que tive a ideia.
Hammond apoiou o cotovelo esquerdo no pulso do brao na tipia e cobriu a boca com a mo. Queria tapar os ouvidos. Queria jogar o gravador contra a parede. Queria 
estapear Steffi, que sorria presunosa para Alex. Era impotente para fazer qualquer coisa, e s podia ouvir, j que estava sendo forado a isso.
A diferena da dico e da sintaxe de Trimble era notvel. O fato de falar sobre seu passado tinha feito com que ele retornasse ao padro de linguagem da sua juventude. 
Ele parecia mais grosseiro. Mais rude. Mais indecente.
        A primeira vez aconteceu por acaso. Quero dizer, no planejei nada. Alex e eu estvamos com um amigo meu. Ele tinha roubado umas seis latas de cerveja e 
fomos a um posto de gasolina abandonado para beber. Ele comeou a provocar Alex e... - Ouve-se uma cadeira arrastando no cho quando Bobby se ajeita. - Ele acabou 
desafiando Alex a levantar a blusa para ele poder dar uma olhada.
-Alex disse: De jeito nenhum, camarada. Mas no falava a srio. Ela estava rindo, brincando com ele, vocs sabem. E acabou fazendo o que ele queria. Eu disse que 
em troca pela viso das tetas da minha irmzinha
        desculpem, seios - ele tinha de me dar o resto da cerveja. Ele disse que no ia dar porque na verdade s tinha visto o suti dela. Mas da prxima vez...
Hammond estendeu a mo e desligou o gravador.
        Ns todos j entendemos, Smilow. O meio-irmo da dra. Ladd a explorava.  discutvel se ela colaborava por livre e espontnea vontade. Mas de qualquer modo, 
 histria antiga.
        No to antiga.
        Vinte, vinte e cinco anos! Por Deus, o que isso tem a ver com Lute Pettijohn?
        Vamos chegar l - disse Steffi. - Tudo se encaixa.
        O resto de vocs pode ficar e ouvir essa porcaria - disse Frank Perkins, que tambm se levantou. - Mas no vou permitir que a minha cliente oua isso.
        Temo que no possa permitir a sada da dra. Ladd - disse Smilow.
        Planeja acus-la formalmente de um crime? - acrescentou Perkins sarcasticamente. - Um supostamente cometido nesta dcada?
Smilow evitou dar uma resposta direta:
        Se no quer ouvir o resto da gravao, devo pedir que espere na outra sala at o dr. Cross terminar de ouvi-la.
        timo.
        No - disse Alex em voz baixa, mas com firmeza. Todos olharam para ela. - Bobby Trimble  lixo. Nos ltimos vinte anos ele adquiriu algum verniz, mas continua 
sendo escria. Quero ouvir tudo o que ele diz. Tenho o direito de saber o que ele diz de mim. Por mais horrvel que seja ouvir a voz dele, preciso saber, Frank.
        Voc nega qualquer coisa que ele disse at agora? - perguntou Steffi.
        No precisa responder a essa pergunta, Alex.
Ignorando o conselho do advogado, Alex olhou direto para os olhos ansiosos de Steffi.
        Tudo isso aconteceu h muito tempo, srta. Mundell. Eu era criana.
        J tinha idade para ser responsvel pelos seus atos.
        Fiz algumas escolhas ruins quando minha nica opo era fazer escolhas piores. As lembranas so feias. Anos atrs eu as eliminei da minha mente e segui 
a minha vida. Constru uma nova vida.
        Resposta muito boa, dra. Ladd - disse Steffi. - Mas isso quer dizer no. No nega o que ele disse at agora.
Se Frank Perkins no tivesse intercedido naquele momento e avisado para Alex no dizer mais nada, Hammond teria tomado a iniciativa. Ela acatou o conselho do advogado. 
Aparentando estar enojado com tudo aquilo, Perkins disse:
        Vamos acabar logo com isso.
Smilow voltou a fita. Hammond mudou o p de apoio para poupar a dor da perna esquerda. Na realidade estava se contendo para no fazer uma burrice muito grande, como 
segurar a mo de Alex e tirla dali. A noite anterior tinha provado que ela precisava de proteo. Queria proteg-la pessoalmente. Estava quase revelando tudo, abrindo 
o jogo, que se danassem os torpedos. Quase. Naquele momento o advrbio era um qualificativo monumental. O pior da histria ainda estava por vir, e era essa parte 
que tinha uma semelhana inquietante com o presente. Segundo o relatrio de Loretta, quando deixou a Flrida com uma condenao por furto e um tubaro da agiotagem 
no seu encalo, Bobby Trimble sumiu de vista. Ter reaparecido ali em Charleston, dias antes de um assassinato em que a meia-irm estava envolvida, era uma coincidncia 
terrivelmente incmoda. Era certamente mais que suficiente para aumentar as suspeitas de Steffi e de Smilow. Apesar de Hammond saber que era praticamente impossvel 
Alex ter matado Pettijohn e chegado  feira na hora em que chegou, ainda havia inconsistncias, e as perguntas sem respostas que o perseguiam. Especialmente  luz 
do passado problemtico de Alex. Sem dvida algum a considerava uma ameaa que tinha de ser silenciada. Mas que ameaa ela representava? Como testemunha? Ou como 
uma conspiradora que resolveu mudar de ideia na ltima hora? At ter certeza de que Alex era totalmente culpada - ou totalmente inocente - de qualquer malfeito, 
ele estava encurralado entre o promotor e o protetor.
Na fita, Smilow perguntava para Trimble sobre a trapaa que tinha criado para arrancar dinheiro dos seus amigos:
        Funcionava assim: eu escolhia algum e comeava a falar de Alex para ele, que ela estava se desenvolvendo. Dizia que ela estava louca para experimentar 
o novo equipamento, que ela estava no cio, coisas assim. Dava algumas dicas para que ele pensasse nela e especulasse sobre as possibilidades. s vezes levava alguns 
dias, s vezes era apenas uma questo de horas para ele ficar muito entusiasmado.
        Eu tinha jeito para a coisa, um sexto sentido, de saber quando chegava a hora certa de acenar o negcio. Dava o nosso preo. Sabem de uma coisa? Nenhum 
daqueles babacas pechinchava o que eu cobrava disse ele, dando risada. - Eu determinava a hora e o lugar. Eles pagavam, depois cabia a Alex fazer o nmero dela.
        Que nmero?
        O que tivesse de fazer para eles ficarem... vocs sabem, vulnerveis.
        Excitados?
        Esse  um modo gentil de descrever a coisa. Quando eles estavam completamente excitados, eu chegava e exigia todo o dinheiro deles, seno...
        Seno o qu?
        Eu inventava alguma besteira que parecia legal sobre molestar menores. Se eles resistissem ou nos ameaassem com a lei, eu dizia que era a nossa palavra 
contra a deles, e quem no ia acreditar numa virgem de doze anos? E eles no abriam a boca mesmo. Foi assim que o nosso negcio durou tanto tempo. Ningum queria 
parecer Otrio diante dos amigos, por isso no admitiam ter sido enganados.
        A sua meia-irm participava de boa vontade?
        O que vocs acham? Que eu a forcei afazer isso? As mulheres adoram se exibir. Sem querer faltar ao respeito, srta. Mundell. Mas aposto que o sr. Smilow 
concorda comigo, mesmo que no abra o jogo. Todas as mulheres so exibicionistas por natureza. Elas conhecem seus atributos. Sabem que os homens babam por elas. 
E adoram nos atiar com isso.
        Obrigada por essa viso psicolgica.
Ele no deixou de observar o sarcasmo de Stefi Mundell.
        No fui eu que escrevi as regras, srta. Mundell. S estou dizendo como as coisas so, e a senhorita sabe disso.
Smilow comeou a perguntar de novo:
        Vocs no ficaram sem otrios?
-Atacamos outros bairros. Alexparecia to fresca e inocente que todos os caras pensavam que eram o primeiro. Por isso eu soube que ia funcionar com homens mais velhos 
tambm.
        Fale sobre isso.
-Alex era a isca perfeita. E ela sabia como envolv-los tambm. Essa  a especialidade dela. Sabia fingir inocncia e nervosismo. Em geral os homens no conseguem 
resistir a uma mulher coquete. Alex sabe se fazer de difcil, melhor que qualquer mulher que conheci, antes e depois disso.
Hammond passou a manga da camisa no suor que brotava da testa, depois encostou a cabea na parede e fechou os olhos. Ouviu o clique quando apertaram o boto para 
parar a reproduo.
        Voc est bem?
Hammond se deu conta de que a pergunta de Smilow era para ele e abriu os olhos. Todos, exceto Alex, olhavam para ele. Os olhos dela estavam baixos, focalizando as 
mos postas no colo.
        Claro. Por qu?
        Voc est plido demais, Hammond. Quer que eu mande buscar mais uma cadeira?
        Eu lhe dou a minha, dr. Cross -Alex se levantou e deu um passo na direo dele.
        No - disse ele bruscamente. - Estou bem.
        Quer beber alguma coisa?
        Obrigado, Steffi. Est tudo bem.
Alex continuou em p, olhando para ele, e Hammond sabia que ela sabia que ele no estava nada bem. Na verdade ele nunca se sentira to mal em toda a sua vida.
        Quanto falta? - perguntou ele.
        No muito - respondeu Smilow. - Dra. Ladd?
Ela se sentou novamente e ele religou o gravador. A sala ficou silenciosa, a no ser pelo ronronar suave da mquina e a voz insinuante de Bobby descrevendo de que 
maneira eles passaram a seduzir homens mais velhos e mais ricos que ele atraa nos sagues e bares dos hotis. Basicamente Bobby era o cafeto de Alex. Os negcios 
iam bem.
        Quando eles estavam l com ela eu roubava suas carteiras, que eram mais gordas que as que tirava dos meninos do bairro. Muito mais gordas.
        Parece que vocs dois formavam uma equipe e tanto.
        Era mesmo. A melhor-A voz de Bobby ficou nostlgica. -Ento apareceu aquele cara que arruinou tudo.
        Voc tentou mat-lo, Bobby.
        Foi autodefesa! Aquele filho-da-me veio para cima de mim com uma faca!
        Voc estava roubando o dinheiro dele. Ele  que estava protegendo o que era dele.
        E eu estava me protegendo! No foi minha culpa que a faca virou para o outro lado na luta e acabou enterrada na barriga dele.
        O juiz achou que a culpa foi sua.
        Aquele juiz filho-da-me me mandou para aquele inferno!
        Voc teve sorte de o homem sobreviver. Se ele tivesse morrido, poderia ter sido muito pior para voc.
Loretta tinha contado o resto da histria para Hammond. Trimble foi para a priso. Alex recebeu uma suspenso condicional da pena que inclua aconselhamento e lar 
de adoo obrigatrios. Ela foi para a casa dos Ladd. O casal adorou a menina. Pela primeira vez na vida Alex foi bem tratada, recebeu afeto e aprendeu com o exemplo 
de que maneira funcionavam os relacionamentos saudveis. Ela floresceu sob os cuidados e a influncia positiva deles. Eles acabaram adotando Alex oficialmente e 
ela adotou o nome deles. No importa se o crdito pertenceu aos falecidos sr. E sra. Ladd, ou  prpria Alex, o fato  que a vida dela sofreu uma reviravolta de 
cento e oitenta graus.
Admitido pelo prprio Bobby Trimble, ele se ressentiu com a sorte dela.
-Fui para a priso, mas Alex saiu impunemente. No foi justo! No era eu que me exibia para aqueles caras.
        Era s isso que ela fazia? Exibir-se?
        Ora, o que vocs acham?-zombou Trimble. - No incio, sim. Mas mais tarde? Droga, ela se prostitua, pura e simplesmente! Ela gostava de fazer aquilo. Algumas 
mulheres foram feitas para isso, e Alex  uma delas.  por isso que mesmo com essa histria de ser psicloga ela sente falta.
        O que quer dizer, Bobby?
        Pettijohn. Se ela no sentisse falta da prostituio, por que recomearia com Pettijohn? Alex ficou em p na mesma hora e gritou:
        Ele est mentindo!
        Nunca ouvi nada mais ridculo - disse Frank Perkins, sinalizando para Alex se levantar. - Bobby Trimble  um ladro imoral e mentiroso, que desavergonhadamente 
explorava sua meia-irm na juventude e que agora a est utilizando para escapar de uma acusao de estupro. Por sinal, uma falsa acusao de estupro, inventada por 
vocs para estimular essa farsa. No esperava isso nem de voc, Smilow. Vou levar a minha cliente para casa!
        Por favor, no saiam do prdio! - disse Smilow.
        Est preparado para acusar a dra. Ladd agora? - disse Perkins, furioso.
Smilow olhou para Steffi e para Hammond, franzindo a testa. Mas nenhum dos dois opinou, e ele disse:
        Ainda temos de discutir alguns pontos. Por favor, esperem l fora.
Hammond adotou a sada do covarde e nem olhou para Alex antes de o advogado escolt-la para fora da sala. A expresso dele no seria condizente com a precaridade 
da situao dela. As fichas estavam definitivamente se empilhando contra ela. No era bom augrio Trimble e ela terem sido parceiros no crime, e nem tinham sido 
crimes to insignificantes assim. A vtima, esfaqueada, poderia ter morrido se no fosse por um milagre da medicina.
Depois de anos de separao, Trimble e Alex se reencontravam poucas semanas antes de Lute Pettijohn ser assassinado. A jovem Alex tinha sido a isca que possibilitava 
a Trimble depenar suas vtimas. Alex tinha um cofre em casa cheio de dinheiro. As implicaes eram brutais. O efeito do analgsico que Hammond estava tomando tinha 
terminado havia horas. Para manter a mente mais clara, ele evitou tomar mais. Seu desconforto devia ser bvio, porque assim que Perkins levou Alex para fora da sala, 
Steffi virou-se para ele:
        Parece que voc est  beira de um colapso. Est sentindo dor?
        D para suportar.
        Terei prazer em buscar qualquer coisa para voc.
        Estou bem.
Mas ele no estava nada bem. Temia ouvir Smilow analisar as declaraes de Bobby Trimble e o que elas representavam para o caso deles contra Alex, mas no tinha 
opo, a no ser dar a palavra ao detetive e ficar ouvindo enquanto ele resumia a histria.
        Foi assim que aconteceu. Na ltima primavera, Bobby Trimble se meteu numa briga de bar em alguma cidadezinha do interior. Ele se saiu bem na confuso toda. 
Um dos caadores de talento de Pettijohn, por assim dizer, testemunhou a luta e recomendou Trimble para o trabalho na ilha Speckle, onde precisavam de um leo-de-chcara.
        Para espremer os proprietrios de terra que no queriam vender.
        Certo, Steffi. Pettijohn estava querendo comprar a ilha inteira, mas deparou-se com uma resistncia que no esperava. Os proprietrios tinham herdado as 
terras dos ancestrais, escravos que, por sua vez, receberam as propriedades de seus antigos donos. Geraes trabalharam naquela terra.  tudo o que conhecem.  o 
legado e a herana deles.  mais importante para eles que dinheiro, um conceito que Lute no era capaz de compreender. De qualquer modo, eles no queriam o "progresso" 
na ilha deles.
        Pettijohn talvez nem pretendesse promover o desenvolvimento da ilha - concluiu Steffi. - Ele provavelmente queria apenas comprla, deix-la valorizar alguns 
anos e depois vend-la com um lucro excelente - ela se virou para Hammond: - Quer dar a sua opinio?
        Vocs dois esto indo muito bem. No discordo de nada que disseram at agora. Um inseto nojento como Trimble no est acima de pessoas violentas e trabalhadoras 
que s querem ficar em paz para viver suas vidas. As tticas dele provavelmente eram muito piores do que ele fazia crer.
        E eram - disse Smilow. - Meu investigador relatou incndios, espancamentos e outras atividades do tipo Klan. Trimble organizava os bandidos que faziam essas 
coisas.
        Meu Deus! - disse Hammond, enojado.
Seria possvel que seu prprio pai estivesse envolvido com tais atrocidades? Preston tinha afirmado desconhecer o terrorismo de Pettijohn. Tinha dito que, quando 
ficou sabendo, vendeu sua parte na sociedade. Hammond esperava que isso fosse verdade mesmo.
Referindo-se novamente a Bobby Trimble, ele zombou:
        E essa  a nossa testemunha confivel? Ignorando aquele comentrio editorial, Steffi disse:
        Trimble afirma que compreendeu que estava agindo errado e se recusou a fazer mais trabalho sujo para Pettijohn. O mais provvel  que tenha simplesmente 
se cansado. Aquela ilha no oferece muitas mordomias. No podia ser nada excitante comparada com seu trabalho de mestre-de-cerimnias no clube de striptease.
        Lute era um filho-da-me avarento - disse Smilow. - No ia pagar tanto para Trimble. E tambm no havia muitos lugares na Speckle para Bobby usar suas roupas 
da moda.
Steffi consultou as anotaes que havia feito:
        E ele no se referiu aos ilhus como pessoas teimosas? Talvez no tivesse muito sucesso dando suas chaves de brao. Pettijohn pode ter ficado insatisfeito 
com o desempenho dele e ameaado demiti-lo.
        De qualquer modo, Trimble era um empregado descontente, cujo patro infringia a lei e que coincidentemente tinha muito dinheiro.
        Em outras palavras, extorso pedindo para entrar no jogo.
        Exatamente. O esquema de chantagem fazia sentido economicamente - observou Smilow com um sorriso torto. - Trimble concluiu que estava trabalhando demais 
e que podia conseguir muito mais dinheiro de Pettijohn ameaando revelar o que estava acontecendo na Speckle.
        Voc acredita que Pettijohn deu ordem para Bobby machucar aquelas pessoas? Espanc-las? Provocar incndios? Ou ser que Bobby  que estava elaborando?
        Tenho certeza de que parte daquilo era exagero - disse Smilow.
        Mas se est me perguntando se acho que Lute era capaz de tticas nefandas como essas, a resposta  sim. Ele fazia qualquer coisa para obter o que queria.
        O que quer que ele estivesse fazendo, devia ser muito ruim, porque concordou em pagar cem mil dlares em dinheiro vivo para Bobby manter a boca fechada.
Smilow continuou a contar a histria:
        Mas, nas palavras de Bobby, ele "no tinha nascido ontem". Lute capitulou quase rpido demais s suas exigncias. Bobby desconfiou da pressa com que Lute 
concordou. Pegar o dinheiro era um negcio arriscado. At Bobby  suficientemente esperto para saber que poderia estar caindo numa armadilha.
        Entra a irm dele.
        Meia-irm - corrigiu Hammond. - E ela no "entrou".
        Tudo bem, ele foi procur-la e a recrutou.
        Ele a encontrou por acaso. Viu a foto dela no Post and Courier. Sem dvida Alex amaldioava o dia em que tinha se oferecido
como voluntria para ajudar a organizar o Worldfest, um festival de cinema que durava dez dias, que acontecia todo ms de novembro em Charleston. Um artigo aparentemente 
incuo no jornal e uma foto do grupo tinha exposto Alex  sua nmesis.
Na gravao, Trimble tinha dito: No pude acreditar quando vi a foto de Alex no jornal. Li os nomes duas vezes antes de compreender que ela devia ter mudado o dela. 
Procurei o endereo na lista telefnica, fiquei vigiando a casa dela e confirmei que a dra. Ladd era mesmo a meia-irm que eu tinha perdido havia tanto tempo.
        At ver aquele artigo - disse Hammond - ele nem sabia que ela morava em Charleston. Depois de anos se escondendo dele atrs da nova identidade, ela no 
ficou contente de v-lo.
         isso que ela diz - disse Steffi.
        Se ele fosse seu irmo, voc ficaria contente se ele reaparecesse na sua vida?
        Talvez. Se tivssemos sido parceiros bem-sucedidos antes...
        Parceiros uma ova! Ele usou a sexualidade dela da pior forma que se pode imaginar, Steffi.
        Voc acredita que ela era inocente?
        Sim, acredito.
        Hammond, ela era uma prostituta.
        Tinha doze anos!
        Est bem, era uma jovem prostituta.
        No era nada.
        Ela fazia favores sexuais por dinheiro. No  essa a definio de uma prostituta? , 369
        Crianas - Smilow chamou a ateno deles e ps fim  disputa de quem gritava mais alto. Reuniu uma pilha de material escrito na pasta do caso e passou para 
Hammond. - Isso  tudo que voc precisa levar para o grande jri. Eles se renem na prxima quinta-feira.
        Eu sei quando eles se renem - retrucou Hammond, irritado.
        Tenho alguns outros casos pendentes. Isso no pode esperar mais um ms, at a prxima reunio? Para que a pressa?
        E precisa perguntar? - disse Smilow, sarcstico. - Tenho de explicar a importncia desse caso?
        Mais um motivo para ter certeza de costurar tudo antes da audincia com o grande jri - ele tentou se agarrar a um outro argumento. -Voc fez um acordo 
muito fcil para Trimble. O simples furto de uma bolsa. Uma noite na cadeia, no mximo. Ele deve estar morrendo de rir.
        O que quer dizer com isso?
        Trimble pode ter matado Pettijohn e est usando a irm como bode expiatrio.
Smilow pensou naquilo um segundo e depois balanou a cabea.
        No h evidncia que o situe na cena do crime enquanto que evidncias fsicas pem Alex Ladd no quarto com Pettijohn. A declarao de Daniel pe Alex l 
na hora estimada da morte dele.
        Frank Perkins poderia invalidar facilmente essa estimativa. E voc no tem a arma.
        Se tivssemos a arma, acusava a dra. Ladd hoje - disse Smilow.
        Por falar nisso, lembre ao grande jri que Charleston  cercada de gua. Ela poderia ter jogado a arma fora a qualquer hora na noite de sbado.
        Concordo - disse Steffi. - Ns podamos procurar at o dia do Juzo Final e no encontrar aquela pistola. Voc realmente no precisa dela, Hammond - afirmou 
ela com segurana.
Ele passou a mo pelo rosto e percebeu que no tinha se barbeado aquela manh.
        Vai ser difcil vender-lhes o motivo dela.
        Vai ser moleza! - argumentou Steffi. - Voc tem o testemunho de Trimble sobre o passado dela.
        Voc est viajando, Steffi - disse ele. - Aconteceu h mais de vinte anos. Mas mesmo se tivesse acontecido ontem, Frank jamais permitiria que isso fosse 
ventilado durante o julgamento. Ele ia argumentar que a ficha dela no juizado de menores  irrelevante, e qualquer juiz justo vai declarar inadmissvel. O jri jamais 
ouvir aquela merda. Se, por alguma manobra legal da minha parte, for considerado admissvel, no sei bem se usaria. Poderia provocar o efeito contrrio e se voltar 
contra ns.
Smilow olhou para Hammond com os olhos semicerrados.
        Ora, dr. Promotor, talvez esteja representando o lado errado. Est preparado para citar todos e quaisquer obstculos para este caso, no est?
        Sei o que pode acontecer no tribunal, Smilow. S estou sendo realista.
        Ou covarde. Talvez Steffi devesse alertar Mason de que voc anda com nervosismos  ltima hora.
Hammond engoliu uma resposta obscena. Smilow o provocava de propsito, e uma reao de zanga lhe daria exatamente o que ele queria. Em vez disso, ele disse com toda 
a calma:
        Tive uma ideia. Por que voc no dispensa todos os modos legais de conseguir uma condenao? Vejamos, que mtodos ilcitos voc poderia usar? J sei! - 
ele estalou os dedos. - Voc poderia omitir provas exculpatrias. , poderia fazer isso. E nem seria a primeira vez, no ?
O maxilar bem barbeado de Smilow se enrijeceu de raiva.
        Sobre o que voc est falando? - perguntou Steffi.
        Pergunte para ele - respondeu Hammond, sem jamais tirar os olhos de Smilow. - Pergunte a ele sobre o caso Barlow.
        Se voc no estivesse todo arrebentado...
        No seja por isso, Smilow!
        Rapazes, parem com essa besteira! - disse Steffi, impaciente. J no temos muito com que nos preocupar sem que vocs dois fiquem se estapeando com luvas 
de pelica? - ela se virou para Hammond: - O que voc estava dizendo sobre a ficha de Ladd no juizado de menores funcionar contra ns?
Vrios segundos se passaram at Hammond conseguir tirar os olhos de Smilow e se concentrar em Steffi:
        Quando a dra. Ladd estava ouvindo a gravao de Trimble, bastava observar o seu rosto para ver o quanto ela o detesta. O jri vai observ-la tambm.
        Mas talvez no to intimamente quanto voc.
Ele no teria uma reao to exagerada se ela o tivesse ferido com um espeto em brasa.
        Que merda  essa?
        Nada.
         alguma coisa - insistiu ele furioso.
        Apenas uma observao, Hammond - respondeu ela com uma calma enlouquecedora. - Hoje voc no conseguiu tirar os olhos da nossa suspeita.
        Est com cime, Steffi?
        Dela? Nem pensar!
        Ento guarde suas observaes maliciosas para voc mesma-ele procurou no avanar demais por aquele caminho, com medo de no conseguir mais voltar em segurana. 
Retomou o assunto onde tinha deixado. - Trimble  viscoso. Chegou at a ofend-la, e voc no se ofende com facilidade. O testemunho dele vai provocar nojo nas mulheres 
do jri.
        Vamos ensinar o que ele deve dizer e como deve dizer.
        Voc j viu Frank Perkins interrogando uma testemunha? Ele vai bajular Trimble at ele expor alguma de suas teorias chauvinistas. Trimble ficar vaidoso 
demais para enxergar a armadilha. Ele cair nela discursando sem parar, e ser a nossa runa. Seria dureza para mim tentar convencer o jri de que a dra. Ladd, e 
pode apostar que Frank formar uma fila de testemunhas de defesa do carter dela, estava mancomunada com um camarada como ele.
Stefi pensou um pouco.
        Tudo bem, considerando essa discusso, digamos que ela  pura como a neve caindo. Quando seu meio-irmo criminoso apareceu com seu esquema de chantagem, 
por que ela no deu queixa dele para as autoridades imediatamente?
        Associao - respondeu Hammond. - Ela quis proteger sua prtica e sua reputao. No queria desencavar todo aquele lixo do passado.
        Talvez, mas ela podia pagar para ver o blefe dele e ameaar pr a polcia no seu encalo. Ou ento podia t-lo ignorado at ele desistir e ir embora.
        Por algum motivo, acho que no seria to fcil assim ignor-lo. Ele ia infernizar a vida dela, ameaando exp-la aos pacientes e diante da comunidade. E 
no seriam ameaas vazias. As pessoas esto sempre dispostas a acreditar no pior sobre qualquer pessoa. Os pacientes confiam seus problemas para ela. Ser que continuariam 
a confiar nela se ouvissem o que Bobby tinha para contar? No, Stefi. Ele era capaz de provocar danos muito srios, e ela sabia disso.
"Ela construiu um nome profissional. Estabeleceu-se como especialista em angstia profunda.  admirada e respeitada. Depois de todos os anos que levou para se livrar 
de Deus sabe quantos traumas da infncia e reconstruir sua vida, ela faria praticamente qualquer coisa para proteg-la."
        Mas esse  exatamente o nosso caso! - exclamou Steffi, excitada.
        Voc acabou de fech-lo, Hammond. Bobby ameaou exp-la se ela no compactuasse com os planos dele. Para livrar-se dele, ela concordou em coletar o dinheiro 
da chantagem. Alguma coisa deu errado dentro daquela sute do hotel, e ela no teve outra escolha seno matar Pettijohn.
Hammond percebeu tarde demais que tinha escolhido muito mal as palavras. Steffi tinha razo. Ele acabava de articular seu caso.
        Pode funcionar - resmungou ele.
        Que outra explicao pode haver para ela ter estado naquela sute de hotel com Lute Pettijohn? Ela definitivamente no deu nenhuma.
Aquele era o problema. Hammond podia bailar em volta dele o quanto quisesse, mas seus passos de danarino sempre o levavam de volta. Se Alex era completa e totalmente 
inocente de qualquer crime, por que tinha ido se encontrar com Pettijohn aquela tarde?
Smilow caminhou para a porta.
        vou dizer para o Perkins que o grande jri ter a audio do nosso caso na prxima quinta-feira.
        Por que no a prende simplesmente? - perguntou Steffi.
A ideia de Alex passar algum tempo presa provocou nuseas em Hammond, mas ele achou melhor no mencionar mais nenhum protesto.
Graas a Deus Smilow fez isso por ele.
        Porque Perkins ia protestar e nos forar a indici-la antes de prend-la. De qualquer modo, ele a soltaria sob fiana em questo de horas.
        Ele tem razo, Steffi - disse Hammond, com a sensao de ter recebido um adiamento na sua sentena de morte. - Quando ela for indiciada, prefiro ter uma 
indiciao do grande jri por trs.
Smilow saiu e deixou a sala dele para os dois. Steffi olhou com simpatia para Hammond.
        Tem certeza de que consegue preparar o caso? Quer voc admita ou no, esse ataque no custou barato. Provavelmente vai se sentir ainda pior nos prximos 
dias, quando tudo ficar sensvel. Ser um prazer assumir essa responsabilidade por voc.
Aparentemente, parecia um colega preocupado oferecendo um favor a outro, mas Hammond no sabia se o gesto era totalmente desinteressado. Ela queria o caso, e provavelmente 
se ressentia de terem dado para ele.
Alm do mais, a oferta dela tambm podia ser uma armadilha bem montada. Depois da indireta de que ele no conseguia tirar os olhos de Alex, ele ficou desconfiado. 
Se Steffi estivesse tendo at a mais vaga ideia de que ele sentia atrao por Alex, ela o vigiaria como um falco. Tudo que ele dissesse e fizesse passaria pelo 
filtro da suspeita dela. Se ela descobrisse que a atrao que ele sentia ia muito alm do que ela imaginava, seria um desastre para ele e para Alex. Ele no podia 
deixar transparecer que favorecia a suspeita.
Por outro lado, a oferta de Steffi podia ser completamente desinteressada, sua preocupao genuna. Tinha todo o direito de estar zangada e aborrecida com ele por 
causa do rompimento, mas no tinha deixado que isso comprometesse a relao profissional dos dois. Era ele que tinha seus motivos ocultos. Contrariado, ele agradeceu 
a oferta dela:
        Agradeo muito, mas tenho uma semana para me recuperar. Tenho certeza de que na prxima quinta-feira estarei de volta ao normal e pronto para outra.
        Se voc mudar de ideia...
        A imprensa est l fora? - perguntou Frank Perkins, incrdulo e irritado.
        Foi o que me disseram-respondeu Smilow suavemente. - Achei que voc devia saber.
        Quem deixou vazar a informao?
        Eu no sei.
O advogado bufou com desprezo:
        Claro que no.
Ele deu meia-volta, segurou o brao de Alex e a levou at o elevador.
Steffi esgueirou-se para perto de Smilow e observou:
        Mal posso esperar pela quinta-feira.
        No vai ser fcil.
Ela olhou para o detetive, surpresa com o tom desanimado de sua voz.
        No me diga que o pessimismo de Hammond  contagioso. Pensei que voc estaria distribuindo charutos para os seus detetives.
        Os argumentos de Hammond tm l seus mritos - disse ele, pensativo. - Primeiro, ele tem de convencer o grande jri de que Alex Ladd  indicivel. Se eles 
realmente concederem um indiciamento, ele ter de provar para o jri que ela  culpada, acima de qualquer dvida razovel. As nossas provas so circunstanciais, 
Steffi. O testemunho de Trimble tem o handicap do prprio Trimble. No  grande coisa para um promotor construir seu caso.
        Antes do julgamento comear vo aparecer mais provas.
        Se  que existem.
        Mas tem de haver mais.
        No, se no foi ela - Steffi olhou para ele com os olhos semicerrados, mas ele fingiu que no notou e se afastou. - Tenho um monte de trabalho  minha espera.
Desapontada com as observaes dele, Steffi ficou fazendo hora no corredor at Hammond sair do banheiro dos homens. Entraram juntos no elevador.
        Os reprteres esto l fora.
        J soube.
        Vai encarar? - perguntou ela, dando um tapinha amistoso no brao machucado de Hammond.
No andar trreo, eles viram atravs das portas de vidro a multido de reprteres  espera nos degraus da entrada.
        No importa se estou disposto ou no. Preciso fazer isso. Mais tarde Steffi teve de admitir que ele se saiu bem. Apesar de menosprezar seus ferimentos, 
eles o fizeram parecer arrojado e corajoso, um soldado ferido, pronto para enfrentar a batalha.
Quase no se falaram na volta para o centro jurdico, ao norte de Charleston. Assim que entraram no prdio, Hammond pediu licena e se trancou na sua sala particular. 
Steffi, perdida em seus pensamentos, literalmente deu um encontro em Monroe Mason quando ele dobrava afobado a esquina de um corredor. Ele levava um smoking pendurado 
no brao.
        O patro est saindo mais cedo - brincou ela. Mason franziu a testa.
        A minha mulher inventou um daqueles chatssimos eventos beneficentes esta noite. Um banquete em que todos que comparecerem recebem um prmio. Mas quem precisa 
de mim por aqui de qualquer maneira? Vocs todos esto fazendo um timo trabalho sem a minha ajuda. O meio-irmo da dra. Ladd forneceu o elo perdido para Hammond, 
no foi? Agora ele tem o motivo. Parece consistente.
        O depoimento de Trimble fez toda a diferena.
        Eu apostaria todo o meu dinheiro na nossa equipe.
        Obrigada.
        Agora chega de retrica - disse ele, sorrindo, de bom humor. O que diz o seu instinto, Steffi? Que tipo de caso voc tem?
Steffi se lembrou das preocupaes de Smilow e respondeu:
        Gostaramos de ter provas mais concretas.
        Cite um promotor que no deseja isso. Raramente pegamos o acusado com uma arma fumegante na mo. s vezes, e realmente costuma ser assim, temos de criar 
alguma coisa de muito pouco, at do nada. Hammond vai conseguir o indiciamento e, quando o caso for a julgamento, ele obter o veredicto de culpada. No tenho dvida 
nenhuma da capacidade dele.
Apesar de todo o esforo que teve de fazer com os msculos da face, Steffi sorriu.
        Eu tambm no tenho. Se ele no se deixar levar pelas emoes. Mason olhava para seu relgio de pulso.
        Preciso ir. Vou encontrar meu treinador para malhar um pouco e fazer uma massagem antes de vestir essa fantasia. O coquetel comea s cinco. A sra. Mason 
me fez jurar que no ia me atrasar.
        Divirta-se.
Ele franziu a testa.
        Isso  uma piada, no ?
        Sim, senhor, isso  uma piada - dando risada, ela desejou que ele tivesse uma noite agradvel.
Mason tinha quase chegado ao fim do corredor quando parou e deu meia-volta.
        Steffi?
Ela estava de costas para ele, de forma que no deu para ver o sorriso triunfante que se espalhou pelo rosto dela. Ela o desfez antes de virar-se para ele.
        O qu?
        O que voc quis dizer com aquela observao?
        Observao?
        Sobre Hammond se deixar levar pelas emoes.
        Ah - ela deu uma risada. - Eu estava brincando. No foi nada. Ele voltou para perto dela.
        Foi a segunda vez que voc fez uma aluso ao fato de Hammond estar interessado na dra. Ladd. No considero isso nada. E certamente no acho que  assunto 
para brincadeiras.
Steffi mordeu a bochecha por dentro.
        Se no o conhecesse to bem... - disse ela, e interrompeu a frase. Ento balanou a cabea com firmeza. - Mas conheo. Todos ns conhecemos. Hammond jamais 
perderia sua objetividade.
-Nunca.
        Claro que no.
        Bem, ento... boa-noite.
O procurador municipal seguiu pelo corredor. Ao perd-lo de vista, Steffi entrou na sua sala praticamente aos pulos. Tinha plantado a semente no incio daquela semana. 
Hoje a tinha regado.
        Vamos ver se a mente dele  frtil - disse para si mesma enquanto se sentava  sua mesa e folheava a pilha de recados telefnicos.
O recado que ela tanto esperava no estava l. Irritada, ela discou um nmero.
        Laboratorista Anderson falando.
        Aqui  Steffi Mundell.
        Sim? ???Jim Anderson trabalhava no laboratrio do hospital e era um encrenqueiro de marca. Steffi sabia disso porque tinha tido atritos e confrontos com 
a agressividade dele antes. Ela exigia exatido associada  rapidez, o que ele parecia incapaz de produzir.
        Voc j fez aquele teste?
        Eu disse que ligaria assim que fizesse.
        Ainda no fez?
        Por acaso eu liguei?
Ele nem se incomodou de se desculpar ou de lhe dar alguma explicao.
        Preciso do resultado desse teste para um caso muito importante
        disse ela. -  vital. Talvez no tenha deixado isso claro para voc esta manh.
-Voc deixou bem claro, sim. E eu tambm deixei bem claro que trabalho para o hospital, no para o departamento de polcia, e tampouco para o promotor pblico. Tenho 
outros trabalhos antes do seu que tambm so muito importantes.
        Nada  to urgente quanto isso.
        Entre na fila, srta. Mundell.  assim que funciona.
        Olha, no preciso de teste de DNA. Nem de HIV. Nada complicado, por enquanto.  s tipologia de sangue.
        Eu sei.
        S preciso saber se o sangue naquela toalha combina com o do lenol que Smilow levou para voc algumas semanas atrs.
        Eu entendi da primeira vez que me pediu isso.
        Qual  o problema, ento? - disse ela, elevando a voz. - Voc no tem de simplesmente espiar atravs de um microscpio ou qualquer coisa assim?
        Ter o resultado quando eu fizer o exame. Anderson desligou o telefone na cara dela.
        Filho-da-puta - sibilou ela, batendo o fone no gancho. Nada deixava Steffi mais furiosa do que incompetncia, s
incompetncia combinada com arrogncia injustificada.
Merda, precisava daquele exame de sangue! Ela estava tendo um palpite muito forte, e seus palpites raramente falhavam. Desde que tinha surgido aquela manh, a ideia 
passou a consumir seus pensamentos e agora tinha virado obsesso. Por mais impossvel que pudesse parecer, ela achava que havia um estranho sentido no fato de haver 
alguma coisa entre Hammond e Alex Ladd, e que essa "coisa" era sexual. Ou pelo menos romntica. No ousava comentar suas suspeitas com Smilow. Ele provavelmente 
as consideraria absurdas e, nesse caso, ela faria o papel de boba na melhor das hipteses, e de ex-amante ciumenta na pior. Ele contaria a teoria dela para sua equipe 
de detetives, que faria de Steffi alvo de suas piadas. O detetive Mike Collins e os outros que no eram capazes de aceitar mulheres em postos de comando nunca mais 
a levariam a srio. Tudo que ela dissesse ou fizesse seria minado pela zombaria deles. E isso seria intolervel. Tinha lutado muito para conquistar a reputao de 
promotora durona e sensata e no ia prejudic-la com algo to risivelmente feminino como ver romance onde no havia nada. Mas seria quase to ruim se Smilow acreditasse 
no palpite dela. Ele iria adiante com a ideia. Diferentemente de Steffi, ele tinha recursos e influncia para fazer uma investigao muito sria. Faria pular os 
babacas como Jim Anderson, e o tcnico do laboratrio do hospital s perguntaria at que altura. Smilow teria o resultado daquele exame de sangue na mesma hora. 
Se as amostras combinassem, Smilow levaria ? crdito de fazer a conexo entre Hammond e a suspeita deles. Se ela estivesse certa no queria dividir o crdito com 
Smilow ou com qualquer outra pessoa. Queria tudo s para ela. Se Hammond tivesse de cair em desgraa - ser que ela podia torcer pela sua expulso da Ordem dos Advogados? 
- por prejudicar uma investigao de assassinato, queria ser a pessoa que ia exp-lo. Sozinha. Chega de tocar o segundo violino, chega de projetos de grupo para 
Steffi Mundell, muito obrigada. Seria deliciosamente divertido ver Hammond despencar do seu pedestal. E seria muito gratificante derrub-lo pessoalmente de l. O 
comportamento dele aquele dia quando ouvia a gravao de Trimble tinha reforado suas suspeitas. Ele havia reagido como um amante ciumento. Era claro que considerava 
Alex Ladd uma vtima da explorao do meio-irmo. Sempre que possvel ele tinha se adiantado em sua defesa, descobrindo ngulos que sugeriam inocncia. No era uma 
boa atitude para um promotor que tentava convencer os outros da culpa da acusada. Talvez ele s sentisse pena da inocncia perdida da moa. Ou ento simpatia pela 
profissional prestes a perder toda credibilidade e respeito. Mas, de qualquer maneira, havia alguma coisa ali. Definitivamente.
        Eu sei - sussurrou Steffi com convico.
Steffi era dotada de uma intuio aguada. Sentia o cheiro de mentiras e percebia motivaes que ningum mais notava no escritrio do procurador pblico. Essa habilidade 
tinha sido muito til. Seus instintos ganhavam vida e zuniam ruidosamente toda vez que Hammond e Alex Ladd estavam prximos um do outro. Mas a certeza que tinha 
ia alm dos seus instintos de promotora. Sua intuio feminina tambm alimentava essa impresso. Enquanto observava os dois se olhando, os sinais ficavam cada vez 
mais bvios. Eles evitavam contato visual direto, mas sempre que efetuavam esse contato quase dava para ouvir o clique de uma ignio. Alex Ladd demonstrou ter ficado 
arrasada quando Trimble relatou os detalhes mais lascivos do seu passado. A maioria das suas negativas verbais tinha sido dirigida a Hammond. E ele, que tinha fama 
de possuir uma habilidade extraordinria de focalizar e de se concentrar no assunto em pauta, no conseguia parar quieto. Ficava se mexendo o tempo todo. As mos 
no paravam. Agia como se sentisse uma coceira que no pudesse coar. Steffi reconhecia aqueles sinais. Ele tinha se comportado daquela forma quando o caso deles 
comeou. Ir para a cama com uma colega de trabalho deixava Hammond inquieto. Ele se preocupava com o fato de no ser apropriado. Ela o provocava, dizendo que, se 
no relaxasse quando estavam em pblico, seus tiques nervosos iam acabar denunciando os dois. Mas no sinto cime, pensou Steffi no presente. No sinto cime dele, 
e certamente no a invejo. No mesmo. Superficialmente, ela podia parecer a tpica mulher desprezada. Mas no era cime que alimentava seu desejo de chegar ao fundo 
daquela questo. Era muito mais que cime. Muito maior. Seu futuro dependia disso. Ia continuar cavando at obter uma resposta, mesmo se o seu palpite estivesse 
errado. Um dia, quando a dra. Ladd estivesse curtindo a priso, talvez contasse para Hammond essa ideia maluca que teve. E eles dariam boas risadas. Ou ento podia 
descobrir um segredo escandaloso que arruinaria por completo a reputao de Hammond Cross e acabaria com qualquer chance de ele se tornar procurador do municpio. 
E se isso acontecesse, adivinhem quem estaria pronta e preparada para assumir o cargo? O melhor detetive de homicdio do Departamento de Polcia de Charleston estava 
pronto para alegar que Alex Ladd tinha matado Lute Pettijohn. A funo de Hammond era argumentar e provar o caso da promotoria pblica num tribunal de Justia. Mas 
o caso da promotoria pblica era contra uma mulher por quem ele havia se apaixonado. Alm disso, ele era uma testemunha essencial nesse caso. Esses eram dois motivos 
muito poderosos para ele querer invalidar a alegao da promotoria. Mas havia um outro motivo ainda mais poderoso, influente e urgente. A vida de Alex corria perigo. 
A mdia tinha descoberto a histria de terem revirado a casa dela na vspera. Ela sofrera um atentado na noite anterior. Isso no podia ser uma coincidncia. O invasor 
provavelmente tinha sido contratado para silenciar Alex. Como tinha falhado, certamente tentaria de novo.
Smilow e seus homens tinham concentrado toda a ateno em Alex, deixando a cargo de Hammond a tarefa de encontrar outro possvel suspeito, ou suspeitos. com esse 
objetivo, Hammond trancou-se na sua sala com o arquivo sobre o caso que Smilow tinha dado para ele. Desligou-se mentalmente do caso. Descontando seu investimento 
pessoal, ele se concentrou apenas nos aspectos legais e abordou o caso exclusivamente a partir desse ponto de vista. Quem queria ver Lute Pettijohn morto? Rivais 
nos negcios? Certamente. Mas de acordo com os arquivos de Smilow, todos os interrogados tinham libis concretos. At o pai dele. Hammond havia verificado pessoalmente 
o libi de Preston. Davee? Mais ainda. Mas Hammond achava que, se ela tivesse matado o marido, no faria segredo nenhum disso. Seria uma produo e tanto. Era mais 
o estilo dela. Confiando no seu poder de concentrao e capacidade de raciocnio, ele organizou e absorveu todos os dados que o arquivo do caso continha. A essa 
informao Hammond acrescentou os fatos que ele conhecia, e Smilow no:
1.        Que o prprio Hammond tinha estado com Lute Pettijohn logo antes do seu assassinato.
2.        Que o bilhete escrito  mo, que Davee tinha dado para ele, indicava que Hammond no era a nica visita que Lute tinha marcado para aquele sbado  tarde.
3.        Que Lute Pettijohn estava sendo secretamente investigado pelo ministrio da Justia.
Isolado, nenhum desses fatos parecia relevante. Mas, juntos, aguavam a curiosidade de Hammond como promotor e geravam perguntas... e a procura de motivos, independentemente 
do fato de querer que Alex fosse inocente. Mesmo se no estivesse emocionalmente envolvido com ela, Hammond no queria de jeito nenhum condenar uma pessoa inocente. 
No importava quem fosse o principal suspeito, essas perguntas exigiam novas investigaes. Utilizando mentalmente esses fatos no revelados, ele repassou cada conversa 
que teve sobre o caso. Com Smilow, Steffi, com o pai dele, Monroe Mason, Loretta. Retirou Alex da equao e fingiu que ela no existia, que o suspeito continuava 
um mistrio. Assim ele pde escutar cada pergunta, cada declarao e cada observao espontnea com ouvidos novos em folha. por incrvel que parea, foi uma afirmao 
dele mesmo que chamou sua ateno e o arrancou daquele fluxo preguioso de conscincia: "As balas mais comuns da pistola mais comum. H centenas de 38 s nesta cidade. 
At no seu depsito de provas, Smilow." Subitamente Hammond sentiu uma energia nova e uma determinao muito forte para justificar o prprio comportamento irracional 
nos ltimos dias. Tudo... sua carreira, sua vida, sua paz de esprito... dependia de exonerar Alex e de provar que ele estava certo. Hammond olhou para seu relgio 
de mesa. Se corresse, talvez ainda pudesse comear sua investigao aquela tarde mesmo. Recolheu apressadamente o arquivo, enfiou-o na pasta e saiu da sala. Tinha 
acabado de sair do prdio pela porta principal e estava sentindo o bafo do calor de fornalha quando ouviu o seu nome.
        Hammond.
S uma pessoa tinha aquela voz imperativa. Hammond grunhiu por dentro e deu meia-volta.
        Oi, pai.
        Podemos voltar para a sua sala para conversar?
        Como pode ver, estou de sada e com uma certa pressa de chegar ao Centro da cidade antes do fim do expediente. O caso Pettijohn ser apresentado ao grande 
jri na quinta-feira.
         sobre isso mesmo que eu quero conversar com voc. Preston Cross jamais aceitava um no como resposta. Ele guiou
Hammond at uma sombra estreita colada  fachada do edifcio.
        O que aconteceu com o seu brao?
        Uma histria muito comprida para explicar agora - respondeu ele com impacincia. - O que  to urgente que no pode esperar?
        Monroe Mason ligou para mim do celular quando estava a caminho da academia esta tarde. Ele est profundamente preocupado.
        Qual  o problema?
        Tremo s de pensar nas consequncias se as especulaes de Monroe estiverem corretas.
        Especulaes?
        De que voc tenha adquirido um interesse imprprio por aquela dra. Ladd.
Aquela dra. Ladd. Sempre que seu pai falava depreciativamente de algum ele punha o pronome na frente do nome. A despersonalizao era sua maneira sutil de expressar 
o desprezo que sentia pelo indivduo. Procurando ganhar tempo, Hammond disse:
        Sabe de uma coisa, estou comeando a me aborrecer de verdade com essa histria de o Mason ligar para voc toda vez que ele tem algum problema comigo. Por 
que ele no vem falar diretamente comigo?
        Porque ele  um velho amigo. Se ele acha que meu filho est prestes a arruinar seu futuro, o respeito que tem por mim faz com que ele queira me avisar. 
Tenho certeza de que ele queria que eu interviesse.
        O que voc faz com o maior prazer.
        E fao mesmo!
O rosto de Preston tinha ficado vermelho at as razes dos cabelos brancos. Havia umas gotas de saliva no canto da boca. Ele raramente perdia a calma e considerava 
exploses emocionais de qualquer tipo uma fraqueza reservada para mulheres e crianas. Tirou um leno do bolso de trs da cala e secou o suor da testa com o quadrado 
branco de linho irlands bem passado. J mais calmo, ele disse:
        Diga-me que a impresso de Monroe no tem qualquer fundamento.
        De onde ele tirou essa ideia?
        Primeiro da sua atitude aptica em relao a este caso.
        Eu no usaria essa palavra. Tenho ralado muito. E claro que sou cauteloso...
        Demais.
        Na sua opinio.
        E parece que na de Mason tambm.
        Ento  ele que tem de chamar a minha ateno, no voc.
        Desde o incio voc vem se arrastando. Seu mentor e eu gostaramos de saber por qu. Foi a suspeita que fez voc se acovardar? Voc est gostando dessa 
mulher?
Hammond fixou os olhos no pai, mas continuou obstinadamente calado.
As feies de Preston Cross se enrijeceram de fria.
        Meu Deus, Hammond! No acredito! Voc ficou louco?
        No.
        Uma mulher? Voc sacrificaria todas as suas ambies...
        Voc no quer dizer todas as suas ambies?
        ... por uma mulher? Depois de chegar to longe, como pode se comportar assim...
        Comportar? - Hammond rosnou uma risada de desprezo. Voc tem topete mesmo para me acusar de algum problema de comportamento. E o seu comportamento, pai? 
Que tipo de exemplo moral voc deu para mim? Talvez eu tenha adaptado os meus valores para ficarem iguais aos seus. S que eu definitivamente no chegaria a queimar 
cruzes.
O pai dele piscou bem rpido, e Hammond percebeu que o tinha atingido.
        Voc  da Klan?
        No! Claro que no!
        Mas voc sabia daquilo tudo, no sabia? Sabia muito bem o que estava acontecendo na ilha Speckle. Alm do mais, voc sancionou aquilo.
        Eu pulei fora.
        No inteiramente. Lute est fora. Ele foi assassinado, por isso escapou da rede. Mas voc ainda est vulnervel. Est se descuidando, pai. O seu nome est 
naqueles documentos.
        J compensei o que aconteceu na ilha Speckle.
Ah, os famosos jab e gancho super-rpidos de Preston! Como sempre, Hammond no foi capaz de prever.
        Estive na ilha Speckle ontem - disse Preston calmamente. Com as vtimas do apavorante terrorismo de Lute. Expliquei para elas que fiquei mortificado quando 
soube o que ele estava fazendo, e que tinha deixado imediatamente de fazer parte da sociedade. Dei mil dlares para cada famlia para cobrir qualquer prejuzo causado 
s suas propriedades, pedi desculpas sinceras e fiz uma contribuio substancial para a igreja da comunidade. Tambm criei um fundo de bolsas escolares - ele fez 
uma pausa e olhou para Hammond com simpatia. -Agora,  luz desse gesto filantrpico, voc realmente acha que algum pode me processar criminalmente? Pode tentar, 
filho, e ver o tamanho do seu fracasso!
Hammond ficou tonto e nauseado, e no graas ao calor ou aos seus ferimentos.
        Voc os comprou.
Mais uma vez aquele sorriso beatfico.
        com trocados.
Hammond no conseguia se lembrar de outro momento em sua vida que tivesse desejado tanto bater em algum. Queria amassar os lbios do pai com o punho at eles ficarem 
arrebentados e sangrando, at no poderem mais formar aquele sorriso condescendente. Controlando aquele impulso, ele baixou o tom de voz e aproximou o rosto do rosto 
do pai.
        No seja to convencido, pai. Vai custar bem mais que alguns trocados da caixa pequena para fazer isso ir embora. Voc ainda no se livrou. Voc  um filho-da-puta 
corrupto. Voc  a definio de corrupo. Por isso no me venha com sermes sobre comportamento. Nunca mais!
Tendo dito isto, Hammond deu meia-volta e foi caminhando para o estacionamento.
Preston agarrou seu brao esquerdo e puxou-o com fora.
        Quer saber de uma coisa? Eu espero mesmo que isso venha a pblico. Sobre voc e essa moa. Espero que algum tenha fotos de voc no meio das pernas dela. 
Espero que as publiquem no jornal e exibam na televiso. Estou feliz de voc estar nessa enrascada.  bem feito para voc, seu merdinha hipcrita! Voc e seu farisasmo 
de bommoo, suas atitudes de escoteiro, me do vontade de vomitar h anos
        disse ele num tom de deboche.
Ele cutucou com fora o peito de Hammond com o dedo indicador.
        Voc  to corruptvel quanto qualquer um. S que at agora ainda no tinha sido posto  prova. E foi ganncia que fez voc sair do caminho reto e estreito? 
No. Foi a promessa de poder? No.
Preston deu uma risadinha.
        Foi por um rabo. No que me diz respeito,  isso que di mais. Voc poderia ao menos se corromper com alguma coisa mais difcil de conseguir.
Os dois homens se encararam furiosos e a animosidade entre eles borbulhava na superfcie depois de cozinhar por tantos anos sob camadas espessas de ressentimentos. 
Hammond sabia que nada que dissesse abalaria a vontade de ferro do pai, e subitamente compreendeu que no se importava com isso. Para que se defender e a Alex de 
um homem que no respeitava? Ele reconheceu Preston como realmente era e no gostou. A opinio que o pai tinha dele, de qualquer coisa, no impOrtava mais, porque 
no havia integridade nem honra por trs. Hammond deu as costas para Preston e foi embora. Smilow teve de esperar meia hora no saguo do Charles Towne Plaza at 
uma das cadeiras de engraxate vagar.
        O brilho est se mantendo muito bem, sr. Smilow.
        Ento tire apenas a poeira, Smitty.
O velho engraxate iniciou uma conversa sobre o fracasso atual do Braves de Atlanta.
Smilow interrompeu.
        Smitty, voc viu esta mulher no hotel na tarde em que o sr. Pettijohn foi assassinado? Smilow mostrou para ele a fotografia de Alex Ladd que tinha sado 
na edio vespertina do jornal. Tinha feito uma ampliao para definir melhor suas feies.
        Sim, eu vi, sr. Smilow. Eu a vi na televiso esta tarde tambm.  ela que vocs todos acham que o matou.
        O indiciamento dela pelo grande jri na semana que vem vai depender da fora das nossas provas. Quando voc a viu ela estava com algum?
        No, senhor.
        Voc j viu este homem?
Smilow mostrou a foto de Bobby Trimble tirada na delegacia.
        S na televiso, a mesma histria, essa mesma foto.
        Nunca aqui no hotel?
        No, senhor.
        Tem certeza?
        O senhor me conhece e sabe como sou com fisionomias, sr. Smilow. Raramente esqueo uma.
O detetive balanou a cabea distrado enquanto guardava as fotos no bolso de cima do palet.
        A dra. Ladd parecia zangada ou aborrecida quando voc a viu?
        Aparentemente, no, mas no fiquei olhando para ela muito tempo. Eu a notei quando chegou porque tem um cabelo muito bonito, sabe? Apesar de velho, ainda 
gosto de admirar moas bonitas.
        Voc v muitas passando por aqui.
        Muitas feias tambm - disse ele, dando uma risada. - De qualquer forma, essa estava sozinha e muito na dela. Passou direto pelo saguo e foi para os elevadores. 
Depois de pouco tempo, ela desceu. Foi at o bar. Logo depois eu a vi voltando para os elevadores.
        Espere a - Smilow inclinou o corpo mais perto do homem que lustrava seus sapatos. - Voc est dizendo que ela subiu duas vezes?
        Foi o que eu disse.
        Quanto tempo ela ficou l em cima na primeira vez?
        Cinco minutos, talvez.
        E na segunda?
        No sei. No vi quando ela desceu de novo.
Ele deu uma ltima escovada nos sapatos de Smilow. O detetive desceu da cadeira e abriu os braos para Smitty passar uma escova no seu palet.
        Smitty, voc mencionou para qualquer pessoa que eu engraxei meus sapatos aquele dia?
        Ningum perguntou, sr. Smilow.
        Gostaria que no contasse para ningum, est bem? Smilow deu meia-volta e entregou uma boa gorjeta para Smitty.
        Claro, sr. Smilow. Claro. Sinto muito pela outra.
        Que outra?
        A senhora. Desculpe no t-la visto descer a segunda vez.
        Tenho certeza de que voc estava ocupado. O engraxate sorriu.
        Sim, senhor. Naquele sbado isso aqui estava como a Estao Central. Muita gente entrando e saindo o tempo todo - ele coou a cabea. -  engraado, no 
? Todos vocs aqui no mesmo dia.
        Todos ns?
        O senhor, aquela mdica, o advogado.
A mente de Smilow funcionou como uma armadilha de ao que acabava de ser destravada.
        Advogado?
        Do escritrio do promotor pblico. Aquele que apareceu na televiso.
Hammond ficou esperando no corredor at ver Harvey Knuckle sair da sala dele, s cinco horas em ponto. O gnio do computador trancou conscienciosamente a porta, 
e quando se virou Hammond j estava em cima dele.
        Oi, Harvey.
        Dr. Cross! - exclamou ele, e recuou at encostar na porta da sala dele. - O que est fazendo aqui?
        Acho que voc sabe.
O proeminente pomo-de-ado de Knuckle subiu e depois desceu pelo pescoo magro. Engoliu em seco ruidosamente.
        Sinto muito, mas no tenho a menor ideia.
        Voc mentiu para Loretta Boothe - disse Hammond, jogando verde. - No mentiu? Harvey tentou disfarar seu nervosismo culpado com petulncia.
        No sei do que voc est falando.
        Estou falando de cinco a dez anos por pirataria na informtica.
        Hein?
        Poderia conden-lo por diversos crimes sem esforo algum, Harvey. A menos que voc coopere comigo agora. Quem pediu para voc investigar a dra. Alex Ladd?
        O qu?
Os olhos de Hammond praticamente empalaram Harvey  porta do escritrio atrs dele.
        Est bem. timo. Trate de arrumar um bom advogado de defesa
        disse Hammond, e j ia embora.
        Foi a Loretta - gaguejou Harvey. Hammond voltou para perto dele.
        E quem mais?
        Ningum.
        Harveeey?
        Ningum!
        Tudo bem.
Harvey relaxou, molhou os lbios com a lngua grossa, mas o sorriso amarelo se desfez quando Hammond perguntou:
        E quanto a Pettijohn?
        Eu no sei...
        Conte o que quero saber, Harvey.
        Estou sempre disposto a ajud-lo, dr. Cross, sabe muito bem disso. No sei do que est falando.
        Registros, Harvey - disse ele, com a pacincia se esgotando. Quem pediu para voc investigar os registros de Pettijohn? Contratos. Terras. Documentos de 
sociedades, coisas assim.
        Foi o senhor - guinchou Harvey.
        Usei canais legais. Quero saber quem mais estava interessado nos negcios dele. Quem pediu para voc invadir os registros dele?
        O que o faz pensar que...
Hammond avanou mais um passo para cima dele e baixou o tom de voz.
        Quem quer que tenha sido, teve de pedir a informao para voc, por isso no seja evasivo e no tente me enrolar com essa expresso falsa de inocncia e 
confuso, seno vou acabar me zangando. A priso pode ser muito cruel para um cara como voc, voc sabe
        ele fez uma pausa para o outro entender bem o significado daquelas palavras. - Agora, quem foi?
        Duas pessoas. Mas em pocas diferentes.
        Recentemente? Harvey balanou a cabea concordando com tanta pressa que os dentes bateram uns nos outros.
        Nos ltimos dois meses, por a.
        Quem eram essas duas pessoas?
        O detetive Smilow.
Hammond continuou com ar imperturbvel:
        E quem mais?
        O senhor devia saber, dr. Cross. Ela disse que o senhor tinha pedido.
Viciada em notcias, Loretta Boothe assistia aos primeiros noticirios da noite, pulando de um canal para outro e comparando as coberturas da histria de Alex Ladd. 
Ficou consternada de ver Hammond encarando as cmeras de televiso todo estropiado, com o brao numa tipia. Quando  que ele tinha se machucado daquele jeito? E 
de que maneira? Tinham se visto na vspera. Quando terminaram os telejornais e comeou a Roda da Fortuna, a filha dela, Bev, passou pela sala com seu uniforme de 
trabalho.
        Fiz uma macarronada para o meu almoo, me. Sobrou bastante na geladeira para voc. E ingredientes de salada tambm.
        Obrigada, querida. No estou com fome agora, mas talvez mais tarde.
Bev hesitou quando chegou  porta.
        Voc est bem?
Loretta viu a preocupao nos olhos da filha, a desconfiana. A harmonia entre as duas ainda era experimental. Ambas queriam desesperadamente que as coisas dessem 
certo dessa vez. Ambas temiam que no desse. Loretta tinha prometido e quebrado promessas tantas vezes que nenhuma das duas confiava nos seus juramentos mais recentes. 
Tudo dependia de Loretta manter-se sbria. Ela s precisava fazer isso. Mas era muita coisa.
        Estou bem - ela deu um sorriso com a inteno de tranquilizar Bev. - Sabe aquele caso em que eu estava trabalhando? Vo lev-lo ao grande jri na quinta-feira.
        com base em informaes que voc deu?
        Em parte.
        Puxa! Isso  timo, me! Voc ainda leva jeito pra coisa. O cumprimento de Bev fez bem para Loretta.
        Obrigada. Mas acho que isso significa que estou sem trabalho de novo.
        Depois desse sucesso, tenho certeza de que vai arranjar outros.
        Bev abriu a porta. - Tenha uma boa-noite. Vejo voc de manh.
Depois que Bev foi embora, Loretta continuou assistindo ao Programa, mas s por falta de coisa melhor para fazer. O apartamento estava claustrofbico aquela noite, 
apesar dos cmodos no estarem menores do que eram ontem ou anteontem. A inquietude no era externa, ela partia de dentro. Loretta pensou em sair, mas seria arriscado. 
Seus amigos eram bbados tambm. Os lugares que ela conhecia eram tentadores demais para quem tentava tomar um drinque s. E mesmo um nico drinque significaria 
o fim da sua sobriedade, e ela voltaria exatamente para o ponto em que estava antes de Hammond contrat-la para trabalhar no caso Pettijohn. Ela queria que o trabalho 
no tivesse terminado. No s por causa do dinheiro. Apesar do salrio de Bev ser suficiente para sustentar as duas, Loretta tambm queria contribuir para pagar 
as contas da casa. Seria bom para sua auto-estima, e precisava da independncia que resultava do fato de ter renda prpria. Alm do mais, enquanto estava trabalhando 
no sentiria tanta sede. O cio era o perigo que precisava evitar. No ter nada de construtivo para fazer  que alimentava o desejo do que no podia ter. Com tempo 
sobrando, ela comeava a pensar que sua vida era muito trivial, que realmente no ia fazer muita diferena se bebesse at morrer, que podia facilitar as coisas para 
si mesma e para todas as pessoas ligadas a ela. Uma associao de ideias muito perigosa. Pensando bem, Hammond no tinha dito especificamente que no precisava mais 
dos servios dela. Depois que ela lhe deu o servio sobre a dra. Alex Ladd, ele sara daquele bar como se a cueca estivesse pegando fogo. Parecia um pouco abatido, 
mas mal podia esperar para usar a informao que ela havia conseguido, e o que ele fez deve ter dado certo, porque agora ele estava apresentando seu caso de assassinato 
para o grande jri. Contatar Harvey Knuckle hoje provavelmente tinha sido suprfluo. Hammond parecia afobado e nada interessado quando ela revelou seu palpite de 
que Harvey tinha mentido para ela aquela manh. Mas que diabos? No tinha custado nada fazer esse esforo adicional. Apesar dos ferimentos, qualquer que fosse a 
causa deles a voz de Hammond tinha soado bem forte e cheia de convico quando se dirigiu aos reprteres nos degraus da entrada da delegacia de polcia.
Ele explicou que a apario de Bobby Trimble tinha sido a reviravolta do caso.
        com base na fora do testemunho dele, tenho confiana de que a dra. Ladd ser indiciada.
Por outro lado, o advogado da dra. Ladd, que Loretta s conhecia pela reputao, tinha dito para a mdia que aquele era o erro mais gritante cometido pela polcia 
de Charleston e pelo assistente do promotor pblico, dr. Cross. Tinha certeza de que, quando todos os fatos fossem revelados, a dra. Ladd seria inocentada e as autoridades 
teriam de pedir perdo para ela em pblico. Ele j estava pensando em mover um processo de difamao. Loretta reconheceu aquele jargo tpico dos advogados, apesar 
das afirmaes de Frank Perkins terem sido particularmente veementes. Das duas, uma: ou ele era um excelente orador, ou ento estava sinceramente convencido de que 
a sua cliente era inocente. Talvez Hammond realmente estivesse com a suspeita errada. Se fosse esse o caso, ia fazer papel de idiota no caso mais importante da sua 
carreira at o momento. Ele havia aludido ao libi sem provas de Alex Ladd, mas no fora especfico. Tinha a ver com... o que era mesmo?
        Little Bo Peep Show - disse Loretta mecanicamente, resolvendo o problema Antes e Depois na Roda da Fortuna que ainda estava sem os t's, os p's e o w. 
Uma feira na periferia de Beaufort. Era isso. Ela se levantou subitamente e foi at a cozinha onde Bev empilhava os jornais antes de conscienciosamente embrulh-los 
para a reciclagem. Por sorte o dia da coleta era amanh, por isso todos os jornais da semana estavam l. Loretta folheou a pilha at encontrar o do ltimo sbado. 
Tirou o caderno de entretenimento e examinou-o rapidamente at encontrar o que estava procurando. O anncio de um quarto de pgina da feira dava a hora, o lugar, 
orientao de como chegar l, preo da entrada, atraes da feira e... espere a!
        Toda quinta, sexta e sbado  noite, durante todo o ms de agosto - leu ela em voz alta.
Em poucos minutos Loretta estava no seu carro, saindo da cidade, indo para Beaufort. No sabia o que ia fazer quando chegasse l. Seguir seu faro, pensou ela. Mas 
se pudesse - por um golpe de sorte ou algum milagre mesmo - descobrir um buraco no libi de Alex Ladd, Hammond seria seu eterno devedor. Ou ento, se confirmasse 
o libi da psicloga, pelo menos ele poderia ser avisado com antecedncia. No teria aquela surpresa desagradvel no tribunal. De qualquer maneira, Hammond ficaria 
devendo essa para ela. Um grande avano na sua vida. At ele dispens-la oficialmente, ela continuava tecnicamente contratada. Se pudesse ajud-lo nessa, ele ficaria 
eternamente grato e imaginaria como tinha sobrevivido sem ela. Podia at indic-la para um cargo permanente na procuradoria pblica. No mnimo ele teria de agradecer 
por Loretta ter tido a iniciativa de agir por conta prpria obedecendo aos seus instintos afiadssimos, que nem oceanos de bebida tinham anestesiado. Ele ficaria 
muito orgulhoso!
        Sargento Basset?
O policial uniformizado baixou o canto do jornal que estava lendo. Quando viu Hammond diante da sua mesa, ficou imediatamente em p.
        Ei, doutor. Estou com aqueles dados que o senhor pediu bem aqui.
O depsito de provas do Departamento de Polcia de Charleston era domnio do sargento Glenn Basset. Ele era baixo, gordo e insignificante. Um bigode farto compensava 
a careca. Sem um pingo de agressividade, tinha sido um mau patrulheiro, mas servia perfeitamente para a funo burocrtica que desempenhava. Era um cara simptico, 
que no reclamava de nada, satisfeito com a sua patente, um companheiro afvel, amigo de todos, sem inimigos. Hammond ligou antes para fazer seu pedido, que o sargento 
atenderia com muito prazer.
        O senhor no me deu muito tempo, mas foi s uma questo de pegar os registros do ms passado e imprimir. Eu poderia ir mais para trs...
        Ainda no - Hammond examinou a folha de papel, com a esperana de que um nome lhe saltasse aos olhos. No aconteceu. Dispe de um minuto, sargento?
Sentindo que Hammond queria conversar com ele em particular, o policial dirigiu-se a uma funcionria que trabalhava numa mesa ali perto.
        Diane, ser que voc pode cuidar das coisas para mim um minuto? Sem tirar os olhos do seu terminal de computador, ela disse:
        O tempo que quiser.
O policial corpulento apontou para uma pequena sala que era usada para descanso. Ofereceu para Hammond uma xcara do caf viscoso de um bule opaco na cafeteira.
Hammond recusou, e ento disse:
        Trata-se de um assunto muito delicado, sargento Basset. Lamento ter de pedir isso.
Ele olhou para Hammond sem entender.
        Pedir o qu?
        H alguma possibilidade... no digo probabilidade, mas possibilidade... de um policial pegar... emprestada... uma arma do depsito sem que voc saiba?
        No, senhor.
        No  possvel?
        Tomo nota de tudo, dr. Cross.
        Sim, entendo - disse ele, dando mais uma olhada rpida na folha impressa.
Basset comeou a ficar nervoso.
        Do que se trata?
        S uma ideia que eu tive - disse Hammond, desapontado. - No descobri nada sobre a arma que matou Lute Pettijohn.
        Duas balas de trinta e oito nas costas.
        Certo.
        Temos centenas de armas de munio calibre 38.
        Esse  o meu problema.
        Dr. Cross, eu me orgulho de manter tudo em ordem. Meu currculo na polcia...
         impecvel. Eu sei disso, sargento. No estou sugerindo nenhuma cumplicidade da sua parte. Conforme eu disse,  um assunto delicado e detesto ter de pedir. 
Eu simplesmente pensei que talvez um policial mais graduado pudesse inventar um motivo para tirar uma arma daqui.
Basset ficou mexendo na orelha, pensativo.
        Acho que poderia, mas mesmo assim ele teria de assinar um recibo.
Nada.
        Sinto t-lo incomodado. Obrigado.
Hammond levou os registros impressos, apesar de achar que no forneceriam a pista valiosa que esperava obter. Tinha deixado Harvey Knuckle muito animado, depois 
de fazer o gnio do computador admitir que Smilowe Steffi o foraram adar a informao sobre Pettijohn. Mas refletindo melhor, o que isso provava? Que os dois estavam 
to interessados quanto ele em saber que Lute tinha levado o castigo que merecia? Isso no era nenhuma descoberta. Nem mesmo uma surpresa. Ele queria to desesperadamente 
que Alex fosse inocente que se dispunha a desconfiar de qualquer um e de todos, at de colegas que, ultimamente, faziam mais para manter a lei do que ele. Desanimado, 
ele entrou no seu apartamento, foi direto para a sala de estar e ligou a televiso. A ncora com lentes de contato verde-esmeralda acabava de apresentar o resumo 
da histria. Satisfazendo uma tendncia masoquista, Hammtnd ficou assistindo. A no ser pela tipia no brao, os curativos estavam cobertos pela roupa, mas o rosto 
dele parecia de cera e muito abatido sob o brilho ferico das luzes sanguessugas da televiso, escurecendo ainda mais a barba por fazer. Quando perguntaram sobre 
seus ferimentos, ele fez pouco do ataque como se fosse algo inconsequente, e cortou o assunto. Sendo politicamente correto, ele cumprimentou a polcia de Charleston 
pelo excelente trabalho de investigao. Escapou de perguntas especficas sobre Alex Ladd e s disse que as declaraes de Trimble tinham sido um marco na investigao, 
que o caso deles era slido e que o indiciamento estava praticamente garantido. Em p, logo atrs do seu ombro esquerdo, dando apoio, Steffi concordava, balanando 
a cabea, e sorria. Era fotognica, ele observou. As luzes brilhavam nos seus olhos escuros. A cmera capturava a vivacidade dela. Smilow tambm tinha sido assediado 
pela mdia, e recebeu o mesmo tempo nos noticirios. Mas, diferentemente de Steffi, ele estava estranhamente contido. Suas observaes se diluam com diplomacia 
e mais ou menos ecoavam as de Hammond. Ele se referiu  ligao de Alex com Bobby Trimble apenas em termos bem gerais, dizendo que o homem na priso tinha sido vital 
para o caso contra ela. Negou-se a revelar a natureza do relacionamento dela com Lute Pettijohn. Jamais se referiu aos seus registros no juizado de menores, mas 
Hammond suspeitava de que essa omisso fosse calculada. Smilow no queria contaminar o grupo de jurados e dar a Frank Perkins uma base para troca de foro do julgamento 
ou para invalidar o julgamento, supondo que o caso chegasse a julgamento. Cmeras de vdeo capturaram um Frank Perkins com maxilar de granito saindo com Alex. Aquele 
foi o segmento mais difcil de assistir para Hammond, sabendo como devia ter sido humilhante para ela estar sob os holofotes como principal suspeita do caso de homicdio 
mais sensacionalista da histria recente de Charleston. Alex foi descrita como respeitada psicloga de trinta e cinco anos de idade, com credenciais de peso. Fora 
suas conquistas profissionais, ela foi elogiada por sua participao em eventos cvicos e por ser benfeitora generosa para vrias organizaes filantrpicas. Vizinhos 
e colegas procurados para comentar o caso expressaram choque, alguns pareceram escandalizados, chamaram de ridcula a ideia do envolvimento dela e de outros adjetivos 
sinnimos. Quando a ncora com olhos artificialmente verdes passou para outra histria, Hammond desligou o aparelho, subiu a escada e preparou um banho de imerso 
bem quente. Entrou e deixou o brao direito pendurado para fora da banheira. O banho aliviou um pouco suas dores, mas tambm o deixou meio zonzo e fraco. Precisava 
comer, por isso desceu at a cozinha e comeou a preparar uns ovos mexidos. Era muito desajeitado fazendo as coisas com a mo esquerda. E ficou ainda mais incapacitado 
com suas previses lgubres. No queria ser lembrado na posteridade como uma piada suja. No queria que dissessem: Ah, voc se lembra de Hammond Cross? Promotor 
jovem e promissor. Mas sentiu o cheiro de uma xoxota e foi tudo para o inferno. E era isso que iam dizer. Talvez usando outras palavras, mas com esse sentido. Sobre 
as toalhas molhadas e meias suadas nos armrios do vestirio, ou entre doses de usque em algum bar da moda, colegas e conhecidos balanariam as cabeas mal disfarando 
o riso, comentando a suscetibilidade de Hammond. Iam cham-lo de idiota e Alex seria apenas o rabo que lhe havia provocado a runa. Ele queria descontar sua raiva 
naquelas fofocas imaginrias por serem to injustas. Queria punir a todos por tecerem observaes maliciosas sobre ela e sobre o relacionamento dos dois. No era 
o que eles pensavam. Tinha se apaixonado de verdade.
No estava to dopado com Darvocet na vspera para no lembrar de ter dito a ela que para ele o amor era verdadeiro, e que tinha sido desde o incio. Tinha conhecido 
Alex havia menos de uma semana menos de uma semana -, mas nunca teve tanta certeza de alguma coisa assim na vida dele. Nunca sentiu atrao fsica to intensa por 
uma mulher. Nunca sentiu uma ligao cerebral, espiritual e emocional to forte com ningum. Os dois tinham conversado horas na feira, e mais tarde na cama dele, 
na cabana. Sobre msica. Comida. Livros. Viagens e os lugares que queriam conhecer quando tivessem tempo. Filmes. Exerccios e regimes para a boa forma fsica. O 
velho Sul. O novo Sul. Os Trs Patetas e por que os homens os adoravam e as mulheres detestavam. Coisas importantes. Coisas sem importncia. Conversas interminveis 
sobre tudo. Exceto sobre eles mesmos. Hammond no tinha dito nada de mais profundo sobre ele mesmo para Alex. E ela certamente no tinha divulgado nada sobre a vida 
dela, no presente ou no passado. Ser que tinha sido uma prostituta? Ser que ainda era? E se fosse, ser que ele conseguiria deixar de am-la com a mesma rapidez 
que aquele amor tinha comeado? Ele temia que no. Talvez ele fosse mesmo um idiota. Mas ser um idiota no era desculpa para ser desonesto. Ele e sua conscincia 
culpada estavam se tornando parceiros incompatveis. Estava achando cada vez mais difcil viver com ele mesmo. Apesar de odiar ter de dar razo ao pai por qualquer 
coisa, Preston tinha aberto os olhos dele mais cedo, forando-o a encarar o que ele sempre evitou reconhecer: que Hammond Cross era to corruptvel quanto qualquer 
um- No era mais honesto que seu pai. No conseguiu engolir aquela ideia, nem os ovos mexidos, por isso jogou-os na lata de lixo. Queria beber alguma coisa, mas 
o lcool s serviria para aumentar os resqucios do torpor na cabea dele, fazendo com que se sentisse ainda pior. Queria que a merda do brao parasse de latejar. 
Queria uma soluo para aquela porra de confuso que ameaava o futuro brilhante que tinha planejado para ele mesmo. Acima de tudo, queria que Alex estivesse a salvo. 
A salvo. Dinheiro a salvo num cofre na casa de Alex. Um cofre vazio na sute de Pettijohn no hotel.
Um cofre dentro do armrio. O armrio. O cofre. Cabides. Robe. Chinelos. Ainda embrulhados. Hammond deu um pulo como se tivesse recebido uma descarga eltrica, depois 
ficou completamente imvel, procurando se acalmar, pensar, raciocinar.
V devagar. No se apresse. Mas depois de alguns minutos examinando a ideia de todos os ngulos possveis, ele no encontrou nenhuma falha. Todos os elementos se 
encaixavam. A concluso no deixou Hammond feliz, mas no podia se dar ao luxo de pensar nisso agora. Precisava agir. Levantou tropeando da cadeira e pegou o telefone 
sem fio mais prximo. Depois de verificar o nmero no servio de auxlio  lista, ele digitou o nmero.
        Charles Towne Plaza. Com quem deseja falar?
        com o spa, por favor.
        Sinto muito, senhor, mas o spa fica fechado durante a noite. Se o senhor quiser marcar uma hora...
Ele interrompeu a telefonista, identificou-se e disse para ela com quem queria falar.
        E preciso falar com ele imediatamente. Enquanto procura, ponha-me em contato com o gerente do servio de camareiras.
Loretta no levou muito tempo para concluir que ir quela feira tinha sido uma m ideia. Quinze minutos depois de estacionar seu carro num pasto poeirento e de percorrer 
o resto do caminho a p, ela estava suando como uma porca. Havia crianas por toda a parte, crianas barulhentas, briguentas e grudentas que pareciam t-la escolhido 
para perturbar. Os responsveis pelas atraes da feira estavam mal-humorados. Mas no podia culp-los por suas atitudes rspidas. Quem conseguia trabalhar com aquele 
calor todo? Ela teria vendido sua alma para estar dentro de um bom bar, escuro e fresco. O fedor da fumaa de cigarro e de cerveja seria um alvio bem-vindo para 
aquela mistura de algodo-doce e bosta de vaca entranhados na feira toda. A nica coisa que a mantinha l era a lembrana constante de que podia estar fazendo um 
favor para Hammond. Devia-lhe isso. No s como recompensa pelo caso que ela estragou, mas por lhe dar mais uma chance quando ningum mais se dava ao trabalho de 
falar com ela. Aquela fase de sobriedade podia no durar. Mas naquele momento ela estava a seco, estava trabalhando, e sua filha olhava para ela sem aquela expresso 
de desprezo. E Loretta tinha de agradecer a Hammond Cross por essas bnos. Obstinadamente, ela parava em todas as atraes.
        Achei que o senhor podia lembrar...
        Ficou doida, madame? Milhares de pessoas passaram por aqui. Como  que vou lembrar de uma dona?
O homem cuspiu um punhado de sumo de tabaco que quase bateu no ombro dela.
        Obrigada pela sua ateno, e v se foder!
        , . Agora saia da. Est atrapalhando a fila.
Toda vez que ela mostrava a fotografia de Alex Ladd para os exibidores, operadores de brinquedos e vendedores de comida, a resposta era uma variao do mesmo tema. 
Ou eram descaradamente grosseiros como esse ltimo ou estavam cansados demais para prestar ateno. Balanar a cabea e dizer um lacnico "sinto muito" era a resposta 
habitual s perguntas de Loretta. Ela percorreu a feira toda at bem depois de o sol se pr e de os mosquitos atacarem com fora total. Depois de horas, o nico 
resultado de todo aquele esforo eram ps que a umidade tinha feito inchar at ficarem como duas almofadas. Analisando a pele esticada e inchada que escapava das 
tiras da sandlia, ela achou que era uma pena que aquela feira no tivesse um show de aberraes.
        Esses dois me dariam o direito de participar - resmungou ela.
Loretta finalmente reconheceu que aquela misso era perda de tempo, que, para comear, a dra. Ladd provavelmente tinha mentido sobre ter estado na feira, e a possibilidade 
de topar com algum que tivesse estado l naquele sbado e que tambm lembrasse de t-la visto era praticamente nula. Ela deu um tapa num mosquito no brao. Ele 
explodiu como um balo e deixou uma mancha de sangue.
        Devo estar, no mnimo, com meio litro de sangue a menos.
Foi ento que ela resolveu reduzir as perdas e voltar para Charleston. Loretta sonhava que enfiava os ps na banheira cheia de gua gelada quando passou pelo pavilho 
de dana com teto cnico cheio de lmpadas brancas de Natal. Uma banda piolhenta afinava os instrumentos. O violinista tinha uma barba toda enrolada, alis. Danarinos 
se abanavam com folhetos, rindo e conversando enquanto esperavam a banda recomear a tocar. Os solteiros se esgueiravam no permetro da pista de dana, analisando 
suas possibilidades, avaliando a competio, procurando no parecer bvios demais, nem desesperados demais para encontrar algum. Loretta notou que havia muitos 
militares no meio da multido. Jovens soldados, de barbas e cabelos recm-cortados, transpiravam suas guas-de-colnia, olhavam as mulheres e bebiam cerveja. Uma 
cerveja ia cair muito bem mesmo. Uma cerveja? Que mal poderia fazer? No era pelo lcool. Apenas para matar a sede horrorosa que um refrigerante aucarado no afetaria. 
E j que estava ali podia mostrar a foto da dra. Ladd tambm. Talvez algum naquele grupo lembrasse dela no fim de semana anterior. Os soldados estavam sempre  
procura de mulheres bonitas. Talvez um deles tivesse se interessado por Alex Ladd. Procurando se convencer de que no estava racionalizando s para se aproximar 
do pessoal que bebia cerveja, e fazendo uma careta com a dor provocada pelas tiras da sandlia nos ps inchados, Loretta subiu mancando os degraus do pavilho. 
Quando Frank Perkins abriu a porta da casa dele, o sorriso de boasvindas se desfez, como se o fim da piada no tivesse graa nenhuma.
        Hammond.
        Posso entrar?
Escolhendo as palavras com muito cuidado, Frank respondeu:
        Eu ficaria muito constrangido com isso.
        Precisamos conversar.
        Eu atendo no horrio normal do expediente.
        Isso no pode esperar, Frank. Nem at amanh. Voc tem de ver isso agora.
Hammond tirou um envelope do bolso da camisa e deu-o para o advogado. Frank pegou o envelope e espiou dentro dele. O envelope continha uma nota de um dlar.
        Ah, meu Deus...
        Eu o estou contratando como meu advogado, Frank. Isso  o adiantamento dos seus honorrios.
        Que diabos voc est tentando fazer?
        Eu estava com Alex na noite em que Lute Pettijohn foi morto. Passamos a noite juntos. Agora posso entrar?
Como Hammond esperava, aquela declarao deixou Frank Perkins sem fala. Hammond se aproveitou daquela catatonia momentnea para passar por ele.
Frank fechou a porta da sua confortvel casa de subrbio. Rapidamente se recomps e atacou Hammond  toda:
        Voc se d conta de quantas regras de tica acaba de violar? E de quantas me levou a violar tambm?
        Tem razo - Hammond pegou de volta a nota de um dlar. Voc no pode ser meu advogado. Conflito de interesses. Mas pelo breve tempo que esteve trabalhando 
para mim, confidenciei uma coisa para voc que deve manter em segredo por prerrogativa profissional.
        Seu filho-da-puta - disse Frank, furioso. - No sei o que voc est pretendendo. Nem quero saber, mas quero que saia da minha casa. Agora!
        Voc no ouviu o que eu disse? Eu disse que passei...
Ele parou de falar quando o arco aberto entre as salas atrs de Frank se encheu de gente, curiosa para ver o que era aquela comoo toda. O rosto de Alex foi o nico 
que Hammond registrou.
Frank, seguindo a direo do olhar espantado de Hammond, resmungou:
        Maggie, voc se lembra de Hammond Cross?
        Claro que sim - disse a mulher de Frank. - Como vai, Hammond?
        Maggie. Sinto muito invadir a casa de vocs desse jeito. Espero no ter interrompido nada.
        Na verdade, estvamos jantando - disse Frank.
Um dos filhos gmeos de nove anos de Frank tinha uma mancha do que parecia molho de espaguete num canto da boca. Maggie era uma mulher sulista muito fina, que descendia 
de valentes esposas e vivas confederadas. A situao constrangedora que se criara na entrada da casa no a perturbou:
        Acabamos de nos sentar, Hammond. Por favor, venha jantar conosco.
Ele primeiro olhou para Frank, depois para Alex.
        No, obrigado, mas agradeo o convite. S preciso de alguns minutos do tempo de Frank.
        Foi um prazer v-lo de novo. Meninos...
Maggie Perkins segurou os ombros dos dois meninos, deu meiavolta com eles e levou-os para o lugar de onde tinham vindo, supostamente a copa, ao lado da cozinha.
        Eu no sabia que voc estava aqui - disse Hammond para Alex.
        Frank fez a gentileza de me convidar para jantar com a sua famlia.
        Muita gentileza dele. Depois do que aconteceu hoje, voc no devia estar mesmo querendo ficar sozinha. ,
        , no queria.
-Alm do mais,  bom mesmo que esteja aqui. Voc tambm tem de ouvir isso.
Finalmente, Frank resolveu se intrometer:
        J que provavelmente serei expulso da Ordem por causa disso, de qualquer maneira acho que vou tomar aquele drinque de que preciso desesperadamente. Algum 
de vocs se candidata?
Ele fez um sinal para os dois o acompanharem at os fundos da casa, onde ficava seu escritrio domstico. As placas e citaes emolduradas, arrumadas em grupos estticos 
nas paredes com painis de madeira, atestavam o homem honrado que Frank Perkins era, pessoal e profissionalmente.
Hammond e Alex recusaram a oferta de um drinque, mas Frank serviu-se de uma dose de usque puro e sentou-se atrs de uma mesa pesada. Alex se sentou num sof de 
couro e Hammond numa poltrona. O advogado olhou para os dois e acabou fixando o olhar na sua cliente:
        Isso  verdade? Voc dormiu com o nosso estimado assistente da promotoria pblica?
        No h necessidade de...
        Hammond - interrompeu-o Frank bruscamente -, voc no tem o direito de me corrigir. Nem de me contradizer, por falar nisso. Eu devia te chutar para fora 
daqui e depois contar para Monroe Mason o que voc me contou. A no ser que ele j saiba.
        No, no sabe.
        Voc s continua aqui embaixo do meu teto porque respeito a privacidade da minha cliente. At conhecer todos os fatos, no quero fazer nada precipitado 
que possa embara-la ainda mais do que j foi por essa farsa.
        No se zangue com Hammond, Frank - disse Alex. Havia uma saturao sincera na voz dela que Hammond no tinha ouvido antes. Ou ento era resignao. Talvez 
at alvio pelo fato de o segredo deles finalmente ter sido revelado. - Isso  to culpa minha quanto dele. Eu devia ter contado para voc logo de cara que o conhecia.
        Intimamente? -.
-At onde voc ia deixar isso chegar? Ia deixar Hammond indicila, prend-la, sujeit-la a um julgamento, conden-la e p-la no corredor da morte?
        Eu no sei! - Alex levantou-se subitamente e ficou de costas para os dois, apertando os cotovelos colados ao corpo. Depois de um tempo para se recompor, 
ela encarou-os novamente. - Na verdade, a culpa no  nem minha nem dele. Ele no me conhecia, mas eu o conhecia, e o persegui. De propsito. Fiz o nosso encontro 
parecer acidental, s que no foi. Nada que aconteceu conosco foi por acaso.
        Quando foi que esse encontro premeditado aconteceu?
        Nesse ltimo sbado,  noite. Mais ou menos ao entardecer. Depois do contato inicial, usei todos os artifcios femininos que conhecia para fazer Hammond 
passar a noite comigo. E o que fiz disse ela, com a voz meio rouca - funcionou. - Ela olhou para ele. Porque ele realmente passou a noite comigo.
Frank terminou seu drinque de um gole s. O lcool provocou lgrimas em seus olhos e o fez tossir com o punho fechado diante da boca. Depois de pigarrear, ele perguntou 
onde tudo aquilo tinha acontecido. Alex contou a sequncia de eventos, comeando com o encontro dos dois no pavilho de dana e terminando na cabana dele.
        Sa de mansinho na manh seguinte, antes do sol nascer, preparada para nunca mais v-lo.
Frank balanou a cabea, que parecia ter ficado meio atordoada pela infuso de lcool ou pelos fatos conflitantes que achava difcil compreender.
        No estou entendendo. Voc dormiu com ele, mas no era... voc no...
        Era o seguro dela - disse Hammond.
Ele ainda achava difcil ouvir Alex admitir que foi tudo planejado, que o encontro dos dois no tinha sido obra do destino ou do acaso romntico que ele queria que 
fosse. Mas tinha de superar isso. As circunstncias exigiam que ele se concentrasse em questes muito mais importantes:
        Se Alex achava que precisava de um libi, eu seria esse libi. Na verdade era o libi perfeito. Porque eu no podia exp-la sem me envolver tambm.
Frank olhou para ele ainda completamente confuso.
        D para explicar?
        Alex me seguiu at a feira, quando sa do Charles Towne Plaza, onde tinha me encontrado com Lute Pettijohn.
Frank ficou olhando para Hammond alguns segundos antes de virar para Alex pedindo confirmao. Ela concordou balanando um pouco a cabea. Frank levantou-se e foi 
pegar mais usque. Enquanto ele se servia, Hammond aproveitou a oportunidade para olhar para Alex. Os olhos dela estavam molhados, mas ela no estava chorando. Ele 
queria abra-la. Tambm queria sacudi-la at toda a verdade escapar. Talvez no. Talvez no quisesse saber que tinha sido ingnuo como os meninos excitados e os 
velhos tarados que pagaram ao meio-irmo Bobby pelos favores dela. Se ele a amava, como dizia, teria de superar isso tambm. Frank voltou para a sua cadeira. Ficou 
girando seu copo no tampo de couro da mesa.
        Quem vai falar primeiro?
-Eu tinha uma hora marcada com Pettij ohn sbado  tarde - disse Hammond. - A convite dele. Eu no queria ir, mas ele insistiu nesse nosso encontro, e garantiu que 
seria do meu interesse.
        Em que sentido?
-A procuradoria-geral tinha me indicado para investigar Pettijohn e ele ficou sabendo.
        Como?
        Mais tarde eu explico. Por enquanto basta dizer que eu estava quase revelando as minhas descobertas ao grande jri.
        Suponho que Pettijohn quisesse fazer um acordo.
        Certo.
        O que ele ofereceu em troca?
        Se eu relatasse para o procurador-geral que no havia um caso, e deixasse Lute seguir com seus negcios como sempre, ele prometia me apoiar como sucessor 
de Monroe Mason, incluindo contribuies vultosas para a minha campanha. Ele tambm sugeriu que, quando eu conquistasse o cargo, continuaramos a ter uma relao 
mutuamente benfica. Uma aliana muito confortvel por intermdio da qual ele poderia continuar infringindo as leis e eu fingiria que no via nada.
        Imagino que voc tenha recusado.
        Sem mais nem menos. Foi ento que ele exibiu sua artilharia pesada. Meu prprio pai era um dos scios dele no projeto da ilha Speckle. Lute me mostrou documentos 
que provavam isso.
        Onde esto esses documentos agora?
        Levei-os comigo quando sa de l.
        Eles so vlidos?
        Temo que sim.
Frank no era nenhum idiota. Ele entendeu tudo.
        Se voc continuasse com a sua investigao sobre o Lute, seria forado a processar criminalmente seu pai tambm.
        , essa foi a essncia do aviso de Lute.
O rosto de Alex denotava compaixo. Frank disse calmamente:
        Sinto muito, Hammond.
Ele sabia que a comiserao era sincera, mas fez um gesto com a mo como se aquilo no tivesse importncia.
        Eu disse para o Lute ir  merda, que eu pretendia cumprir o meu dever. Quando virei as costas para ele, ele comeou a berrar e a fazer ameaas. Aquela crise 
de agressividade pode ter provocado o derrame. Eu no sei. No me virei mais. No fiquei l mais de cinco minutos. No mximo.
        A que horas foi isso?
        Nosso encontro estava marcado para as cinco.
        Voc viu a Alex?
Os dois balanaram a cabea ao mesmo tempo.
        S quando cheguei  feira. Estava furioso com Pettijohn, estava uma fera quando sa do hotel. No notei nada.
Ele parou e respirou bem fundo.
        Tinha planejado passar a noite na minha casa de campo. Sem mais nem menos resolvi parar naquela feira. Vi Alex no pavilho de dana e... - ele olhou para 
Frank e para Alex, sentada no sof de dois lugares, ouvindo atentamente - E... e a tudo comeou.
O escritrio ficou to quieto que o tique-taque do relgio na mesa de Frank parecia uma trovoada. Depois de um tempo, o advogado falou:
O que voc esperava conseguir vindo at aqui e me contando isso?
Estava pesando demais na minha conscincia.
Bem, eu no sou um padre - disse Frank, aborrecido.
No, no .
E estamos de lados opostos num julgamento de assassinato.
Sei disso tambm.
        Ento volto  minha pergunta inicial. Por que veio at aqui?
        Porque sei quem matou Lute - disse Hammond.
Davee atendeu o telefone languidamente.
        Davee, voc sabe quem eu sou - no era uma pergunta.
Por falta de coisa melhor para fazer, ela estava deitada na espreguiadeira no seu quarto de dormir, bebendo vodca com gelo e assistindo a um clssico em preto e 
branco com Joan Crawford, num canal de filmes clssicos. A urgncia na voz da pessoa ao telefone fez Davee se sentar, o que provocou uma onda de tontura. Ela apertou 
o boto para emudecer a televiso.
        O qu...
        No diga nada. Pode vir me encontrar?
Ela verificou o relgio sobre a antiga mesa de ch ao lado da espreguiadeira.
        Agora?
Nos anos loucos da adolescncia, uma ligao tarde da noite teria representado aventura. Ela sairia de casa escondida para encontrar um namorado ou um grupo de amigas 
para algum programa proibido at o amanhecer, tomar banho de mar sem roupa, beber cerveja ou fumar maconha. Essas escapadas sempre deixavam seus pais revoltados. 
Ser pega e desafiar o castigo faziam parte da diverso. Mesmo depois do seu casamento com Lute, no era to incomum Davee ter uma conversa unilateral ao telefone 
que redundava em excurses tarde da noite. S que essas sadas jamais perturbavam a tranquilidade domstica. Lute reagia com indiferena s suas idas e vindas, ou 
ento estava fora em alguma farra prpria. No eram mais to divertidas. Aquela no prometia diverso nenhuma, mas ela estava curiosa: - O que est havendo? 
        No posso falar sobre isso ao telefone, mas  importante. Sabe onde fica o McDonalcds da avenida Rivers?
        Eu acho.
        Perto da esquina com a Dorchester. Logo que voc puder chegar l.
        Mas...
Davee ficou algum tempo olhando para o telefone sem fio mudo na sua mo, ento largou-o na espreguiadeira e se levantou. Balanou-se um pouco e apoiou a mo na 
mesa para recuperar o equilbrio. Foi se firmando aos poucos e seu raciocnio tambm despertou. Aquilo era loucura. Tinha bebido demais. No devia dirigir. E de 
qualquer maneira, quem ele pensava que era para cham-la para um McDonald's no meio da noite? Nenhuma explicao. Nenhum por favor, nada de obrigado. Nem se preocupou 
se ela concordaria ou no. Por que ele no podia ir  casa dela contar o que achava to importante? O que quer que fosse, devia ter relao com a investigao do 
assassinato de Lute. J no havia deixado bem claro que no queria se envolver naquilo mais que o absolutamente necessrio? Mesmo assim ela foi at o banheiro, jogou 
gua fria no rosto e gargarejou com um anti-sptico bucal. Despiu a camisola e, sem se importar de vestir qualquer roupa de baixo, vestiu uma cala branca e uma 
camiseta tambm branca, feita de alguma microfibra sinttica colante que no deixava muita coisa para a imaginao, que era bemfeito para ele. No calou sapato 
nenhum. Seu cabelo estava todo despenteado. Se algum os visse juntos, o simples desalinho dela faria as sobrancelhas subirem.  claro que ela no dava a mnima, 
mas esse descuido no era caracterstico dele. Sarah Birch assistia  televiso na sua sute ao lado da cozinha.
        Eu vou sair - informou Davee.
        A essa hora da noite?
        Quero sorvete.
        O freezer est cheio de sorvete.
        Mas no tem o sabor que eu quero.
A fiel governanta sempre sabia quando Davee estava mentindo, mas nunca abria o jogo. Era um dos motivos pelos quais Davee a adorava.
        Eu terei cuidado. E volto logo.
        E se algum me perguntar depois...?
        Eu estava na cama dormindo profundamente por volta das nove.
Sabendo que todos os seus segredos estavam seguros com Sarah, Davee foi para a garagem e entrou no seu BMW. As ruas residenciais estavam escuras e sonolentas. Havia 
pouco trnsito na auto-estrada e tambm nas avenidas comerciais. Apesar de ir contra sua inclinao natural e do carro tambm, ela manteve o BMW no limite de velocidade 
permitido. Dois processos por dirigir intoxicada tinham sido anulados por um juiz que devia um favor a Lute. Um terceiro seria forar a sorte. O McDonald's estava 
iluminado como um cassino de Las Vegas. Mesmo sendo to tarde, havia uma dzia de carros no estacionamento, de adolescentes amontoados nas mesas dentro do salo. 
Davee estacionou numa vaga pouco iluminada do outro lado do estacionamento, abaixou a janela do lado do motorista e depois desligou o motor. Na frente dela havia 
uma fileira de arbustos desiguais que serviam de cerca viva entre o estacionamento do McDonald's e o de outra lanchonete que tinha falido. O prdio estava coberto 
com tapumes de madeira. Atrs dela havia a pista vazia do drive-through. De um lado e do outro, nada alm da escurido. Ele ainda no tinha chegado, e ela ficou 
irritada com isso. Reagindo  urgncia dele, tinha largado tudo, inclusive um drinque novinho, e corrido para l. Abaixou o pra-sol, puxou a tampa do espelho iluminado 
e espiou seu reflexo. Ele abriu a porta do lado do passageiro e entrou no carro.
        Voc est tima, Davee. Como sempre.
Rory Smilow fechou rapidamente a porta do carro para apagar a luz interna. Estendeu o brao por cima da direo, empurrou a tampa do espelhinho e eliminou aquela 
luz tambm.
O cumprimento dele se espalhou por Davee como um gole de uma bebida quente e muito cara, s que ela procurou no demonstrar o efeito embriagante que provocava nela. 
Em vez disso, disse zangada:
        Que negcio de capa e espada  esse, Rory? Anda sem pistas ultimamente?
        Exatamente o contrrio. Tenho pistas demais. E nenhuma esclarece nada.
O comentrio dela era para ser uma piada, mas  claro que ele tinha levado a srio. Era decepcionante, mas ele ia direto ao assunto, assim como tinha feito na noite 
em que foi informar que o marido dela estava morto. Tinha se comportado exatamente como mandava o protocolo. Profissionalmente. Educadamente. Distante.
Nunca, nem em um milho de anos, Steffi Mundell ia adivinhar que eles tinham sido amantes que um dia quebraram a porta de vidro do box da casa dele enquanto faziam 
amor. Que um piquenique num parque pblico tinha terminado com ele sentado num tronco de rvore e ela montada nele. Naquele fim de semana eles se alimentaram de 
manteiga de amendoim e sexo desde o fim das aulas na sexta-feira  tarde at o incio das aulas na segunda-feira de manh. O comportamento dele no dia em que Lute 
morreu no tinha trado nada da loucura romntica que tinham vivido. O fato de Rory conseguir manter um distanciamento to grande enquanto ela queria engoli-lo com 
cada olhar partia seu corao. O controle dele era admirvel. Ou digno de pena. To pouca paixo devia significar uma vida estril e muito solitria. Davee procurou 
endurecer seu corao para ele.
        Pode considerar um lapso da minha sensatez, mas aqui estou. E agora, o que voc quer?
        Fazer algumas perguntas sobre o assassinato de Lute.
        Pensei que voc j tinha arrematado o caso. Eu vi no noticirio...
        Certo, certo. Hammond vai apresent-lo ao grande jri na semana que vem.
        Ento, qual  o problema?
        Antes de hoje, quando voc viu a notcia na televiso, voc j tinha ouvido falar da dra. Alex Ladd?
        No, mas Lute tinha muitas amigas. Muitas eu conhecia, mas no todas, tenho certeza disso.
        No acho que ela era amiga dele.
         mesmo?
Davee virou-se de frente para Smilow, ps o p no banco do carro, encostou o calcanhar na ndega e apoiou o queixo no joelho. Era uma pose provocante e vulgar que 
fez o detetive olhar para baixo e. Ficar assim alguns segundos antes de olhar de novo para o rosto dela.
        Se voc me procurou para obter respostas, Rory, deve estar mesmo desesperado.
        Voc  a minha ltima esperana.
        Ento  uma pena, porque eu j disse tudo que sabia.
        Duvido muito disso, Davee.
        No estou mentindo para voc sobre essa dona Ladd. Eu nunca...
        No  isso - disse ele, balanando a cabea com impacincia.  uma... uma outra coisa.
        Voc acha que est atrs da pessoa errada?
Ele no respondeu, mas suas feies ficaram tensas.
        Ah, ento  isso, no ? E para voc essa incerteza  um destino pior que a morte, no ? Logo voc, que tem o corao gelado e a determinao frrea - 
sorriu ela. - Bem, tenho de desapont-lo, querido, mas esse pequeno tte--tte foi uma perda de tempo para ns dois. Eu no sei quem matou Lute. Juro.
        Voc falou com ele aquele dia?
        Quando ele saiu de casa aquela manh, ele me disse que ia jogar golfe. S pensei nele de novo quando voc e aquela vaca da Mundell apareceram para informar 
que ele estava morto. As ltimas palavras que ele disse para mim devem ter sido uma mentira, o que mais ou menos resume o nosso casamento. Ele era um pssimo marido, 
um amante apenas razovel e um ser humano desprezvel. Francamente, eu no estou nem a para quem cometeu o crime.
        Ns pegamos sua governanta numa mentira.
        Para me proteger.
        Se voc  inocente, por que precisava de proteo?
        Bem pensado. Mas se eu tivesse dito que passei aquele sbado  tarde passeando nua a cavalo pela rua Broad, Sarah teria concordado. Voc sabe disso.
        Voc no ficou no seu quarto o dia todo com dor de cabea? Ela deu uma risada e passou os dedos no cabelo, penteando alguns
cachos embaraados.
        De certa forma, sim. Fiquei na cama o dia todo com o meu massagista, que acabou se revelando uma dor de cabea e, mais que isso, um p no saco. Sarah no 
queria sujar a minha reputao contando a verdade para voc.
Smilow no deixou de notar o sarcasmo de Davee. Ele virou para frente e ficou olhando pelo pra-brisa, vendo a fileira de arbustos desalinhados. Seu maxilar estava 
rgido de tenso. Davee no sabia se aquilo era um bom ou um mau sinal.
        Sou suspeita de novo, Rory?
        No. Voc no ia matar o Lute.
        Por que voc acha isso?
Ele olhou novamente para ela.
        Porque voc gostava de me atormentar ficando casada com ele. Ento ele sabia por que ela se casara com Lute. Tinha notado e, o que era melhor, se importava. 
Apesar de toda aquela aparente indiferena, havia sangue nas veias dele, afinal, e pelo menos um pouquinho dele ficava quente de cime.
O corao dela adejou animado, mas no deixou a excitao transparecer nas feies, nem na voz.
        E alm disso...?
        E alm disso voc no teria esse trabalho todo. Sabendo que poderia sair impune, para que se preocupar?
        Ou seja - disse ela -, sou rica demais para ser condenada.
        Exatamente.
        E um divrcio  s um pouquinho menos problemtico do que um julgamento por homicdio.
        No seu caso, um divrcio seria provavelmente bem mais problemtico.
Davee estava se divertindo.
        Alm do mais, como j disse para o Hammond, o uniforme da priso...
        Quando foi que esteve com Hammond? - perguntou ele, interrompendo Davee.
        Falo sempre com ele. Somos velhos amigos.
        Sei muito bem disso. Voc sabia que ele esteve com Lute no dia em que o mataram? Mais ou menos na mesma hora do crime?
Davee no estava mais relaxada, levantou imediatamente a guarda e ficou imaginando at onde Rory iria para vingar o tormento que ela criara para ele. Ser que ia 
acus-la de obstruir a justia por omitir provas? Havia deixado a anotao escrita  mo de Lute com Hammond, com seus compromissos de sbado. A informao podia 
ser totalmente insignificante. Ou a chave para a soluo do misterioso assassinato de Rory. Mas, de qualquer forma, aquela era a funo do investigador, no da viva, 
determinar que relao tinha com o caso. E mesmo que o encontro de Hammond com Lute no representasse um fator a mais para o assassinato, podia compromet-lo como 
promotor do caso. O segundo compromisso nunca aconteceu, se  que aquela segunda anotao realmente indicava um encontro mais tarde. No tinha nome e, pela hora 
especificada, Lute j estaria morto. Davee estava encurralada entre um ato desonesto e uma lealdade profunda a um velho amigo.
        Hammond disse isso para voc?
        Ele foi visto no hotel.
Ela deu uma risada, mas no uma risada muito convincente.
        Isso  tudo?  essa a base para a sua hiptese de que ele esteve com Lute, que foi visto no mesmo prdio? Talvez voc esteja precisando de umas frias, 
Rory. Voc est perdendo sua agudeza.
        Insultos, Davee?
        A concluso  qual voc chegou  um insulto  minha inteligncia e  sua tambm. Dois homens estiveram no mesmo lugar pblico aproximadamente  mesma hora. 
O que o faz pensar que houve alguma conexo?
        Todas as vezes que falamos sobre o hotel naquela tarde, no ltimo sbado, Hammond no mencionou nem uma vez que esteve l.
        E por que deveria? Por que fazer uma tempestade em copo d'gua por uma coincidncia?
        Se foi uma coincidncia, no haveria motivo para ele no mencionar o fato.
        Talvez ele tivesse um encontro secreto com alguma mulher. Quem sabe ele gosta das tortas de caranguejo do restaurante. Ele pode ter cortado caminho passando 
pelo saguo do hotel s para escapar do calor. Poderia haver milhes de motivos para ele estar l.
Smilow inclinou o corpo por cima do console e chegou mais perto dela do que fazia h anos.
        Se Hammond teve um encontro com Lute, eu preciso saber. - No sei se eles se encontraram ou no - retrucou ela, irritada.
At a isso era verdade. Tudo que ela fez foi dar para Hammond a anotao de Lute. No tinha perguntado nada e ele no tinha dito se comparecera ao encontro marcado.
        Qual seria a natureza de tal encontro? - Como  que vou saber?
        Lute tinha pego voc e Hammond juntos?
O qu? - exclamou ela e deu uma breve risada. - Minha nossa, Rory, a sua imaginao est realmente desgarrada esta noite. De onde tirou essa ideia?
Ele olhou muito srio para ela, e no havia como interpretar errado aquele olhar. Ele furou a minscula e frgil bolha de felicidade gerada por v-lo de novo.
-Ah - disse ela, e seu sorriso ficou triste. - Bem, voc tem razo,  claro. Certamente no estou isenta de cometer adultrio. Mas voc sinceramente pensa que Hammond 
Cross iria para a cama com a mulher de outro homem?
Depois de um breve e tenso silncio, ele perguntou:
        Que outro motivo eles teriam para se encontrar?
        Ns nem sabemos se eles se encontraram.
        Hammond mencionou ter visto mais algum no hotel?
        Se ele esteve l, tenho certeza de que viu as hordas de pessoas suadas que entram e saem de l todos os dias.
        Algum em particular?
        No, Rory! - disse ela, exasperada. - Eu j disse, ele no falou nada.
        H alguma coisa errada com ele.
        com o Hammond? O qu?
        Eu no sei, mas est me preocupando. Ele no tem sido ele mesmo ultimamente.
        Ele est apaixonado.
O queixo dele foi para trs como se tivesse levado um soco rpido e inesperado.
        Apaixonado? Pela Steffi?
        Deus me livre! - respondeu ela, estremecendo um pouco. - Quase tive medo de perguntar sobre a profundidade daquele relacionamento, mas quando perguntei 
ele disse que tinha terminado, e eu acreditei. A mulher que ele ama no  a insossa srta. Mundell.
        Ento quem ?
        Ele no disse. E tambm no parecia nada feliz com isso. Disse que no era apenas complicado, mas impossvel. E no, a mulher no  casada. Eu tambm perguntei 
isso.
Rory abaixou um pouco a cabea. Parecia que olhava fixo para os dedos dos ps de Davee enquanto ruminava o que ela havia dito. Davee teve alguns minutos para olhar 
para ele disfaradamente. A testa lisa, o cenho austero, o maxilar rgido, a boca intransigente que ela sabia que era capaz de transigir. J sentira nos seus lbios, 
no seu corpo, faminta e suave.
         uma motivao poderosa - disse ela baixinho. Ele levantou a cabea.
        O qu?
        O amor - por alguns segundos significativos e interminveis, eles olharam profundamente nos olhos um do outro. - Nos faz fazer coisas que nem pensaramos 
em fazer em qualquer outra circunstncia. Como casar com um homem que odiamos.
        Ou mat-lo.
A respirao entrecortada fez os seios de Davee tremerem sob o tecido fino que os cobria.
        Queria que voc me amasse o suficiente para mat-lo - ela ps as mos no rosto de Smilow e passou os polegares nos lbios dele. Voc me ama, Rory? - sussurrou 
ela, aflita. -Voc me ama tanto assim? Por favor, diga que sim!
Como se saltasse sobre todos os anos de corao partido e desejo, ela se inclinou sobre o console do carro e o beijou. O primeiro toque dos lbios dela foi to cataclsmico 
quanto um fsforo raspando uma lixa. A reao dele foi explosiva. A boca de Smilow devorou a dela num beijo duro e faminto que era quase selvagem de to intenso. 
Mas terminou com a mesma rapidez. Ele ergueu os braos e arrancou as mos dela do seu rosto, empurrando-a para longe.
        Rory? - gritou ela, e estendeu a mo para ele enquanto ele abria a porta do carro.
        Adeus, Davee. -Rory?
Mas ele passou pelo meio da sebe de arbustos e desapareceu na escurido. O McDonald's tinha fechado. Todos tinham ido embora. As luzes estavam apagadas. Estava escuro, 
e Davee estava sozinha. Ningum ouviu seus soluos amargos.
        Eu sei quem matou Lute.
A declarao de Hammond deixou Alex e Frank Perkins mudos de espanto, mas essa mudez s durou alguns segundos, pois logo eles comearam a disparar mais perguntas 
para ele. Primeiro Frank queria saber por que Hammond estava l no seu escritrio, na casa dele, em vez de ir para a delegacia de polcia.
        Mais tarde - disse Hammond. - Antes de continuar, preciso ouvir de Alex o que aconteceu - ele virou para ela e chegou um pouco para a frente. -A verdade, 
Alex. Toda. Tudo. Esta noite. Agora.
-Eu...
Antes de Alex dizer qualquer coisa, Frank levantou a mo.
        Hammond, voc deve achar que eu sou um idiota. No vou deixar a minha cliente dizer nada para voc. No quero tomar parte desse encontro clandestino que 
voc me imps. Voc se comportou da forma mais repreensvel, irresponsvel, antiprofissional...
        Tudo bem, Frank, voc no  um padre, lembra? - disse Hammond. - Voc no  meu professor de catecismo, nem o meu pai. Alex e eu sabemos muito bem que agimos 
muito mal nisso tudo.
        Uma prola de eufemismo-observou Frank em tom de galhofa.
        As consequncias da intimidade de vocs dois so potencialmente desastrosas. Para todos ns.
        Como podem ser desastrosas para voc? - perguntou Alex. -Alex, h menos de cinco minutos voc admitiu ter feito tudo que
podia para levar Hammond para a cama com voc. Se voc tem alguma defesa,  ter estado com Hammond aquela noite. Mas que eficinciater esse testemunho  luz da 
sua histria, de acordo com Bobby Trimble?
        Como isso pode ser usado contra mim? Isso  passado. No sou mais aquela menina. Eu sou eu - ela olhou para Hammond. - , cada detalhe horrvel da declarao 
de Bobby  verdade. Com uma exceo. Nunca deixei que fizessem nada alm de me espiar.
Ela balanou a cabea enfaticamente.
        Nunca. Protegi uma parte pequena e privada de mim, caso a minha esperana de ter uma vida melhor se realizasse. Havia uma linha que eu nunca cruzava. Graas 
a Deus tive esse instinto de autopreservao.
"Bobby me explorou da forma mais abjeta. Mas levei anos at parar de me culpar pela minha participao. Eu acreditava que era intrinsecamente m. Por meio de terapia 
e dos meus prprios estudos, descobri que eu era um caso clssico, uma criana que sofria abusos e que achava que era responsvel por esses maus-tratos." Ela sorriu 
com a ironia da coisa.
        Fui um dos meus primeiros casos. Tinha de me curar. Tive de aprender a amar a mim mesma e a me considerar merecedora do amor dos outros. Os Ladd foram essenciais. 
Eles me deixaram um legado de amor incondicional. Compreendi que, se eles podiam me amar, sendo basicamente bons e decentes como eram, eu podia enterrar o passado 
e pelo menos me aceitar.
"Mas a terapia no terminou. s vezes tenho lapsos. At hoje ainda me pergunto se no havia alguma coisa que eu poderia ter feito. Ser que houve algum momento em 
que eu poderia ter enfrentado Bobby e resistido? Tinha muito medo de que ele me abandonasse como minha me tinha feito, e de ficar completamente sozinha. Ele era 
meu provedor. Dependia dele para tudo."
        Voc era uma criana - lembrou Frank com gentileza. Ela concordou balanando a cabea.
        Naquela poca, sim, Frank. Mas no na noite em que me meti no caminho de Hammond com a esperana de que ele gostasse de mim... - ela virou para ele e suplicou: 
- Por favor, me perdoe pelos danos que causei! Tinha medo exatamente disso, do que aconteceu. Eu no matei Lute Pettijohn, mas tive medo de ser acusada disso. Medo 
de ser considerada culpada por causa dos meus antecedentes no juizado de menores. Fui  sute do hotel de Pettijohn...
        Alex, devo avisar mais uma vez para voc no dizer mais nada.
        No, Frank. Hammond tem razo. Voc tem de ouvir a minha histria. E ele precisa ouvir tambm.
O advogado continuava com a testa franzida de preocupao, mas ela no obedeceu ao aviso silencioso.
        vou voltar algumas semanas - Ela contou sobre o reaparecimento sbito e indesejado de Bobby na sua vida, como revelara para ela seus planos de chantagear 
Lute Pettijohn. - Avisei ao Bobby que isso era muita areia para o caminho dele, que seria melhor se ele sasse de Charleston e esquecesse esse plano ridculo.
"Mas ele estava determinado a ir at o fim e tambm a obrigar-me a ajud-lo. Ameaou expor o meu passado se eu recusasse. Tenho vergonha de admitir, mas fiquei com 
medo dele. Se ele fosse o mesmo falastro arrogante e grosso que tinha sido vinte e cinco anos atrs, eu teria rido das suas ameaas e chamado a polcia imediatamente. 
"Mas ele tinha adquirido alguma educao, ou pelo menos fingia ter bons modos e decoro social. Esse novo Bobby poderia se insinuar com mais facilidade na minha vida 
e arruin-la por dentro. Ele de fato compareceu a uma palestra, se fazendo passar como um psiclogo de outro estado, e meu colega nunca questionou a autenticidade 
dele. "Mesmo assim, eu disse que ia pagar para ver, que era para ele me deixar em paz. Imagino que ele tenha ficado desesperado. De qualquer forma, ele entrou em 
contato com Pettijohn. O que quer que Bobby tenha dito para ele, deve ter causado alguma impresso, porque ele concordou em pagar cem mil dlares em troca do silncio 
de Bobby."
        Ningum que conhecia Lute Pettijohn vai acreditar nisso, Alex - disse Hammond calmamente.
        Concordo com isso - acrescentou Frank.
        Nem eu acreditei - disse Alex. - E aparentemente Bobby tambm no estava inteiramente convencido, porque ele me procurou de novo, e dessa vez insistiu para 
eu ir me encontrar com Pettijohn para pegar o dinheiro. Eu concordei.
        Em nome de Deus, por qu? - perguntou Frank.
        Porque vi que era uma oportunidade para me livrar de Bobby. A minha ideia era encontrar Pettijohn, mas em vez de pegar o dinheiro eu ia explicar a situao 
e pedir para ele dar queixa da extorso de Bobby para a polcia.
        Por que no foi voc mesma  polcia?
        Agora entendo que essa teria sido a melhor opo - suspirou ela.
        Mas eu temia a associao com Bobby. Ele tinha se vangloriado de como escapara de um agiota poderoso na Flrida. Eu tinha muitos motivos para querer ficar 
longe dele.
        Por isso voc foi ao Charles Towne Plaza na hora marcada. -.
        Voc no podia telefonar para o Pettijohn?
        Queria ter feito isso, Frank. Mas achei que encontr-lo pessoalmente ia causar uma impresso mais forte.
        O que aconteceu quando voc chegou l?
        Ele foi corts. Ouviu educadamente enquanto eu expliquei a situao.
Alex se sentou na beirada do sof e coou a testa.
        E da?
        E da ele riu de mim - disse ela, trmula. - Eu devia saber, no minuto em que ele abriu a porta, que alguma coisa estava errada. Ele no se surpreendeu 
de me ver, quando devia estar esperando o Bobby. Mas s me dei conta disso mais tarde.
        Ele sabia que era voc que ia, no o Bobby, e ele riu da sua histria.
        -disse ela, desconsolada - Bobby tinha ligado antes e dito para Pettijohn que eu ia para l, que eu era sua cmplice traidora, avisou que eu provavelmente 
ia inventar uma histria dramtica para ele sentir pena de mim, antes de lev-lo para a cama e criar a minha prpria chance de chantage-lo, pedindo um resgate ainda 
maior que o de Bobby.
        Eu no dei crdito suficiente para aquele filho-da-me resmungou Hammond, furioso. - Trimble no parece to inteligente assim.
        Ele no  inteligente - disse Alex. - S tem astcia. Bobby tem mais cara de pau que bom senso, e isso o torna perigoso. Quando ele v uma oportunidade, 
corre riscos que nenhuma pessoa inteligente imaginaria correr. Ele tambm sabe que  vantagem atacar primeiro.
"Nada que eu disse convenceu Pettijohn de que eu no fazia parte de algum plano desonesto maior que envolvia sexo e chantagem. Ele sugeriu que eu no desperdiasse 
a oportunidade. E que j que estvamos l, e como eu tinha resolvido lev-lo para a cama... Vocs entendem onde ele queria chegar."
        Ele tentou agarrar voc? - adivinhou Frank.
        Eu resisti,  claro. Afastei o brao dele. Tenho certeza de que foi a que o cravo-da-ndia ficou agarrado na manga da camisa dele. Eu tinha jogado os cravos 
nas laranjas aquela manh. Devia haver algum ainda grudado na minha mo. De qualquer forma, eu o rejeitei, ele ficou furioso e comeou a esbravejar ameaas, especificamente 
que ia se encontrar com um promotor da procuradoria municipal. Hammond Cross - ela olhou para ele. - Ele disse que sem dvida voc ia se interessar por aquela minha 
trapaa com o Bobby.
Depois de um tempo, Alex continuou seu relato.
        Entrei em pnico. Vi a minha vida cuidadosamente reconstruda desmoronando. Os Ladd, que tinham confiado tanto em mim, cairiam em desgraa. Duvidariam da 
minha credibilidade e meus estudos no valeriam mais nada. Pacientes cuja confiana eu tinha conquistado se sentiriam trados.
"Por isso eu fugi. No elevador comecei a tremer descontroladamente. Quando cheguei no andar trreo fui at o bar  procura de um lugar para sentar, porque meus joelhos 
iam ceder a qualquer momento. "Mas quando o pnico diminuiu, compreendi que a minha reao tinha sido completamente irracional. Em segundos eu havia regressado para 
onde eu estava quando Bobby controlava a minha vida. L no bar eu recuperei a sensatez. Meus delitos juvenis estavam dcadas no passado. Sou um membro respeitado 
da minha comunidade. Sou aclamada na minha profisso. Do que  que eu tinha medo? No tinha feito nada errado. Se pudesse convencer a pessoa certa de que mais uma 
vez meu meio-irmo estava tentando me explorar, possivelmente poderia livrar-me dele para sempre. E quem seria melhor para convencer a acreditar em mim do que..."
        Hammond Cross, promotor assistente da procuradoria municipal.
        Correto - Ela olhou para Frank assentindo com a cabea. - Por isso voltei ao quarto no quinto andar. Quando cheguei l a porta da sute estava meio aberta. 
Encostei a orelha nela, mas no ouvi nenhuma conversa. Empurrei a porta e espiei l dentro. Pettijohn estava deitado de barriga para baixo perto da mesa de centro.
        Voc percebeu que ele estava morto?
        No estava - disse ela, provocando uma reao de choque nos dois. - Eu no queria encostar nele, mas encostei. Senti o pulso, mas ele estava inconsciente. 
No queria ser pega com ele naquela situao, ainda mais que meu antigo parceiro de crime o estava chantageando. Por isso mais uma vez praticamente sa correndo 
da sute. Dessa vez desci pela escada. Devemos ter nos desencontrado por pouco - disse ela para Hammond. - Quando cheguei ao saguo, eu o vi saindo do hotel pela 
porta principal.
        E como foi que me reconheceu?
        Eu o reconheci pela sua exposio na mdia. Voc parecia muito aborrecido. Eu pensei...
        Que eu tinha atacado Pettijohn.
-Atacado, no. Pensei que voc tinha dado um soco nele e deixado o homem inconsciente e que, se a sua reunio com ele tivesse sido um pouco parecida com a minha, 
ele bem que merecia. Foi por isso que segui voc. Mais tarde, se Pettijohn desse queixa de Bobby e de mim, se eu ficasse implicada em algum crime, quem seria libi 
melhor que o promotor pblico, que tambm tinha se desentendido com Pettijohn?
        ela olhou para as mos. - Diversas vezes naquela noite de sbado eu me senti culpada com o que estava fazendo e tentei ir embora.
Ela olhou para Hammond, que olhou com ar de culpa para Frank, que por sua vez fazia uma careta para ele que mais parecia o porteiro do inferno.
        Na manh de domingo eu estava muito envergonhada e sa antes de Hammond acordar - contou para o advogado. - Naquela noite Bobby veio procurar seu dinheiro, 
que no existia,  claro. Mas para surpresa minha, ele me deu os parabns por ter matado nossa nica "testemunha".
        At ento voc no sabia que Pettijohn estava morto?
        No. Tinha ouvido alguns Cds a caminho de casa e no liguei o rdio do carro. Tambm no liguei a televiso. Eu estava... preocupada - depois de um breve 
e tenso silncio, ela disse: - De qualquer maneira, quando soube que Pettijohn tinha sido assassinado, acreditei no pior.
        Voc pensou que eu tinha matado Lute - disse Hammond. Que ele acabou morrendo por causa do meu ataque.
        Certo. E continuei a acreditar nisso at...
        At ficar sabendo que ele tinha sido morto com um tiro - disse ele, Por isso voc ficou to chocada quando soube da causa da morte.
Ela fez que sim com a cabea.
        Vocs dois no brigaram?
        No, eu s sa ventando de l.
        Ento o ataque dele deve ter provocado a queda.
        Foi o que pensei - disse Hammond. - A trombose cerebral fez Lute desmaiar. Ele caiu e bateu na mesa, o que provocou o ferimento na testa.
        Que no deu para eu ver. Eu no tinha ideia de que o estado dele fosse to ruim. Pelo resto da minha vida vou me arrepender de no ter feito alguma coisa 
- disse ela com remorso sincero. - Se eu tivesse pedido ajuda, provavelmente teria salvado a vida dele.
        Mas em vez disso algum entrou l depois de voc, viu o homem cado e atirou nele.
        Infelizmente, Frank, foi isso mesmo - disse ela. - E em parte foi por isso que no usei o meu libi.
        E foi por isso que vim para c esta noite - disse Hammond. O advogado olhou para os dois sem entender.
        O que foi que perdi? Foi Alex que explicou:
        Graas ao empenho de Smilow, e agora da mdia, todo mundo sabe que estive na sute de Pettijohn naquele sbado  tarde. Mas a nica pessoa que sabe com 
certeza absoluta que no atirei nele  a pessoa que fez isso.
        E essa pessoa atentou contra a vida de Alex na noite passada. Frank ficou de queixo cado, sem acreditar no que estava ouvindo,
quando Hammond contou o encontro dos dois no beco.
        Alex era o alvo dele. Ele no era nenhum assaltante comum.
        Mas como vocs sabem que era o assassino de Pettijohn? Hammond balanou a cabea.
        Ele era apenas um contratado para fazer o servio, que nem era bom para o servio. Mas o assassino de Lute  muito competente.
        Voc acha mesmo que resolveu o mistrio? - perguntou Frank.
        Preparem-se - disse Hammond.
Ele falou sem parar mais quinze minutos. Frank demonstrou estar chocado, mas Alex no pareceu nada surpresa.
Quando ele terminou, Frank soltou o ar longamente dos pulmes.
        Voc j falou com os empregados do hotel?
        Antes de vir para c. As declaraes deles corroboram a minha hiptese.
        Parece plausvel, Hammond. Mas, meu Deus! No podia ser mais difcil, podia?
        No, no podia - admitiu Hammond.
        Voc vai se arriscar demais sozinho por a, com uma lima nas mos.
        Eu sei.
        O que vai fazer quando sair daqui?
        bom, antes de mais nada, quero ter certeza absoluta de que estou certo - Hammond virou para Alex. - Fora eu, Pettijohn mencionou algum outro compromisso? 
Sei que ele tinha outro marcado para as seis horas. S no sei com quem.
        No. Ele s falou da reunio com voc.
        A caminho da sute, voc viu algum no elevador ou no corredor?
        Ningum, a no ser o homem de Macon, que mais tarde me identificou.
        E quando desceu a escada, no viu ningum tambm?
        No - ele olhou bem srio para ela, e Alex acrescentou: Hammond, voc est pondo a sua carreira em jogo por mim. Eu no mentiria para voc agora.
        Acredito em voc, mas o nosso culpado pode no acreditar. Se vierem a pensar que voc viu alguma coisa, realmente no vai importar se voc viu ou no.
        Para o assassino, ela continua sendo uma ameaa.
        O que seria inaceitvel. Lembrem que a cena do crime estava praticamente imaculada. Essa pessoa no  de pregar prego sem estopa.
        Ento, o que voc sugere? - perguntou Frank. - Segurana vinte e quatro horas para Alex? 
No - disse ela com toda a convico.
Eu ia preferir isso sim - disse Hammond. - Mas tenho de concordar, embora com certa relutncia, com a Alex. Antes de mais nada, eu a conheo suficientemente bem 
para saber que ela no ia querer isso e que qualquer discusso seria intil. Em segundo lugar, guardas ou qualquer coisa fora do comum, seria como uma bandeira vermelha.
        Quanto tempo voc precisa, Hammond?
        Quem dera eu soubesse.
        Bem, essa indefinio de tempo me deixa muito nervoso - disse Frank. - Enquanto voc est colhendo provas, Alex est correndo risco de vida. Voc devia 
contar isso para...
         - disse Hammond, adivinhando o pensamento de Frank. Contar isso para quem? A essa altura, em que posso confiar? E quem acreditaria em mim? Essas alegaes 
iam soar como uvas verdes, especialmente se algum ficasse sabendo que Alex e eu somos amantes.
        So? Quer dizer que vocs esto juntos desde sbado  noite? A expresso dos dois devia estar muito reveladora. - Deixem pra l gemeu Frank. - Eu no quero 
saber.
        Como eu estava dizendo - continuou Hammond -, preciso fazer isso pessoalmente, e tenho de trabalhar depressa-ele explicou seu plano para os dois.
Quando terminou, dirigiu-se primeiro a Frank:
        Posso contar com a sua aprovao?
O advogado ponderou algum tempo a sua resposta.
        Eu gostaria de acreditar que as pessoas associam o meu nome com integridade. De qualquer forma, foi para isso que trabalhei a vida toda. Essa  a primeira 
vez que me desvio da tica. Se isso terminar em desastre, se voc estiver errado, provavelmente sairei dessa com nada alm de uma reprimenda e uma mancha num currculo 
at ento impecvel. Mas Hammond, o que est em jogo  o seu pescoo. Tenho certeza que voc sabe disso.
        Eu sei.
-Alm do mais, acho que no tem a mnima chance de funcionar.
        Por que no?
        Porque, para funcionar, voc precisa confiar na Steffi Mundell.
        Creio que esse  um mal necessrio.
        Exatamente a palavra que eu usaria. Ento o bip de Hamonnd tocou. Ele verificou o nmero.
        No reconheo.
Hammond ignorou o bip e perguntou se Frank queria saber mais alguma coisa.
        Est falando srio? - perguntou o advogado, brincando. Hammond deu um sorriso largo.
        Anime-se. Voc tambm no prefere ser enforcado como pecador do que como santo?
        Prefiro no ser enforcado, ponto. Hammond sorriu, mas virou para Alex:
        No que voc est pensando?
        O que posso fazer?
        Fazer?
        Eu quero ajudar.
        De jeito nenhum - disse ele terminantemente.
        Eu provoquei essa confuso toda.
        Pettijohn teria sido assassinado naquele sbado de qualquer jeito, conhecendo voc ou no. Conforme eu j expliquei, no teve nada a ver com voc.
        Mesmo assim, no posso simplesmente ficar de fora, sem fazer nada.
         exatamente isso que voc vai fazer. No podem perceber que estamos juntos nisso.
        Ele tem razo, Alex - disse Frank. - Ele precisa trabalhar nisso por dentro.
        Hammond - disse Alex com os olhos cheios de ansiedade -, no existe algum outro jeito? Voc pode acabar com a sua carreira.
        E voc pode perder a sua vida. Que  mais importante para mim do que a minha carreira.
Ele estendeu a mo para ela. Ela segurou e apertou a mo dele. Ficaram se olhando nos olhos algum tempo, at o silncio ficar pesado e desconfortvel.
Frank teve a delicadeza de pigarrear. - Alex, voc fica aqui esta noite. Sem discusso.
        Concordo - disse Hammond.
        E voc vai para casa - a ordem rgida foi dirigida a Hammond.
Concordo com isso tambm, apesar de relutar um pouco.
        O quarto de hspedes est arrumado, Alex.  o segundo quarto  esquerda da escada.
        Obrigada, Frank.
        J  tarde e tenho muito em que pensar - Frank foi at a porta do escritrio, parou e olhou para os dois. Ia dizer alguma coisa, parou e, finalmente, disse: 
- Eu j ia perguntar para vocs dois se sbado  noite tinha valido a pena. Mas a resposta de vocs  evidente. Boanoite.
Depois que ficaram sozinhos, o silncio tornou-se mais constrangedor ainda, o tique-taque do relgio na mesa de Frank mais barulhento ainda. Havia uma tenso entre 
os dois, e no se devia unicamente ao que poderia acontecer no dia seguinte.
Hammond foi o primeiro a falar:
        No tem importncia, Alex.
Ela nem teve de perguntar a que ele estava se referindo.
         claro que tem importncia, Hammond.
Ele estendeu-lhe os braos mas ela se esquivou, levantou-se e foi para o outro lado do escritrio e parou diante de uma estante cheia de livros de direito.
        Estamos nos iludindo.
        Como assim?
        Isso no ter um final feliz. No pode ter.
        Por que no?
        No seja ingnuo.
        Trimble  lixo.  passado. Sabia disso tudo a noite passada quando disse que amava voc - ele sorriu. - E no mudei de ideia.
        O nosso romance teve incio quando preguei um truque sujo em voc.
        Truque sujo? No  assim que eu lembro da noite desse ltimo sbado.
        Menti para voc desde o incio. Isso ficar para sempre num cantinho da sua cabea, Hammond. Nunca confiar completamente em mim. No quero ficar com algum 
que est sempre com um p atrs para tudo que fao, avaliando a veracidade de tudo que digo.
        Eu no faria isso.
Ela sorriu, mas foi uma expresso de tristeza. 
        Ento no seria humano. Sou especialista em emoes e comportamento humano. Conheo o impacto duradouro que os acontecimentos nas nossas vidas provocam 
em ns, o modo que as outras pessoas nos ferem, s vezes de propsito, s vezes sem querer. Vejo o resultado desses ferimentos e mgoas todos os dias nas sesses 
com os meus pacientes. Tambm sofri a mesma coisa. Levei anos para recuperar minha sade emocional, Hammond. Trabalhei duro para me livrar da influncia de Bobby. 
E consegui. Com a ajuda de Deus eu consegui.  por isso que sou capaz de am-lo desse jeito...
        Ento  verdade? Voc me ama?
Com um gesto inconsciente, ela ergueu a mo e a ps sobre o corao.
        Tanto que chega a doer.
O bip dele tocou novamente. Xingando baixinho, Hammond desligou o aparelho. A distncia entre eles parecia enorme e ele sabia que no seria apropriado atravess-la 
aquela noite. - Quero beijar voc.
Ela fez que sim com a cabea.
        E se beijar voc, vou querer fazer amor com voc.
Ela fez que sim com a cabea de novo e eles trocaram olhares longos e cheios de significados.
        Amo fazer amor com voc - disse ele. O peito dela subiu e desceu suavemente.
        Voc tem de ir.
         - disse ele com a voz rouca de desejo. - Voc sabe que tenho de levantar muito cedo amanh - ele franziu as sobrancelhas e a testa.
        No sei o que isso vai dar, Alex. Estarei sempre me comunicando com voc. Voc vai ficar bem? -vou.
Ela deu um sorriso para tranquiliz-lo. Ele foi saindo do escritrio de costas.
        Durma bem.
        Boa-noite, Hammond.
        Droga!
Loretta Boothe olhava furiosa para o telefone de moedas como se pudesse faz-lo tocar. Tinha mandado duas mensagens para o bip de Hammond depois de tentar em vo 
ligar para seu nmero de casa e para o celular. O telefone continuou obstinadamente mudo. Ela verificou seu relgio. Quase duas. Onde ser que ele tinha se metido? 
Ela esperou mais sessenta segundos, depois enfiou mais uma moeda no aparelho e discou o nmero da casa dele de novo.
        Olha aqui, seu cretino, no sei por que estou caando voc no meio da noite para te dar cobertura, mas pela ensima vez eu sa daquela merda de feira com 
uma testemunha. Por favor, entre em contato comigo o mais depressa possvel. Ele  meio arisco e estou ficando sem charme.
        Sra. Boothe?
        Estou indo! - ela desligou o telefone e gritou para o homem que tinha forado a ficar sentado no carro dela.
No incio ele estava animado para falar sobre o caso e sobre a notcia da priso de Alex Ladd. Depois, quando Loretta contou que ele podia ser chamado para testemunhar, 
ele comeou a recuar bem depressa. Disse que no queria se envolver. Queria ser um bom cidado, mas...Loretta tinha usado horas de argumentos e todos os seus poderes 
de persuaso para ele se comprometer a cooperar. Mas ela no confiava no compromisso dele. A qualquer momento ele poderia mudar de ideia e fugir, ou ento sofrer 
de um conveniente bloqueio mental e esquecer tudo que lembrava do ltimo sbado.
        Sra. Boothe?
Apontando o dedo mdio para o telefone pblico, ela voltou para o carro.
        No disse para voc me chamar de Loretta? Quer mais uma cerveja?
        Agora que tive tempo para pensar sobre isso... - as feies dele mudaram com a indeciso. - No sei se quero me envolver. Posso estar enganado, sabe? No 
dei uma boa olhada nela.
Loretta procurou tranquiliz-lo de novo, sem parar de pensar Onde  que Hammond se meteu? 
Steffi parou assustada quando abriu a porta da sua sala e viu Hammond com o punho levantado, pronto para bater.
        Tem um minutinho? ?
        Na verdade, no tenho. Eu j ia...
        Seja o que for, pode esperar. Isso  importante - ele a fez recuar para dentro da sala e fechou a porta.
        O que houve?
        Sente-se.
Mesmo confusa, ela fez o que ele pediu. Enquanto ela se sentava, Hammond comeou a andar de um lado para outro. A aparncia dele no estava muito melhor que na vspera. 
Continuava com o brao na tipia. Parecia que tinha secado o cabelo com um ventilador. Cortara o queixo fazendo a barba e a marca de sangue a fez lembrar do relatrio 
do laboratrio que tinha recebido poucos minutos antes.
        Voc parece podre. Quanto caf tomou esta manh? - perguntou ela.
        Nenhum.
        E mesmo? Parece que andou tomando cafena na veia.
De repente ele parou de andar de um lado para outro e encarou Stefi com a mesa dela entre os dois.
        Steffi, ns temos um relacionamento especial, no temos?
        O qu?
-Transcende o fato de sermos colegas. Quando estvamos juntos, confiei segredos meus para voc. Essa intimidade do passado eleva o nosso relacionamento para um outro 
nvel, no  - ele olhou bem para ela um tempo, depois xingou e tentou em vo amansar o cabelo. - Meu Deus, isso  complicado!
        Hammond, o que est havendo?
        Antes preciso acertar umas coisas.
        Eu cansei, Hammond. Est bem? No quero um homem que...
        No  isso. No se trata de ns dois.  o Harvey Knuckle.
O nome caiu como uma pedra no peito dela. Steffi tentou disfarar a surpresa, mas sabia que a expresso atnita devia ser um sinal bem claro. Sob o olhar penetrante 
de Hammond, negar seria intil.
        Tudo bem, ento voc sabe. Pedi para ele desencavar alguma informao sobre Pettijohn.
        Por qu?
Ela brincou um pouco com um clipe de papel, avaliando a sensatez de revelar isso para Hammond. Finalmente, ela disse:
        Pettijohn me procurou alguns meses atrs. No incio parecia bem inocente. Ento ele fez sua jogada. Disse que tinha pensado que seria muito confortvel 
para ns dois se eu ficasse com o cargo de procurador pblico. Ele prometeu que ia providenciar isso.
-Se?
        Se eu mantivesse olhos e ouvidos atentos e contasse para ele tudo que pudesse ser interessante. Como alguma investigao sigilosa nos negcios dele.
        E voc disse o que para ele?
-Alguma coisa no muito educada ou feminina. Recusei a oferta, mas fiquei curiosa de saber o que ele podia estar escondendo, o que ele estava tramando. No seria 
uma honra para Steffi Mundell se orgulhar se ela pegasse o maior bandido do municpio de Charleston? Por isso fui procurar o Harvey - ela deu uma forma de S ao clipe 
de papel. Consegui a informao que queria e...
        Viu o nome do meu pai nos contratos da sociedade.
        , Hammond - respondeu ela muito sria.
        E no disse nada.
        O crime era dele, no seu. Preston no podia ser punido sem que voc se machucasse tambm. Eu no queria que isso acontecesse. Voc sabe que eu adoraria 
ter o cargo mximo. Nunca escondi isso de ningum.
        Mas no se isso significasse ir para a cama com Pettijohn. Ela estremeceu.
        Espero que tenha querido dizer isso no sentido figurado.
        Eu quis. Obrigado por me contar a verdade.
        Para dizer a verdade, estou feliz dessa histria no ser mais segredo. Era como uma infeco - ela largou o clipe de papel. - E agora, o que est havendo?
Ele se sentou diante dela, equilibrado na beira de uma cadeira e inclinado para a frente.
        O que vou contar para voc deve ficar s entre ns - disse ele, nervoso, em voz baixa. - Posso confiar em voc?
        Est implcito.
        timo - ele respirou bem fundo. - Alex Ladd no matou Lute Pettijohn.
Era essa a grande declarao? Depois de toda aquela introduo grandiosa, ela estava esperando uma confisso de corao aberto sobre o caso deles, talvez implorando 
perdo. Em vez disso, toda aquela baboseira tinha servido para anunciar apenas mais um pedido pattico pela inocncia da amante secreta dele. A agressividade dela 
cresceu, mas Steffi se esforou para recostarse na cadeira, fingindo uma posio relaxada.
        Ontem voc estava todo animado para levar o caso ao grande jri. Por que essa sbita mudana de opinio?
        No  sbita, e eu nunca estive animado. O tempo todo achei que era a pessoa errada. H fatores demais que no se encaixam.
        Trimble...
        Trimble  um cafeto.
        E ela era prostituta dele - disparou ela. - E parece que ainda .
        No vamos comear isso de novo, est bem?
        Est bem.  um argumento esgotado. Espero que tenha outro melhor.
        Foi Smilow que o matou.
O queixo de Steffi caiu. Dessa vez ela no acreditava mesmo que tivesse ouvido direito.
        Isso  uma brincadeira?
        No.
        Hammond, pelo amor de Deus...
        Preste ateno, s um minuto - disse ele, gesticulando com a mo para ela esperar. - Apenas oua e depois, se no concordar, agradecerei o seu ponto de 
vista.
        Pode poupar seu flego. Garanto que meu ponto de vista ser diferente.
        Por favor.
No sbado  noite, quando ela quis provoc-lo e perguntou para Smilow se ele tinha assassinado seu ex-cunhado, ela pretendia que fosse uma piada, apesar do mau gosto. 
Fez a pergunta s de maldade mesmo, para provoc-lo. Mas Hammond estava falando srio. Obviamente considerava Smilow um suspeito vivel.
-Tudo bem - disse ela com um movimento exagerado de ombros, indicando rendio. - Pode mandar.
        Pense s. A cena do crime estava praticamente estril. O prprio Smilow fez diversas referncias  limpeza do lugar. Quem saberia melhor evitar deixar pistas 
do que um detetive de homicdios que ganha a vida catando os indcios atrs dos assassinos?
         um bom argumento, Hammond, mas voc est forando a barra.
Ele forava a barra para proteger sua nova amante. Era uma ofensa muito grande ele chegar a esse ponto pelo bem de Alex Ladd. Toda aquela bobagem de adolescente 
sobre intimidade e sobre confiar seus segredos, e de querer acertar umas coisas, e do relacionamento especial e elevado deles, tinha sido idiotice demais. Ele estava 
tentando us-la para livrar a cara da namorada. Steffi queria dizer para Hammond que sabia do caso dos dois, mas essa seria uma atitude impetuosa e tola. Seria gratificante 
v-lo humilhado, mas ela ia sacrificar, assim, uma vantagem a mais longo prazo. O conhecimento que tinha do caso secreto deles era um trunfo. Jogar esse trunfo cedo 
demais reduziria sua eficcia.
E enquanto isso, quanto mais ele falava mais munio dava para ela usar contra ele. Sem saber, ele estava dando para ela seu cargo de procuradora embrulhado para 
presente. Ela precisava ter muito controle para manter aquela expresso neutra.
        Espero que voc esteja baseando suas suspeitas em algo alm da falta de provas - disse ela.
        Smilow odiava Pettijohn.
        J ficou determinado que muita gente odiava Pettijohn.
        Mas no como Smilow. Em diversas ocasies ele praticamente jurou matar Lute pela infelicidade que ele causou em Margaret. Sei de fonte segura que uma vez 
ele atacou Lute, e teria matado o homem ali mesmo se no o segurassem.
        Quem contou isso para voc, o Garganta Profunda? Ele no gostou da brincadeira, e respondeu de mau humor:
        De uma certa forma, sim, foi ele. Por enquanto, isso ser o mais confidencial possvel.
        Hammond, voc tem certeza de que no est deixando o seu conflito de personalidade com Smilow afetar seu discernimento?
         verdade. No gosto dele. Mas nunca ameacei mat-lo. No como ele ameaou matar Lute Pettijohn.
        No calor do momento? Num acesso de raiva? Ora, Hammond! Ningum leva esse tipo de ameaa de morte a srio.
        Smilow costuma tomar seus drinques no bar do saguo do Charles Towne Plaza.
        E centenas de pessoas tambm fazem isso. Por falar nisso, ns tambm fazemos.
        Ele engraxa os sapatos l.
-Ah, ele engraxa os sapatos l! - exclamou ela, dando um tapa na beirada da mesa. - Nossa, isso  praticamente um revlver fumegante!
        Eu me recuso a reagir  ofensa, Steffi. Porque a arma era o prximo ponto.
        A arma do crime?
        Smilow tem acesso a armas. Provavelmente a metade delas sem registro e no identificveis.
Aquele foi o primeiro argumento sobre o qual Steffi pensou seriamente. O sorriso provocante desapareceu lentamente. Ela se endireitou na cadeira.
        Voc est falando das armas...
        Do depsito de provas. So confiscados em incurses contra as drogas. Tomadas quando prendem algum. E ficam l at a data do julgamento, ou  disposio 
para serem vendidas ou jogadas fora.
        Eles mantm registro de troca de custdia l.
        Smilow saberia como contornar isso. Poderia ter usado uma e depois substitudo. Talvez tenha jogado fora depois de usar. Ningum sentiria falta. Ele podia 
usar uma que ainda no tivesse sido registrada no depsito. H dezenas de maneiras de fazer isso.
        Estou entendendo o que voc quer dizer - disse ela, pensativa, e depois balanou a cabea. - Mas ainda  forar a barra, Hammond. Assim como no temos a 
arma para provar que Alex Ladd atirou em Pettijohn, no temos a arma para provar que foi Smilow.
Ele deu um suspiro, olhou para o cho e olhou para ela de novo.
        H mais uma coisa. Um outro motivo, talvez ainda mais forte do que a vingana pelo suicdio da irm dele.
        E qual ?
        No posso falar.
        O qu? Por que no?
        Porque a privacidade de outra pessoa seria violada.
        No foi voc mesmo, h menos de cinco minutos, que fez aquele discurso empolado sobre o nosso relacionamento transcendente e confiana mtua?
        No  que eu no confie em voc, Steffi. E que outra pessoa confia em mim. No posso trair a confiana desse indivduo. E no vou trair, a menos que essa 
informao venha a ser um elemento vital no caso.
        No caso? - repetiu ela em tom de deboche. - No existe caso.
        Acho que existe.
        Voc realmente pretende ir adiante com isso?
        Sei que no vai ser fcil. Smilow no  o queridinho do pessoal da polcia de Charleston, mas  temido e respeitado. Sem dvida vou enfrentar alguma resistncia.
        Resistncia  pouco, Hammond. Se voc investiga um deles, jamais ter a cooperao de outro policial do municpio.
        Conheo os obstculos. Sei o quanto isso vai me custar. Mas estou determinado a ir at o fim. E isso devia servir para voc entender at que ponto acredito 
que estou certo.
Ou at que ponto est idiotizado com sua nova amante, pensou ela.
        E o que vai acontecer com Alex Ladd e o caso que montamos contra ela? No pode simplesmente jogar fora, fazer desaparecer.
        No. Se eu fizesse isso, Smilow ia desconfiar. Planejo continuar. Mas mesmo se o grande jri indici-la, no podemos ganhar esse caso que temos contra ela. 
No podemos - disse ele obstinadamente ao ver que Steffi ia protestar. - Trimble  um cafajeste que fala demais. O jri no vai se deixar enganar pelo seu verniz 
vagabundo. Vo concluir que o testemunho dele atende aos interesses dele mesmo, e estaro certos. No acreditaro nele nem se ele disser a verdade de vez em quando. 
Alm disso, quantas vezes a dra. Ladd negou veementemente que foi ela?
        Naturalmente ela vai negar que foi ela. Todos negam.
        Mas ela  diferente - resmungou ele.
Mesmo sabendo do caso que ele tinha com a psicloga, Steffi ficou desconsolada com a determinao inabalvel de Hammond de proteger e defend-la. Ficou olhando para 
ele algum tempo, sem nem tentar disfarar sua frustrao.
        Acabou? Voc j me contou tudo?
        Sinceramente, no. Verifiquei algumas coisas ontem  noite, mas as provas no so concretas.
        Que tipo de coisas?
        No quero falar disso agora, Steffi. S quando tiver certeza, de que estou certo. Essa situao  muito precria.
         precria mesmo - disse ela, zangada. - Se no me conta tudo, para que contar uma parte? O que voc quer de mim?
A ltima pessoa que Davee Pettijohn esperava receber aquela manh era a mulher que suspeitavam que tinha feito dela uma viva.
        Obrigada por me receber.
Sarah Birch tinha levado a dra. Alex Ladd para a sala de estar ntima onde Davee estava tomando caf. Mesmo se a governanta no tivesse anunciado Alex pelo nome, 
Davee a teria reconhecido. A foto dela estava na primeira pgina do jornal matutino e Davee tinha visto o ltimo noticirio na vspera, antes do seu encontro clandestino 
e perturbador com Smilow.
        Fao isso mais por curiosidade do que por cortesia, dra. Ladd
        disse ela espontaneamente. - Sente-se. Quer um caf?
        Por favor.
Enquanto esperavam Sarah Birch retornar com outra xcara e pires, as duas mulheres ficaram em silncio, avaliando uma  outra. As cmeras de televiso e as fotos 
dos jornais no faziam justia a Alex Ladd, Davee concluiu.
Alex agradeceu a governanta por servir o caf, deu um gole e disse: 441
        Estive com seu marido naquele sbado  tarde na sute do hotel
        ela apontou para os cadernos do dirio matutino espalhados pela sala. - As reportagens do jornal sugerem sutilmente que o sr. Pettijohn e eu tnhamos um 
relacionamento pessoal.
Davee deu um sorriso amargo.
        Bem, ele tinha de manter a reputao.
        Mas eu no. No h base alguma para essa insinuao. Mas a senhora provavelmente vai achar que estou mentindo se o meu meio-irmo testemunhar contra mim.
        Tambm li sobre ele. No jornal, Bobby Trimble parece um verdadeiro babaca.
        Para ele isso  um elogio.
Davee deu uma risada mas, observando o rosto da outra mulher, percebeu que o assunto no era nada agradvel para ela.
        Sua infncia foi dura, sofrida?
        J superei isso.
Davee fez que sim com a cabea.
        Acho que todos ns temos cicatrizes da infncia.
        Algumas cicatrizes so mais visveis que outras - disse Alex, concordando. - No meu trabalho aprendi que as pessoas conseguem escond-las muito bem. At 
delas mesmas.
Davee observou Alex mais algum tempo.
        No imaginava que fosse assim, dra. Ladd. Pelo modo como foi retratada nas reportagens, eu pensava que era... mais empedernida. Mais durona. Dissimulada. 
At malvada - riu ela novamente. -Achei que era mais parecida comigo.
        Tenho meus defeitos. Muitos. Mas juro que s estive uma vez com seu marido. Foi naquele sbado. E acontece que foi logo antes de ele ser assassinado. Mas 
eu no o matei, e no fui quela sute do hotel para ir para a cama com ele. Para mim  importante que a senhora saiba disso.
        E acho que acredito nisso - disse Davee. - Antes de mais nada, no ganha nada vindo at aqui para me dizer isso. E alm de tudo, e no tenho inteno nenhuma 
de ofend-la, no faz o tipo do meu querido falecido.
Alex sorriu com aquela observao, mas demonstrou uma curiosidade sincera quando perguntou: 
        E por que no sou do tipo que ele gosta?
        Fisicamente at atenderia aos requisitos dele. No se ofenda com isso tambm, mas Lute trepava com qualquer mulher que tivesse um corpo quente. E, quem 
sabe? s vezes nem isso seria critrio de qualificao.
"Mas ele gostava que as mulheres ficassem deslumbradas com ele. Que fossem submissas e burras. Que ficassem em silncio a maior parte do tempo, exceto, talvez, na 
hora do orgasmo. Ele no ia se interessar porque  inteligente e segura demais." Ela encheu sua xcara com caf de uma garrafa trmica prateada, depois jogou dois 
cubos de acar, que fizeram um rudo suave ao mergulhar no caf.
        Para sua informao, dra. Ladd, algumas pessoas que a esto acusando de ter matado Lute no acreditam que  a criminosa.
Alex demonstrou surpresa e disse sem pensar:
        A senhora conversou com Hammond?
        No. No foi... - de repente Davee entendeu e parou de falar no meio da frase. - Hammond? Voc est tratando o homem que conduz seu caso de assassinato 
pelo primeiro nome?
Claramente constrangida, Alex deixou o pires e a xcara na mesa de centro.
        Espero que a minha vinda aqui no tenha sido uma intromisso, sra. Pettijohn. Nem sabia se a senhora ia querer me ver. Obrigada pelo...
Davee fez Alex calar estendendo o brao por cima da mesa e pondo a mo no brao dela. Depois de uma pausa Alex levantou a cabea e encarou Davee com serena dignidade. 
Elas se comunicaram num nvel diferente. Baixaram as defesas. Duas mulheres que se reconheciam, compreendiam e aceitavam. Olhando bem nos olhos da outra mulher, 
Davee disse em voz baixa:
         voc que est numa situao no s complicada, mas impossvel.
Alex abriu a boca para falar, mas Davee a impediu:
        No, no me diga. Seria como ler a ltima pgina de um romance nstigante. Mas mal posso esperar para saber como vocs dois conseguiram se meter nessa confuso 
toda. Espero que as circunstncias tenham sido totalmente decadentes e deliciosas. Hammond merece isso. - Ento ela deu um sorriso triste. - Pobre Hammond. Isso 
deve estar sendo um dilema gigantesco para ele.
        Est sim.
        Posso fazer alguma coisa?
        Ele deve precisar de amigos em breve. Seja amiga dele.
        Eu sou.
         o que ele diz. - Alex ps a ala da bolsa no ombro. - Preciso ir.
Davee no chamou a governanta e foi pessoalmente com Alex at a porta.
        Voc no comentou nada sobre a minha casa - observou ela quando atravessaram o hall de entrada. - A maioria das pessoas comenta quando vem aqui pela primeira 
vez. O que voc acha?
Alex olhou em volta rapidamente.
        Sinceramente?
        Eu perguntei.
        Algumas coisas so lindas. Mas, para o meu gosto,  um pouco exagerada.
        Est brincando? - disse Davee. -  de mau gosto de uma ponta  outra. Agora que o Lute morreu, planejo redecorar tudo.
As duas mulheres sorriram uma para a outra. Aquilo era raro para Davee, sentir afinidade por outra mulher. Com sua sinceridade caracterstica, ela disse:
        No me importa se voc foi para a cama com Lute ou no. Gosto de voc, Alex.
        Tambm gosto de voc.
Alex j estava na metade do caminho at a rua quando Davee a chamou. ;;r
        Voc esteve com Lute logo depois que o mataram?
        Isso mesmo.
        Humm. O assassino talvez ache que voc est escondendo alguma coisa. Algo que viu ou ouviu. Voc est? - perguntou ela sem rodeios.
        No devamos deixar essa pergunta para a polcia? 444
Alex seguiu em frente e passou pelo porto. Davee fechou a porta e deu meia-volta. Sarah Birch estava logo atrs dela.
        O que foi, meu beb? - disse ela, estendendo a mo e alisando as rugas de preocupao na testa de Davee.
        Nada, Sarah - murmurou ela, distrada. - Nada.
Bem cedo aquela manh, antes de sair para o escritrio e de ter uma conversa com Steffi, Hammond verificou as mensagens na secretria eletrnica. S respondeu a 
um recado:
        Loretta, aqui  o Hammond. S recebi seu recado esta manh. Sinto muito t-la deixado irritada ontem  noite. Conclu erradamente que suas chamadas eram 
engano. Oua, agradeo muito o que fez. Mas o fato  que no quero que apresente esse cara com quem conversou na feira. Pelo menos no agora. Tenho meus motivos, 
acredite em mim, e explicarei tudo isso mais tarde. Por enquanto, guarde-o na manga. Se eu precisar dele, aviso. Seno, simplesmente... acho que voc pode... o que 
estou querendo dizer  que est livre para pegar outro trabalho. Se precisar de voc, eu a procuro. Obrigado mais uma vez. Voc  a melhor. At logo. Ah, vou mandar 
um cheque para. Cobrir o dia e a noite de ontem. Voc superou todas as expectativas. Tchau!
Bev Boothe ouviu a mensagem duas vezes, depois ficou olhando fixamente para o telefone, tamborilando de leve na etiqueta com o nmero enquanto pensava o que fazer 
com o recado... gravar ou apagar? O que ela gostaria de dizer para o dr. Cross fazer com a mensagem era anatomicamente impossvel. Estava cansada e mal-humorada. 
Durante a noite algum tinha amassado seu carro no estacionamento dos funcionrios do hospital. E uma dor nas costas se instalava todas as manhs depois do seu planto 
de doze horas. Acima de tudo estava preocupada com a me, cujo quarto estava vazio e a cama arrumada. Onde  que tinha passado a noite, e onde estava naquele momento? 
Bev lembrou que quando saiu para o hospital na vspera Loretta parecia preocupada e deprimida. Aquele recado significava que estava l fora fazendo o trabalho sujo 
do procurador pblico para ele, pelo menos uma parte da noite. O filho-da-me nem parecia dar muito valor ao esforo de Loretta. De raiva, Bev apertou o nmero trs 
para apagar a mensagem. Cinco minutos depois, quando saa do chuveiro, ela ouviu a me cham-la no quarto.
        Bev, acabei de chegar!
Bev pegou uma toalha e se enrolou nela. Deixou pegadas molhadas no corredor, at o quarto da me. Loretta estava sentada na beira da cama, descalando as sandlias 
que tinham deixado marcas vermelhas nos seus ps inchados.
        Me, fiquei preocupada! - exclamou Bev, procurando no parecer surpresa e aliviada da me estar sbria, apesar de abatida e desarrumada.
        Onde voc esteve?
         uma longa histria, que pode esperar at ns duas tirarmos algumas horas de sono. Estou exausta! Voc verificou os recados na secretria quando chegou? 
Tinha algum para mim?
Bev hesitou s um segundo:
        No, me. Nenhum.
        No acredito! - resmungou Loretta enquanto tirava o vestido.
        Eu ralo a noite toda e Hammond inventa de desaparecer! Ela despiu a roupa de baixo, puxou as cobertas e deitou-se na cama. J estava quase dormindo na hora 
que sua cabea encostou no travesseiro.
Bev voltou para seu quarto, vestiu uma camisola, ligou o alarme, reajustou o termostato para uma temperatura mais fresca e foi para a cama. Dessa vez Loretta tinha 
voltado sbria para casa. Mas o que aconteceria na prxima vez? Ela estava se esforando muito para se agarrar  sobriedade. Precisava de estmulos constantes e 
de nimo. Precisava sentir-se til e produtiva. A ltima coisa que Bev pensou antes de adormecer foi que, se o dr. Hammond Cross ia dispensar sua me do trabalho 
que ela desesperadamente precisava para seu bem-estar presente e futuro, ento ele podia muito bem dispens-la pessoalmente, e no pela secretria eletrnica.
        O que  isso?
Rory Smilow desviou os olhos do envelope pardo que Steffi acabava de pr em cima da mesa coberta de papis. Assim que Hammond saiu da sala dela, Steffi no perdeu 
tempo e foi at a delegacia de polcia. Encontrou o detetive na grande sala aberta de investigao criminal. No sentia compuno nenhuma de estar informando as 
novidades para Smilow. Lealdade ao seu ex-amante jamais passara pela sua cabea. E tampouco seria detida por sua promessa de guardar segredo. A partir daquele momento 
ela estava jogando pra valer.
         um exame do laboratrio - ela pegou de volta o envelope e abraou-o encostado ao peito como se o acariciasse. - Podemos conversar na sua sala?
Smilow ficou em p e indicou a sala dele com um movimento de cabea. Enquanto caminhavam pelo meio do labirinto de mesas, o detetive Mike Collins saudou Steffi cantarolando.
        Bom-dia, senhorita Mundell!
        Vai tomar no rabo, Collins.
Ignorando as risadas e assobios, ela caminhou na frente de Smilow pelo curto corredor e entrou na sala particular dele. Depois de fechar a porta, ele perguntou o 
que era:
        Lembra-se das manchas de sangue nos lenis de Alex?
        Ela cortou a perna quando se depilava.
        No cortou nada. Ou talvez tenha cortado, mas no foi ela que sangrou no lenol. Mandei examinar o sangue e compar-lo com outra amostra. So da mesma pessoa.
        E essa outra amostra  de...?
        Hammond.
Pela primeira vez desde que se conheceram, Smilow estava completamente despreparado para a resposta que ouviu. Ele ficou sem palavras.
        Na noite que foi atacado - explicou ela - ele perdeu sangue. Bastante sangue, acho. Fui  casa dele bem cedo na manh seguinte para dizer que Trimble estava 
na nossa delegacia. Ele estava esquisito.
Atribu suas esquisitices  noite que tinha tido e aos remdios que estava tomando.
"Mas era mais que isso. Tive a sensao de que ele estava mentindo para acobertar algum segredo vergonhoso. De qualquer forma, antes de sair, impulsivamente furtei 
uma toalha ensanguentada que estava no banheiro dele."
        Por que voc fez isso? E por que comparar o sangue dele com as manchas nos lenis da dra. Ladd?
        Por causa do jeito que ele se comporta quando est perto dela!
        exclamou ela baixinho, abrindo os braos. - Como se mal conseguisse controlar o desejo de devor-la. Voc tambm sentiu isso, Smilow. Eu sei que sentiu.
Ele passou a mo na nuca e disse a ltima coisa que Steffi esperava ouvir dele:
        Meu Deus, estou constrangido.
        Constrangido?
        Eu devia ter chegado a essa concluso sozinho. H muito tempo. Voc tem razo, realmente senti que havia alguma coisa entre eles. S no conseguia determinar 
o que era.  to incrvel que nunca pensei em atrao sexual.
        No se recrimine por isso, Smilow. As mulheres so mais intuitivas para essas coisas.
        E voc tinha mais outra vantagem em relao a mim. -Qual?
        Eu nunca transei com Hammond.
Smilow deu um sorriso meio torto, mas Steffi no achou graa no que ele disse.
        Bem, realmente no importa quem sentiu o que e quando, ou quem definiu primeiro o que est acontecendo com os dois. A questo  que Hammond est transando 
com Alex Ladd desde que foi indicado promotor do caso criminal no qual ela  a principal suspeita - ela ergueu o envelope como se fosse um tipo de escalpo ou algum 
outro trofeu de batalha. - E podemos provar.
        com provas obtidas ilegalmente.
        Uma tecnicalidade - disse ela dando de ombros. - Por enquanto vamos examinar o quadro geral. Hammond est numa merda profunda. Lembra-se daquela mentira 
fraquinha sobre quem tinha arrombado a porta dos fundos da casa dela? Estou achando que foi o Hammond. Ele invadiu a casa dela...
        Para qu? Para roubar a prataria?
Ela franziu a testa, reprovando o fato de Smilow estar fazendo pouco de tudo aquilo.
        Eles j se conheciam. Antes de Alex se tornar suspeita. E os dois fingiram no conhecer o outro. Tinham de se encontrar para combinar as coisas, por isso 
Hammond foi at l... Vejamos, devia ser tera  noite, depois que a pegamos em diversas mentiras.
"Ele no quis aparecer na porta da frente e tocar a campainha, por isso entrou escondido. Quando arrombou a tranca, machucou o polegar. Esse foi o sangue que manchou 
o lenol dela. Lembro que no dia seguinte ele estava com um curativo no dedo. "E acho que ela estava com ele na noite em que ele foi atacado tambm. Foi evasivo 
quando perguntei sobre o mdico que tinha tratado dos seus ferimentos, e por que ele no tinha procurado um pronto-socorro. Ele inventou umas explicaes inverossmeis." 
O detetive ainda olhava para ela com ceticismo.
        Eu o conheo, Smilow - insistiu ela. - Praticamente moramos juntos. Conheo seus hbitos. Ele  relativamente organizado, mas  um homem. Deixa as coisas 
por fazer at ser forado a arrumar tudo, ou ento espera o dia da semana em que a faxineira vai para limpar sua baguna. Na manh seguinte ao ataque, quando ele 
se sentia pssimo, sabe com que se preocupava? Em fazer a cama dele. Agora entendo por qu. Ele no queria que eu notasse que algum tinha dormido com ele.
        No sei, Steffi - disse ele, denotando dvida nas rugas da testa.
        Por mais que quisesse ver esse escoteiro cair alguns pontos, no acredito que Hammond Cross faria algo to comprometedor. Voc j perguntou diretamente 
para ele?
        No, mas j plantei verde. Bem de mansinho, provocante. At esta manh quando recebi o exame do laboratrio, tudo no passava de um palpite.
        Tipo de sangue no  conclusivo.
        Se a questo for provar conduta ilegal, poderamos obter um exame de DNA.
        Se voc estiver certa, e admito que a sua histria tem peso, ento isso explica a reao que ele teve  declarao de Bobby Trimble ontem.
        Hammond no quis ouvir dizer que Alex Ladd  uma prostituta. -Foi.
        O tempo do verbo ainda est em debate. De qualquer forma, foi por isso que ele no quis que usssemos o testemunho de. Trimble Smilow franziu a testa de 
novo. - O que foi? - disse Steffi.
        Concordo com ele nesse caso. Os argumentos de Hammond fazem um certo sentido. Trimble  to ofensivo que pode acabar gerando simpatia pela dra. Ladd. De 
um lado ela, respeitada psicloga. Do outro lado ele, um homem que se prostitui e usa drogas e que acha que  uma ddiva divina especial para as mulheres. Ele poderia 
prejudicar, mais que ajudar, o nosso caso, especialmente se o jri acabar tendo mais mulheres que homens. Seria quase melhor que ele nem aparecesse.
        Se Hammond conseguir o que quer, no haver caso contra Alex Ladd. Pelo menos nunca ir a julgamento.
        Essa deciso  unicamente dele. Ele planeja...
        O que ele planeja  culpar outra pessoa pelo assassinato de Pettijohn.
        O qu?
        Voc no estava prestando ateno, Smilow. Estou dizendo que ele far qualquer coisa para proteger aquela mulher. Ele inspira e se nega a revelar as pistas 
que est seguindo, e quando solta o ar est pedindo a minha cooperao e ajuda para criar um caso contra outra pessoa. Algum que tinha motivo e oportunidade. Algum 
que ele adoraria derrubar dessa maneira - Steffi saboreou o momento antes de acrescentar: - E adivinha em quem ele est pensando.
        Hammond, estive  sua procura a manh toda.
        Oi, Mason - ele tinha recebido o recado, que Mason estava  sua procura, mas tentou evit-lo. No tinha tempo para uma reunio, por mais curta que fosse. 
- Andei muito ocupado esta manh. E agora estou de sada. ! "$..-
        Ento no vou ocupar seu tempo. W*...,<, ,.*wi
        Obrigado - disse Hammond, continuando na direo da sada.
        Vejo voc depois.
        Certifique-se de estar livre esta tarde, s cinco horas. Hammond parou e virou para ele.
        O que vai acontecer?
        Uma coletiva de imprensa. Todas as estaes locais vo transmitir ao vivo.
        Hoje? s cinco horas?
        Na prefeitura. Resolvi anunciar formalmente a minha aposentadoria e indic-lo como meu sucessor. No h por que adiar isso. E de qualquer forma todo mundo 
j sabe. Na eleio de novembro, seu nome estar na cdula - Mason deu um sorriso para o seu protegido e balanou o corpo todo orgulhoso.
Hammond teve a sensao de estar sendo jogado numa cela, de cabea.
        Eu... no sei o que dizer - gaguejou ele.
        No precisa dizer nada para mim - disse Mason, animado. Guarde suas observaes para hoje  tarde.
        Mas...
        J avisei seu pai. Amlia e ele vo estar l. Meu Deus!
        Voc sabe, Mason, que estou bem no meio desse negcio do Petijohn.
        E que hora melhor? Quando voc j est na berlinda com o pblico. Essa  uma grande oportunidade de transformar seu nome numa palavra pronunciada em todos 
os lares de Charleston.
Aquela declarao fex Hammond voltar a uma conversa recente. Ele fechou os olhos por um segundo e balanou a cabea.
        Foi papai que disse para voc fazer isso, no foi? Mason deu uma risadinha.
        Ele pagou umas rodadas no clube a noite passada. Nem preciso dizer como ele sabe ser persuasivo.
        , nem precisa dizer - resmungou Hammond, zangado. Preston nunca relaxava e deixava as cartas carem naturalmente.
Ele sempre arrumava o baralho a seu favor. Sua filantropia na ilha Speckle tinha desarmado Hammond e praticamente garantido que ele no seria responsabilizado por 
qualquer coisa ilegal que tivesse acontecido na ilha. Mas caso Hammond pretendesse continuar investigando, Preston tinha aumentado a aposta, elevado os prmios e 
aumentado a presso.
        Olha, Mason, preciso correr. Tenho muito o que fazer hoje.
        Tudo bem. Apenas lembre-se das cinco horas.
        No vou esquecer.
Loretta esfregou os ps no fundo da banheira com gua fria onde os banhava havia quase meia hora. Bev andava pelo corredor, bocejando e se espreguiando.
        Me? J acordou? No dormiu muito.
        Muita coisa para pensar - comentou ela distrada, olhou para Bev e disse: - Voc tem certeza que verificou se no tinha nenhum recado na secretria eletrnica 
esta manh? Espero que no haja nada errado com ela.
        No h nada errado com ela, me - disse Bev, virando-se para a me com expresso de culpada. - Tinha um recado do dr. Cross. S que eu no quis dizer para 
voc.
        Por que no? O que ele disse?
        Ele disse para esquecer o cara da feira. Loretta olhou para Bev, incrdula.
        Voc tem certeza?
        Acho que ele disse "da feira".
        No, tem certeza que ele disse para esquecer o homem?
        Dessa parte tenho certeza. Fiquei furiosa. Depois de todo esse trabalho que voc teve... Cuidado, me, voc est molhando o cho todo.
Loretta estava em p, com as mos plantadas firmemente na cintura.
        Ele enlouqueceu?
Bobby Trimble no tinha contado com a priso. A priso fedia. A priso era para os perdedores. A priso era para o velho Bobby, talvez, mas no para o Bobby que 
ele era agora. Tinha passado a noite dividindo a cela com um bbado que roncara e peidara com idntica exuberncia a noite inteira. Tinham prometido que ele seria 
libertado de manh bem cedo, logo que pudessem registrar sua sada. Era parte do trato que tinha feito com o detetive Smilow e com a puta da procuradoria - no mais 
que uma noite encarcerado. Mas j era de manh e eles no pareciam ter pressa nenhuma. Serviram o caf da manh. Com o cheiro da comida, seu companheiro de cela 
rolou do beliche de cima e quase no teve tempo de chegar ao vaso sanitrio aberto, onde ficou vomitando uns cinco minutos. Quando finalmente esvaziou tudo, ele 
subiu de novo no beliche e desmaiou outra vez, s que antes deu uma trombada em Bobby e sujou a roupa dele, de modo que ele tambm ficou cheirando a vmito.  claro 
que Bobby no sofreu todos aqueles maus-tratos em silncio. Ele articulava suas reclamaes bem alto e frequentemente. Vociferava e xingava, mas em vo. Andava de 
um lado para outro na cela. As horas se arrastavam e ele foi mergulhando numa depresso profunda. O pessimismo se apoderou dele com toda a fora. Parecia que ele 
no merecia uma trgua. As coisas tinham deixado de ser moleza e estavam virando merda desde que mataram Pettijohn. Aquilo no fazia parte do plano de Bobby. Ele 
no era nenhum santo, mas no queria nada com uma investigao de homicdio. Se pintar uma Alex culpada- e quem sabe? Talvez fosse mesmo - pudesse livr-lo daquilo, 
era isso que ia fazer. Mas enquanto isso eles o manteriam com rdea curta. At o fim do julgamento estava  disposio da prefeitura de Charleston. Nada de festas. 
Nada de mulheres. Nada de drogas. Nenhum divertimento. E tambm no estava cem mil dlares mais rico, como esperava estar. Nunca foi l pegar o dinheiro da chantagem. 
E continuava sem saber se Alex tinha ou no recebido o dinheiro vivo de Pettijohn, mas essa era uma questo secundria. O dinheiro no estava com ele. Seu futuro 
parecia desolado e incerto, e a nica certeza era que no ia para lugar nenhum enquanto continuasse preso naquele lugar.
Ele se levantou da cama e encostou na grade.
        Por que esto demorando tanto?
Suas perguntas eram ignoradas. Os guardas no se abalavam com os pedidos dele.
        Vocs no compreendem. No sou um prisioneiro comum disse ele para um guarda que passava diante da cela dele. - Eu no devia estar aqui.
        Gostaria de ganhar um centavo cada vez que ouo isso, Bobby. Bobby virou a cabea como um raio. Viu um recm-chegado, escoltado por outro guarda, vestindo 
um palet leve de vero e gravata. Estava bem barbeado, mas mesmo assim a aparncia era um pouco desmazelada, provavelmente por causa da tipia que segurava seu 
brao direito. Apresentou-se como Hammond Cross.
        Ouvi falar do senhor.  da procuradoria, no ?
        Assistente especial do procurador do municpio de Charleston.
        Estou impressionado - disse Bobby, retomando sua voz modulada. - Francamente, no dou a mnima se o senhor  a fada Sininho, desde que tenha vindo para 
me tirar daqui.
        Foi esse o trato, no foi?
Cross era muito seguro e tranquilo. Bobby se ressentiu na mesma hora da sofisticao que era natural para ele.
Hammond fez sinal para o guarda abrir a cela de Bobby, mas foi levado para uma sala reservada para conversas de prisioneiros com advogados.
        No considero isso soltura, dr. Cross. Fiz um trato ontem. Ou vocs convenientemente esqueceram?
        Estou a par desse trato, Bobby.
        Que timo! Ento faa o que tem de fazer para as coisas andarem por aqui.
        S depois da nossa conversa.
        Se vou conversar com o senhor, quero um advogado presente.
        Sou advogado.
        Mas...
        Senta a e cala a boca, Bobby!
Ele estava em forma, mas no era to corpulento, aquele Hammond Cross. Alm disso, estava ferido. Arrogantemente, Bobby sacudiu os ombros.
        Palavras duras vindas de um homem com o brao numa tipia. Os olhos de Cross adquiriram um brilho quase to duro e frio quanto o de Smilow. Bobby no ficou 
exatamente amedrontado, mas suficientemente intimidado para sentar. Ele olhou furioso para Cross.
        Tudo bem, estou sentado. E da?
        Voc nem imagina o quanto eu adoraria mo-lo de pancada.
Bobby olhou boquiaberto para ele, sem saber o que dizer.
Os lbios de Cross mal tinham se mexido e a voz dele era bem suave, mas a hostilidade por trs daquela afirmao fez os pelinhos na nuca de Bobby se arrepiarem todos. 
Isso e o fato de que cada msculo do corpo de Cross estava flexionado, como se a pele dele fosse arrebentar.
        Olha, eu no sei qual  a sua, mas fiz um trato.
        E eu fiz outro - disse Cross calmamente. - com um dos investidores, quero dizer, ex-investidor, no projeto da ilha Speckle.
Ele deu um tempo para Bobby entender. Bobby fez um esforo enorme para no se encolher na cadeira.
        Esse indivduo est disposto a testemunhar contra voc em troca de clemncia. Temos uma lista interminvel de processos contra as suas atividades na ilha 
Speckle que so irrelevantes para esse acerto que voc fez ontem. Voc provavelmente ia se aborrecer se eu enumerasse a lista toda, mas incndio culposo  um dos 
primeiros.
As palmas das mos de Bobby estavam molhadas de suor. Ele as secou nas pernas da cala.
        Oua, eu conto o que vocs quiserem saber sobre a minha irm.
        Intil - disse Cross, dispensando o oferecimento de Bobby com um gesto. - No foi ela que matou Pettijohn.
        Mas o seu pessoal...
        No foi ela - repetiu ele, e depois sorriu, mas no foi um sorriso amigvel. -Voc no tem mais fichas, Bobby. No tem mais nada para negociar. Ficar um 
bom tempo em uma das nossas prises. E quando a Carolina do Sul se cansar de abrig-lo e aliment-lo, as autoridades l da Flrida estaro loucas para pr as mos 
em voc.
        Fodam-se! E v se foder voc tambm! - berrou Bobby, pulando da cadeira! - Quero falar com o meu advogado!
Ele deu dois passos para a frente, Cross plantou a mo esquerda espalmada no externo dele e o empurrou de volta para a cadeira com tanta fora que ele quase caiu 
com cadeira e tudo. Ento Cross chegou to perto que Bobby teve de inclinar a cabea para trs at o seu pescoo ficar doendo.
        Uma ltima coisinha, Bobby - sussurrou Cross. - Se voc chegar perto de Alex de novo, eu quebro o seu pescoo! E depois arrebento essa sua carinha bonita 
at ficar irreconhecvel. Seus dias de conquistador de mulheres acabam. Os nicos olhares que ter delas sero de piedade e repulsa.
Bobby ficou atnito. Mas s por alguns segundos. E ento entendeu tudo - a ameaa, a insistncia do promotor em afirmar a inocncia de Alex. Ele comeou a rir.
-Agora entendi. O seu pau est enrabichado pela minha irmzinha! Ele cutucou o peito de Hammond de brincadeira.
        Acertei? Deixa pra l, eu sei que acertei. Conheo os sinais. Sabe do que mais, Dr. Assistente Especial, ou seja l como se chama. Sempre que quiser trepar 
com ela, procure-me. Do jeito que quiser, por trs, pela frente ou de lado, eu posso arrumar.
A cadeira caiu e Bobby foi lanado voando para trs junto com ela. Foguetes de dor decolaram do ponto de contato no osso da face. Detonaram dentro do crnio dele. 
Suas costelas estalaram quando um punho com a fora de um pisto se chocou com elas.
        Dr. Cross?
Bobby ouviu passos correndo e as vozes dos guardas. Os sons flutuavam at ele atravs de uma escurido enorme e vazia.
        Est tudo bem a dentro, dr. Cross?
        Eu estou bem, obrigado. Mas acho que o prisioneiro est precisando de cuidados.
        Isso  interessante.
Steffi firmou o fone do telefone da mesa dela entre a orelha e o ombro.
        Hammond? Onde voc est?
        Acabei de sair da cadeia. Bobby Trimble  nosso por algum tempo.
        E o nosso trato com ele?
        Os crimes dele na ilha Speckle superaram isso. Explico para voc mais tarde.
        Tudo bem. O que  interessante?
        Basset - disse ele. - Glenn Basset? O sargento que cuida do depsito de provas?
        , eu o conheo vagamente. Bigode?
        Esse mesmo. Ele tem uma filha de dezesseis anos que foi presa por posse de droga no ano passado. Sem antecedentes. Basicamente uma boa menina, mas se meteu 
com a turma errada na escola. Presso dos colegas. Isolada...
        Entendi. O que isso tem a ver com as calas?
        Basset procurou Smilow e pediu conselhos e ajuda. Smilow interveio junto  procuradoria pela filha de Basset.
        Eles trocaram favores.
         isso que acho - disse Hammond.
        S acha?
-At agora no passa de boato e insinuao. Andei xeretando por a. Os policiais relutam em falar sobre outros policiais, e ainda no conversei com Basset sobre 
isso.
        Gostaria de estar presente quando conversar com ele, Hammond. O que mais? 459
-Tenho mais uma patada no caminho e depois vou at o Charles Towne.
        Fazer o qu? ?? --i.*-
        Lembra-se dos roupes?
        Que as pessoas usam para ir e voltar do spa? Umas coisas felpudas e brancas que fazem todo mundo ficar parecido com um urso polar?
        Onde estava o do Pettijohn? - perguntou ele.
        O qu? Eu no estou...
        Ele fez uma massagem mais cedo aquela tarde. Tomou uma chuveirada no spa, mas no se vestiu. Perguntei para o massagista. Ele chegou de roupo e saiu de 
roupo. Devia haver um roupo e um par de chinelos usados no quarto dele. No estavam entre as provas recolhidas. O que aconteceu com eles?
        Boa pergunta - disse ela devagar.
        Tem uma melhor ainda. Voc sabia que Smilow faz sempre as unhas no spa? Entendeu? Ningum acharia nada de mais se o visse usando um daqueles roupes. Vou 
verificar a sute de novo, para ver se deixei passar alguma coisa. S queria que voc soubesse. A propsito, voc o viu hoje?
        Smilow? - Ela hesitou e depois disse. - No.
        Se o vir, ocupe-o bem para eu poder operar livremente.
        Claro. Depois me conta o que descobriu. ;
        Ser a primeira a saber.
        Obrigada por vir me ver, Hammond.
Ele deslizou no banco do cubculo de frente para Davee.
        O que houve? Voc disse que era urgente.
        Voc quer almoar?
        No, obrigado, no posso. Tenho mil coisas para fazer hoje. Vou querer uma club soda-disse ele para o garom, que se afastou para atender o pedido. Hammond 
abanou fumaa do rosto. - Quando foi que voc comeou a fumar de novo?
        Uma hora atrs.
        O que est acontecendo, Davee? Voc parece aborrecida.
Ela deu um gole no seu drinque, que Hammond adivinhou corretamente que no era o primeiro, e que tambm no era club soda. Tinha respondido ao recado dela no bip 
e ficara surpreso quando ela pediu para ir encontr-la naquele restaurante no Centro da cidade. Ele j estava indo naquela direo de qualquer maneira, e foi esse 
o nico motivo de ter concordado com aquele convite espontneo, seu horrio apertado.
        Rory ligou para mim a noite passada. Tivemos um encontro. Mas no do tipo romntico - esclareceu ela.
        De que tipo, ento?
        Ele fez todo o tipo de perguntas sobre voc e a investigao do assassinato de Lute - ela esperou o garom servir a club soda e depois continuou: - Ele 
sabe que voc esteve com Lute no sbado, Hammond. Mas eu no disse nada para ele. Juro que no fui eu.
        Acredito em voc.
        Ele disse que viram voc no hotel. Ele est chutando que voc se encontrou com Lute, mas ns sabemos que ele  um timo adivinho.
         um chute inofensivo.
        Pode no ser, porque tem outra coisa que voc precisa saber. A mo de Davee tremia quando ela levou o cigarro aos lbios.
Hammond tirou-o da mo dela e o apagou no cinzeiro.
        Pode dizer.
        Eu sei de voc e Alex Ladd.
Ele pensou em se fazer de desentendido, mas Davee, mais que ningum, saberia desmascarar sua farsa.
        Como?
Ouviu Davee contar a visita de Alex  casa dela aquela manh.
        No conheo os detalhes de como vocs se conheceram, quando ou onde. No pedi nenhuma outra informao e ela tambm no revelou nenhuma. E por falar nisso, 
ela  adorvel.
         - disse ele com voz rouca -  sim.
        Tenho certeza que voc sabe - continuou ela - que esse caso aconteceu numa hora pssima e  totalmente inapropriado.
        Sei bem demais.
        De todas as mulheres de Charleston que esto a fim de voc, por que...
        Estou com meus horrios apertadssimos hoje, Davee. No tenho tempo para ouvir um sermo. No planejei me apaixonar pela Alex esta semana. Simplesmente 
aconteceu. E, alis, voc  a mais indicada mesmo para dar sermes sobre indiscries.
        S estou avisando para tomar cuidado. Eu ainda nem estive no mesmo cmodo com vocs dois, mas ficou mais que evidente para mim, s pelo jeito que ela pronunciou 
seu nome, que est apaixonada por voc.
"E qualquer pessoa que j esteve com vocs dois juntos deve ter sentido essas correntes todas. At algum to pouco romntico como Rory. Foi por isso que chamei 
voc - os olhos dela se encheram de lgrimas, e isso assustou Hammond, porque Davee no chorava nunca. - Tenho medo por voc, Hammond. E por ela.
        Por que, Davee? Do que voc tem medo?
        Tenho medo de Rory ter matado Lute e que possa matar mais algum para se proteger.
Ele ficou olhando para ela algum tempo, e depois sorriu. ,.;
        Obrigado, Davee.
        Por qu?
        Por se preocupar comigo. Eu te amo por isso. E a amo ainda mais por se preocupar com a Alex. Espero que vocs se tornem grandes amigas - ele deslizou pelo 
banco para sair do cubculo, abaixou-se e beijou o topo da cabea de Davee. - No tem com o que se preocupar.
        Hammond? - chamou ela quando ele foi se afastando com pressa.
        Estou cuidando de tudo - disse ele para ela. - Juro.
Ele foi correndo do restaurante at o carro. No caminho para o hotel, ele discou o nmero da casa de Alex. A fechadura da porta da cozinha continuava quebrada. Era 
desleixo dela no ter providenciado o conserto. Ele lembrava que a cozinha era aconchegante e limpa, apesar da torneira da pia pingar um pouco. Passava ao lado do 
telefone quando ele tocou, e levou um susto. Ela atendeu em outro cmodo, no segundo toque. A voz dela flutuou pelo corredor e chegou at ele.
        Hammond, voc est bem?
Ela estava no consultrio, de costas para a porta que dava para o corredor. Ele sentiu o cheiro das laranjas com cravos-da-ndia no pote sobre a mesa de canto. Ela 
estava sentada numa poltrona com o que parecia ser uma pilha de fichas de pacientes na mesa, ao seu lado. Tinha uma pasta aberta no colo junto com um gravador de 
um palmo de comprimento. A luz do sol entrava pelas janelas altas. O cabelo dela atraa os raios como um im.
        No se preocupe comigo, estou bem... E o sargento Basset?... Ento voc tinha razo. De certa forma sinto pena dele. No d para saber que tipo de ameaas 
foram usadas para ele cooperar... Est bem. Por favor, liga pra mim assim que puder.
Ela encerrou a conversa e ps o telefone sem fio na mesa. Notou um movimento com o canto do olho, e virou para ele subitamente. A pasta aberta escorregou do colo 
dela e caiu no cho, espalhando seu contedo pelo tapete oriental. O gravador caiu a seus ps com um rudo surdo. Era bvio que ela achava que estava sozinha. Ela 
gaguejou, meio engasgada.
        Detetive Smilow, o senhor me assustou!
Smitty estava atendendo a um fregus quando Hammond passou por ele a caminho dos elevadores.
        Ol, Smitty. Viu o detetive Smilow hoje?
        No, dr. Cross. No vi.
Normalmente gregrio, Smitty no levantou os olhos e no quebrou seu ritmo com as escovas alternadas dando brilho na ponta do sapato do fregus. Hammond no prestou 
muita ateno. Queria chegar  sute de cobertura no quinto andar. A fita amarela ainda formava um X na frente da porta. Com a chave que tinha conseguido com o gerente 
na noite anterior, ele passou por cima da fita e entrou, deixando a porta entreaberta. As cortinas estavam fechadas, por isso o quarto estava s escuras. Deu uma 
verificada de rotina na sala onde a mancha de sangue no tapete estava quase preta. Pelo que a equipe de camareiras tinha dito, j estava pedido um novo tapete. Em 
p sobre a mancha, ele tentou captar algum sentimento de remorso pela morte de Pettijohn, mas no encontrou nada. Ele tinha sido um filho-da-me em vida. E mesmo 
na morte continuava perturbando a vida das pessoas. Hammond foi para o quarto de dormir, e direto para o armrio. Olhou para o roupo l pendurado, com o cinto amarrado 
na cintura. Era par do que Lute tinha usado para ir ao spa. Ele deixara suas roupas na sute, tomara uma chuveirada no spa e depois trocara o roupo pelas roupas 
na volta ao quarto.
        Eu nunca pensaria nisso se voc no tivesse mencionado aquela tarde, quando tomamos uns drinques no bar do hotel - disse ele.
Ele se virou e deu de cara com Steffi, que pensava que Hammond no tinha percebido a sua presena. Na verdade, ele estava  sua espera.
        Retoricamente - continuou ele -, voc perguntou se eu podia imaginar Lute andando por a com um desses roupes do spa. Eu no pude. E no imaginei. At 
a noite passada. E quando imaginei, no entendi como voc sabia que ele tinha andado por a com aquele roupo naquele dia. Ento fiquei pensando onde estava o roupo 
usado. - Ele olhou para ela pensativo. - O que conclu foi que voc usou aquele roupo por cima da sua roupa quando saiu da sute.
        Roupa de exerccio. Que achei uma boa ideia. Quem vai assassinar algum vestido desse jeito? Mas o roupo era melhor ainda.
        Voc o deixou no spa.
        Junto com a toalha que Pettijohn deve ter levado do spa. Enrolei-a como turbante na minha cabea. Pus culos escuros. Eu estava praticamente no identificvel. 
Larguei toda a parafernlia no spa- tinha muita gente deixando roupes e toalhas vindas da academia e da piscina. Ningum prestou ateno em mim. Corri alguns quilmetros 
e, quando voltei, o corpo tinha sido descoberto e a investigao comeado.
        Muito esperta.
        Foi o que pensei - disse ela com um sorriso atrevido. Ele olhou para o revlver que ela apontava para ele.
         esse a?
        Claro que no. Voc acha que eu seria burra de usar a mesma arma duas vezes? Quando devolvi o que usei para matar Pettijohn, surrupiei outro, por via das 
dvidas.
        Enquanto estamos aqui conversando, Basset est botando tudo para fora. Ele  um homem arrependido, com a conscincia culpada.
        Ser a minha palavra contra a dele. Essas armas nunca os traro at mim. No assinei o registro, nem ele. Basset poderia estar inventando histrias perversas 
porque tem uma rixa comigo.
        Smilow pediu para voc aliviar para a filha de Basset.
        E eu aliviei na primeira vez. No foi culpa minha se ela foi presa de novo. A audincia dela est marcada para daqui a algumas semanas.
        O que voc prometeu para o Basset?
        Que eu seria clemente na minha segunda recomendao para o juiz.
-Ou?
        Ou a doce Amanda ia enfrentar toda a fora da lei. A deciso era dele.
        Sua barganha  muito dura.
        Quando me foram a isso.
        E voc se sentiu forada a matar Pettijohn?
        Ele me enganou! - exclamou ela com a voz muito aguda, que Hammond nunca ouvira antes.
Steffi tinha perdido a noo da realidade.
        Eu espionei para ele - dizia ela. - Eu o aconselhei em manobras legais que seriam ciladas para seus rivais mas que o manteriam do lado da lei. Bem na linha, 
mas do lado de dentro. Ele me disse que ia usar o material sobre o Preston para arruinar vocs dois. Tirar voc completamente de l e me instalar na cadeira mais 
alta. Mas ento ele me traiu.
Os olhos dela ficaram duros como pedras.
        Ele viu uma utilidade melhor para o envolvimento de Preston, que era coagir voc a fazer o que ele queria. Ele pensou que poderia usar esse subterfgio 
para convenc-lo a aceitar as ideias dele. Agradeceu o tempo que gastei e o trabalho que tive, mas achava que no tinha de se contentar em ter o segundo melhor se 
podia ter o melhor advogado do lado dele.
        Ento voc veio aqui aquela tarde para mat-lo.
        No tinha escolha, Hammond. Joguei de acordo com as regras e elas no me beneficiaram. Desde que entrei na procuradoria trabalhei demais, lutei  bea, 
mas era voc que ia ficar com o cargo, assim como ficou com o ltimo.
Pettijohn apareceu e me ofereceu uma vantagem. Pela primeira vez eu estaria na dianteira. Ento, quando a recompensa j estava  vista, o filho-da-puta puxou o tapete 
embaixo de mim. "J tinha me decepcionado antes, mas nada to esmagador. Toda vez que olhava para ele, lembrava que otria eu tinha sido. Uma mulher ingnua, e provavelmente 
era assim que ele me via. No podia suportar ser to suscetvel assim e dominada por ele. Alguma coisa l dentro de mim se rompeu, acho. Eu simplesmente no podia 
deixar Pettijohn escapar impune. "Ele deu a notcia para mim pelo telefone, mas insisti numa conversa cara a cara. Apareci alguns minutos mais cedo que a hora marcada 
e, quando o vi estirado no cho, a primeira coisa que pensei foi que algum tinha me furtado aquele prazer."
        Talvez a Alex.
        Eu no sabia nada de Alex Ladd. S soube depois que aquele cara, Daniels, nos deu a descrio dela... e eu estava em pnico quando o encarei naquele quarto 
do hospital. Tive medo de que ele me entregasse para Smilow. No o tinha visto no hotel, mas no podia ter certeza de que ele no tinha me visto. De qualquer forma, 
quando ele descreveu Ladd nem acreditei na minha sorte. Havia realmente uma suspeita. E depois o Trimble apareceu e comecei a acreditar em anjos da guarda - disse 
ela, dando risada.
        Foi voc que encomendou o atentado contra a vida dela. -Aquilo foi um erro. No devia ter confiado em outra pessoa para fazer o servio.
        Quem era ele?
        Um cara que passou pelo sistema judicial alguns meses atrs. Eu o acusei de agresso. O advogado dele apelou. Achei que ter algum como ele a postos poderia 
ser til um dia. Talvez eu j estivesse prevendo que a minha aliana com Pettijohn ia acabar mal - ela deu de ombros.
"De qualquer maneira, deixei o cara escapar da priso. Mas no o perdi de vista. Ele estava disposto a cortar a garganta dela por meros cem dlares. S que estragou 
tudo. Fugiu da cidade com os cinquenta que paguei de entrada. Ele nem se comunicou comigo aquela noite." Ela deu um tapa na prpria testa.
        Fui uma idiota! No associei o seu atacante como meu assassino at descobrir que Alex Ladd estava viva e gozando de perfeita sade.
        Voc teve medo de que ela a tivesse visto sbado  tarde na sute de Pettijohn.
-Achei que era bem possvel. Naquele primeiro depoimento senti que ela estava escondendo alguma coisa, temi que tivesse me reconhecido e que s estivesse esperando 
a melhor hora para dar o bote com aquela informao secreta. Devo admitir que fiquei chocada quando descobri que o segredo que ela guardava era voc. Quando foi 
que a conheceu?
Ele se recusou a responder.
        Ora, ora - suspirou ela baixinho. - Voc est certo. Acho que no importa mesmo, apesar de ter arrasado o meu ego saber que voc era capaz de passar com 
tanta facilidade da minha cama para a dela. E  claro que eu entendo a atrao que ela sente por voc. No foi nenhum sacrifcio transar com voc. E eu teria transado 
mesmo se Pettijohn no tivesse sugerido que as conversas na cama eram boa fonte de informaes.
Ela levantou um pouco a pistola.
        Eu no odeio voc, Hammond, mas no estaria sendo sincera se dissesse que no tenho nenhum ressentimento em relao s suas conquistas e  facilidade com 
que voc as obtm. Mas agora que cheguei at aqui, voc  o ltimo obstculo. Sinto muito.
        Steffi...
com o revlver ela disparou no peito dele.
Steffi virou-se para trs e atravessou correndo a saleta. Ela abriu a porta. Do outro lado estavam o detetive Mike Collins e dois policiais uniformizados apontando 
suas pistolas para ela.
        Entregue essa arma, srta. Mundell - disse Collins.
O tom de voz dele no era de brincadeira. Um dos policiais deu um passo para a frente e tirou a arma da mo dela.
        Voc est bem? - perguntou Collins.
Hammond observava o rosto de Steffi quando ela virou a cabea e ficou boquiaberta, atnita. O que tinha salvado a vida dele, mas teria de conviver com um hematoma 
bem dolorido junto com os outros ferimentos daquela semana.
        Voc me enganou?
Collins recitava os direitos dela, mas Steffi concentrava sua ateno em Hammond.
        Descobri a noite passada. Smilow e eu tivemos uma conversa de madrugada. Contei tudo para ele. Absolutamente tudo. Por isso encenamos isso aqui. Eu fingia 
reunir provas contra ele, mas, na verdade, ele e eu estvamos trabalhando juntos hoje. Foi ele que sugeriu que voc podia ficar preocupada se eu revelasse as minhas 
pistas para voc, pistas que iam apontar para voc. Ele insistiu para eu usar um microfone. E o colete tambm. Ainda bem que segui o conselho dele nos dois casos.
Ela estava praticamente eriada de dio. Hammond achou difcil acreditar que um dia tinham sido namorados. Mas foi com um certo grau de tristeza que ele disse:
        Eu sabia que voc me considerava seu rival, Steffi, mas nunca pensei que tentaria me matar!
        Voc sempre me subestimou, Hammond. Nunca me deu o crdito que eu merecia. Nunca achou que eu era to inteligente quanto voc.
        Bem, tudo indica que no .
        Sou suficientemente inteligente para saber do seu caso com Alex Ladd! - berrou ela. - Nem tente negar, porque tenho provas de que esteve na cama dela esta 
semana!
Hammond apontou o queixo para Collins, que fez Steffi dar meia-volta e a levou para fora do quarto. Ela virou a cabea e gritou para ele:
         com isso que vou derrot-lo, Hammond! O seu caso com essa mulher. Por falar em justia potica!
Havia uma risada suave de auto-reprovao no tom de voz de Alex.
        Sabia que viria, mas no o ouvi entrar, detetive.
        No sabemos quando, nem quem Steffi pode atacar. Verifiquei os fundos da casa e entrei pela porta de trs. Aquela fechadura ainda no foi consertada. Deve 
providenciar esse conserto imediatamente.
        Estive preocupada com coisas mais srias esta semana.
        Semana infernal.
        Para dizer o mnimo.
Ele se ajoelhou para ajudar Alex a recolher os papis espalhados, ela agradeceu e guardou o material de volta na pasta.
        No pude deixar de ouvir - disse ele. - Hammond contou sobre Basset?
        Contou.
        Foi muita esperteza de Hammond descobrir isso.
        Mas o senhor chegou  mesma concluso logo depois. Ele me contou que, quando revelou de quem suspeitava hoje cedo, o senhor admitiu que tinha passado pela 
sua cabea que Steffi podia estar envolvida.
        E tinha mesmo, s que no me detive nessa suspeita. Para ser sincero, no pensei muito nisso, porque estava muito feliz com a morte de Pettijohn - ele olhou 
bem nos olhos de Alex. - Dra. Ladd, eu nunca pensei que a senhora era a assassina. Perdoe algumas perguntas que fiz.
Ela aceitou o pedido de perdo com um breve movimento de cabea.
         difcil recuar quando assumimos uma opinio. Eu era uma suspeita vivel, e o senhor no queria estar enganado.
        Foi mais que isso. Eu no queria que Hammond estivesse certo. Fez-se um silncio constrangedor entre os dois. Foi quebrado
quando o telefone celular dele tocou.
        Smilow.
Ele ficou ouvindo. O rosto permaneceu inexpressivo.
        Estou indo. - Smilow desligou o telefone. - Steffi atirou em Hammond. Ele est bem - disse ele logo. - Mas ele a fez admitir na gravao que ela matou Pettijohn. 
Ela est sob custdia.
Alex no tinha se dado conta de como estava angustiada, at que toda aquela tenso acumulada se esvaiu de dentro dela e ela afundou numa cadeira.
        Hammond est bem?
        Perfeitamente.
        Ento acabou - disse ela baixinho.
        Ainda no. Ele far uma coletiva de imprensa dentro de meia hora. Posso oferecer uma carona? 
O prdio que abrigava temporariamente o frum do municpio de Charleston possua um espao muito limitado, por isso Monroe Mason havia pedido para a coletiva de 
imprensa ser feita no prdio da prefeitura no Centro da cidade. O pedido dele foi gentilmente atendido. Por respeito ao homem que servira a comunidade por tanto 
tempo e to bem, muita gente que costumava sair correndo s cinco horas das tardes de sexta-feira para aproveitar o fim de semana havia se reunido para ouvir o anncio 
formal da sua aposentadoria. Era isso que eles esperavam ouvir. E receberam mais do que esperavam. Uma dianteira no fim de semana no parecia um sacrifcio to grande 
com os boatos que comeavam a circular sobre o que tinha acontecido na mesma sute de hotel onde Lute Pettijohn tinha aparecido morto havia menos de uma semana. 
Um membro da equipe do prprio promotor pblico tinha sido preso, acusado do assassinato. A sala j estava apinhada de gente quando Hammond entrou atrs de Mason 
e da infantaria da promotoria pblica. At Wallis, o segundo procurador, abatido e maltratado pela quimioterapia, tinha encontrado foras para comparecer. S Stefanie 
Mundell estava ausente quando todos se sentaram em seus lugares sobre o tablado. A primeira fila de assentos para os espectadores estava ocupada pelos reprteres 
e operadores de cmera. Atrs deles, trs filas reservadas para funcionrios da prefeitura, do municpio e estaduais, clrigos convidados e dignitrios diversos. 
O resto das cadeiras dobrveis era para convidados. Entre eles estavam os pais de Hammond. A me dele respondeu ao aceno de cabea com um adeusinho alegre com a 
mo. Hammond tambm fez um gesto com a cabea para o pai, mas as feies de Preston continuaram ptreas como as do monte Rushmore. Aquela manh Hammond tinha telefonado 
para Preston com o acordo ao qual se referira para Bobby Trimble. Era o seguinte: ele recomendaria ao procurador-geral que no fizesse acusaes contra seu pai se 
Preston testemunhasse contra Trimble. Claro que era crucial que Preston admitisse que tinha conhecimento das atividades terroristas que tinham ocorrido na ilha Speckle. 
Ele havia se distanciado do negcio, mas no a tempo de livr-lo da responsabilidade.
        Esse  o trato, pai.  pegar ou largar.
        No me venha com um ultimato.
        Voc admite que agiu contra a lei ou vai para a cadeia negando
        declarou Hammond determinado. - Aceite o acordo.
Hammond tinha dado ao pai setenta e duas horas para pensar e discutir o assunto com o advogado dele. Apostava que o pai concordaria com seus termos, intuio que 
ficou mais forte ainda quando o olhar duro de Preston tremeu e desviou primeiro. Seria demais esperar que seu pai estivesse passando por uma crise de conscincia? 
Haveria sempre os abismos que nunca poderiam transpor, mas ele esperava que conseguissem se reconciliar em algum nvel. Ele queria poder cham-lo de pai novamente. 
Davee tambm estava l, e parecia uma estrela de cinema. Ela soprou um beijo para ele, mas quando um reprter enfiou o microfone na frente dela e pediu algum comentrio, 
Hammond viu Davee dizer para ele se foder. Com essa palavra mesmo. Mas com um sorriso bem doce. Ele estava observando a porta dos fundos quando Smilow entrou acompanhando 
Alex. Os olhos dos dois se encontraram e eles ficaram se olhando, um devorando o outro. Tinham conversado atravs de seus telefones celulares a caminho do tribunal, 
mas no era to satisfatrio quanto ver com os prprios olhos que ela estava, finalmente, a salvo. Da acusao. De Steffi. De Bobby. Smilow indicou para ela uma 
cadeira vazia ao lado de Frank Perkins. O advogado ficou em p e abraou Alex carinhosamente. Smilow deixou-a com Perkins e desceu pela ala externa, a caminho do 
tablado. Acenou e chamou Hammond. Perplexo, Hanond pediu licena e desceu da plataforma temporria.
        bom trabalho - disse Smilow para ele. ? Sabendo o quanto de orgulho aquele cumprimento devia ter
custado ao detetive, Hammond disse para ele:
        Eu s apareci e fiz o que voc disse para eu fazer. Se voc no tivesse coordenado tudo, no teria funcionado - ele fez uma breve pausa. -Ainda no acredito 
que ela foi para me pegar. Eu esperava uma rendio e uma confisso primeiro.
        Ento no a conhece muito bem.
        Foi o que acabei concluindo. Quase tarde demais. Obrigado por tudo que voc fez.
        De nada.
Smilow olhou para Davee e a pegou olhando para ele. A no ser que seus olhos o estivessem enganando, Hammond achou que o detetive enrubesceu. Ele rapidamente virou 
de frente para Hammond de novo.
        Isso  para voc - disse ele, estendendo um envelope pardo para Hammond.
        O que ?
        Um exame de laboratrio. Steffi me deu isso esta manh. Identifica seu sangue com o sangue encontrado nos lenis da dra. Ladd - Hammond abriu a boca para 
falar, mas Smilow balanou a cabea muito srio. - No diga nada. Apenas pegue e destrua. Sem isso, quaisquer alegaes que Steffi possa fazer sobre um caso com 
uma suspeita no podero ser provadas.  claro que j que a dra. Ladd afinal no era a culpada, no passa de uma tecnicalidade.
Hammond olhou para o envelope que parecia to inofensivo e no era. Se o aceitasse, teria tanta culpa quanto Smilow no caso do Estado contra VincentAnthony Barlow. 
Barlow era culpado at o ltimo fio de cabelo de ter assassinado a namorada de dezessete anos e o feto que ela carregava no ventre, mas Smilow tinha manipulado alguma 
prova exculpatria que Hammond foi obrigado por lei a revelar. S depois que conseguiu a condenao  que ficou sabendo da suposta manipulao de Smilow naquele 
caso. Jamais poderia provar que Smilow havia deliberadamente excludo a prova mitigante assim que a descobriu, de modo que jamais fizessem uma investigao de conduta 
ilegal. Barlow, que agora cumpria pena perptua, tinha apelado. E ganhou. O jovem teria um novo julgamento, ao qual tinha direito, por mais culpado que fosse. Mas 
Hammond nunca perdoou Smilow por ter feito dele um cmplice involuntrio daquela obstruo da justia.
        No seja um escoteiro - disse bem baixinho o detetive. - J no ganhou todos os prmios de que precisava?
         errado.
Smilow baixou mais ainda a voz.
        No gostamos um do outro, e sabemos por qu. Ns operamos de modo diferente, mas trabalhamos do mesmo lado. Preciso de um promotor duro como voc aqui 
na procuradoria pblica, no de um poltico que fica fazendo favores como Mason. Voc far um bem muito maior a servio deste pas como o funcionrio da lei mais 
graduado do que faria se confessasse uma conduta sexual imprpria para a qual, alis, ningum d a menor bola mesmo. Pense nisso, Hammond.
        Hammond?
Estavam chamando Hammond de volta ao tablado para poderem comear.
        Estou indo - disse ele, sem se virar.
        s vezes temos de dobrar um pouco as regras para fazer um trabalho melhor - disse Smilow, sem tirar os olhos dele.
Era um argumento persuasivo. Hammond pegou o envelope.
Mason estava encerrando seu discurso. Os olhares dos reprteres j estavam comeando a ficar vidrados. Alguns operadores de cmera tinham tirado as cmeras dos ombros. 
O relato do atentado de Steffi contra a vida de Hammond e subsequente priso tinha deixado todo mundo hipnotizado, mas aquela parte do discurso de Mason no despertava 
interesse.
         doloroso saber que algum da nossa equipe est neste momento sob a custdia da polcia e que em breve ser acusada de um crime muito srio. Mas tambm 
sinto um orgulho muito especial ao dizer que o assistente especial do procurador municipal, dr. Hammond Cross, desempenhou um papel essencial nessa captura. Ele 
hoje demonstrou extraordinria bravura. E esse  apenas um dos motivos pelos quais o estou indicando como meu sucessor.
Isso mereceu uma ruidosa salva de palmas. Hammond olhava fixamente para o perfil de Mason enquanto o mentor elogiava seu talento, sua dedicao e integridade. O 
envelope com o exame de laboratrio incriminador estava no colo dele. Imaginou que ele irradiava uma aura vermelha agressiva que ia contra os elogios de Mason.
        No vou aborrec-los mais - disse Mason com seu vozeiro, do jeito simptico e direto que o tornava to querido pela mdia. Deixem-me apresentar o heri 
da hora - Mason se virou e acenou para Hammond juntar-se a ele.
Os operadores de cmera reposicionaram seus gravadores de vdeo nos ombros. Os reprteres dos jornais se empertigaram e clicaram suas canetas esferogrficas quase 
ao mesmo tempo. Hammond ps o envelope na bandeja inclinada do atril. Ele pigarreou. E comeou a falar depois de agradecer os comentrios de Mason e a confiana 
que depositava nele.
        Essa semana foi memorvel. De diversas formas parece que muito mais tempo que isso se passou desde que soube que Lute Pettijohn tinha sido assassinado.
        Na verdade no me considero um heri, nem tenho prazer nenhum de saber que a minha colega, Steffi Mundell, ser acusada desse homicdio. Creio que as provas 
contra ela so definitivas. Conhecedor do caso...
Loretta Boothe entrou apressada na sala. O corao de Hammond deu um pulo. A voz dele falhou e morreu. No incio, apenas quem estava perto da porta notou a chegada 
de Loretta. Mas quando Hammond parou de falar, todas as cabeas se viraram para ver quem tinha provocado a interrupo. Sem se importar com a comoo que causava, 
Loretta acenava freneticamente para Hammond ir falar com ela. Com tudo acontecendo to depressa naquele dia, Hammond no teve tempo para telefonar e dizer para ela 
que Alex no era mais suspeita e que, por isso, o que tinha feito sbado  noite no tinha importncia. Mas Loretta estava l, com um dos fuzileiros navais bronzeados 
da feira a reboque, e no havia como evit-la.
        com licena.
Apesar do burburinho atnito que permeou as pessoas presentes, ele desceu do tablado e foi para o fundo da sala. Enquanto avanava, pensou em todas as pessoas que 
iam inevitavelmente ficar constrangidas nos prximos segundos. Monroe Mason. Smilow. Frank Perkins. Ele mesmo. Alex. Quando passou por ela, pediu perdo com os olhos 
pelo que estava para acontecer.
        Voc queria falar comigo, Loretta? Ela nem tentou disfarar sua irritao:
        H quase vinte e quatro horas.
        Andei ocupado.
        Bem, eu tambm - ela saiu pela porta e falou com algum que tinha ficado l esperando em p no corredor. - Venha aqui.
Hammond ficou esperando, aflito, imaginando como ia se explicar quando o fuzileiro olhasse para ele boquiaberto e declarasse: " ele! Era ele que estava danando 
com Alex Ladd." Mas no foi um recruta que surgiu daquela porta. Em vez disso, muito tmido e constrangido, foi um negro bem magro, com culos de armao metlica 
que entrou na sala. Hammond deu uma risada breve de puro espanto.
        Smitty? - perguntou ele, descobrindo que nem sabia o sobrenome do homem.
        Como vai o senhor, dr. Cross? Eu disse para ela que no devamos interromp-lo, mas ela no quis me ouvir.
Hammond olhou do engraxate para Loretta.
        Pensei que voc tinha ido  feira - disse ele sem pensar. - Era isso que os seus recados diziam.
        E fui mesmo. E encontrei o Smitty aqui. Ele estava sentado sozinho no pavilho, escutando a msica. Comeamos a bater papo e surgiu o assunto do caso de 
Pettijohn. Ele transferiu o negcio dele para o Charles Towne Plaza.
        Eu o vi l hoje.
        Sinto muito no ter falado com o senhor, dr. Cross. Acho que eu estava meio envergonhado.
        Por qu?
        Por no ter contado sobre a troca de roupa de Steffi Mundell nesse ltimo sbado - adiantou-se Loretta. - Primeiro ele a viu com roupa de corrida, depois 
com um dos roupes do hotel, depois de roupa de corrida de novo, tudo muito estranho.
        No conclu grande coisa daquilo, dr. Cross, at v-la na televiso ontem, e me lembrar.
        Ele no queria criar problemas, por isso no disse nada para ningum, s para Smilow.
        Smilow?
O detetive, que tinha se aproximado de Hammond, dirigiu-se a Smitty.
        Quando voc se referiu ao advogado que viu na televiso pensei que estava falando do dr. Cross.
        No, senhor, era a advogada - explicou o homem. - Sinto muito se causei qualquer problema.
Hammond ps a mo no ombro de Smitty.
        Obrigado por vir esclarecer isso agora. Pegaremos seu depoimento mais tarde. - E para Loretta ele disse: - Obrigado. Ela franziu a testa, resmungando.
        Voc a pegou sem a minha ajuda, mas ainda me deve uma massagem nos ps e um drinque. Duplo!
Hammond deu meia-volta. As cmeras ronronavam. Ficou quase cego com as luzes enquanto voltava para o tablado. Podia ir saltitando como uma criana. Os aros de tenso 
que prendiam seu peito estavam abertos. Ele respirava normalmente. Ningum sabia do seu caso com Alex. No haveria nenhuma testemunha surpresa que teria visto Alex 
e ele juntos naquele sbado. Ningum sabia, s ela. Frank Perkins. Rory Smilow. Davee. Bem... e ele. Ele sabia. E de repente Hammond no sentia mais vontade de saltitar, 
Voltou ao seu lugar atrs do atril. Nessa hora Monroe Mason piscou o olho para ele e levantou os polegares. Hammond olhou para o pai. Preston estava concordando 
plenamente, balanando a cabea, para variar. Ele concordaria com Smilow. Deixar pra l. Aceitar o emprego. Fazer um bom trabalho e, assim, a omisso seria justificada. 
Ele era uma barbada. Ia vencer a eleio com a maior facilidade. Provavelmente nem teria um oponente. Mas aquele emprego, qualquer emprego, valia sacrificar seu 
respeito prprio?  Ser que ele no preferia dizer a verdade, mesmo que custasse a eleio, a guardar segredo? Quanto mais tempo aquele segredo durasse, mais sujo 
ficaria. Ele no queria que a lembrana da sua primeira noite com Alex ficasse manchada por aquele segredo. Os olhos dele encontraram os dela, e no mesmo instante 
ele soube, pela expresso suave dos olhos dela, que Alex sabia exatamente o que ele estava pensando. Ela era a nica pessoa que sabia o que ele estava pensando. 
A nica que compreendia por que ele pensava naquilo. Ela lhe deu um sorriso de estmulo intensamente privado e extremamente ntimo. Naquele momento Hammond a amou 
mais do que imaginava ser possvel amar.
        Antes de continuar... quero dirigir-me a uma pessoa cuja vida foi virada do avesso, de modo imperdovel, esta semana. A dra. Alex Ladd cooperou com o Departamento 
de Polcia de Charleston e com a procuradoria, sacrificando a prtica da sua profisso, seu tempo e, o que  mais importante, a sua dignidade. Ela sofreu constrangimentos 
imensurveis. Peo perdo a ela, em nome deste municpio.
"Tambm lhe devo um pedido pessoal de desculpas. Porque... porque eu sabia desde o incio que ela no tinha matado Lute Pettijohn. Ela admite ter estado com ele 
aquela tarde, mas bem antes da hora da morte. Certos dados indicavam que ela podia ter um motivo. Mas eu sabia, mesmo quando a sujeitavam a interrogatrios humilhantes, 
que no podia ter matado Lute Pettijohn. Porque a dra. Alex Ladd tinha um libi. Ningum sabe. Na verdade no passa de uma tecnicalidade. Porque ser um escoteiro? 
Voc far um bem muito maior... Ningum d a menor bola mesmo. Hammond parou de falar, respirou bem fundo, no angustiado, mas aliviado.
        Eu era o libi dela.
Fim
